A ordem moral das coisas e a identidade de género

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 30/09/2020)

Daniel Oliveira

O que os assusta não é que a menina chegue a casa e diga que quer ser rapaz. É que elas possam ser tão livres ou egoístas como eles. As identidades estão baralhadas porque foram construídas por quem tinha o poder. Sem isso, a genitália não chega para definir o lugar de cada um. Já não dá para pôr a mulher livre no hospício. Por isso, é fundamental que elas continuem a aprender qual é o seu lugar. Tivesse Adelaide nascido neste tempo…


Adelaide Coelho da Cunha teve a sorte ou o azar de ser a legítima herdeira e proprietária do “Diário de Notícias”. E, por despeito ou amor, cometeu o erro ou a audácia de se envolver com o seu motorista e abandonar “o leito conjugal” de um marido que lhe era infiel. O motorista era pobre e muito jovem. Pobre como a criada que o seu filho engravidou, jovem como a amante do seu marido. Mas Adelaide era mulher. E não é normal as mulheres fazerem o que os homens fazem. Porque, diz-se, as mulheres são diferentes dos homens.

Para além disso, o marido de Adelaide Coelho da Cunha queria vender o “Diário de Notícias” e ela não deixava. E não era normal uma mulher vetar a vontade do seu marido. Pelas duas razões, foi internada num hospício com a ajuda empenhada de homens ilustres, como Egas Moniz e Júlio de Matos. A história de Adelaide Coelho da Cunha é contada em “Ordem Moral”, de Mário Barroso.

Em cem anos mudou muita coisa. Mas há coisas que mudaram menos do que pensamos. Veja-se o caso da rapariga filmada a fazer sexo com dois rapazes, numa carruagem de comboio, que foi achincalhada no espaço público e mereceu uma patologização do seu comportamento que foi dispensada aos seus parceiros, como bem descreve este texto de Fernanda Câncio. A rapariga será maluca, eles serão uns “grandes malucos”. Ou, na pior das hipóteses, um pouco indecentes. Porque os homens, já se sabe como são. Agora, uma rapariga?

Anda por aí, graças a uma moda importada, uma grande preocupação com a identidade de género. De tal forma que os ultraconservadores inventaram uma ideologia para os seus opositores: a ideologia de género. A expressão nasce nos estudos de género para caracterizar as crenças sociais vigentes sobre o lugar da mulher e do homem na sociedade e foi apropriada por Ratzinger, ainda antes de ser Papa, para definir os que contestam essas crenças. Hoje é usada por grupos de extrema-direita e de religiosos radicais. E vai fazendo o seu caminho.

Os ultraconservadores têm medo que esta ideologia de género, que supostamente tomou conta das escolas sem que os professores me consigam dizer em que canto das salas de aulas se escondem, confunda as crianças. Que os seus filhos cheguem a casa e, do nada, lhes digam: “pai, eu quero ser menina”, “mãe, eu quero ser menino”. Espanta-me a pouca confiança que demonstram ter na natureza. Se é tão esmagadoramente natural a diferença entre homens e mulheres não será uma palestra que afastará o rapaz do azul e a menina do cor-de-rosa. Não serão uns livros que retirarão à rapariga o instinto maternal e ao rapaz a testosterona de guerreiro. As coisas acontecerão porque têm de acontecer.

O que temem nada tem a ver com as rasteiras que a ideologia consiga dar à natureza. Temem o que temia a sociedade que meteu Adelaide Coelho da Cunha no hospício: que cada um deixe de saber o seu lugar. É de poder que falamos. O poder que afasta as mulheres do topo de todos os poderes. O que quer continuar a impor a vontade masculina ao aparelho reprodutivo das mulheres. O que lhes reserva o lugar de grandes mulheres atrás de grandes homens. É apenas isso: poder.

O que os assusta não é que, por descobrirem que a homossexualidade existe, os meninos comecem a gostar de meninos. Isso acontecerá se tiver de acontecer, nas suas barbas ou às escondidas. Com o seu apoio se quiserem que os seus filhos sejam felizes ou a sua oposição se preferirem torturá-los. É que isso baralha o papel que cada um dos géneros deve desempenhar na sociedade e na família. O que os assusta não é que a menina chegue a casa e diga que quer ser rapaz. É que a mulher descubra que, como o homem, pode ter amantes e eles podem ser mais novos e mais giros do que os seus maridos. É que elas possam ser tão livres ou egoístas como eles. Que deixem de ser “galdérias” (ou tantos outros insultos que não têm correspondente para os homens) e passem a ser apenas o feminino do “mulherengo” (também não foi inventado). É que elas possam ser chefes deles, ganhar mais do que eles. Aquilo de que têm medo é de perder parte do poder que herdaram e pelo qual nunca tiveram de lutar.

Já não é possível, como no início do século XX, pôr a mulher livre no hospício. Mas dá para lhes continuar a ensinar o seu lugar. Tentam travar o vento com as mãos. As identidades estão baralhadas porque foram sempre construídas por quem tinha o poder para as impor. Sem isso, a genitália não chega para definir o lugar de cada um. E não falta muito para que não chegue ser homem para ter o lugar da frente. Tivesse Adelaide nascido neste tempo…

5 pensamentos sobre “A ordem moral das coisas e a identidade de género

  1. Eu quando era puto vestia-me de menina e brincava como as meninas e claro também brincava como os rapazes, não me desenvolvi como muitos acreditavam, por uma simples razão os homens e as mulheres, já deviam saber, têm todos os dois lados, o masculino e o feminino, que na evolução normal da espécie humana são uma coisa linda e não uma aberração, logo qualquer um tem o dever e a liberdade de ser livre na sua sexualidade e na sua vida, já chega da treta das doenças que supostamente as lésbicas e os homosexuais não têm, eles são como nós.
    lol , até quando vão continuar a ser homenzinhos e mulherzinhas violentos das cavernas, será que não consegue usar o vosso miolo, sem um dogma sem sentido. Cresçam e mudem de espírito, já que no futuro, quem sabe as igrejas fundamentalistas deixem de existir …. :P:D

  2. Eu acho muito bem que a rapariga faça o que quiser e pessoalmente considero os conservadores uma bosta.

    Mas os marxistas levarem tudo para a sua luta pelo poder interesseira parece-me a mesma bosta.

    Eu francamente não tenho a resposta para a existência do conservadorismo, que considero nojento.

    Mas resumir a critica conservadora desta queca ferroviária uma suposta vontade de “afastar as mulheres do poder” ?

    Na Europa os conservadores andam à QUARENTA ANOS (40) a votar em mulheres para os seus líderes.

    Os líderes máximos europeus do conservadorismo dos últimos 40 anos foram Tatcher e Merkel.

    Mas a esquerda perdida nas suas teorias bolorentas ainda não descobriu.

    É a mesma coisa no que toca ao racismo fake que inventam para os desgraçados dos trabalhadores dos transportes que têm o azar de exigir titulo de transporte válido a alguém de cor ou dos policias que têm de deter meliantes de cor.

    NÂO.

    Nós não vivemos no tempo da Adelaide nem no tempo da escravatura.

    A esquerda é que ainda não descobriu.

    E enquanto anda a inventar estas falsas “lutas” esquece o que devia ser a sua missão melhorar a vida de todos no presente.

    Pormenor.

    Muitas feministas radicais são extremamente conservadoras no tocante ao sexo.

    • Assino por baixo, Pedro. Esta frase diz tudo.

      “É a mesma coisa no que toca ao racismo fake que inventam para os desgraçados dos trabalhadores dos transportes que têm o azar de exigir titulo de transporte válido a alguém de cor ou dos policias que têm de deter meliantes de cor”

  3. Off.

    Anónimo

    01.10.20

    Se vos servir de alguma coisa para o disco rígido do capacete, eis. A personagem Valupiana trancou-se outra vez nas muralhas do Aspirina B, um clássico.

    Pomba Branca
    1 DE OUTUBRO DE 2020 ÀS 13:12
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    F Soares
    30 DE SETEMBRO DE 2020 ÀS 20:10
    uma de cimento e dez de areia

    Mas o que me deu mais gozo foram as declarações do presidente ( ?) do metro , numa tentativa de desvalorizar a situação, quando falaram em apurar responsabilidades , dizer que a “estrutura já tinha mais de 50 anos”.
    Boa ! de 50 em 50 anos temos que substituir a rede do metro….
    Ele há coisas…, de facto!

    Sermão aos Peixes. F. Soares não sejas estúpido, nessa simplicidade tão ao jeito de totó, porque o presidente do CA do Metropolitano de Lisboa é um gajo do Fernando Medina e, de certeza, mais um mercenário do Partido Socialista. Portanto, o pomposo anúncio de um inquérito é para lhe salvar o pescoço, e é tudo tanga!… Quem a sabe toda é o António Costa que, ao oferecer a gestão da empresa à CML liderada pelo PS, criou mais uma zona cinzenta no Estado onde medram os negócios mafiosos que o PS adora e que, aliás, são o oxigénio que respiram. Vê bem: bastou o seu delfim dar um pontapé numa pedra, perdão, dar um pontapé literalmente no cimento e ter escavacado a merda do túnel prejudicando, coisa pouca!, milhares de desgraçados que não se movimentam pendularmente em modernos carros com ar condicionado e motoristas à conta do Orçamento de Estado como os tipos como ele, e ficou a descoberto mais uma vez a maneira como os gajinhos do PS governam a cidade e o país… Só mais uma coisa: há comentários no Aspirina B que envergonham quem deu um grama, que fosse, de apoio ao Socratismo e ao Costismo antes de ter sido enganado uma e mais uma vez. Portanto, tenham juízo nos cornos.

    Pomba Branca
    30 DE SETEMBRO DE 2020 ÀS 12:37
    Valupi, tens razão muita razão nisso que dizes!

    A beleza da democracia, a tua, é que sanguessugas como o José Sócrates, o Fernando Medina que com as suas obras de fachada para encher os bolsos aos patos bravos que têm interesses na CML e uns socialistas amonhecarem mais um bocado, olá!, conseguirem a proeza de destruir uma parte do túnel do metropolitano e mandar dizer que vai “abrir um inquérito” à sua augusta pessoa porque com o Costismo lhe foi oferecida a gestão do metropolitano com o devido envelope financeiro com os impostos dos contribuintes portugueses para os meninos maçons do PS rebentarem como quiserem, beleza mesmo é que soldadinhos de chumbo, como tu, passem a puta da vida nesta curtição sobre o Trumpismo, entretidos no jogging ou no ginásio e a lamber os tomates de estranhos…

    Pomba Branca
    29 DE SETEMBRO DE 2020 ÀS 14:07
    Nem mais, Valupi!

    Há bué de tempo que transformaste a merda do Aspirina B num almanaque virtual: José Sócrates, Armando Vara, Pedro Silva Pereira e, hoje, voltamos ao inevitável Mr. Magoo também conhecido como Azeredo Lopes… Tu não tens receio que sejas confundido como um soldadinho de chumbo, juras que não vives numa caixinha perdida no sótão? Ou que te dê para aí uma vertigem e te levem de urgência para o Hospital das Bonecas, ali na Praça da Figueira?

    É que com o Bic Laranja, o Lisboa de Outros Tempos, [o Restos de Colecção] e as contas oficiais dos arquivos da CML, TT, Gulbenkian e quê não sei se ainda vais a tempo.

    Enfim tu tem cuidado, mas boa sorte e que Deus te acompanhe!

    &etc, hoje.

    • Joe Biden, my new hero, eheheh!

      Pomba Branca
      2 DE OUTUBRO DE 2020 ÀS 13:20

      Valupi: então mas o Donald Trump (tanguista, corrupto, censor, fuga aos impostos, mafioso, trafulha, mentiroso, &etc.) não faz mais o teu género de super-herói? Viste o pintas do Matos Fernandes durante uma acção de propaganda logo de manhã, com o emplastro do presidente do CA do Metropolitano a fazer cenário e a aumentar o cadastro?

      Nem sei como é que o PS não o foi buscar logo no Socratismo…

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