Preâmbulo ao artigo “A história desconhecida do papel crucial das chefias militares inglesas na Ucrânia”

(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 13/05/2025) 

O general Valery Zalujny (à esquerda), à época chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Ucranianas, com o almirante Tony Radakin, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas do Reino Unido [Ingl. Chief of Defense Staff]

1. As duas fases principais da guerra em curso na Ucrânia

A guerra em curso na Ucrânia — a 2.ª guerra, a que se seguiu à que começou em Maio de 2014 entre a Ucrânia, de um lado, e a RPL + RPD, do outro — teve, até agora, política e militarmente, duas fases principais bem distintas. A segunda fase teve o seu início na terceira semana de Abril de 2022 e prolongou-se até aos nossos dias, sem fim à vista [1].

Durante a primeira fase, havia quatro beligerantes em liça: de um lado a Rússia, coadjuvada pela República Popular de Lugansk (RPL) e pela República Popular de Donetsk (RPD) na região da Donbass; do outro lado, a Ucrânia.

Estes dois lados chegaram a um acordo de paz no fim da última semana de Março de 2022, em Istambul, cujo teor tive ocasião de descrever em pormenor noutras ocasiões [2].

2. O ultimato de Boris Johnson

Porém, no dia 8 de Abril de 2022, Boris Johnson, à época primeiro-ministro do Reino Unido, fez uma visita-surpresa a Zelensky, em Quieve. Era o mensageiro portador, como noticiou na altura o jornal ucraniano Ukrainska Pravda, de uma proposta-ultimato previamente acordada entre o Reino Unido, EUA, Alemanha e França. Essa proposta-ultimato tinha, em substância, o seguinte, conteúdo:

«Putin não é confiável e a hora não é de negociações com a Rússia, mas de luta para a derrotar. Se a valente Ucrânia estiver disposta a fazê-lo, como esperamos, nós ⎼ e connosco a OTAN [/NATO], a UE e todo o “Ocidente alargado” ⎼ garantimos-lhe uma ajuda e um apoio totais (salvo em tropas no campo de batalha) e pelo tempo que for necessário.

Sr. Presidente Volodymyr Zelensky: se o governo da Ucrânia decidir ir por diante e celebrar com a Rússia o acordo de paz elaborado em Istambul de que tivemos conhecimento, recusando a generosa proposta que lhe acabo de fazer, então, sr. Presidente ⎼ lamento ter de o dizer tão incerimoniosamente, mas as coisas são como são ⎼ a Ucrânia ficará, doravante, por sua conta e risco».

3. O fim abrupto dos Acordos de Istambul e o massacre de Bucha

Sabemos qual foi o resultado da proposta-ultimato de Boris Johnson. Algures entre os dias 10 e 15 de Abril de 2022, seis semanas depois do início da OME da Rússia, a Ucrânia repudiou oficialmente o acordo de paz com a Rússia (muito vantajoso para a Ucrânia) que o chefe da sua delegação de negociadores, Davyd Arakhamia, tinha rubricado em Istambul, no início de Abril, em nome do presidente e do governo da Ucrânia, e empenhava-se numa guerra de alta intensidade com a Rússia (+ RPL + RPD) que perdura até aos nossos dias, com os efeitos calamitosos para a Ucrânia que todos conhecemos.

Para justificar este abrupto volte-face de 180.º aos olhos da opinião pública do “Ocidente alargado”, as tropas russas ⎼ que tinham retirado em 30 de Março dos arredores de Quieve, num gesto de boa-vontade destinado a assinalar o resultado positivo das negociações de Paz de Istambul ⎼ foram acusadas de terem perpetrado a matança de mais de 700 civis em Bucha (uma das pequenas cidades próximas de Quieve onde as tropas russas tinham estado estacionadas). A partir dos primeiros dias de Abril de 2022, foi orquestrada uma campanha cerrada de desinformação destinada a apresentar os russos como monstros sanguinários, com os quais não é possível estabelecer qualquer acordo de paz e que seria necessário exterminar sem dó nem piedade [3].

Há uma dupla mistificação em torno desta matança, conhecida como o “Massacre de Bucha”. A primeira mistificação diz respeito ao número das suas vítimas, que são da ordem das dezenas, e não das centenas. As centenas de civis que foram encontrados em valas comuns em Bucha foram vítimas colaterais dos violentos combates que tiveram lugar nesta cidade, durante cerca de um mês, entre as tropas russas e ucranianas, assim como dos bombardeamentos constantes de que a cidade de Bucha foi alvo por parte das tropas ucranianas enquanto esteve ocupada pelas tropas russas.  

A segunda mistificação diz respeito às dezenas de civis cujos corpos foram encontrados insepultados em ruas, quintais, poços e caves e que parecem ter sido assassinados à queima-roupa. Há muitos factos e indícios que apontam no sentido de atribuir a autoria dessa matança não às tropas russas que estiveram estacionadas em Bucha, mas a uma das duas unidades militarizadas ucranianas, ou a ambas ⎼ o regimento AZOVE e o regimento especial SAFARI da Polícia Nacional Ucraniana ⎼ que entraram em Bucha em 31 de Março e 1 de Abril com a missão declarada de a “limpar de sabotadores e cúmplices” — entenda-se: de liquidar a tiro alegados sabotadores ucranianos ao serviço da Rússia e aqueles moradores de Bucha que tivessem alegadamente  estabelecido um modo de convívio pacífico com as tropas russas  [4].

4. Alteração da natureza da guerra na segunda quinzena de Abril de 2022

Seja como for, uma coisa é certa. A partir da segunda quinzena de Abril de 2022 a guerra na Ucrânia entra numa segunda fase em que o número e qualidade dos beligerantes se altera drasticamente. A partir dessa data os beligerantes em liça são: de um lado, a Rússia (coadjuvada pela RPD e a RPL) e do outro lado, a Ucrânia, coadjuvada pelos EUA, o Reino Unido, a Alemanha, a França, a UE (com excepção da Hungria), a OTAN [/NATO] (com excepção da Hungria e da Turquia), a Suíça, a Noruega e o resto do “Ocidente alargado” — Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova-Zelândia.  

E assim aconteceu, de facto, com as armas (incluindo mísseis, artilharia, defesa aérea, carros de combate e outros veículos blindados, helicópteros e aviões de combate, drones), as munições, o treino militar, o aconselhamento militar, as informações militares (incluindo a obtenção de imagens por meio de satélites e aeronaves de vigilância e reconhecimento), a contra-informação e a logística militar que, desde há três anos, têm vindo a ser fornecidas continuamente, em quantidades gigantescas, à Ucrânia pelo “Ocidente alargado” — além do apoio económico e financeiro (também ele gigantesco) para ajudar o regime político, a administração pública e a economia da Ucrânia a manterem-se à tona. 

5. EUA e Reino Unido assumem o comando das tropas ucranianas

Só não sabíamos até que ponto e como, concretamente, é que os EUA e o Reino Unido (os dois principais patrocinadores e aliados militares da Ucrânia) estiveram e estão envolvidos no planeamento e na condução prática (incluindo comando e controlo) dessa guerra contra a Rússia por interposta Ucrânia.

Pois bem, ficámos a sabê-lo muito recentemente por intermédio de dois extensos e pormenorizados artigos: um da autoria de Adam Entous, no The New York Times, em 29 de Março de 2025, relativamente ao envolvimento dos EUA, e outro da autoria de Larisa Brown, no The Times (de Londres), em 11 de Abril de 2025, relativamente ao envolvimento do Reino Unido.

Através destes artigos, ambos traduzidos por Fernando Oliveira, ficámos a saber que os EUA e o Reino Unido não são apenas os principais patrocinadores e aliados militares do esforço de guerra da Ucrânia contra a Rússia em todas as facetas descrita no fim da secção 4. São também quem assegura o comando e controlo centrais das operações militares ucranianas, em parceria com o Estado Maior ucraniano, através de um Posto de Comando sediado na base militar americana de Wiesbaden, na Alemanha. Segundo o general Valery Zalujny, ex-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Ucranianas, o Posto de Comando de Wiesbaden foi, até há poucas semanas, a “arma secreta” da Ucrânia (Realcei a amarelo essa afirmação de Zalujny no artigo de Larisa Brown por ela constituir o seu mais curto e melhor resumo).

A tradução, na íntegra, do artigo de Adam Entous foi publicada em 16 de Abril de 2025 na Tertúlia Orwelliana, aqui.

A tradução, na íntegra, do artigo de Larissa Brown encontra-se no fim do preâmbulo aqui.


Notas e referências

[1] Por sua vez, a segunda fase da guerra subdivide-se em vários períodos distintos. Mas este é um assunto que não vem agora o caso.

[2] Ver José Catarino Soares, “Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte I” in Tertúlia Orwelliana, 9 de Dezembro de 2023 aqui; Parte II aqui; Parte III aqui; Parte IV aqui; Parte V e última aqui.

[3] Tenciono reexaminar este assunto e outros conexos num artigo a publicar em breve, intitulado: “O morticínio de Bucha: um reexame três anos depois”.

[4] Existe uma bibliografia e uma videografia considerável sobre este assunto. Refiro-me, entre outros, aos seguintes artigos e vídeos: Raul Cunha, “Desinformação e perfídia, é o que temos na comunicação social” (in Estátua de Sal, 3/04/022);  Joe Lauria,“Questions abound About Bucha Massacre” (Consortium News, April 4, 2022); Scott Ritter, “The truth about Bucha is out there, but perhaps too inconvenient to be discovered” (RT, April 4, 2022); “Interview with Scott Ritter, by Don Bar” (YouTube, April 6, 2022 [https://www.youtube.com/watch?v=kfHohl6gCJY]; Jason Michael McCann, “The Bucha Massacre” (Standpoint Zero, 4 April 2022 [https://standpointzerocom. wordpress.com/2022/04/04/the-bucha-massacre/]; Jason Michael McCann, “Serious Questions about Bucha”, StandPoint Zero, 5 April 2022 [https://standpointzerocom. wordpress.com/ 2022/04/05/serious-questions-about-bucha/]; Jason Michael McCann, “The Anatomy of a Russian Massacre” (StandPoint Zero, 7 April 2022 [https://standpoint zerocom.wordpress.com/2022/04/07/the-anatomy-of-a-russian-massacre/]; Carlos Branco, “As inteligências inúteis e as interrogações necessárias” (Público,15/04/2022); Tony Kevin, “Lies, truth, and forensics in Ukraine. The case of Bucha” (The Floutist, 16/04/2022 [https://thefloutist.substack.com/p/lies-truth-and-forensics-in-ukraine] ; Jean Neige, “Retour sur les allégations de crimes de guerre russes en Ukraine : Boutcha (3/6)” (France Soir, 7 septembre 2022) ; Alexandre Guerreiro, “Valas comuns” ? Não. Fake news que nem 24h duraram” (in Estátua de Sal, 16/09/2022) ; Scott Ritter, “Bucha, Revisited” (Scott Ritter Extra, 21 October 2022 [https://www.scottritterextra.com] ; Michel Collon, Ukraine, La guerre de Images : 50 exemples de desinformation. Investig’Action, 2023; Raul Cunha, “Sobre Bucha”. FaceBook, 20 de Março de 2025 [https://www.facebook. com/share/p/16VX7T3BUt/]; Raul Cunha, Canal Multipolar, 27 de Março de 2025 [https://www.youtube.com/watch?v=abZROfDzDHI], a partir do instante 33m45 segundos até ao instante 41m30s.

Preâmbulo ao artigo “A Parceria: A história secreta da guerra na Ucrânia”

(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 16/04/2025) 

Oficiais militares ucranianos, americanos e ingleses em reunião na Ucrânia, Agosto 2023. O general Valerii Zalujny, à época o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Ucranianas, é o homem à direita com ambos os cotovelos assentes na mesa. À sua frente estão os generais americanos Christopher Cavoli (no meio), Comandante Supremo Aliado da Europa, e Antonio Alzona Aguto Jr. (ao lado esquerdo de Cavoli), comandante do Grupo de Assistência à Segurança-Ucrânia de 2022 a 2024.

A segunda guerra na Ucrânia (a que teve início em 24 de Fevereiro de 2022, com a “Operação Militar Especial” [OME] da Rússia) começou por ser uma guerra entre, de um lado, a Rússia, a República Popular de Donetsk (RPD) e a República Popular de Lugansk (RPL) ⎼ as duas últimas na Donbass, uma região situada no extremo leste da Ucrânia e no sudoeste da Rússia ⎼ e a Ucrânia, do outro.

Porém, rapidamente se tornou numa guerra entre a Rússia (+ RPD + RPL), de um lado, e o chamado “Ocidente alargado” (com os EUA, o Reino Unido, a OTAN [/NATO] e a União Europeia [UE] em grande destaque), do outro. Mas com esta característica especial: essa guerra do “Ocidente alargado” contra a Rússia seria travada por intermédio da Ucrânia, cujo regime aceitou cumprir um mandato de procurador camicase para enfraquecer militarmente a Rússia, enquanto os seus mandantes a acossavam economicamente com sanções económicas ⎼ 24.387 (!!) sanções, 2.695 antes do início da OME e mais 21.692 depois dessa data [1] ⎼ na esperança de abrir caminho à derrocada interna da Rússia e, eventualmente, ao seu posterior desmembramento num mosaico heterogéneo de pequenos Estados impotentes [2].

A aceitação desse mandato de procurador camicase do “Ocidente alargado” data da 2.ª semana de Abril de 2022. Foi nessa data que Zelensky repudiou o acordo de paz, muito vantajoso, que tinha negociado com a Rússia em Istambul nas semanas anteriores. Fê-lo em troca da promessa que lhe foi feita, em pessoa e de viva-voz, por Boris Johnson (à época primeiro-ministro do Reino Unido) de um apoio incondicional, e “pelo tempo que for necessário”, do “Ocidente alargado” à Ucrânia, se esta decidisse optar por travar uma guerra sem quartel contra a Rússia, em vez de fazer as pazes com ela [3].

Em 13 de Junho de 2022, dois meses depois deste infausto episódio de chantagem (Boris Johnson), estultícia (Johnson e Zelensky) e perdição (Zelensky), o então presidente do México, Andrés López Obrador, definiu muito bem o teor prático desse mandato de procurador camicase:

«Nós [Ucrânia] fornecemos os mortos. Vós [“Ocidente alargado”] forneceis as armas».

No Outono de 2022, o general americano Christopher T. Donahue, muito citado no artigo de Adam Entous, disse a mesma coisa, com toda a candura, ao general Zabrodskyi, o seu camarada ucraniano (ver trecho do artigo destacado a amarelo).

E assim aconteceu, de facto, não só com as armas, mas também com as munições, o treino e o aconselhamento militar, as informações militares, a contra-informação e a logística militar que há três anos têm vindo a ser fornecidas continuamente, em quantidades gigantescas, à Ucrânia pelo “Ocidente alargado” — além do apoio económico e financeiro (também ele gigantesco) para ajudar o regime político, a administração pública e a economia da Ucrânia a manterem-se à tona. 

Só não sabíamos até que ponto e como, concretamente, é que os EUA e o Reino Unido (os dois principais patrocinadores e aliados militares da Ucrânia) estiveram e estão envolvidos no planeamento e na condução prática (incluindo comando e controlo) dessa guerra contra a Rússia por interposta Ucrânia.

Pois bem, ficámos a sabê-lo muito recentemente por intermédio de dois extensos e pormenorizados artigos: um da autoria de Adam Entous, no New York Times, em 29 de Março de 2025, relativamente ao envolvimento dos EUA, e outro da autoria de Larisa Brown, no The Times (de Londres), em 11 de Abril de 2025, relativamente ao envolvimento do Reino Unido.

É o artigo de Adam Entous [4] no New York Times [5] que publicamos hoje, aqui, na tradução de Fernando Oliveira.

O que mais (me) impressiona nesse artigo são os vários exemplos de quão perto estivemos no decurso desta guerra, sobretudo nos últimos dois anos, da eclosão de uma terceira (e derradeira) guerra mundial, graças ao aventureirismo e à húbris quer de Zelensky e do seu regime, quer de Biden e do seu governo. Poder-se-ia supor a priori que as chefias militares ucranianas e americanas directamente envolvidas nessa guerra tivessem introduzido um módico de racionalidade e autocontenção que evitassem a todo o transe essa escalada para o Apocalipse nuclear, mas o artigo de Adam Entous corta cerce essa conjectura auspiciosa.

Tanto de um lado como do outro, houve chefes militares impregnados de aventureirismo hubrístico que marcaram presença ao mais alto nível. É o caso, entre outros, do general Oleksandr Syrsky (actual comandante em chefe das Forças Armadas ucranianas e o general preferido de Zelensky), e dos generais Christopher Donahue (actualmente comandante em chefe do Comando Terrestre Aliado e do Exército dos EUA na Europa e África) e Christopher Cavoli (Comandante Supremo Aliado da Europa, o cargo militar de topo da OTAN [/NATO]). Mas os leitores ajuizarão por si próprios lendo o artigo de Adam Entous.

Noutra ocasião, contamos publicar a tradução do artigo de Larisa Brown sobre o envolvimento do Reino Unido na 2.ª guerra na Ucrânia. Tudo vai depender de Fernando Oliveira conseguir encontrar, para além dos seus afazeres profissionais, o tempo e a disponibilidade para realizar mais essa exigente tarefa.

A tradução completa para português do artigo de Adam Entous pode ser lida aqui.


Notas e referências

[1] Fonte dos dados: Castellum.AI

[2] Em 23 de Junho de 2022, a Comissão de Segurança e Cooperação na Europa (CSCE) dos EUA, mais conhecida como Comissão de Helsínquia, organizou uma sessão de esclarecimento intitulada, Descolonizar a Rússia: Um Imperativo Moral e Estratégico. Esta comissão afirma ser “independente”, mas é uma agência do governo dos EUA criada, financiada e supervisionada pelo Congresso americano. Nove comissários são membros do Senado, nove são membros da Câmara dos Representantes e três são membros do poder executivo (Departamento de Estado [= Ministério dos Negócios Estrangeiros], Departamento da Defesa e Departamento do Comércio).

A Comissão de Helsínquia apoia o Fórum Nações Livres da Pós-Rússia, que realizou uma reunião no Parlamento Europeu em Bruxelas no início de 2023 e mais três eventos em diferentes cidades americanas em Abril de 2023. O Fórum Nações Livres da Pós-Rússia publicou um mapa da Rússia desmembrada com a qual sonha, dividida em 41 Estados diferentes, num mundo pós-Putin, partindo do pressuposto de que este é derrotado na Ucrânia e é destituído pelos seus compatriotas (v. Anchal Vohra, «The West Is Preparing for Russia’s Disintegration,» Foreign Policy, April 17, 2023). São sonhos fagueiros que persistem apesar de Trump não os acarinhar (ao contrário de Biden). Para 11-13 de Junho de 2025, está anunciado um novo evento deste Fórum, em Washington D.C.

[3] Sobre este assunto, ver José Catarino Soares, «Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos.» Tertúlia Orwelliana, 9 de Dezembro de 2023 [https://tertuliaorwelliana.blogspot.com/2023/12/]

[4] Adam Entous é um jornalista do The New York Times. Anteriormente, trabalhou em três outras empresas jornalísticas: Reuters, The Wall Street Journal, The New Yorker. Entous autodefine-se assim:

«Interesso-me pelo mundo da espionagem e por histórias que revelam a verdadeira natureza das relações entre indivíduos, instituições e Estados. Estas são frequentemente escondidas e difíceis de alcançar» (https://www.nytimes.com/by/adam-entous)

[5] O The New York Times (NTY) é um jornal diário americano com 174 anos de publicação ininterrupta. É propriedade da mesma família (a família Ochs-Sulzberger) há 129 anos. É o jornal de maior circulação do EUA (10 milhões e 800 mil assinantes em Agosto de 2024). Desde 1956 (eleição do candidato Dwight Eisenhower, do Partido Republicano, para presidente dos EUA) que o NYT apoia os candidatos presidenciais do Partido Democrático. A orientação política do NYT é assumidamente “liberal” um termo que, nos EUA, significa, grosso modo, o mesmo que “social-democrata” na Europa.

Convém lembrar que o NYT tem sido, desde a primeira hora, um apoiante das decisões do Governo Biden de apoio incondicional à Ucrânia — em armas, munições, treino e aconselhamento militar, informações militares, contra-informação, logística militar e em tudo o mais que Adam Entous nos relata no seu artigo.

Assim sendo, julgo que o artigo de Adam Entous só pode ser interpretado, dado o seu teor, como tendo por objectivo principal preparar a opinião pública americana, em particular a que vota no Partido Democrático, para a derrota na Ucrânia do regime de Volodymyr Zelensky e do seu mais poderoso parceiro co-beligerante: os EUA de Joe Biden — uma derrota que Donald Trump pretende mitigar e licitar em proveito próprio.

Fala quem sabe: Continua a ser Ucrânia versus Rússia mas agora também “parece ser” Ucrânia versus EUA

(Agostinho Costa, 24 e 25/02/2025)


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Reunimos aqui quatro das intervenções do Major-general Agostinho Costa, na CNN, dissertando sobre a guerra na Ucrânia e sobre as perspectivas existentes (ou não) de se caminhar para a paz. Fala, quem sabe de guerra a sério e não quem, presumivelmente, nunca deu um tiro na vida, como a Soller e a Ferro Gouveia. Falo de tiros à séria, porque tiros no pé estão fartas de dar… 🙂


Para Agostinho Costa continua a ser Ucrânia vs. Rússia mas agora também “parece ser” Ucrânia vs. EUA – 24/02/2025, 10h 24m.

Ver aqui o vídeo da intervenção na CNN do Major-general Agostinho Costa. A análise do major-general num dia em que passam exatamente três anos desde o início da guerra. E na qual sublinha que os EUA passaram de grande apoiante a “adversário” da Ucrânia.


Macron foi a Washington pedir uma “casca de banana” a Trump – 24/02/2025, 23h 53m.

Ver aqui o vídeo da intervenção na CNN do Major-general Agostinho Costa. O major-general analisa a possibilidade de enviar tropas europeias para a Ucrânia.


Agostinho Costa avisa que há uma coisa que pode acontecer que vai “arrastar os americanos” para uma guerra com a Rússia – 25/02/2025, 10h 40m.

Ver aqui o vídeo da intervenção na CNN do Major-general Agostinho Costa. O major-general considera que, pese embora a “boa relação” de Donald Trump com Emmanuel Macron, o presidente dos EUA não deverá “alinhar” na iniciativa de enviar tropas francesas e britânicas para a Ucrânia.


Agostinho Costa avisa que Trump se enganou em frase que envolve Putin – 25/02/2025, 15h 18m.

Ver aqui o vídeo da intervenção na CNN do Major-general Agostinho Costa. Em causa está uma declaração sobre o envio de tropas de manutenção de paz para a Ucrânia. O Major-general Agostinho Costa avisa que Trump teve um “lapsus linguae“.