Moeda chinesa desvaloriza-se mais de 2% em sessão marcada por novo trambolhão nas bolsas

(Jorge Nascimento Rodrigues, in Expresso Diário, 05/08/2019)

O yuan depreciou-se esta segunda-feira 2,3% face ao euro e 1,6% em relação ao dólar. Índice das 600 principais cotadas europeias caiu 2,2%. Wall Street já perdeu mais de 2% na sessão da manhã.


O choque nos mercados provocado pela escalada na guerra comercial entre os Estados Unidos e a China prossegue. O yuan, a moeda chinesa, desvalorizou-se esta segunda-feira 2,3% face ao euro e 1,6% face ao dólar.

O euro fechou esta segunda-feira, à hora de encerramento dos mercados europeus, perto do câmbio de 7,9 yuans, face a uma média de 7,7 nos últimos trinta dias. Na semana passada, o euro já se tinha valorizado 0,6%. A moeda norte-americana ultrapassou esta segunda-feira a barreira dos 7 yuans face a uma média de 6,89 nos últimos trinta dias. Um câmbio acima do que tem sido considerado uma barreira “psicológica” – de 7 yuans por dólar – já não se registava desde 2008.

O Banco Popular da China, o banco central, fixou esta segunda-feira uma nova taxa central de paridade face ao dólar em 6,9225 yuans, 0,5% acima da média dos últimos trinta dias no mercado. Este câmbio oficial é fixado diariamente e permite uma oscilação de 2% acima ou abaixo da taxa. O presidente Trump já reagiu no Twitter acusando a China de “manipulação de divisa”.

A par do cancelamento da importação de produtos agrícolas dos EUA, a depreciação do yuan é encarada como resposta de Pequim ao final da trégua anunciado por Trump na quinta-feira passada ao tuitar a imposição a partir de 1 de setembro de uma taxa aduaneira de 10% sobre todas as importações vindas da China que ainda não tinham sido abrangidas pela guerra comercial.

No entanto, Yi Gang, o governador do banco central em Pequim, veio dizer esta segunda-feira que a depreciação foi “determinada pelo mercado” e que a China não avançará para desvalorizações competitivas.

Face ao euro, a nova taxa central fixada pelo banco central é de 7,6821, abaixo da média dos últimos trinta dias.

ÍNDICE DE PÂNICO CONTINUA A SUBIR NA EUROPA E EM WALL STREET

A onda vermelha nas bolsas de ações continuou esta segunda-feira. Na Ásia, o índice de Xangai recuou 1,6% e o Nikkei 225 de Tóquio perdeu 1,7%. Na Europa, o índice das 600 principais cotadas (Eurostoxx 600) caiu 2,2%. O índice Dax alemão recuou 1,8%. O PSI 20, em Lisboa, caiu 1%. Em Londres, o FTSE 100 perdeu 2,5%, registando a maior queda na Europa.

Em Nova Iorque, a sessão da manhã está a terminar com perdas acima de 2% para os três principais índices bolsistas.

O índice de volatilidade – conhecido como índice de pânico – subiu 14,8% esta segunda-feira na Europa e já disparou 28% em Wall Street.

Recorde-se que a semana anterior marcou perdas assinaláveis nos índices MSCI: o índice bolsista para o conjunto da zona euro caiu 4,2%; e o relativo às duas bolsas dos EUA recuou 3,2%. As bolsas à escala mundial perderam 3,1% na semana passada. Na sexta-feira, o índice de pânico na Europa – o VIX associado ao índice bolsista Eurostoxx 50 (das cinquenta cotadas mais importantes da zona euro) – registou o maior disparo do ano, ao subir 33,65%.

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2018: “Annus Horribilis” para o Capital Nacional e Mundial.

(Dieter Dellinger, 12/01/2019)

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O ano de 2018 foi um ano bom para a economia nacional que cresceu mais de 2% com o turismo a puxar e a execução orçamental deve apresentar um saldo próximo do zero, o que é inédito neste século e não foi verificado muitas vezes no século XX e XIX.

Contudo, numa contradição pouco explicável foi um “annus horribilis” para os grandes capitalistas detentores de avultadas participações de empresas cotadas nas bolsas de todo o Mundo.

A Bolsa de Lisboa fechou o ano com uma desvalorização de 12,2% que foi o pior ano desde 2014 em que o colapso do Grupo Espírito Santo arrastou quase todas as ações cotadas para baixo.

Os 18 grupos cotados na Bolsa perderam mais de 3 mil milhões de euros, apesar de em 2017 ter havido um ganho global. Contudo, o poder de compra dos portugueses aumentou em 2018 e, bem assim, os créditos concedidos.

A explicação respeitante a esta queda global tem a ver com vários fatores dos quais o primeiro é a falta de confiança das classes médias relativamente a fundos de participação em ações e mesmo nos títulos das próprias empresas associado ao pagamento de dividendos muito baixos. Bancos, Financeiras, Fundos, etc. enganaram gente a mais para poderem ver as suas fortunas crescerem.

A maior parte das grandes empresas nacionais que restam possuem modelos opacos de financiamento e desvio de dinheiros para foram que não atraem quaisquer investidores em ações, salvo quando há grandes negócios de tomadas de posições, mas isso já só tem a ver com capitais estrangeiros e é fora que se fazem os grandes negócios.

O PSI 20 que agora é de apenas 18 empresas sobe e desce todas as semanas, mas é porque há quem jogue na bolsa ao comprar em baixa, o que faz aumentar a cotação bolsista, para de imediato vender com um pequeno lucro, fazendo de novo baixar a cotação.

Em termos gerais, interessa o resultado de um ano inteiro e aí sim houve perdas consideráveis.

A maior perda de fortuna na bolsa foi, pelos dados que tenho, a da família Soares dos Santos que desvalorizou em 1.851 milhões de euros. Que ninguém tenha pena deles porque os seus 56.136% do Grupo Jerónimo Martins ainda valem 3.652,7 milhões em termos acionistas, não se sabendo qual o montante das dívidas, pois a expansão do grupo na Polónia e agora na Colômbia deve ter implicado o recurso a avultados créditos.
A família Azevedo fechou o ano com perdas de 348,8 milhões, reduzindo-se a sua participação nas empresas do Grupo Sonae a um valor 1.032 milhões.

O clã Queiroz Pereira teve ainda menos sorte porque o seu portefólio acionista quebrou em 374,7 milhões de euros, mantendo-se a sua fortuna em 2.033 milhões de euros, apesar da importância do papel na Semapa e na Navigator.

A construtora Mota-Engil foi a empresa que mais caiu na medida em que os outros são grupos de empresas. O António Mota e família perdeu 315,7 milhões com um património acionista avaliado a 31.12.18 em apenas 246,5 milhões e muitas obrigações para cumprir ou pagar.

A Isabel dos Santos perdeu 51,7 milhões de euros na NOS e na participação na GALP, ficando com um património de 1.655,2 milhões de euros, apesar de ter tido um ganho de 15,3 milhões com a venda do BPI e outros negócios, mas foi a queda das ações a GALP que lhe tiraram 67 milhões de euros.

O Manuel Champalimaud, filho do falecido António, perdeu nos 12,88% que detém nos CTT a pequena quantia de 3,4 milhões de euros.

Olhando para as empresas cotadas independentemente de quem é o proprietário das suas ações só vemos miséria, isto é, sinais – à frente da variação anual. Assim, observa-se -18,48% nos CTT, -9,58% na Galp Energia, -20,99% na IBERSOL, -57,41% na Mota-Engil, -20,99% no Jerónimo Martina, -33,55 na Novabase, -5,03% na NOS, -36,15% na Pharol, -16,05 na Navigator, -0,81 na REN, -27,55% na Semapa, -29,84% na Sonae. -4,48% na SAD do F. C. do Porto, -26,98% na Media Capital, -1,49% na SAD do Sporting e uns gloriosos +53,76% na SAD do Benfica.

A COFINA do pasquim Correio da Manha subiu 21,29%, mas as suas ações estão a 0,564 Euros, abaixo daquilo que considero o valor zero, ou seja, o preço de uma bica.

Claro que não se trata de uma fenómeno português, porque se formos para a Daimler (Mercedes) vemos uma quebra anual de -35,97%, na VW -17,27%, na VINCI (Dona dos aeroportos portugueses) a queda foi de -15,87%, o Deutsche Bank caiu -55,20%, os Correios Alemães (Deutsche Post) -39,17%, o Banco Santander caiu -27,07%, a BMW -19,28%, o Bank of America -16,20%, o Citygroup -27,78%, a Colgate-Palmolive -21,37%, o banco Morgan-Stanley desceu 22,38%, a Caterpiller -19,31%, o Facebook Inc. -24,63%, a General Motors -36,41%, a Ford Motor Co. -36,41%, General-Dynamics (armamentos) -21,71%, etc.

Se continuasse nunca mais acabava de pôr números negativos.

O capitalismo sofre uma crise tremenda porque é votado negativamente a nível mundial através da ausência de compra de ações por outras pessoas que não sejam os jogadores do dia a dia que chegam a comprar de manhã para venderam à tarde. O cidadão comum apesar de enfrentar uma quebra muito grande nos juros das suas poupanças não arrisca no capital, comprando ações.

No fundo, todos temos telemóveis e computadores, automóveis e frigoríficos, roupa barata da China e salários baixos. O capitalismo inventou quase tudo e os chineses, indianos, paquistaneses, trabalhadores do Bangla-Desh, etc. trabalham por muito pouco.

O capital vê nos bens dos Estados, principalmente nos hospitais, escolas e universidades uma única saída para ganharem dinheiro com os impostos dos contribuintes.

Por si próprios não parecem capazes de inverter a situação.

O sarilho em que eles se meteram

(Francisco Louçã, in Expresso, 29/12/2018)

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O “Observador” prossegue serenamente a sua carreira, militando pela reconstituição de uma direita de capa e espada. Fá-lo com a elegância que se esperaria, testando hipóteses, ora vamos lá a ver se os lusos ‘coletes verdes’ vingam, ora vamos lá ver se o Montenegro se amanda ao homem ou se o Passos regressa, ora vamos lá ver que é preciso deitar abaixo aquele de Belém, que atrapalha por demasia. Como um velho general, os seus fundadores perscrutam o horizonte e rabujam que falta liberalismo, falta ousadia, sobra acomodamento, ninguém levanta a voz para mostrar este declínio podre, parece que toda a canalha gosta do pardieiro em que a esquerda nos meteu. Mas por vezes surge um relâmpago de inspiração e foi o caso que vos venho relatar.

Pois meteu-se o “Observador” pelos misteriosos caminhos da religião, emboscando alguns eclesiásticos sobre as suas convicções: então como é que Maria teve Jesus? Dois deles responderam com a prudência de quem sabe da vida. Anselmo Borges explicou que com a metáfora bíblica sobre a virgindade de Maria apenas se pretende “dizer a importância de Jesus enquanto filho especial de Deus” e o bispo do Porto, Manuel Linda, advertiu que “nunca devemos referir a virgindade física” de Maria. Desencadeou-se a tempestade e o jornal, guloso, albergou a indignação.

Sugiro a quem lê estas páginas que se dedique a esse revelador encantamento natalício. Diz Isaías Hipólito que estes hereges recusam a “veracidade dos Evangelhos” ao abdicarem de “uma peça central do Credo cristão: o de que Jesus, Filho único de Deus, foi ‘concebido pelo poder do Espírito Santo’ e ‘nasceu da Virgem Maria’”. Mais ainda, “o Credo é para os cristãos o mínimo denominador comum que todos devem comungar. Retirar-lhe qualquer peça, por aparentemente descredibilizar a pretensão cristã, implica minar todo o edifício da fé”, a sabotagem a que se dedicam Anselmo Borges e o bispo do Porto.

João Bleck exige uma contrição: “Não ficava mal ao senhor D. Manuel Linda cumprir o dever de se retratar e pedir publicamente perdão pela ofensa”. E, para arrumar o assunto, cita o Catecismo, “que remete para o claríssimo cânone 3 aprovado na sessão do dia 31 de outubro do ano 649 do Concílio de Latrão, onde se estabelece o seguinte: ‘Se alguém não confessa, de acordo com os santos Padres, propriamente e segundo a verdade, por mãe de Deus à santa e sempre (semperque) virgem e imaculada (immaculatam) Maria, dado que concebeu nos últimos tempos sem sémen (absque semine) por obra do Espírito Santo, ao mesmo Deus Verbo própria e verdadeiramente, o qual, antes de todos os séculos nasceu de Deus Pai, e incorruptivelmente o gerou (et incorruptibiliter eam genuisse), permanecendo inviolada a sua virgindade mesmo depois do parto (indissolubili permanente et pos partum eiusdem virginitate), seja condenado’”. Condenem-se os atrevidos.

Gonçalo Portocarrero de Almada, um prelado da Opus Dei que aprecio sobremaneira porque já recomendou este ateu como “São Francisco Louçã”, arruma o assunto citando a dogmática de Ratzinger: “Por isso, estes dois pontos — o parto virginal e a ressurreição real do túmulo — são verdadeiro critério da fé. Se Deus não tem poder também sobre a matéria, então ele não é Deus”. Assim, a fé é reduzida à obediência. Na diferença entre a religião como entendimento da vida ou como crença reverente no impossível, aqui está a escolha cómoda.

Prosaicamente, Pessoa, ou Alberto Caeiro, contava outra história:

O seu pai era duas pessoas —
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
“Se é que ele as criou, do que duvido.” —
“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.”
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.”

(extrato de ‘O Guardador de Rebanhos’)

Perdoem-me se acho este menino mais verdadeiro do que o do dogma.


2019 em três riscos

No dia 31 de janeiro deste ano que finda, Alan Greenspan explicou candidamente que havia duas bolhas, de obrigações e de ações. Uma semana depois, numa só hora, a bolsa teve a sua maior queda desde o subprime. Voltou logo tudo ao normal. Ninguém sabe o que aconteceu. Nas vésperas deste Natal, a mesma coisa, queda abrupta. Depois, subida confortável. Os mercados andam “nervosos”, dir-se-á. Pois há boas razões para isso.

GANÂNCIA

Greenspan dirigiu durante 19 anos o banco central dos EUA e dizia em 2002 que “grande parte da nossa comunidade empresarial parece ter sido dominada por uma ganância contagiosa (…). O problema é que os meios para manifestar essa ganância cresceram desmedidamente”. Mas nem por isso esses meios foram controlados e, assim, se desde 1945 até ao final dos 1970 não houve grandes crises bancárias, agora é a rotina.

Tanto era assim que, em 2005 Raghuram Rajan, então o economista-principal do FMI, provocou um escândalo numa conferência de homenagem a Greenspan, perguntando se “o desenvolvimento financeiro [teria] tornado o mundo um lugar mais arriscado”. A sua resposta foi que “o desastre poderá estar iminente”, pois os gestores têm “incentivos para aceitar riscos que estão ocultos dos investidores”. A reação dos colegas foi indignada. Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, terá respondido que Rajan era o que se traduziria por um “velho do Restelo”. De facto, a carreira de Greenspan constitui um sucesso na desregulação, o que ele explicava abertamente: “À medida que entramos no novo século, as forças regulamentadoras privadas de estabilização do mercado deverão substituir gradualmente muitas das estruturas governamentais incómodas e cada vez mais ineficazes. Trata-se de um futuro provável, pois os governos, pela sua própria natureza, não se conseguem ajustar com celeridade suficiente a um ambiente em mudança que tantas vezes segue rumos imprevistos”. No ano seguinte à sua reforma, veio o crash do subprime.

O primeiro risco de 2019 é este: a desregulação não só prosseguiu como, com juros baixos, foram estimuladas mais aventuras especulativas. Além disso, o crescimento das bolsas está muito preso às empresas tecnológicas, desde 2013 quase 40% do aumento do índice S&P depende de seis grandes (Alphabet, Amazon, Apple, FB, Microsoft, Netflix). Pode estar nelas o perigo de sobrevalorização. O “nervosismo” da finança é por se conhecer ao espelho.

MONTANHAS DE DÍVIDAS

O segundo maior risco de 2019 é a montanha de dívidas. As dívidas transfronteiriças são hoje de 30 biliões de dólares, eram 9 há vinte anos. A dívida pública chinesa é o dobro da de 2009, a das empresas chinesas é de 450 mil milhões em dólares, era então zero. O balanço do BCE triplicou para cerca de cinco biliões de euros. É certo que esta absorção de dívidas no BCE é estabilizadora, não é tão vulnerável a pânicos de empresas, e que a China tem reservas e um superavit que a protegem. Mas aqui entra o fator político, pois o terceiro risco é a turma de governantes do mundo.

Os governantes são um problema por dois motivos imediatos. Por um lado, o balanço do BCE não vai manter eternamente essas dívidas (podia e devia, mas não vai ser assim). E a escolha do momento e da forma para a vender pode ser desastrosa para as condições de financiamento dos Estados e empresas. A viragem à direita na União Europeia e a escolha do sucessor de Draghi agravam este risco. E, por outro lado, se houver uma perturbação financeira, e ainda nos últimos dias tivemos disso um sinal, a consistência da resposta dos bancos centrais e governos pode ser decisiva. Ora, se for precisa cooperação para responder a uma crise, na Casa Branca há Trump.