A Quadratura da Cristas

(Por Estátua de Sal, 20/10/2016)

cristas

A Cristas na Quadratura do Círculo, hoje na SICN, a substituir o Xavier que deve ter ido a banhos. A Cristas diz que tem muitas propostas, e quer dar o ar de menina muito educadinha. Mas tem uns temores: são “as esquerdas”. As esquerdas radicais tiram-lhe o sono, coitada.

Eu talvez saiba porque não se diz “as direitas”. A razão é simples: é que só há uma direita, eles são todos iguaizinhos. Só muda a cor do colarinho.
O Jorge Coelho é como o adesivo. Cola em tudo. Tem sempre muita consideração pelos seus interlocutores da direita. Até pelo Passos Coelho, que disse não conhecer, em termos de relações pessoais próximas no programa anterior, mas em relação ao qual disse ter muita consideração. Pior ainda. Foi dizendo que o Jorge Moreira da Silva, que já abandonou o Passos Coelho, e vai para um tacho dos grandes na OCDE, é um “grande senhor da política portuguesa”!?
Ó Jorge Coelho, não havia necessidade: nem a Cristas merece qualquer consideração especial, nem o Moreira da Silva é um grande senhor de coisa nenhuma, quanto mais da política portuguesa. É um tipo que vai muito pouco além do metro e meio, logo não é grande em altura e na política não passou de uma câmara de eco do Passos Coelho, sem qualquer iniciativa de jeito além do imposto sobre os sacos de plástico.
O Pacheco começou por ficar numa postura de cavalheiro, não amolgando muito a senhora. Sim, porque ela foi para ali repetir os chavões que usa no parlamento e que fala para as televisões, e de análise política viu-se zero. Contudo, depois chegou-lhe duro, quando lhe perguntou se alguém que ganhe 2500€ por mês vai ou não pagar menos impostos no ano que vem. A Cristas, para se safar lá foi dizendo que não , que não vai se beber muita coca-cola e se der muitos tiros devido ao aumento do imposto sobre as balas! Um pouco ridículo, ter que recorrer “à caça ao coelho” para poder dizer que os impostos vão subir para a classe média, quando está mais que claro que irão descer.
Fiquei, além disso, até a conhecer a nova utilização de um verbo que é hoje pouco comum ouvir-se, e que foi usado num contexto totalmente inédito. Disse ela que já se sabia que não era com um choque de consumo que a economia ia “arrebitar”.
Ó D. Cristas, a economia a “arrebitar”, fez-me logo ter maus pensamentos e levar a economia para debaixo do pano, como cantava o Nei Mato Grosso. Acto falhado diria o Freud, caso a mandasse deitar no divã num exercício de “associação livre”.
E por tudo isso também me lembrei de uma canção antiga da música popular e cujo refrão é deveras apropriado à situação da líder do CDS:
“Ai ó Cristas se queres ser política, arrebita, arrebita”.

Quem falseia a realidade?

(In Blog O Jumento, 15/10/2016)
orcamento
Depois de ter ressuscitado,. após um longo período em que andou a fazer de morto, o por enquanto líder do PSD armou-se em NostraPassos e previu uma desgraça lá para Setembro, ao nono mês o ano da graça de Deus de 2016, mês que iria parir uma desgraça nacional, mas a desgraça não aconteceu e o vidente falhado entrou em estado de negação. Para ele a desgraça aconteceu, os seus deputados da primeira fila até acusam o governo de ter falseado os dados da execução orçamental de Setembro.
Não deixa de ter a sua ironia a nova bandeira de Passos Coelho quando acusa o primeiro-ministro de esconder ou de negar a realidade; é uma acusação de alguém que durante meses recusou o estatuto de líder de um dos partidos da oposição, para promover a pantomina do ex-primeiro-ministro no exílio, pantomina que ainda gosta de representar nas horas livres em visitas oficiais que os seus amigos organizam para ele acreditar que ainda é primeiro-ministro. Durante meses Passos recusou-se a ler a constituição e a perceber a realidade política saída das eleições legislativas, nunca imaginou que a esquerda seria capaz de se entender e ainda hoje não percebeu que o que aconteceu.
A liderança do PSD por Passos Coelho, é de um líder sem o fulgor que aparentava quando tinha Relvas ao seu lado e o Estado lha pagava os assessores. Agora é um líder sem ideias, que vive de encenações montadas pelo aparelho local do partido, que lhe proporciona aparições públicas num papel de primeiro-ministro em que todos alinham fazendo-lhe crer que ainda o é. Passos não tem projecto e em vez de fazer oposição ao governo constrói os seus próprio moinhos de vento, convencido de que serão eles a derrubar António Costa.
Passos é uma combinação desajeitada de Nostradamus, de D. Quixote e do Pokémon, sem ideias vive de conjunturas construídas pela sua própria imaginação. Aquele que agora acusa António Costa de negar a realidade, vive de realidades virtuais. Começou por imaginar que a geringonça não iria chegar a acordo, apelou à sua direita europeia para o ajudar a manter-se no governo, apelou à Europa para impor um plano B, ganhou vida quando pensou que Portugal iria ser alvo de sanções por parte da UE, perdeu o sono ante de cada reavaliação da dívida portuguesa por parte das agências de notação, acreditou que a execução orçamental de Setembro levaria o país a um segundo resgate.
Passos não apresenta qualquer programa para o país, não tem propostas para o orçamento, não tem ideias, Passos é o que sempre foi, um político débil e desde que perdeu Relvas e Portas, é um político em estado de negação, para quem a realidade é o seu mundo virtual cheio de moinhos e de Pokémons para apanhar. Quando acusa o primeiro-ministro de não ver a realidade o líder do PSD está a ser sincero, a realidade que Costa não vê é a que ele próprio inventou.

Como perder a memória num ano

(Miiguel Guedes, in Jornal de Notícias, 05/10/2016)

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Uma lição de democracia parlamentar desabou sobre o país há um ano. A “geringonça” está viva e recomenda-se, podendo brindar a um ano de vida (se considerarmos que há vida no útero), desde que não despeje para os copos o champanhe com que Nuno Melo comemorava a saída em falso da troika.


Cedo de mais. Fez prova de vida contra os arautos da desgraça, calou a tese pateta da ilegitimidade, fez história nunca vivida em 40 anos de democracia e está longe de comemorar apenas o facto de estar viva como se fosse entidade de vidro ou plástico. Não sendo cortina de fumo, também estará longe de ser cortina de ferro. Mas, pelo que as sondagens demonstram, bem podem esquecer a estória do pequeno-almoço e das criancinhas. Um ano depois, o CDS mudou de líder, o PSD ainda se encontra a entoar a marcha fúnebre e a “geringonça” não mudou de peças.

Ninguém esperaria que o primeiro ano de legislatura fosse um mar de rosas e cravos. Nada é eterno (nem irrevogável, sabemos) e a solução governativa será duramente posta à prova. Mas enquanto Cavaco Silva terá de nascer duas vezes para pagar o IMI retido durante 15 anos da sua “Gaivota Azul”, a coligação consegue – num ano – aumentar as pensões, reavaliar o salário mínimo, devolver salários na Função Pública, reduzir ou eliminar a sobretaxa no IRS, atenuar a taxa de desemprego e alargar a tarifa social de energia. Quando Passos Coelho refere que este Governo pretende uma “sociedade mais pobre e mais injusta” na perspectiva de que “quem poupa é mau”, lembramo-nos do ex-primeiro-ministro que quis aplicar 3,5% de sobretaxa de IRS ao salário mínimo. Aquele do mesmo PSD que, anos antes, pretendia taxar património imobiliário e levantar o sigilo bancário. E agora, tudo esconjura. Uma lição. Para Passos Coelho, poupar o que não se tem é aforro e a memória é uma desgraça.

Com fronteiras quase indistintas, a falta de memória é parte do que desgraça a Europa, dividida pela agiotagem, conflitos de interesse e pela superioridade moral financeira. Sem reestruturação da dívida, digamos adeus a uma verdadeira solução global de crescimento económico. Com a hipotética concretização das sanções pela suspensão dos fundos estruturais, descongelemos a reconstrução da União Europeia para a queimar de vez. Como se a retirássemos do gelo para a atirar ao fogo. A tal memória. A “geringonça” tem um ano e, pouco depois, Passos Coelho e Paulo Rangel deambulavam por Bruxelas a clamar pelo chumbo do Orçamento português na Comissão Europeia. Era algo injusto. Já éramos todos mais pobres mas Passos Coelho, voz maviosa em tempo de genuflexório, nunca se queixou.


(O autor escreve segundo a antiga ortografia)