Quem falseia a realidade?

(In Blog O Jumento, 15/10/2016)
orcamento
Depois de ter ressuscitado,. após um longo período em que andou a fazer de morto, o por enquanto líder do PSD armou-se em NostraPassos e previu uma desgraça lá para Setembro, ao nono mês o ano da graça de Deus de 2016, mês que iria parir uma desgraça nacional, mas a desgraça não aconteceu e o vidente falhado entrou em estado de negação. Para ele a desgraça aconteceu, os seus deputados da primeira fila até acusam o governo de ter falseado os dados da execução orçamental de Setembro.
Não deixa de ter a sua ironia a nova bandeira de Passos Coelho quando acusa o primeiro-ministro de esconder ou de negar a realidade; é uma acusação de alguém que durante meses recusou o estatuto de líder de um dos partidos da oposição, para promover a pantomina do ex-primeiro-ministro no exílio, pantomina que ainda gosta de representar nas horas livres em visitas oficiais que os seus amigos organizam para ele acreditar que ainda é primeiro-ministro. Durante meses Passos recusou-se a ler a constituição e a perceber a realidade política saída das eleições legislativas, nunca imaginou que a esquerda seria capaz de se entender e ainda hoje não percebeu que o que aconteceu.
A liderança do PSD por Passos Coelho, é de um líder sem o fulgor que aparentava quando tinha Relvas ao seu lado e o Estado lha pagava os assessores. Agora é um líder sem ideias, que vive de encenações montadas pelo aparelho local do partido, que lhe proporciona aparições públicas num papel de primeiro-ministro em que todos alinham fazendo-lhe crer que ainda o é. Passos não tem projecto e em vez de fazer oposição ao governo constrói os seus próprio moinhos de vento, convencido de que serão eles a derrubar António Costa.
Passos é uma combinação desajeitada de Nostradamus, de D. Quixote e do Pokémon, sem ideias vive de conjunturas construídas pela sua própria imaginação. Aquele que agora acusa António Costa de negar a realidade, vive de realidades virtuais. Começou por imaginar que a geringonça não iria chegar a acordo, apelou à sua direita europeia para o ajudar a manter-se no governo, apelou à Europa para impor um plano B, ganhou vida quando pensou que Portugal iria ser alvo de sanções por parte da UE, perdeu o sono ante de cada reavaliação da dívida portuguesa por parte das agências de notação, acreditou que a execução orçamental de Setembro levaria o país a um segundo resgate.
Passos não apresenta qualquer programa para o país, não tem propostas para o orçamento, não tem ideias, Passos é o que sempre foi, um político débil e desde que perdeu Relvas e Portas, é um político em estado de negação, para quem a realidade é o seu mundo virtual cheio de moinhos e de Pokémons para apanhar. Quando acusa o primeiro-ministro de não ver a realidade o líder do PSD está a ser sincero, a realidade que Costa não vê é a que ele próprio inventou.
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E apesar de tudo move-se: a “realidade” ameaçada pelas surpresas

(José Pacheco Pereira, in Público, 16/04/2016)

Autor

                Pacheco Pereira

PSD é o Grande Sacerdote da “realidade” pelo que será sempre o último a perceber. Dizem que o CDS percebeu.


Sim, apesar de tudo, a Terra move-se. Apesar dos “mercados”, apesar do “não há alternativa”, apesar da “realidade”, a nova palavra que a direita usa para qualificar o statu quo quando está no poder ou quer lá chegar. Quando chama Deus para as suas fileiras e chama Deus à “realidade” . Apesar de tudo, move-se. De forma caótica, inesperada, desigual, sem direcção nem sentido, mas, na história que não tem H grande, costuma ser assim. Nada nos garante que se chegue a algum lado, ou que se chegue a um lado melhor, – o mais provável é sempre que se chegue a um lado pior – mas é assim mesmo. Vejam-se várias surpresas que a mudança, ou talvez o Demónio,  faz à “realidade”.

Surpresa – temos em Portugal um governo de “maioria de esquerda”.  A surpresa é tanta que muita gente ainda não percebeu o que se passou, do PS, ao BE, ao PCP, e terminando no PSD, que não só não percebeu o que se passou, como tem enorme dificuldade em aceitar… que a “realidade” é outra. O PSD é o Grande Sacerdote da “realidade” pelo que será sempre o último a perceber. Há quem diga que o CDS percebeu. Vamos ver.

“Realidade” – a radicalização política veio para ficar. Marcelo, o Grande Distensor, faz o que pode, mas rapidamente esgotará o pouco que pode. Não tem a “realidade” do seu lado. Hoje toda a gente quer posicionamento, lados, fileiras, ou estás comigo ou contra mim. Não é de agora, mas como as coisas estão mais cataclísmicas, a parada dos “lados” sobe bastante.

Surpresa – temos Marcelo a Presidente. Pensando bem é mais surpreendente do que parece.

“Realidade” – a Nemesis do governo Costa será aquilo a que hoje chamamos a “Europa”. E não falta muito.

Surpresa – a declaração Costa–Tsipras é um facto inédito na política europeia. Pela primeira vez um governo da União fez coro com os excomungados gregos contra a ideologia da “austeridade”. Pode não valer muito face aos poderosos do Eurogrupo mas irritou-os certamente. Como o governo Costa não poderá nunca esperar mais do que alguma cosmética desses zeladores da ortodoxia do “ajustamento”, irrita-los não é irrelevante.

Surpresa ou “realidade”? – eu ainda sou capaz de me surpreender com a patetice de um partido que, no meio da tempestade, que pelos vistos não vê no horizonte, acha relevante conduzir uma causa “fracturante” contra um papel, o Cartão do Cidadão, em nome do “combate ao sexismo”.

“Realidade” – é uma vergonha, para não lhe chamar outra coisa, ver a logomaquia sobre a “legalidade” dos offshores. Os offshores não são uma anomalia abusiva da “realidade” dos “mercados”, são uma coisa absolutamente aceitável e defensável para quem tem dinheiro, e pode fazer “planeamento fiscal”. Os offshores só são ofensivos para quem está do lado errado do “ajustamento”. Vai ficar tudo na mesma.

“Realidade” –  a “mudança” de política, proclamada pelos jornalistas depois do último Congresso do PSD, não existiu. O PSD actua em todos os casos como se a jugular do governo Costa estivesse a latejar ao seu lado. As palavras do Congresso não disfarçam o estilo. São bons tempos para os “novos” PSD como Carlos Abreu Amorim.

Surpresa – não temos governo em Espanha, nem parece que venhamos a ter nos tempos mais próximos. Os novos partidos Ciudadanos e Podemos não conseguem chegar ao poder, o PSOE consegue ser ainda mais reaccionário do que o PS, e o PP ameaça ir parar todo à cadeia ou carregar o fardo dos offshores. Já é menos surpresa o efeito bloqueador da questão independentista, mas mesmo assim atingiu nos últimos anos um patamar de tudo ou nada.  A Espanha é o exemplo mais flagrante de como os anos do “não há alternativa” minaram o sistema político democrático e o tornaram disfuncional.

Surpresa – temos um candidato às eleições americanas, Bernie Sanders, que tem conseguido resultados consideráveis para a nomeação do Partido Democrático que diz que é “socialista” e muitos eleitores votam nele. Nos EUA é da ordem do milagre.

Surpresa – temos um candidato à nomeação republicana, Trump,  que é ao mesmo tempo amigo de Putin e inimigo de quase todos os amigos dos EUA (os países europeus da OTAN, os aliados árabes, os turcos, os moderados latino-americanos, etc.). Ele não chegará lá, mas isto chama-se brincar com o fogo.

Surpresa – temos um candidato à nomeação republicana, Trump, que levou o populismo para muito além do Tea Party, deixando a elite republicana, ela própria “feita” pelo Tea Party, a parecer moderada. Quando olho para a cara de um homem como Ted Cruz, um puro produto do radicalismo republicano dos últimos anos, acho que Deus escreve direito com linhas muito tortas.

“Realidade” – conseguimos tornar a política ocidental (EUA, Reino Unido, França) no Médio Oriente ainda mais confusa e sem saída do que tem sido nas últimas décadas.

“Realidade” – os turcos estão a ficar cada vez mais “islamizados” dentro e permanecem “ataturkianos” fora e por isso atacam os curdos com um vigor que nunca tiveram contra o ISIS. A herança de laicidade do estado turco, assente nas Forças Armadas, tornava a Turquia na excepção no mundo muçulmano. Agora, está cada vez menos ataturkiana com Erdogan, mas cada vez mais nacionalista ou pan-turca. Para a Europa, mostra o grande erro de ter prometido à Turquia entrar para a União, e depois tirar-lhe o tapete. Para os EUA, para quem os curdos são o principal aliado na luta no terreno contra o ISIS e um factor estabilizador no Iraque, esta evolução da Turquia é um desastre

Surpresa – a Rússia conduz uma das políticas externas mais eficazes dos dias de hoje. A começar pela Síria. Usando todos os meios, determinação, habilidade, inteligência, diplomacia e força.

“Realidade” – a Rússia com Putin faz aquilo que os bolcheviques fizeram com a política externa czarista: mantiveram os objectivos tradicionais da política russa assegurando o que consideram a sua zona de influência. Não admira que polacos e bálticos estejam muito preocupados, e que pensem muitas vezes no célebre provérbio polaco: “troco a minha gloriosa história por uma melhor geografia”.

Surpresa – a “realidade” nunca ganha. Pode atrasar, pode fazer a vida negra a muita gente, pode causar enormes desperdícios e destruições, mas nunca ganha porque é a-histórica, não é do domínio da natureza, mas da teologia, está para a astronomia como a astrologia, é um desejo de mandar em nome de uma ordem “natural” que não existe na natureza. Até a “mão invisível” lhes faz partidas.

E apesar de tudo move-se: a "realidade" ameaçada pelas surpresas

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(José Pacheco Pereira, in Público, 16/04/2016)

Autor

                Pacheco Pereira

PSD é o Grande Sacerdote da “realidade” pelo que será sempre o último a perceber. Dizem que o CDS percebeu.


Sim, apesar de tudo, a Terra move-se. Apesar dos “mercados”, apesar do “não há alternativa”, apesar da “realidade”, a nova palavra que a direita usa para qualificar o statu quo quando está no poder ou quer lá chegar. Quando chama Deus para as suas fileiras e chama Deus à “realidade” . Apesar de tudo, move-se. De forma caótica, inesperada, desigual, sem direcção nem sentido, mas, na história que não tem H grande, costuma ser assim. Nada nos garante que se chegue a algum lado, ou que se chegue a um lado melhor, – o mais provável é sempre que se chegue a um lado pior – mas é assim mesmo. Vejam-se várias surpresas que a mudança, ou talvez o Demónio,  faz à “realidade”.

Surpresa – temos em Portugal um governo de “maioria de esquerda”.  A surpresa é tanta que muita gente ainda não percebeu o que se passou, do PS, ao BE, ao PCP, e terminando no PSD, que não só não percebeu o que se passou, como tem enorme dificuldade em aceitar… que a “realidade” é outra. O PSD é o Grande Sacerdote da “realidade” pelo que será sempre o último a perceber. Há quem diga que o CDS percebeu. Vamos ver.

“Realidade” – a radicalização política veio para ficar. Marcelo, o Grande Distensor, faz o que pode, mas rapidamente esgotará o pouco que pode. Não tem a “realidade” do seu lado. Hoje toda a gente quer posicionamento, lados, fileiras, ou estás comigo ou contra mim. Não é de agora, mas como as coisas estão mais cataclísmicas, a parada dos “lados” sobe bastante.

Surpresa – temos Marcelo a Presidente. Pensando bem é mais surpreendente do que parece.

“Realidade” – a Nemesis do governo Costa será aquilo a que hoje chamamos a “Europa”. E não falta muito.

Surpresa – a declaração Costa–Tsipras é um facto inédito na política europeia. Pela primeira vez um governo da União fez coro com os excomungados gregos contra a ideologia da “austeridade”. Pode não valer muito face aos poderosos do Eurogrupo mas irritou-os certamente. Como o governo Costa não poderá nunca esperar mais do que alguma cosmética desses zeladores da ortodoxia do “ajustamento”, irrita-los não é irrelevante.

Surpresa ou “realidade”? – eu ainda sou capaz de me surpreender com a patetice de um partido que, no meio da tempestade, que pelos vistos não vê no horizonte, acha relevante conduzir uma causa “fracturante” contra um papel, o Cartão do Cidadão, em nome do “combate ao sexismo”.

“Realidade” – é uma vergonha, para não lhe chamar outra coisa, ver a logomaquia sobre a “legalidade” dos offshores. Os offshores não são uma anomalia abusiva da “realidade” dos “mercados”, são uma coisa absolutamente aceitável e defensável para quem tem dinheiro, e pode fazer “planeamento fiscal”. Os offshores só são ofensivos para quem está do lado errado do “ajustamento”. Vai ficar tudo na mesma.

“Realidade” –  a “mudança” de política, proclamada pelos jornalistas depois do último Congresso do PSD, não existiu. O PSD actua em todos os casos como se a jugular do governo Costa estivesse a latejar ao seu lado. As palavras do Congresso não disfarçam o estilo. São bons tempos para os “novos” PSD como Carlos Abreu Amorim.

Surpresa – não temos governo em Espanha, nem parece que venhamos a ter nos tempos mais próximos. Os novos partidos Ciudadanos e Podemos não conseguem chegar ao poder, o PSOE consegue ser ainda mais reaccionário do que o PS, e o PP ameaça ir parar todo à cadeia ou carregar o fardo dos offshores. Já é menos surpresa o efeito bloqueador da questão independentista, mas mesmo assim atingiu nos últimos anos um patamar de tudo ou nada.  A Espanha é o exemplo mais flagrante de como os anos do “não há alternativa” minaram o sistema político democrático e o tornaram disfuncional.

Surpresa – temos um candidato às eleições americanas, Bernie Sanders, que tem conseguido resultados consideráveis para a nomeação do Partido Democrático que diz que é “socialista” e muitos eleitores votam nele. Nos EUA é da ordem do milagre.

Surpresa – temos um candidato à nomeação republicana, Trump,  que é ao mesmo tempo amigo de Putin e inimigo de quase todos os amigos dos EUA (os países europeus da OTAN, os aliados árabes, os turcos, os moderados latino-americanos, etc.). Ele não chegará lá, mas isto chama-se brincar com o fogo.

Surpresa – temos um candidato à nomeação republicana, Trump, que levou o populismo para muito além do Tea Party, deixando a elite republicana, ela própria “feita” pelo Tea Party, a parecer moderada. Quando olho para a cara de um homem como Ted Cruz, um puro produto do radicalismo republicano dos últimos anos, acho que Deus escreve direito com linhas muito tortas.

“Realidade” – conseguimos tornar a política ocidental (EUA, Reino Unido, França) no Médio Oriente ainda mais confusa e sem saída do que tem sido nas últimas décadas.

“Realidade” – os turcos estão a ficar cada vez mais “islamizados” dentro e permanecem “ataturkianos” fora e por isso atacam os curdos com um vigor que nunca tiveram contra o ISIS. A herança de laicidade do estado turco, assente nas Forças Armadas, tornava a Turquia na excepção no mundo muçulmano. Agora, está cada vez menos ataturkiana com Erdogan, mas cada vez mais nacionalista ou pan-turca. Para a Europa, mostra o grande erro de ter prometido à Turquia entrar para a União, e depois tirar-lhe o tapete. Para os EUA, para quem os curdos são o principal aliado na luta no terreno contra o ISIS e um factor estabilizador no Iraque, esta evolução da Turquia é um desastre

Surpresa – a Rússia conduz uma das políticas externas mais eficazes dos dias de hoje. A começar pela Síria. Usando todos os meios, determinação, habilidade, inteligência, diplomacia e força.
“Realidade” – a Rússia com Putin faz aquilo que os bolcheviques fizeram com a política externa czarista: mantiveram os objectivos tradicionais da política russa assegurando o que consideram a sua zona de influência. Não admira que polacos e bálticos estejam muito preocupados, e que pensem muitas vezes no célebre provérbio polaco: “troco a minha gloriosa história por uma melhor geografia”.
Surpresa – a “realidade” nunca ganha. Pode atrasar, pode fazer a vida negra a muita gente, pode causar enormes desperdícios e destruições, mas nunca ganha porque é a-histórica, não é do domínio da natureza, mas da teologia, está para a astronomia como a astrologia, é um desejo de mandar em nome de uma ordem “natural” que não existe na natureza. Até a “mão invisível” lhes faz partidas.]]>