As hienas também riem

(Miguel Szymanski in Facebook, 29/08/2026, Revisão da Estátua)

Miguel Szymanski

De dia para dia (ou melhor, literalmente, de hora para hora) aumenta e desinformação e a manipulação. Se vejo uma fotografia ou imagens retiradas das redes, não sei se posso considerá-las verdadeiras. Se quero perceber, em tempo útil, se são verdadeiras ou não, esbarro rapidamente num muro. Vejam-se estas duas imagens.

As imagens acima, de governantes a sorrir – suponho que para transmitirem confiança e um sentido de vitória – no meio de uma guerra que já terá causado a morte a mais de um milhão de jovens soldados, serão verdadeiras? Custa-me a acreditar.

Feita uma pesquisa, só as encontrei nas redes sociais, num portal de notícias do Vietname e num canal de notícias em inglês. Na fotografia de grupo está a chefe do governo da Dinamarca, mas no vídeo do mesmo dia, pela mesma hora, não.

Faço algo que é perigoso e que está na origem deste problema; recorro à IA, em consciência, faço, do bode, jardineiro: coloco ambas as fotografias na maior ferramenta de IA do mundo (com o nome ‘Gémios’, na tradução portuguesa) e pergunto se alguma das duas imagens foi gerada por Inteligência Artificial. A resposta é rápida: “Nenhuma. Ambas são verdadeiras, mas na primeira não se vê a mulher, dada a distância e o ângulo e porque está obscurecida pelos outros participantes”. Peço o link, algo mais concreto, uma fonte ‘mainstream’ que mostre a fotografia e a resposta não é conclusiva: os links apresentados levam a outros conteúdos.

Faço uma lista de incongruências entre as imagens (número de pés visíveis no chão, hora da captação etc.). Não porque ache que alguém falsificou as imagens, mas porque não quero acreditar num cinismo assumido, ao ponto de se tirar uma ‘selfie’ de sorrisos no meio de massacres. A resposta da IA passa a: “Tem razão”, “cometi um erro de cálculo”, “uma ou ambas poderão ser falsas”. Sei que as respostas da IA de nada valem, alucinam, querem agradar ou manipulam.

Não investigo mais, não é realmente importante se as imagens são verdadeiras ou não (colegas na Ucrânia garantem que sim, que passaram na televisão ucraniana). Mesmo que não tivessem, de facto, sorrido para as câmaras – ou talvez sim, tanto faz -, uma coisa é óbvia: estes governantes riem-se de nós.

Vi com os meus olhos, numa televisão credível, pública, feita por jornalistas, António Costa a abraçar, quase a beijar um dos dois protagonistas desta guerra como se este fosse o Capuchinho Vermelho e a missão da União Europeia fosse salvá-lo do Lobo Mau.

Como se fosse nossa obrigação sacrificar o nosso futuro e as nossas vidas, postados de um dos lados duma barricada maniqueísta, criada pelos lobistas, vendedores de banha da cobra e contadores de histórias de enganar. A metáfora referida acima – retirada dos irmãos Grimm -, sobre a guerra na Ucrânia, para dizer que tal guerra NÃO é o conto do Capuchinho Vermelho e do Lobo Mau, foi usada pelo Papa Francisco em Junho de 2022.

E o que fazem entretanto as nossas televisões? A CNN, por exemplo, em “horário nobre”, recorre a um leque de comentadores a falar sobre a política cujos perfis merecem atenção: desde um lobista ao dono de uma agenda de comunicação (agências de comunicação vendem as mensagens dos seus clientes).

Estes são tempos muito perigosos.

Agita-se o fantasma de uma guerra iminente, vários dos protagonistas nestas duas imagens, afinal, ao que parece, ‘verdadeiras’, querem um confronto mais direto, querem mais guerra, para justificar o declínio das nossas democracias e economias, e riem-se de nós, da nossa inércia e falta de inteligência.

Riem-se, porque não são responsáveis por nada: se hoje falharem na política, amanhã, pelo efeito das portas rotativas, estarão numa fundação, noutro posto em Bruxelas, numa universidade nos EUA, num banco ou na administração dum fundo de investimento norte-americano – de onde já veio, por exemplo, o chanceler alemão Merz e para onde foi Durão Barroso que esteve sempre do lado das guerras, desde o início a apoiar a invasão do Iraque, desde o início a apoiar o golpe na Ucrânia que levou à atual guerra.


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Haia como ponto de viragem da NATO na Europa

(Por Ricardo Nuno Costa, in Facebook, 23/06/2025)


A 38ª cimeira da NATO, que tem lugar em Haia esta semana pode marcar um ponto de viragem histórico, em particular no ramo europeu da Aliança.

Após a visita do secretário da Defesa norte-americano, Pete Hegseth a Bruxelas no passado dia 5 de junho, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, não perdeu tempo em informar a imprensa que a NATO iria aprovar “por unanimidade” a subida dos gastos de defesa para um mínimo de 5% dos orçamentos de estado dos seus membros em relação ao PIB.

Hegseth trazia uma mensagem do presidente Trump, no sentido de gastar mais em armamento, uma receita de resto já conhecida desde a sua primeira administração, mas agora em circunstância mais propícias para o negócio. O chefe do Pentágono acabava de chegar do Diálogo de Shangri-La, em Singapura, onde deu ordens aos seus aliados do Indo-Pacífico no mesmo sentido, ante a “ameaça crescente da China” na região.

Mas porque é que Rutte afirmou com tantas certezas que “vamos aprovar por unanimidade”? Como sabe ele que é certa a implementação desta tão ambiciosa como fantasiosa fasquia? Sabem Rutte, Hegseth e Trump sequer o que representa isto para cada um dos 32 países, membros da Aliança?

Que esperar, por exemplo, de uma Finlândia ou Suécia, até há dois anos estados que desfrutaram de décadas de bem-estar social, em parte graças à sua neutralidade militar? Como irão entender suecos e finlandeses este duro golpe nas suas economias, quando lhes prometeram que a entrada da NATO lhes traria “segurança”?

Cinco dias dias depois, o secretário-geral da NATO anunciava em Londres a militarização total do continente, onde afirmou que a NATO precisa de mais milhares de veículos blindados e milhões de cartuchos de artilharia, bem como de um aumento de 400% na defesa aérea e antimíssil, dobrar a despesa em logística, transporte e apoio médico.

O chefe da NATO disse mesmo que a Europa precisa de mais navios e aviões: “Como exemplo, os aliados dos EUA na Europa precisam de 700 aviões de combate F-35” (da norte-americana Lockheed Martin, estreitamente relacionada com o genro de Trump). “Sabemos que precisamos de gastar muito, muito mais se quisermos cumprir todos estes objetivos”, avisou Rutte, passando a mensagem que o chefe do Pentágono lhe trouxera da Casa Branca.

O plano de Trump tem dois objetivos principais: por um lado restaurar a indústria pesada norte-americana através do sector armamentista, num momento em que a administração tenta desesperadamente minorar o défice orçamental que não deixa de se acumular; e por outro lado, encerrar a Europa num sistema de defesa já enormemente dependente dos EUA, com material, hardware e software norte-americanos, minando ao mesmo tempo qualquer tentativa de emancipação dos projetos industriais de defesa pan-europeus, fortemente degradados após a entrada da UE no conflito ucraniano sob as ordens dos EUA. O complexo industrial militar norte-americano visa assim dar o golpe decisivo na autonomia estratégica europeia.

Se tal se vier a concretizar, a despesa representará um grande fardo para os países mais pequenos e com economias mais frágeis. Definitivamente não é o mesmo exigir 5% a uma Alemanha, França ou Reino Unido, ou ao Montenegro, Croácia, Hungria, Grécia, Portugal ou qualquer dos bálticos, nem pelas capacidades das suas economias, nem pelas histórias dos países, nem pela perceção das suas populações.

É pura ingenuidade ou ignorância tratar 32 países, quase todos europeus, da mesma forma. Esta ideia só poderia sair de uma mente meramente transacional como a de Trump.

A Espanha já fez saber que não tem condições para cumprir esta meta. O primeiro-ministro Pedro Sánchez, que fez tanta coisa errada em política económica e fiscal, provavelmente cairá do governo em breve, exatamente no momento em que está fazendo coisas certas, nomeadamente no seu apoio ao processo de reconhecimento da Palestina na ONU, no distanciamento em relação a Israel, e agora ao atrever-se a negar-se a subir o seu orçamento militar para os padrões que exigem os EUA.

A imposição de Trump encerra uma tremenda hipocrisia, uma vez que os próprios EUA atualmente gastam somente 3% do seu orçamento em Defesa e visam inclusive reduzi-lo. Sabia-se que Trump iria fazer os europeus pagar as guerras dos EUA, isto foi avisado aqui, antes da sua eleição.

A Alemanha é um elemento importante nesta equação. O chanceler Friedrich Merz foi o primeiro a submeter-se às ordens de Trump, anunciando imediatamente subir o orçamento militar para 5% do PIB, assim que assumiu o governo em Berlim. Na semana passada, na reunião do G7 no Canadá, Merz voltou a tomar protagonismo, ao afirmar que “temos que estar agradecidos aos israelitas, porque são eles que fazem o trabalho sujo” ao atacarem o Irão. A Alemanha está fortemente implicada nas guerras de Israel, nomeadamente ao ser o seu maior fornecedor de armas.

Quem não perdeu tempo para aproveitar aquelas escandalosas palavras foi Bezalel Smotrich. O controverso ministro das Finanças israelita afirmou que “os países árabes ricos, a Alemanha, a Grã-Bretanha e a França, têm de partilhar os custos da guerra de Israel contra o Irão, pelo menos de um ponto de vista económico. Um Irão com armas nucleares e mísseis representa uma ameaça não só para Israel ou para o Médio Oriente, mas para todo o mundo.”

Ou seja, para além da meta dos 5%, em Haia estará em cima da mesa também a continuidade do apoio da NATO ao regime por procuração de Kiev na sua guerra contra a Rússia, e agora também a guerra iniciada imprudentemente por Netanyahu contra o Irão. É óbvio que, por muitas promessas de circunstância que alguns irão proferir,  não haverá consenso, nem verbas para tudo isto, e a discórdia estará servida entre os aliados. A semana que começa tem tudo para se converter no divisor de águas que a Aliança Atlântica nunca conheceu.

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O que é que os americanos conseguiram com seu ataque ao Irão?

(Dmitri Medvedev, in Telegram, canal Geopolítica Z 22/06/2025)

Dmitri Medvedev, ex-Presidente e ex-Primeiro-ministro da Rússia

1. A infraestrutura crítica do ciclo nuclear, ao que tudo indica, não foi atingida ou sofreu danos insignificantes.

2. O enriquecimento de materiais nucleares – e agora pode-se dizer claramente: a futura produção de armas nucleares – continuará.

3. Vários países estão prontos para fornecer diretamente a carga nuclear ao Irã.

4. Israel está sob ataque, explosões ressoam, as pessoas estão em pânico.

5. Os EUA estão envolvidos em um novo conflito, com possibilidade de operação terrestre.

6. O regime político do Irã foi preservado, e com grande probabilidade se fortaleceu.

7. O povo se unifica em torno da liderança espiritual, inclusive aqueles que antes não simpatizavam com ela.

8. Trump, que chegou como presidente pacificador, iniciou uma nova guerra para os EUA.

9. A esmagadora maioria dos países do mundo está contra as ações de Israel e dos EUA.

10. Com esse “sucesso”, Trump não verá o Prêmio Nobel da Paz – mesmo com toda a corrupção da indicação. Um ótimo começo, parabéns, Sr. Presidente!

Segue agora um excelente texto de análise a estas declarações de Medvedev.


Medvedev avisa: o pesadelo nuclear do império está desencadeado

(Por Gerry Nolan, in Telegram, canal Sófia Smirnov, 23/06/2025)

A encenação da águia à meia-noite sobre os céus iranianos prometia um espectáculo de choque e pavor, a “obliteração” das instalações nucleares que, como nos garantiram, desarmaria Teerão para sempre.

Mas a poeira baixou de forma diferente. Dmitry Medvedev, o feroz cirurgião geopolítico da Rússia, calmamente realizou a autópsia: “A infraestrutura crítica permanece intacta. O enriquecimento continuará. E agora, vários países estão prontos para entregar ao Irão as suas próprias ogivas nucleares.”

Leia entre as linhas cuidadosamente escolhidas de Medvedev e verá não apenas um aviso, mas uma declaração multipolar de independência, que reduz as palhaçadas unilaterais dos Estados Unidos a meros acessos de raiva num palco cada vez menor.

O espetáculo americano do bombardeiro B-2, anunciado como decisivo, foi apenas uma propaganda performativa, uma miragem poderosa projetada para aplacar as ansiedades israelitas e apaziguar os egos neoconservadores. O Irão minimizou o ataque, recuperando-se com facilidade e sinalizando que a sua trajetória nuclear permanece inalterada. De facto, o ataque do Império não passou de um ato de desespero.

E então veio Medvedev, brandindo palavras mais afiadas que as destruidoras de bunkers:

Israel está sob ataque, explosões estão a abalar o país e as pessoas estão em pânico.” Trump, antes aclamado como o “presidente da paz“, agora encontra os seus Estados Unidos enredados em mais um conflito, com uma guerra terrestre iminente e o Prémio Nobel da Paz a ser apenas uma piada. Como brincou Medvedev com sarcasmo letal: “Um óptimo começo, parabéns, Sr. Presidente!

Lembre-se do Iémen, onde meses de bombardeamentos implacáveis ​​deixaram os houthis não enfraquecidos, mas sim encorajados. Washington e Londres acabaram por implorar por negociações de cessar-fogo mediadas pelo Omã, forçados a negociar a partir da fraqueza. O Iémen, minúsculo em comparação com o Irão, tornou-se um padrão humilhante para a impotência ocidental.

Agora, ampliando o Iémen cem vezes, temos o Irão. Teerão não é um Estado incipiente, é um Estado-civilização ancestral com mísseis hipersónicos, redes de proxy em expansão e alianças profundas com a Rússia, a China e amigos potencialmente dotados de armas nucleares, prontos para oferecer ajuda atómica.

As implicações da confirmação enigmática de Medvedev são sísmicas. Pela primeira vez reconhecidas abertamente por um peso-pesado global, as transferências nucleares de “terceiros” para o Irão podem em breve tornar obsoleta a exclusividade nuclear ocidental sionista no Médio Oriente. O Sul Global, a Eurásia – e até mesmo alguns estados europeus cautelosos -, estão a alinhar-se, tácita ou abertamente, com essa nova realidade, reconhecendo que o domínio unilateral israelo-americano, nuclear ou não, é um artefacto do passado.

Em suma, as aventuras noturnas do Império inadvertidamente prepararam o cenário para um futuro nuclear multipolar, um futuro que Washington não pode controlar nem ditar. Mas pode agradecer a si mesma por acender o pavio.

Trump, o autoproclamado presidente antiguerra que prometeu diplomacia em vez de destruição, abraçou agora plenamente o pesadelo neoconservador. As aspirações ao Prémio Nobel da Paz evaporam nas areias do deserto de Natanz, Fordow e Esfahan. Os parabéns irónicos de Medvedev: “Que jeito de começar, Sr. Presidente!”, captam a amarga ironia. O legado de Trump, rotulado como populismo pacifista, alinha-se agora irrevogavelmente ao militarismo imperial.

A mensagem de Medvedev ressoa claramente: as regras do jogo geopolítico mudaram irrevogavelmente. Rússia, Irão e aliados não aceitarão mais ataques unilaterais ou estrangulamento económico silenciosamente. Multipolaridade significa equilíbrio nuclear, equilíbrio estratégico e, em última análise, o fim das pretensões unipolares.

Teerão sobrevive, fortalecida, unida sob uma causa que o Império lhes entregou de bandeja. Entretanto, Telavive recupera-se de vulnerabilidades sem precedentes, com a sua aura outrora poderosa fragmentada por ataques iranianos de precisão, como parte da Operação Promessa Verdadeira 3.

A manobra imprudente do Império, executada com miopia estratégica, saiu-lhe espetacularmente pela culatra. Washington, presa em ciclos perpétuos de conflito, enfrenta agora uma ordem multipolar cuja construção ajudou inadvertidamente a acelerar.

Medvedev falou. O pesadelo nuclear do Império começou.

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