Sirvam-se e degustem

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 04/11/2016)

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A abulia demonstrada por Passos Coelho é uma natural expressão de cansaço, e as declarações dos seus apaniguados têm sido desmentidas pela evidência dos factos.


As morosas e fatigadas respostas políticas de Pedro Passos Coelho têm causado apreensão entre os sociais-democratas, que entendem como cansaço exacerbado do seu dirigente ou desinteresse pela batalha ideológica. A recente reaparição de Maria Luís Albuquerque nas comissões públicas do PSD tem suscitado os mais diversos comentários, justificados pela agressiva natureza dos seus textos. E mais justificam a apreensão dos correligionários, que se têm reunido, em discretos encontros, como é histórico que o façam.

O aparecimento político do agrupamento de Esquerda, que tomou conta do poder quando o dr. Cavaco tinha acabado de designar Passos Coelho para primeiro-ministro, foi um choque repentino e absolutamente inesperado pela surpresa nunca vista. A “geringonça”, como lhe chamou, com o ardor da raiva, Vasco Pulido Valente, ficou-se por ser o que na verdade era: um conjunto político constituído pelo PS, CDU e pelo BE, com um propósito de combate até então nunca visto.

O ramerrão da vida nacional era detido pelo PSD e pelo PS, e António José Seguro, embora do PS, preparava-se para ser um fiel servidor do sistema estipulado e mantido por um grupo chefiado por Pedro Passos Coelho. Apressadamente, o dr. Cavaco nomeou este último como primeiro-ministro, mas já era tarde. Teve de aceitar Costa e os seus inesperados cúmplices, e nomeá-los como favor dos factos, mas servindo-se da manigância das palavras. Uma cena deplorável pela demonstração de canalhice que a envolveu.

Ninguém de bom talhe e rectos modos aceitou esta bizarria. E o dr. Cavaco ficou com o ferrete da ignomínia. António Costa, esse, tomou a criança nos braços e começou logo a mexer nas coisas erradas e impulsivas cometidas por um governo que seguira as vozes de direita da União Europeia. A situação desacreditou ainda mais Passos Coelho e os seus. O episódio foi um tormento para o PSD e, também, para o PS, que nunca assistira a tal vibração dos factos. Com prudência e astúcia, o PCP seguia a rota das coisas, evitando qualquer embaraço ou escolho. E a “geringonça” lá vai seguindo o seu rumo, arrastando consigo as indicações que a levam a ser primeira em todos os índices de opinião.

As tradicionais estruturas que fomentam as ideias e determinam muita coisa na História sofreram um forte abalo. Afinal, a coesão era uma falácia, que pode ser alterada e modificada quando os homens assim o entendem. Contra quase tudo e quase todos, o grupo de António Costa tem produzido factos e realizado acontecimentos políticos que escapam à natureza tradicional destas coisas. A abulia demonstrada por Passos Coelho é uma natural expressão de cansaço, e as declarações dos seus apaniguados têm sido desmentidas pela evidência dos factos.

O reaparecimento, nas declarações públicas, de Maria Luís Albuquerque significa algo que escapa à natureza habitual das interpretações. O PSD, desde que se o conhece, não aceita um lugar subalterno na pirâmide política habitual, e com a qual temos sobrevivido, na indiferença comum ao nosso viver. O sobressalto causado por António Costa e os seus alterou, por completo, o nosso modo de viver político. E a procissão ainda vai no adro. Como disse, em tempos, Almeida Garrett, “façam o favor de se servir e de degustar.”

O favor que Schauble nos fez

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 28/10/2016)

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As declarações do ministro alemão das Finanças, garantindo que “Portugal vinha tendo muito sucesso até à chegada de um novo Governo” tornaram finalmente claro para os mais distraídos que o que está em causa para Berlim e para a sua correia de transmissão, o presidente do Eurogrupo, não é a evolução das contas públicas mas sim a orientação político-económico do Governo PS, apoiado pelo Bloco e pelo PCP. É isto que Wolfgang Schauble e Jeroen Dijsselbloem não suportam. As suas absolutas certezas de que não havia alternativa à política seguida, de cortes de salários e pensões e de emagrecimento drástico do Estado social, sem o qual o défice não diminuiria, estão a ser desafiadas publicamente. E a redução do défice para os valores mais baixos de sempre em 42 anos de democracia por um Governo de centro esquerda é insuportável para os dois (embora Dijsselbloem seja supostamente do PS holandês…).

É isto que está em causa: uma questão política e não económica. Schauble não gosta de socialistas, mesmo que moderados, e menos ainda de bloquistas ou comunistas. Por isso, há que deitar abaixo um Governo com estas características. E Schauble sabe que cada vez que diz que está preocupado com um possível segundo resgate a Portugal, as taxas de juro da dívida portuguesa nos mercados secundários sobem e a profecia fica mais perto de se cumprir.

Ora o ministro alemão tem feito isto de forma repetida, sem que ninguém lhe ponha travão nem freio na língua, apesar de em casa ter uma bomba-relógio muito mais perigosa para a estabilidade europeia do que Portugal, o Deutsche Bank. Mas não só ele. Esta semana tivemos outro alemão proeminente, Otmar Issing, ex-economista-chefe do BCE, a afinar quase ipsis verbis pelo mesmo diapasão: “Portugal é um caso que demonstra que todos os problemas [da zona euro] não são problemas da política monetária e de ganhar algum tempo. Portugal não só tem desperdiçado tempo, no que diz respeito a fazer as reformas necessárias, mas também, desde que o novo governo tomou posse, tem ido na direção errada. Agora pagam o preço dessas políticas, que vão em sentido contrário em relação àquilo de que Portugal precisa para manter o país alinhado com a estabilidade da zona euro”, disse Issing à Bloomberg.

E quais são os factos em que Schauble e Issing fazem assentar as suas afirmações? Quando a Comissão Europeia vem reconhecer que o Orçamento do Estado português para 2017 “parece cumprir os critérios”; quando das sete cartas que Bruxelas enviou a Estados membros a pedir esclarecimentos, os dois mais suaves foram para a Bélgica e Portugal; quando este ano Portugal vai sair do Procedimento por Défice Excessivo, porque ninguém coloca em causa que o défice fique nos 2,5%; quando este valor é o mais baixo em 42 anos de democracia; quando ninguém coloca em causa o cenário macroeconómico do OE português para o próximo ano; quando o crescimento volta a assentar nas exportações e no investimento – em que se baseiam Schauble e Issing para dizerem publicamente o que dizem e a desfaçatez com que o fazem?

Era bom que a Comissão Europeia se demarcasse destas afirmações. Era bom que Bruxelas tivesse a coragem de valorizar o que deve ser valorizado, mesmo que não aprecie a receita que está a ser aplicada, mas que aparentemente está a conseguir os resultados que a Comissão desejava. E sobretudo era bom, que ficasse claro para toda a gente que Schauble e Issing não gostam é da cor do Governo português. E detestam-no tanto que nem sequer falam sobre o que importa: os resultados na frente orçamental que estão a ser alcançados.

Ó Gomes Ferreira, arranja outra táctica

.(Por Estátua de Sal, 21/10/2016)

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José Gomes Ferreira

O Passos dizia que vinha aí o diabo. Uma das hipóteses era que ele entrasse pelo Ártico, via Canadá, trazido no trenó da DBRS, a tal agência de rating que dá à dívida pública portuguesa a notação de  “investimento”, permitindo assim que o BCE a vá comprando.

Hoje mesmo, soubemos que não veio e que, até Abril, não vai entrar pelo Norte. A DBRS, manteve a notação da dívida portuguesa no nível de “estável”, como era esperado, o que só pode ser positivo para o país, pelo menos no curto-prazo.

Chamado a comentar o evento na SICN, o Gomes Ferreira, lá foi dizendo que é uma boa notícia, um pouco a contragosto, digo eu.
Mas o mais inédito foi a sua crítica à agência de rating. Que não dá “ponto sem nó”, que nada é “de borla”, que é “pró-cíclica”, que não faz boas avaliações, etc.

Ou seja, a DBRS seria boa se tivesse cortado o rating da República. Como não o fez, é porque é parcial, e porque falseia a realidade e age dessa forma porque tem ganhos económicos com isso.

O GF parece um marciano. Então não é dessa forma que todas as ditas agências agem?! Acha o GF que as notas das agências tem alguma coisa a ver com os “fundamentais” das empresas e dos países? Se acha eu só lhe posso chamar tolo e manipulador. Antes da crise de 2008 o Lehman Brotters tinha uma nota de +AAA dado por todas as agências de rating e foi o que se viu: faliu e estava mais que falido há muito tempo.

Portanto, não querendo sublinhar a vitória do país, logo do Governo de Costa, GF optou por descredibilizar a DBRS e a nota que dá à dívida portuguesa.

Só me resta dar um conselho: Ó GF muda de táctica. Já ninguém te leva a sério. Se tiveres dificuldade telefona ao Jorge Jesus para te dar a táctica discursiva que deves usar e quais os reforços a comprar em Janeiro para seres mais credível.

E se não confias no JJ telefona ao Diabo. Ele, apesar de não aparecer, costuma atender as chamadas a tipos como tu, com vocação para a aldrabice, que me parece ser uma qualidade que te vai muito bem com o tom de pele.

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