Bardamerda para o mérito

(In Blog O Jumento, 25/05/2017)
cheer
Tanto António Costa como Marcelo Rebelo de Sousa decidiram considerar que a saída do procedimento dos défices excessivos foi mérito de todos os portugueses, de caminho Marcelo terá telefonado ao primeiro-ministro para o felicitar, tendo ainda feito o elogio público do ex-primeiro-ministro. Pelo ambiente de festa e de parabéns fiquei com a sensação de Portugal tinha feito anos e até haveria bolo de aniversário e o competente espumante produzido segundo o método champanhês.
Mérito de quê?
Tanto quanto me recordo nunca fui voluntário de qualquer esforço coletivo, muitos portugueses e principalmente os que votaram no PSD foram enganados com falsas promessas eleitorais, muitos dos que votaram PS não esperariam pelo espetáculo triste proporcionado por Seguro. Muitos dos que votaram no PSD e ficaram com cortes nos vencimentos e nas pensões confiaram em quem lhes garantiu que não o faria.
Mérito por ter sido enganado, mérito por ter ficado com um corte de rendimentos de quase 30%, depois de somadas todas as artimanhas inventadas pelo governo de Passos e Portas para empobrecer os portugueses e, principalmente, os funcionários públicos e reformados? Mérito por ver os filhos partir para os quatro cantos do mundo? Mérito por ter um salário mínimo congelado ao mesmo tempo que se aumentava o IVA nos bens essenciais e na energia? Mérito por se morrer à espera de ser atendido numa urgência?
Há uma grande diferença entre o líder de uma claque ou um treinador de futebol e um primeiro-ministro ou um ministro das Finanças. O que sucedeu em Portugal foi muito mais do que um esforço coletivo, foi uma tentativa desastrada de promover uma brutal transferência de rendimentos, aumentando a injustiça social, com o objetivo de resolver a falta de capital de uns à custa da subsistência de outros.
Da parte que me toca não tive qualquer mérito sem ver aumentado o horário de trabalho sem qualquer compensação, de ter ficado sem feriados sem ser remunerado por isso, por ter perdido direito a férias só para que Passos me exibisse ao ministro das Finanças da Alemanha. Não sinto que tenha tido mérito quando fui exibido como uma “despesa pública”, quando fui acusado de ganhar mais do que os outros, quando fui acusado de, enquanto funcionário público ou reformado, de ser o culpado dos males do país.
O país não é um imenso grupo de cheerleaders (como as da foto) a quem o chefe vem agradecer o belo desempenho no fim do jogo. Há os que partilhavam a mesa e os negócios com o Ricardo Salgado e os que foram enganados pelos BES, os que aguentaram a austeridade e os que diziam que os outros aguentavam, aguentavam, os que passaram fome e os que compraram carros de luxo cujas vendas aumentaram.

A culpa é do Marcelo

(In Blog O Jumento, 20/02/2017)

Afinal o diabo era… o Marcelo!!


Durante quase um ano Passos Coelho representou a sua pantomina do primeiro-ministro no exílio, limitou o grupo parlamentar a serviços mínimos e andou por aí fazendo encenações para o telejornal e jantares de lombo assado. Passos não precisava de se preocupar com as sondagens, o OE para 2016 era para ignorar e o de 2017 foi pelo mesmo caminho; ele sabia que o poder voltava a ser-lhe servido numa bandeja.

Afinal de contas, se o diabo vinha em Setembro, não havia motivo para se preocupar com o desempenho orçamental, o crescimento não haveria de ser grande coisa, mais tarde ou mais cedo o país voltaria a afogar-se nos juros.

Passos sabia muito bem que em 2015 tinha disfarçado a austeridade aldrabando as receitas fiscais, antecipou as receitas do IRS com as retenções abusivas na fonte e deixou os reembolsos do IVA para 2016. O buraco estava cavado, era uma questão de tempo para que Centeno caísse nele.

O diabo já tinha viagem marcada, setembro seria o mês  do próximo armagedão financeiro do país. Mas o diabo não veio, Portugal apresentou o défice mais baixo da democracia e o reequilíbrio não resultou em recessão, antes pelo contrário. As coisas correram mal demais, o défice foi muito menos do que o previsto, o crescimento superior às expectativas, o desemprego está em queda, o país é elogiado e, para já, 2017 está a correr bem. O mesmo Passos que dizia, com ar condescendente, que a legislatura era para ir até ao fim já deixou de o ser. Com o PSD descer nas sondagens e sem a ajuda do diabo é preciso fazer algo.

Passos percebeu que por este andar está perdido e com ele toda a direita; até os sectores mais moderado do PSD deixaram de ser tolerantes e responderam ao toque de reunir do presidente do partido. E tal como fazem os treinadores de futebol Passos Coelho, José Eduardo Martins e outros atacam o árbitro, esperam que Marcelo comece a mostrar amarelos e vermelhos ao governo.

O diabo não pareceu, os Reis Magos não trouxeram a prendinha que Passos esperava e há um único culpado para o falhanço da sua estratégia, Marcelo Rebelo de Sousa. Até Cavaco, que está convencido de que é um mestre em vitórias eleitorais, veio dar uma ajudinha; escreveu mais uma página miserável da sua obra política, e agendou a publicação para a época de balanço do ano de 2016. Estava tão convencido da desgraça que até escreveu que não conhecia nenhum governo do tipo geringonça que tivesse trazido progresso. Também ele achou que devia pressionar Marcelo. Enfim, coube a Cavaco o papel de cereja neste bolo.

Passos Coelho esperava e desejava o diabo, agora manda dizer que o diabo é o Marcelo, alguém tem que levar com as responsabilidades dos seus falhanços.


Fonte aqui

Um ano depois, olha que dois!

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 26/12/2016)

nicolau

Cerca de um ano depois do Governo ter entrado em funções e de o Presidente da República ter sido eleito, o facto mais marcante do ponto de vista político em 2016 foi a cooperação, chame-se estratégica ou não, de Marcelo Rebelo de Sousa com António Costa. Acontece seguramente por serem quem são, por estarem há muitos anos na política, mas acontece também por um conjunto de circunstâncias únicas do xadrez político nacional.

Há dois eventos relevantes para perceber como se chegou até aqui. O primeiro é o facto do PSD ter ganho as eleições de 4 de outubro de 2015 sem maioria absoluta, mesmo juntando-se ao CDS, e o Partido Socialista, ao contrário do quadro mental que estava criado, não ter dado o seu suporte, através de abstenções nos diplomas mais importantes (nomeadamente os Orçamentos do Estado) a uma solução governativa que daí resultasse. Pelo contrário, António Costa não só chumbou um novo Governo PSD/CDS, como apresentou ao então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, uma solução governativa que dispunha de apoio maioritário na Assembleia da República. E mesmo a contragosto, Cavaco teve de aceitar.

Imaginemos, por um minuto, que não tinha havido eleições antecipadas para a liderança do PS e que António José Seguro continuava a ser o líder dos socialistas aquando das eleições de 4 de outubro. Como é óbvio, se o resultado das eleições tivesse sido o mesmo (PSD vencedor mas sem conseguir maioria absoluta no Parlamento com o CDS), Seguro nunca tiraria da cartola um Governo do PS, apoiado pelo Bloco e pelo PCP.

Segundo facto relevante: quando começou a escolha dos candidatos à Presidência por parte do PSD, o líder dos sociais-democratas, Pedro Passos Coelho, não deu sinais claros de quem preferia, mas deu sinais muito explícitos de quem excluía: uma pessoa que fosse um cata-vento, dizendo hoje uma coisa nas televisões e amanhã outra. O chapéu enfiava direitinho na cabeça de Marcelo Rebelo de Sousa e este seguramente que não se esqueceu, nem do chapéu, nem de quem o desenhou.

Por isso fez uma campanha a sós, contando apenas consigo e com um staff muito reduzido, apostou no contacto direto com os eleitores e acreditou que a sua popularidade televisiva faria o resto. E assim foi. Marcelo ganhou folgadamente, sem dever nada a ninguém, sem estar refém de ninguém, e muito menos e sobretudo do PSD e do seu líder, Pedro Passos Coelho.

É por isso que este empenho do Presidente da República em colocar a mão por baixo do Governo, em apostar numa solução para a legislatura, em chamar a atenção para os bons indicadores económicos sempre que aparecem alguns negativos, em responder a algumas farpas de Passos Coelho, só pode querer dizer uma coisa: que Marcelo e Costa têm a mesma luta, derrubar o líder do PSD e substituí-lo por outra pessoa.

Mas Marcelo, que sempre foi uma pessoa com enorme instinto político, não quer que isso aconteça antes das eleições autárquicas. Ele sabe muito bem que Passos é um osso duro de roer e que não é líquido que neste momento ele perca umas eleições para a liderança do seu partido. Contudo, após as eleições autárquicas, em que o PSD tem mostrado enorme dificuldade em apresentar candidatos próprios às principais cidades do pais (Lisboa e Porto), em que a sua estratégia está a ser confusa e desalentadora para os seus militantes e em que as sondagens dão uma crescente divergência entre PS e PSD, com os socialistas a aproximarem-se da maioria absoluta, aí sim, Marcelo acredita que nessa altura ou o próprio Passos se demite ou será facilmente derrubado num congresso – porque o PSD é um partido do poder e a última coisa que os seus militantes querem é passar oito anos na oposição.

Resumindo, no almoço de dia 29 em Belém, Marcelo vai pedir a Passos para não se demitir da liderança do PSD. Passos concordará, porque está convencido que vai conseguir voltar a ser primeiro-ministro, até porque se sente profundamente injustiçado com o facto de um partido que não ganhou as eleições ter formado Governo. Costa dificilmente deixará de ser primeiro-ministro até ao fim da legislatura, a não ser que haja um cataclismo económico a nível europeu.. E até pode ser que Rui Rio, com quem Costa se dá muito bem, substitua Passos e ascenda à liderança do PSD, o que possibilitaria outro tipo futuro de acordos governativos. Resta saber se o PSD perde mesmo de forma dramática as eleições autárquicas e se Passos se demitirá, se tal acontecer. E em política, como no futebol, o que hoje é verdade, amanhã pode não ser.