UM LÍDER MAL PREPARADO?

(In Blog O Jumento, 17/03/2018)
rio
Rui Rio é o líder partidário que esteve mais tempo a preparar a sua candidatura à liderança do PSD, durante anos dedicou-se a “fazer a cama” a Passos Coelho. Era suposto que ao fim de anos de preparação soubesse o que queria, fosse claro nas matérias e opções em que se demarca do seu antecessor, tivesse constituído uma equipa experiente e que conhecesse bem. Mas nada disto parece suceder até parece que Rui Rio chegou à liderança do PSD só porque se lembrou de vir a Lisboa dar quilómetros de estrada ao seu velho Simca.
O caso do “scholar visitor” revela muita incoerência e alguma falta de inteligência. O secretário-geral do PSD não deve ter a coerência de Rui Rio em grande conta, se assim não fosse ter-se-ia lembrado que não sabe onde fica a Califórnia e quando foi convidado para secretário-geral do PSD teria dito que não ou informado Rui Rio que tinha telhas muitas frágeis no seu telhado. Preferiu achar que o discurso da ética era para inglês ver e quando foi denunciado disse umas baboseiras.
Rio deveria ter percebido, desde a primeira hora, que estava perante uma falha ética demasiado grave para sugerir que se enquadrava nos golpes de que estava à espera.Na posse de todos os dados Rui Rio mandou os seus valores da ética às urtigas e preferiu fazer os portugueses de parvos. Acabou por se dar muito mal e ao fim de mais de uma semana acabou por entender aquilo que alguém com uma inteligência mediana percebeu na primeira hora.
Como se tudo isto não bastasse, Rio em vez de dar a cara e ao lado do seu secretário-geral informar que aceitou o seu pedido de resignação, optou por uma jogada digna de um pequeno Estaline com sotaque da Foz. Desapareceu, mandou um vice empurrar pela borda fora e fez constar nos jornais que esperava que o pobre diabo se cremasse em público. Enfim, uma forma muito ética de resolver os problemas que ele próprio ajudou a criar.
É cada vez mais óbvio que Rui Rio pode ser um grave problema de casting, um mês depois do congresso só cometeu erros; desde a sua chegada à liderança do PSD que só se aproveitam os momentos prolongados de silêncio. Não admira que suba ligeiramente nas sondagens, todos os políticos que não se deixam ver têm uma boa imagem. O problema é que ninguém ganha eleições estando em parte incerta, com um secretário-geral criativo, e vice-presidentes que parece terem sido escolhidos por estarem disponíveis para jogadas sujas.

A zona cinzenta

(Pacheco Pereira, in Público, 24/02/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Há um problema na política em democracia, e na política portuguesa em particular, que só se resolve com as pessoas. Nem as leis, nem muitas vezes uma lista de boas práticas, nem controlos burocráticos, são eficazes para o resolver. E, sem se darem passos para o resolver, não se consegue mitigar a pressão populista, nem prestigiar a vida política ou o exercício de cargos públicos.

Qualquer pessoa que tenha experiência política ou que conviva com a vida pública, mesmo para lá da política, nas instituições e no Estado, sabe que há muitas práticas que, não sendo ilegais, são inaceitáveis em si mesmas e por maioria de razão para a imagem das instituições e dos homens. Refiro-me a esta coisa tão simples: o acesso a determinados tipos de poder, quase sempre pequenos poderes, permite utilizar lugares e funções em proveito próprio ou dos próximos.

Insisto: não estou a falar de crimes, nem mesmo na maioria dos casos de evidentes ilegalidades — estou a falar de abusos e aproveitamentos, infelizmente tão comuns na vida pública portuguesa. Conheci muita gente, e não é retórica o “muita”, que quando acede a um lugar ou um cargo deixa de ter a economia que a maioria das pessoas sem poder tem. Arranja maneira de quase todas as despesas pessoais e nalguns casos dos seus familiares e próximos serem cobertas por dinheiros públicos, aumenta-se a si própria, de forma directa ou indirecta, através de alcavalas ou de prebendas, usa o poder que tem para beneficiar amigos, familiares ou pessoas a quem se devem favores ou se quer que fiquem a dever favores.

Os instrumentos usados são muitas vezes meios que seriam legítimos em si mesmos — na verdade, ninguém deve “pagar” para ter um cargo, suportando despesas que lhe são inerentes e tem direito a que lhe paguem viagens, despesas de deslocações e estadia ou outras do mesmo género. Mas outra coisa é usar cada um destes direitos para os “aproveitar” para melhorar o seu trem de vida, com mil e uma pequenas (às vezes grandes) entorses ao que devia ser, sendo pagos por viagens e despesas hipotéticas com critérios que maximizam o que se recebe, sem apresentação de documentação, porque se está muitas vezes numa posição em que existe um poder discricionário para decidir pagamentos e prescindir de comprovativos. É isso que muitas auditorias infelizmente revelam, mesmo quando não há aparentes ilegalidades.

Essas pessoas acham que isso é “natural”, não pensam que exista qualquer problema e que é uma espécie de direito próprio e conhecem mil e um truques para maximizarem os seus “aproveitamentos”. No caso do Parlamento Europeu, eu só percebi muitas das práticas habituais que se passavam à minha volta quando estava para me vir embora, porque quem as conhecia escondia-as. Algumas eram conhecidas e muitas vezes motivo de escândalo, como seja o emprego de familiares como assessores, nalguns casos pagando a uma única pessoa que ganhava o que devia financiar um gabinete, assim como a utilização de transportes e viagens desnecessárias, quando estas eram pagas por um preço simbólico, acima do valor real.

Algumas dessas práticas foram sendo corrigidas, e hoje não são possíveis, outras continuam. E muito dos aproveitamentos tinham também que ver com práticas absurdas destinadas a garantir para alguns deputados de países mais pobres condições de igualdade, com os dos mais ricos, mas quase sempre feitas de forma enviesada e hipócrita para não dar azo à pressão populista — e na maioria dos casos esses disfarces, aceites e propostos pela própria instituição, tinham o efeito contrário do pretendido. Como muitas vezes defendi e defendo, mais vale não ser hipócrita e pagar mais e melhor de forma transparente e equilibrada, salários e benefícios, do que andar com estratagemas  destinados a enganar as pessoas, que são exactamente aqueles que permitem muitos abusos, tudo inteiramente legal. Talvez por isso eu tenha uma grande susceptibilidade ao aproveitamento dos cargos para daí se retirarem benefícios pessoais, insisto dentro da lei, ao mesmo tempo que defendo que os cargos políticos e públicos tenham remunerações dignas numa hierarquia de serviços, funções e de autoridade que precisam também de ter reflexo naquilo que se ganha.

Este é um aspecto fundamental — é que não se trata de crimes ou ilegalidades, mas daquilo a que chamo “zona cinzenta”. Antes usava-se uma expressão que me parece ambígua, a da “ética republicana”, para exemplificar comportamentos que deveriam ser os eticamente aceitáveis, com recusa de abusos, mesmo quando eram legais. A mais sinistra e comprometedora das respostas a esta questão da “ética republicana” foi a de um ex-ministro do PS que, quando acusado de desmandos, respondeu que no seu entender a “ética republicana é a lei”.

Não, não é. É mais do que isso, é “ética”, é seguirem-se regras não escritas de forma sensata e sem exageros moralistas, mas com a compreensão de que se está  a lidar com dinheiros públicos ou de natureza semelhante e uma certa severidade no seu uso é exigível — como quem respira. E é também por isso que não adianta dar a resposta tradicional sempre que se conhece um novo abuso, que é legislar, aumentar o emaranhado de leis e procedimentos. A única forma eficaz é acentuar o valor dos comportamentos individuais e escolher para as funções mais delicadas quem não transija com este tipo de práticas e ache que a “ética republicana” está muito para além da lei. Basta uma pessoa destas num lugar em que pode escolher pessoas vetar outras e não deixar impunes no plano público esta “zona cinzenta” que vale mais do que mil leis.

O problema com uma nova direcção política como a que é hoje responsável pelo PSD (mas o mesmo se passa com o PS) é que não pode ser laxista com estas questões. Rio tem uma fama muito difícil de obter na vida política de honestidade e probidade. É um dos adquiridos mais poderosos e ao mesmo tempo mais frágeis, mais fácil de perder. Por isso, a pior das polémicas é sobre as suas escolhas para a sua equipa de pelo menos um caso em que esta “zona cinzenta” de aproveitamento está mais do que documentada e de forma incontroversa, como é o caso da antiga bastonária da Ordem dos Advogados. Pode não haver ilegalidades, mas não é aceitável que alguém em plena crise económica tenha aumentado o seu salário de forma discricionária, contrate amigos e próximos sem concurso e aí concentre milhares de euros dos recursos de uma instituição pública. E a obrigação era informar, quando foi convidada, de que havia esta “sombra”, porque é impossível que a própria não o soubesse e agora se vitimize. Fez mal ao PSD, a Rui Rio e à sanidade da vida política, e nada a impedia de esperar e, quando tudo estivesse esclarecido, então dizer: estou agora disponível para aceitar qualquer convite.

É que nestas matérias não há segundas oportunidades para conseguir uma boa impressão, pelo que, mesmo com o risco de cometer pelo caminho algumas injustiças, só se pode lidar com intransigência com esta matéria. Ora, esta intransigência faz muita falta aos partidos políticos, nos quais há uma cultura de laxismo face a estas coisas e mesmo quem não as faz permite-as.

O que é preocupante na vida política é que no último congresso do PSD essa antiga bastonária da Ordem dos Advogados, membro da direcção de Rio, foi vaiada por ter tido posições contra Passos Coelho e o seu Governo, mas nunca seria vaiada por aquilo que poderia justificar essa mesma vaia, as suas práticas de aproveitamento pessoal nessa mesma “zona cinzenta” de que estou a falar. Esta é a cultura que Rio prometeu submeter a um “banho de ética”, porque ele sabe e conhece muito bem que esta é a cultura que infelizmente domina a vida política.

O que querem os homens?

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 10/11/2017)

assédio

Num ano sem eleições presidenciais na fabulosa e hoolywoodesca América, a October surprise foi protagonizada pelas mulheres que denunciaram a conduta sexual de Harvey Weinstein. O próprio reconheceu a veracidade desses testemunhos, iniciando-se com a queda desse gigante da indústria cinematográfica uma avalanche de casos similares com outras figuras do mundo do espectáculo. Corrente que não se sabe quando nem onde irá parar. Aliás, a dimensão do fenómeno é tal que a perspectiva de se descobrirem “oficialmente” os “podres” da maioria das estrelas consagradas seja qual for a sua área de actividade profissional, obrigando ao seu ostracismo e ao apagamento da sua memória, já não surge como um cenário de desvairada ficção à luz do que se está a fazer com Weinstein e Kevin Spacey.

Estamos a assistir a um momento de mudança de paradigma? Foda-se, claro que sim. Basta analisar o caso inicial, o qual era do conhecimento generalizado do meio durante décadas e que só foi denunciado nesta altura – apesar de tantas mulheres, e tão poderosas no seu estatuto e recursos financeiros, terem sido vítimas ou saberem dos abusos. Apenas uma coerção social tácita, nascida de um calculismo dominante, explica o prolongamento e extensão dos actos de alguém tão exposto pela sua notoriedade e descontrolo. Portanto, independentemente do imprevisível desfecho judicial e das voláteis convulsões morais, a dimensão social parece suficientemente alterada para levar a uma mudança cultural.

Seguir-se-á uma nova era, sendo que por agora a sexualidade masculina é o novíssimo continente desconhecido. Como se pode constatar neste artigo – Why men use masturbation to harass women – os especialistas consultados não fazem sequer a mínima ideia do que poderá estar a gerar comportamentos como os atribuídos ao hilariante LOUIS C. K. Porém, a resposta encontra-se à vista dos curiosos, basta assistir aos seus números em palco para tropeçar em conteúdos retintamente pessoais. E pode-se logo agarrar numa primeira questão: será possível separar a qualidade do seu humor, a eficácia dos seus quadros teatrais, do drama em gente onde o material criativo é arrancada da sua privacidade? Teremos de inverter a vexata questio freudiana, “O que querem as mulheres?”, e darmos atenção a estoutra, potencialmente ainda mais enigmática, “O que querem, afinal, os homens famosos e poderosos que batem pívias à frente do mulherio?”

Todos os homens são sexualmente predadores. Se não o forem, algo de errado se estará a passar. Não há moral nesta realidade, apenas biologia. Uma mulher não poderá jamais saber em que consiste esse estado – ou seja, a mulher não sabe o que é ter “tesão” – tal como um homem não poderá jamais saber o que seja ter o período ou estar grávido. Assim, as mulheres não compreendem o desejo masculino, embora se adaptem com maior ou menor facilidade a ele. Igualmente, os homens não entendem o desejo feminino, e, acima e antes de tudo, não concebem que a mulher possa ter uma radicalmente diferente motivação e dinâmica sexual. Era aqui que o tio Freud patinava, projectando na fêmea o seu masculino e, portanto, redutor e erróneo entendimento do que seja a experiência feminina. Este estado predatório nos homens não é uma escolha, antes uma condição que a biologia e a cultura têm ambas reforçado. O falocentrismo que origina nasce tanto da exterioridade anatómica do pénis como da procura das recompensas químicas geradas nos cérebros masculinos com a fácil ejaculação e, por fim, cristaliza-se numa celebração simbólica inserida numa “luta de géneros” muito parecida com uma luta de classes.

Há uma história imensa por contar. É a história do homem como sexo fraco. E ridículo. Por isso, violento. Por isso, violentador por exigência mecânica. E tão periclitante e efémero na sua erecção sempre triunfal. Que seria deste mundo se as mulheres contassem tudo o que sabem desses seres a quem suportam a fragilidade logo na família, tantas vezes, e ao longo de toda a vida, quase sempre?

Elas ainda não estão capazes de contar o que testemunham directa e indirectamente. Na família, nos amigos, nas festas, no emprego, nas férias, nos consultórios, nas saídas, nas conversas, nos quartos. Mas tinha de se começar por algum lado. Começou-se por um celebérrimo ogre. Só que esse, paradoxalmente, era um alvo fácil. Venham os mais difíceis, os ogres que as mulheres amam. Os ogres que as mulheres perdoam. Os ogres que as mulheres protegem.


Fonte aqui