(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 16/04/2025)

A segunda guerra na Ucrânia (a que teve início em 24 de Fevereiro de 2022, com a “Operação Militar Especial” [OME] da Rússia) começou por ser uma guerra entre, de um lado, a Rússia, a República Popular de Donetsk (RPD) e a República Popular de Lugansk (RPL) ⎼ as duas últimas na Donbass, uma região situada no extremo leste da Ucrânia e no sudoeste da Rússia ⎼ e a Ucrânia, do outro.
Porém, rapidamente se tornou numa guerra entre a Rússia (+ RPD + RPL), de um lado, e o chamado “Ocidente alargado” (com os EUA, o Reino Unido, a OTAN [/NATO] e a União Europeia [UE] em grande destaque), do outro. Mas com esta característica especial: essa guerra do “Ocidente alargado” contra a Rússia seria travada por intermédio da Ucrânia, cujo regime aceitou cumprir um mandato de procurador camicase para enfraquecer militarmente a Rússia, enquanto os seus mandantes a acossavam economicamente com sanções económicas ⎼ 24.387 (!!) sanções, 2.695 antes do início da OME e mais 21.692 depois dessa data [1] ⎼ na esperança de abrir caminho à derrocada interna da Rússia e, eventualmente, ao seu posterior desmembramento num mosaico heterogéneo de pequenos Estados impotentes [2].
A aceitação desse mandato de procurador camicase do “Ocidente alargado” data da 2.ª semana de Abril de 2022. Foi nessa data que Zelensky repudiou o acordo de paz, muito vantajoso, que tinha negociado com a Rússia em Istambul nas semanas anteriores. Fê-lo em troca da promessa que lhe foi feita, em pessoa e de viva-voz, por Boris Johnson (à época primeiro-ministro do Reino Unido) de um apoio incondicional, e “pelo tempo que for necessário”, do “Ocidente alargado” à Ucrânia, se esta decidisse optar por travar uma guerra sem quartel contra a Rússia, em vez de fazer as pazes com ela [3].
Em 13 de Junho de 2022, dois meses depois deste infausto episódio de chantagem (Boris Johnson), estultícia (Johnson e Zelensky) e perdição (Zelensky), o então presidente do México, Andrés López Obrador, definiu muito bem o teor prático desse mandato de procurador camicase:
«Nós [Ucrânia] fornecemos os mortos. Vós [“Ocidente alargado”] forneceis as armas».
No Outono de 2022, o general americano Christopher T. Donahue, muito citado no artigo de Adam Entous, disse a mesma coisa, com toda a candura, ao general Zabrodskyi, o seu camarada ucraniano (ver trecho do artigo destacado a amarelo).
E assim aconteceu, de facto, não só com as armas, mas também com as munições, o treino e o aconselhamento militar, as informações militares, a contra-informação e a logística militar que há três anos têm vindo a ser fornecidas continuamente, em quantidades gigantescas, à Ucrânia pelo “Ocidente alargado” — além do apoio económico e financeiro (também ele gigantesco) para ajudar o regime político, a administração pública e a economia da Ucrânia a manterem-se à tona.
Só não sabíamos até que ponto e como, concretamente, é que os EUA e o Reino Unido (os dois principais patrocinadores e aliados militares da Ucrânia) estiveram e estão envolvidos no planeamento e na condução prática (incluindo comando e controlo) dessa guerra contra a Rússia por interposta Ucrânia.
Pois bem, ficámos a sabê-lo muito recentemente por intermédio de dois extensos e pormenorizados artigos: um da autoria de Adam Entous, no New York Times, em 29 de Março de 2025, relativamente ao envolvimento dos EUA, e outro da autoria de Larisa Brown, no The Times (de Londres), em 11 de Abril de 2025, relativamente ao envolvimento do Reino Unido.
É o artigo de Adam Entous [4] no New York Times [5] que publicamos hoje, aqui, na tradução de Fernando Oliveira.
O que mais (me) impressiona nesse artigo são os vários exemplos de quão perto estivemos no decurso desta guerra, sobretudo nos últimos dois anos, da eclosão de uma terceira (e derradeira) guerra mundial, graças ao aventureirismo e à húbris quer de Zelensky e do seu regime, quer de Biden e do seu governo. Poder-se-ia supor a priori que as chefias militares ucranianas e americanas directamente envolvidas nessa guerra tivessem introduzido um módico de racionalidade e autocontenção que evitassem a todo o transe essa escalada para o Apocalipse nuclear, mas o artigo de Adam Entous corta cerce essa conjectura auspiciosa.
Tanto de um lado como do outro, houve chefes militares impregnados de aventureirismo hubrístico que marcaram presença ao mais alto nível. É o caso, entre outros, do general Oleksandr Syrsky (actual comandante em chefe das Forças Armadas ucranianas e o general preferido de Zelensky), e dos generais Christopher Donahue (actualmente comandante em chefe do Comando Terrestre Aliado e do Exército dos EUA na Europa e África) e Christopher Cavoli (Comandante Supremo Aliado da Europa, o cargo militar de topo da OTAN [/NATO]). Mas os leitores ajuizarão por si próprios lendo o artigo de Adam Entous.
Noutra ocasião, contamos publicar a tradução do artigo de Larisa Brown sobre o envolvimento do Reino Unido na 2.ª guerra na Ucrânia. Tudo vai depender de Fernando Oliveira conseguir encontrar, para além dos seus afazeres profissionais, o tempo e a disponibilidade para realizar mais essa exigente tarefa.
A tradução completa para português do artigo de Adam Entous pode ser lida aqui.
Notas e referências
[1] Fonte dos dados: Castellum.AI
[2] Em 23 de Junho de 2022, a Comissão de Segurança e Cooperação na Europa (CSCE) dos EUA, mais conhecida como Comissão de Helsínquia, organizou uma sessão de esclarecimento intitulada, Descolonizar a Rússia: Um Imperativo Moral e Estratégico. Esta comissão afirma ser “independente”, mas é uma agência do governo dos EUA criada, financiada e supervisionada pelo Congresso americano. Nove comissários são membros do Senado, nove são membros da Câmara dos Representantes e três são membros do poder executivo (Departamento de Estado [= Ministério dos Negócios Estrangeiros], Departamento da Defesa e Departamento do Comércio).
A Comissão de Helsínquia apoia o Fórum Nações Livres da Pós-Rússia, que realizou uma reunião no Parlamento Europeu em Bruxelas no início de 2023 e mais três eventos em diferentes cidades americanas em Abril de 2023. O Fórum Nações Livres da Pós-Rússia publicou um mapa da Rússia desmembrada com a qual sonha, dividida em 41 Estados diferentes, num mundo pós-Putin, partindo do pressuposto de que este é derrotado na Ucrânia e é destituído pelos seus compatriotas (v. Anchal Vohra, «The West Is Preparing for Russia’s Disintegration,» Foreign Policy, April 17, 2023). São sonhos fagueiros que persistem apesar de Trump não os acarinhar (ao contrário de Biden). Para 11-13 de Junho de 2025, está anunciado um novo evento deste Fórum, em Washington D.C.
[3] Sobre este assunto, ver José Catarino Soares, «Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos.» Tertúlia Orwelliana, 9 de Dezembro de 2023 [https://tertuliaorwelliana.blogspot.com/2023/12/]
[4] Adam Entous é um jornalista do The New York Times. Anteriormente, trabalhou em três outras empresas jornalísticas: Reuters, The Wall Street Journal, The New Yorker. Entous autodefine-se assim:
«Interesso-me pelo mundo da espionagem e por histórias que revelam a verdadeira natureza das relações entre indivíduos, instituições e Estados. Estas são frequentemente escondidas e difíceis de alcançar» (https://www.nytimes.com/by/adam-entous)
[5] O The New York Times (NTY) é um jornal diário americano com 174 anos de publicação ininterrupta. É propriedade da mesma família (a família Ochs-Sulzberger) há 129 anos. É o jornal de maior circulação do EUA (10 milhões e 800 mil assinantes em Agosto de 2024). Desde 1956 (eleição do candidato Dwight Eisenhower, do Partido Republicano, para presidente dos EUA) que o NYT apoia os candidatos presidenciais do Partido Democrático. A orientação política do NYT é assumidamente “liberal” — um termo que, nos EUA, significa, grosso modo, o mesmo que “social-democrata” na Europa.
Convém lembrar que o NYT tem sido, desde a primeira hora, um apoiante das decisões do Governo Biden de apoio incondicional à Ucrânia — em armas, munições, treino e aconselhamento militar, informações militares, contra-informação, logística militar e em tudo o mais que Adam Entous nos relata no seu artigo.
Assim sendo, julgo que o artigo de Adam Entous só pode ser interpretado, dado o seu teor, como tendo por objectivo principal preparar a opinião pública americana, em particular a que vota no Partido Democrático, para a derrota na Ucrânia do regime de Volodymyr Zelensky e do seu mais poderoso parceiro co-beligerante: os EUA de Joe Biden — uma derrota que Donald Trump pretende mitigar e licitar em proveito próprio.

Já agora, se a Rússia e fascista porque e que há tantos fascistas brasileiros a lutar como mercenários na Ucrânia e porque e que muita gente da extrema direita europeia seguiu o mesmo caminho?
Não e só contra as armas do Ocidente que a Rússia está a lutar mas contra toneladas de mercenários.
Muitos deles movidos não só por dinheiro mas também por ódio contra os russos.
Se fosse só por dinheiro já não estava lá nenhum pois a mortalidade e elevada.
Quem lançou essa pérola sobre a heróica luta da Ucrânia foi um tal de IPEC – Instituto Português de Estudos Contemporâneos, coisa criada na Universidade de Coimbra em 2020, a mesma que correu com um professor russo a pretexto de que o homem promovia propaganda russa.
Tem como símbolo a cruz de Cristo, a tal que era pintada nas velas das caravelas e define se como uma associação sem fins lucrativos que tem como finalidade defender e promover os valores da civilização presumo que Ocidental.
Não acedi ao site da coisa porque os senhores teem os malfadados cookies e não tenho vontade de ter tal companhia.
Dizem eles que a maior parte do público americano apoia a tal heróica luta ao contrário do que se diz por aí quando se diz que foi por acreditar que se livrariam do atoleiro da Ucrânia que muita gente por lá votou Tiranossauro.
Lamento por eles porque devem estar agora com uma abóbora de todo o tamanho.
E porra, não havia necessidade nenhuma de tentar matar o sujeito permitindo lhe emergir como mártir e mais facilmente ganhar as eleições. Se e que tentaram mesmo ou foi só para garantir a eleição de um sujeito disposto a carregar no acelerador até ao amargo fim depois de propor acordos impossíveis de aceitar.
Provavelmente nunca vamos saber isso mas que estamos metidos num sarilho de todo o tamanho, já isso estamos.
E minhas lindas enguias do Bloco de Esquerda. Parem de dizer que o homem e Putinista.
O homem não tarifou a Rússia nem a Coreia do Norte porque não é suposto comprar lhes nada por via das sanções. Se não compram vão tarifar o que?
Até o Francisco Louça, que pelo menos eu acreditava que tinha alguma honestidade intelectual se saiu há dias com essa conversa da treta.
Valha nos o santo protector das baleias azuis que assim não vamos lá.
E para quem acreditava que o Tiranossauro nos ia tirar do atoleiro da Ucrânia. O sujeito ameaça agora abandonar as negociações se os contentores não chegarem a acordo.
Ora Herr Zelensky, afundado em coca, e os seus nazis já disseram que não querem acordo nenhum. Estão se nas tintas para quantos dos seus morreram desde que matem russos.
A Rússia diz estar aberta ao diálogo mas não quer simplesmente dar uma trégua para voltar a dar tempo ao nazismo ucraniano para se armar até aos dentes e voltar a carga daqui a uns anos. O que e normal.
O que significa que a guerra vai continuar e provavelmente acelerar.
Porque o Tiranossauro o que quer e por as maos nas terras raras da Ucrânia e e louco o suficiente para dar a Ucrânia armas de destruição massiva incluindo nucleares.
A Europa até pula de feliz acreditando que a terceira será de vez.
Por cá continuamos a ter gente a falar da “luta heróica da Ucrânia”.
Enquanto alguns sinistros heróis ucranianos lá vão caindo. Há dois dias foi um tal alcunhado de Horvat considerado por quem tem vergonha na cara “uma das maiores mentes nazistas da Ucrânia”.
Alguém dizia ontem que no Inferno devem estar a fazer horas extras para o receber.
Pelo menos esse não assistira a destruição do nosso mundo em nome não sei já de que porque da liberdade, democracia e essas tretas todas e que não e.
E assim vai o mundo. Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos.