Salvem os homens!

(António Guerreiro, in Público, 15/06/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Quando, há poucas semanas, foi revelado um estudo que mostra que as mulheres em Portugal ganham menos do que os homens e estão sub-representadas nos postos de chefia, havia também aí uma informação implícita: a de que é grande a força da inércia, mantendo assim uma situação que irá chegar ao fim em pouco tempo porque já não há nada que a legitime e mantenha viva essa força; quando, na semana passada, foi anunciada a composição do novo governo espanhol, com mais ministras do que ministros, não havia razão nenhuma para percebermos essa novidade como demagógica inflação ideológica, mas como uma correspondência com a verdade do mundo em que vivemos.

A dominação masculina chegou ao seu fim, sem o estrondo de uma revolução, muito embora seja uma verdadeira revolução que veio interromper, no nosso tempo, o curso do mundo. Sociólogos e historiadores falarão, a propósito deste declínio surpreendente, na extinção da família em que se baseava o patriarcado e no esvanecimento da “lei do Pai” ou, literalmente, da própria figura do pai (quem não conhece hoje mulheres solteiras, com um filho ou mais, que abdicaram de atribuir uma função e pedir responsabilidades ao pai da criança?).

Eu preferia falar, aqui, de um outro fenómeno que é, desde há algum tempo, objecto de estudo: o falhanço dos rapazes, na escola, em comparação com o sucesso das raparigas (nesse estudo sobre o défice salarial das mulheres em Portugal, era também revelado este novo dado: as mulheres têm mais habilitações escolares e académicas do que os homens), o que já levou alguns governos a estudar a hipótese de criar quotas masculinas para alguns cursos.

Nos países ocidentais, a situação é esta: os rapazes atingem um nível de formação menos elevado, preferem fazer estudos mais breves e abandonam com mais frequência o percurso escolar. Segundo dados oficiais, em França, 43% dos alunos masculinos chumbam nas provas do final do ensino secundário (o baccalauréat), contra 20% das alunas; dois terços dos jovens que saem sem qualificação do sistema escolar são rapazes; nos Estados-Unidos, na Inglaterra, na América do Sul e mesmo na Ásia Central, as mulheres são maioritárias na Universidade. Na Austrália, tal como na maior parte dos países europeus, a diferença entre o número de homens e o número de mulheres que obtêm um diploma é de 10%  a favor das mulheres; e, na Noruega, essa diferença é de 18% .

Estes números são fornecidos num artigo assinado por Martin Dekeiser no último número (Maio-Agosto), da revista francesa Le débat. Nesse artigo, que faz parte de um dossier sobre Le maculin en révolution, somos ainda informados de que nos países mais desenvolvidos os homens começam a ter mais dificuldade em arranjar emprego do que as mulheres e de que nos Estados-Unidos, de 1970 até hoje, a contribuição das mulheres americanas para a economia doméstica passou de 7% para 43%.

Porquê este desinvestimento escolar dos rapazes e a cadeia de consequências que dele advém? Porque é que há uma tal diferença de atitude em relação à escola e à sociedade? Porque é que as raparigas com origem nos meios pobres são muito mais bem sucedidas do que os seus congénere masculinos na elevação social? As respostas a estas perguntas são ainda muito hesitantes, mas o que é de ciência certa é que a imaturidade prolongada é hoje uma marca muito mais saliente nos homens do que nas mulheres.

Eles tendem a ser incapazes de assumir a plena responsabilidade sobre o seu modo de vida. Não se trata daquela cultura “jovem”, que depois da Segunda Guerra inventou a adolescência como categoria sociológica e cultural. Trata-se antes de uma juventude retardada, só representável enquanto patologia social.

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Se as mulheres mandassem no mundo ele seria melhor?

(Paula Cosme Pinto, in Expresso Diário, 11/06/2018)

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Imaginemos que um dia as mulheres acordavam com a possibilidade física de infligir uma dor atroz a alguém, ou até mesmo matar, com um simples estalar de dedos. E imaginemos que os homens não tinham esse poder. Como seria o mundo se os papéis de superioridade física se alterassem, e isso servisse de catapulta para uma alteração de statu quo entre homens e mulheres? Com as mulheres em posição de poder sobre os homens o mundo seria mais justo e equilibrado ou nem por isso? Esta reflexão já foi feita e o resultado é verdadeiramente perturbador.

O resumo que fiz em cima é o ponto de partida para o livro “O Poder”, de Naomi Alderman, que acaba de chegar a Portugal pela mão da Saída de Emergência. Li-o há uns meses ainda na versão em inglês e posso dizer-vos que é um verdadeiro murro no estômago, o tipo de livro que tem o condão de nos pôr a pensar nos mecanismos do poder e na essência do ser humano, para além do sexo com que se nasce. À partida podemos achar que a alteração da questão da superioridade física, que, historicamente, tem servido de rastilho para muitas das restantes formas de superioridade dos homens sobre as mulheres, poderia encaminhar-nos para um mundo mais igualitário. Mas será que a inversão dos papéis teria esse condão da bonança? Ou será também essa expectativa uma forma estereotipada de olharmos para as mulheres enquanto seres inatamente mais emotivos, harmoniosos e detentores de compaixão? Poderia ser esta alteração de protagonistas apenas um ponto de partida para uma nova abordagem ao abuso de poder?

Nesta distopia – publicamente aplaudida por Margaret Atwood, por exemplo – Naomi Alderman é exímia a mostrar-nos quão rápida poderia ser a alteração do mundo em que vivemos se as mulheres não tivessem mais de temer pela sua integridade física. De repente olhamos para uma Arábia Saudita onde as mulheres tiram a burca e começam a sua revolução, exigindo os direitos que lhes são devidos enquanto seres humanos, e tudo isto nos parece incrível. Tal como nos parece incrível que um grupo de mulheres vítimas de tráfico humano e exploração sexual na Europa de leste consiga escapar a anos de tortura com um simples estalar de dedos. Há momentos em que começamos até mesmo a sentir um certo prazer na possibilidade de vingança quando pensamos nas milhares de pessoas vítimas destes esquemas, escravizadas em pleno século XXI por homens que as tratam como gado. Confesso que pelo menos eu cheguei mesmo a sentir um certo regozijo quando me deparei com a cena de uma adolescente que é continuamente abusada sexualmente pelo próprio pai, e que o consegue matar em vez de ter de passar por mais uma nova violação.

São muitas as situações relatadas neste livro que nos fazem rapidamente pensar: era mesmo disto que precisávamos para que o mundo fosse um lugar melhor para quem nasce mulher. Mas ao mesmo tempo que Naomi Alderman nos faz pensar nas maravilhas que isto do fim da superioridade física masculina poderia operar nas estruturas de poder, que servem de alavanca a múltiplas formas de discriminação do sexo feminino, faz-nos também imaginar como poderia ser para os homens viverem constantemente com medo. Imaginemos então homens que passam a temer andar sozinhos na rua em sítios ermos ou à noite. Homens que temem passar por grupos de mulheres porque podem ser violados em grupo. Rapazes que passam a ter medo de frequentar escolas mistas, por exemplo, porque temem que as raparigas os possam magoar. Maridos que passam a ter medo das mulheres porque uma discussão pode escalar para uma cena de violência física em que elas ganham sempre graças à dor que conseguem facilmente infligir.

ERA MAIS FÁCIL FAZER UM LIVRO COM MULHERES HEROÍNAS

Estes são apenas alguns dos exemplos mais suaves, porque neste mundo hiptotético, a inversão do poder tem o condão de direcionar boa parte da população para a vingança. E o cenário, acreditem, pode ser bem pior. Imaginemos então um mundo onde surgem novas religiões agarradas ao dogma da Grande Mãe, usando as redes sociais para espalhar a “palavra da Senhora” em jeito de lavagem cerebral das massas. Um mundo onde os cargos de liderança política começam a ser maioritariamente femininos, tal como a composição das forças armadas. Um mundo onde se fazem golpes de Estado, e que por uma questão de segurança contra os ‘rebeldes do sexo masculino’, todos os homens ficam proibidos de ter passaporte, e obrigatoriamente sob a alçada de uma guardiã feminina. Um mundo onde mulheres escravizam e traficam homens. Um mundo onde os homens são tratados entre o abuso e a condescendência. Ou seja, um mundo onde muito do que acontece nos dias de hoje se repete, mas com os papéis invertidos, sempre com a desculpa de que o passado nos mostra que “se os homens discriminaram as mulheres durante séculos, não são dignos de confiança” e devem, portanto, ser considerados cidadãos de segunda. Tratados de forma diferenciada no que toca aos seus direitos, oportunidades e dignidade.

Naomi Alderman poderia ter optado pela forma mais fácil de fazer isto e descrever-nos um mundo idílico, onde as mulheres surgiam simplesmente como grandes heroínas, capazes de tornar as suas sociedades em sítios mais tolerantes, harmoniosos e equilibrados graças a todos os erros de que foram alvo durante séculos de existência. Mas isso continuaria a ser uma distopia bastante improvável. O caminho que esta escritora norte-americana escolhe é de longe mais pertubador, mas possivelmente mais próximo da realidade da natureza humana. Deixando claro que o grande problema nestas matérias passa sempre pelo usufruto do poder, quando este pende só para um lado da balança. Quem o tem não o quer perder porque teme o que lhe pode acontecer se estiver na situação contrária. E assim se vão alimentando as malhas da rede que permite que os privilegiados assim o sejam sempre, sem prejudicar o equilíbrio do desequilíbrio deste tabuleiro.

Embora depois de tudo que descrevi (e só não conto mais porque não quero ser spoiler), é talvez difícil compreender quão feminista é este livro. Mas é. Toda a construção da narrativa nos leva a relembrar não só as subtilezas das desigualdades do mundo contemporâneo entre géneros, como também nos leva a pensar sobre quão importante é levar a sério o feminismo enquanto ideologia que defende a igualdade de direitos, oportunidades e dignidade entre homens e mulheres. Em jeito de lição a não esquecer: o feminismo passa por repartir deveres e privilégios de forma equilibrada e igualitária, e nunca por retirar direitos a nenhuma das partes.

Sim, o feminismo passa obviamente por percebermos e assumirmos que as mulheres têm sido amplamente discriminadas ao longo da história até aos dias de hoje. Mas passa também por percebermos que parte dessa discriminação assenta em estereótipos e expectativas sociais distintas que recaem também sobre o sexo masculino, e que lhe são prejudiciais, embora noutras dimensões e com outras consequências. Passa por percebermos que não se trata de simplesmente transferirmos o poder de um lado para o outro, ou de mudarmos os protagonistas nisto de quem oprime e de quem é oprimido.

O feminismo passa por incluir homens e mulheres num diálogo aberto e abrangente que nos encaminhe para um mundo onde nenhum dos lados tema perder a tal posição de poder. Porque se existe alguma forma de equilíbrio entre pessoas, ela está no poder partilhado. Um poder que nos vê a todos como pares, independentemente do nosso género, etnia, orientação sexual, estatuto económico e demais fatores que ainda nos diferenciam, estigmatizam e espartilham enquanto seres humanos.

Sem surpresas, este livro já está a ser transformado numa série televisiva. Até lá, aproveitem as férias para uma leitura. Vale a pena refletir sobre isto.

 

“As princesas não fumam”, diz o nosso Ministério da Saúde

(Paula Cosme Pinto, in Expresso Diário, 31/05/2018)

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(Mas que pirosice de campanha. Quem é que acha que as mulheres ainda querem ser princesas à espera do príncipe encantado e casar com vestido branco e ramo de flores de laranjeira? Será que levantar de madrugada, apanhar transportes públicos, marchar para um trabalho mal pago, regressar a casa estafada, fazer o jantar, tratar das crianças e dormir a correr, não fará mais mal do que o cigarro? É que é esta a vida quotidianamente repetida de muitas mulheres. Quando se fará também uma campanha a denunciar tal realidade?

Comentário da Estátua, 31/05/2018)


Deixe de Fumar. Opte por Amar Mais”. Eis o título da campanha antitabagismo dirigida às mulheres portuguesas, promovida pelo Ministério da Saúde. É impressionante como quando se quer chegar ao sexo feminino, se cai tão facilmente no cliché do apelo ao amor, às emoções, à culpa e à maternidade. A sério que não conseguimos fazer melhor do que um vídeo melodramático, que mostra uma mulher com cancro do pulmão, em fase terminal, a sentir-se culpada pelo mau exemplo que deu à filha por ter sido fumadora? Tirando o mote da mesma (porque os números de consumo de tabaco em Portugal são preocupantes), está tudo errado nesta campanha.

Vamos primeiro aos tais números para percebermos melhor porque surge este spot e curta-metragem que vão ser divulgados nas redes sociais e salas de cinema: a cada 50 minutos morre uma pessoa em Portugal por causa de doenças atribuíveis ao consumo de tabaco. O Ministério da Saúde, a Direção Geral de Saúde e demais autoridades nacionais ligadas a estas matérias têm feito um esforço claro no incentivo à redução do tabagismo, mas os indicadores continuam a não mostrar grandes efeitos práticos. Em Portugal fuma-se muito, principalmente na faixa etária entre os 25 e os 34 anos. Uma das maiores alterações passa provavelmente pelo aumento do consumo de tabaco entre as mulheres, que continua a crescer exponencialmente. Posto isto, decidiu-se fazer esta campanha, dirigida especialmente às mulheres fumadoras, com o objectivo de “chocar” admitiu ao “Público” o secretário de Estado Adjunto da Saúde, Fernando Araújo. Chocada fico eu com o resultado.

Claro que me parece desde logo necessário que estas campanhas cheguem aos consumidores em geral, uma vez que o tabagismo é problemático para a saúde das pessoas em geral, independentemente do seu género. Contudo, até consigo conceder que uma parte desta campanha tivesse um enfoque nos consumidores mais recentes e em crescimento (as mulheres), desde que percebêssemos desde logo que a questão não se resume ao facto estatístico que mostra que as mulheres fumam mais nos tempos de hoje. É importante perceber que esse consumo maior, acelerado e exponencial, se deve à emancipação feminina: as mulheres fumam cada vez mais porque sentem maior de liberdade para o fazerem, sem serem julgadas socialmente. Tal como com o consumo de álcool, por exemplo. Claro que, no que toca à saúde, isto não é positivo e medidas de sensibilização para os efeitos nefastos destes consumos têm de ser postas em prática. Mas é preciso melhorar a forma de passar a mensagem.

Ora bem, apostarmos numa campanha que, como ponto de partida, utiliza a questão da maternidade enquanto papel estrutural inerente à mulher, ainda por cima explorando os sentimentos de culpa – que não é mais do que mexer com o eterno medo e insegurança de se ser ‘má mãe’, algo que, já se sabe, aterroriza boa parte das mulheres que desejam ter filhos – é uma péssima opção. Precisamente porque está assente em estereótipos sociais associados à conduta e comportamentos considerados “próprios” do sexo feminino, servindo como catapulta para ajudar a acentuar os tais estigmas sociais que fizeram com que as mulheres não fumassem durante séculos.

Se pusermos uma micro lente de género para ver esta curta-metragem, é fácil percebermos quão tendenciosa é a construção desta narrativa. Além de nos remeter automaticamente para o eterno papel de mãe associado à figura feminina, diz-nos que uma ‘boa mãe’ não deve fumar. O castigo parece ser o cancro e a culpa do mau exemplo, uma vez que a menina do vídeo até já fuma cigarros de chocolate a imitar a mãe (quem nunca?). Escusado será dizer que o exemplo dos consumos em frente às crianças deve ser uma preocupação dos adultos em geral, e no caso dos progenitores, é igual para mães e pais. Depois há a questão do apelo aos afetos. Tanto uma coisa como a outra, custa-me muito a acreditar que entrassem como eixo central de uma campanha feita para os homens fumadores.

O próprio título – “Deixe De fumar. Opte por Amar Mais” tem mensagens subliminares: Então uma mulher que fuma ama menos, é isso? É menos devota nos seus afetos familiares? Uma mulher que fuma é má mãe (seja lá o que isso for)? No fim, a frase melodramática “uma princesa não fuma”, dada como conselho final à menina que chora nos braços da mãe moribunda, é a cereja podre no topo do bolo.

Vamos mesmo cair no cliché das princesas, até quando falamos de tabagismo no sexo feminino? Uma mulher tem de aspirar a ser uma princesa? E uma princesa é menos princesa – com tudo o que a palavra “princesa” significa abstratamente na sua construção social – porque fuma?

Percebam que não estou com isto a apelar ao consumo de tabaco. Mas até eu, que não fumo, fico com vontade de fumar um cigarro depois de ver uma campanha governamental que parece não ter tido em conta os estereótipos de género associados à mensagem final. Se queremos que as mulheres fumem menos, que seja por causa da sua saúde. Que não seja por vergonha social quanto às expectativas que nelas recaem por serem mulheres. Além de redutor, é castrador e paternalista.

Podem ver o vídeo completo clicando aqui.