Mais um prego no caixão da escola pública

(Luís Aguiar Conraria, in Expresso Diário, 28/09/2020)

Este fim de semana saíram os resultados das candidaturas ao ensino superior. Os resultados dos exames facilitistas da época covid estão à vista. As notas de entrada na Universidade subiram muito e tornaram o acesso aos cursos mais desejados numa lotaria.


No exame de acesso de Matemática A, a moda — ou seja, a nota que se repetiu mais vezes — foi 19. Em Física e Química A, do 11º ano, a moda foi 18. Olhando para as médias de acesso à Universidade, ficamos com a ideia de que o futuro do país está garantido. Os gestores portugueses serão, em breve, os melhores do mundo. Os economistas, idem. Temos uma medicina que não se compara a nada. Os juristas são tão extraordinários que a nossa Justiça rapidamente se tornará uma referência internacional. Cereja em cima do bolo, temos os melhores engenheiros aeroespaciais do mundo: em 10 anos, vamos a Marte e voltamos.

(Se tivermos em atenção que mais de metade dos professores universitários tem a avaliação máxima, de Excelente, somos obrigados a concluir que a academia portuguesa há de ser a melhor do mundo.)

Como, evidentemente, não somos todos uns génios, o que isto quer dizer é que os exames foram fáceis demais, não permitindo distinguir os bons alunos dos muito bons e dos excelentes. Isto tornou o acesso a alguns cursos numa autêntica lotaria. E numa tremenda injustiça para tantos jovens. Não consigo imaginar o que é estar na pele de um adolescente que desde o 10º ano só tira dezoitos, dezanoves e vintes, que nas provas de acesso não tem nenhuma nota abaixo de 18 e não consegue entrar no curso pretendido. Ou estar na pele de alguém que, ao longo de 3 anos, tirou 20 a tudo e que teve um azar no exame de Matemática, não conseguindo mais do que 16, e que por isso não entra no seu curso de sonho. Ao tornar o acesso ao superior numa lotaria, os exames foram um fracasso.

À injustiça referida, junta-se outra. Todos sabem que há escolas onde as notas internas são inflacionadas e outras onde acontece o contrário. Os alunos destas últimas são sistematicamente prejudicados, pois para a média de acesso contam não só os exames mas também as notas internas. Apesar de tudo, em anos anteriores, um aluno que viesse de uma escola que sistematicamente desse notas mais baixas poderia compensar essa injustiça fazendo exames brilhantes. Um aluno de 18 que conseguisse nos exames ter 19 e 20 conseguiria entrar no seu curso de eleição, como Medicina ou Engenharia Aeroespacial. Com a superinflação de notas dos exames deste ano — que ainda se vão refletir nas notas de entrada do próximo, porque alguns dos exames inflacionados são do 11º ano —, muitos excelentes alunos que vêm de escolas mais exigentes não tiveram hipótese de recuperar dessa desvantagem. Se tivermos em conta que o grupo de escolas que mais inflaciona as notas é, por uma larga maioria, constituído por colégios privados e que o grupo que mais as deflaciona é constituído maioritariamente por escolas públicas, logo percebemos quem fica a ganhar.

Desde há vários anos que os rankings das escolas mostram que muitos colégios privados preparam melhor os alunos para os exames. Graças a isso têm atraído os jovens das classes privilegiadas. Há uns dias, o JN noticiava que, por causa da (falta de) resposta das escolas públicas à pandemia durante o 3º período do ano letivo passado, os colégios privados não tinham mãos a medir com tanta procura. Quando os pais perceberem o que se passou este ano no acesso ao ensino superior, a procura ainda aumentará mais. É uma triste ironia ter um governo socialista a empurrar os estudantes para o ensino privado.

P.S. Quando vim para o Expresso, aceitei o desafio de escrever duas vezes por semana. Ao fim destes meses, sou obrigado a concluir que não sou capaz. Exige-me demasiado tempo e, principalmente, atenção. Quer as minhas aulas quer a minha investigação estavam a ser prejudicadas. As aulas na UMinho estão quase a começar, por isso esta é a altura certa para parar de escrever no Expresso online à segunda-feira. Agradeço à direção do Expresso a compreensão.


5 pensamentos sobre “Mais um prego no caixão da escola pública

  1. Exigências, a professores e alunos?
    O reflexo das ilustres elites políticas dos partidos políticos.
    Perante a exigência nula do eleitorado, todos destinados ao sucesso.
    De uma carreira fácil, bem complementada no pós-Govern,
    entremeadas com um país na falência.
    Do distrito Castelo Branco e deputada casal Bonnie and Clyde à da Coesão Territorial inventada pelo faraó Costa PM, de Vento em Popa (expressão Melo Antunes).
    A bem do Regime.

  2. Talvez então se lembrem que a cultura nas suas enormes variedades é um rol de riquezas intermináveis para a futura sociedade Portuguesa e assim se tomem medidas concretas para apoiar os já existentes agentes culturais e os que hão de vir. Exemplos: Danças, Cinema, Teatro, Pintura, Escultura, Música de diferentes tipos, seja o fado, popular, rock, punk, clássica, etc e eventualmente regredir no tempo e recuperar artes esquecidas ou maltratadas pelo excesso de iluminismo da modernidade. A cultura é essencial e fundamental para uma sociedade informada e atualizada em detrimento do excesso de tecnologia e desinformação que Portugal nunca soube criar, não acredito que com tantos putos a quererem ser engenheiros venha a existir o tal “progresso tecnológico” que tantos desejam, veja-se o caso do INESC, onde trabalhei, que se saiba patentes são escassas e Sistemas Operativos, Redes Sociais, inovações não são muitas, porque é que será ? Portugal tem excelentes médicos, professores e em tantas outras profissões, existirão sempre os bons, os médios e os “outros”, mas no fundo são todos úteis. A educação como tanta outras partes fundamentais da nossa sociedade, foi sempre alvo de remodelações ou reformatações por parte dos diferentes governos, o que claro, não é muito saudável, em termos de rumos ou objetivos, será que se o Ministério da educação está errado ou mal orientado, não será necessário através da sociedade civil de forma organizada e construtiva e de preferência laica (lol), claro que as igrejas são bem vindas, desde que deixem os fundamentalismos em casa, apontar as vantagens e desvantagens de modo a se chegar a um consenso ? Que eu saiba os ministros não são ditadores, devem e têm o dever de estar abertos ao diálogo com a sociedade no seu todo de forma a se afinar no bom sentido a música que ensinamos aos nossos queridos filhos(as).

    • Inovações não são produtos, nem tão pouco patentes são inovações – ainda por cima em informática!, onde o normal são patentes sobre matemática ou sobre coisas óbvias que já existem.
      Mas não faltam professores que pegam nos investigadores e criam empresas com o que financiamos todos. Agora, o resto também muitas vezes não se faz por decreto nem com o capital que se acumula com o salário…

  3. Na Universidade tive um ano em que todos os alunos tiveram passagem admnistrativa a todas as cadeiras. E o que aconteceu ? Morreu mais gente por falha da formação dos medicos ? Caíram mais edificios, houve mais problemas com a electricidade ? Faliram mais empresas ? Houve algum notório maleficio em toda a actividade nacional? Por mim,acho que não, quem acha que sim tem de o provar.
    Acredita-se muito no poder sobrenatural do exame. Acredito em quem faz melhor que eu. Os grandes teóricos são muito susceptíveis às grandes diarreias. Passa-se mal ao lado deles.

  4. Nunca tirei nenhum mestrado, mas penso que passa por um tópico concreto onde o aluno tem que fazer um trabalho de pesquisa, reflexão, organização, planeamento até chegar à tese que depois tem que demonstrar, o que não passa por exames ou os famosos testes, que na minha ótica pessoal formatam o sistema de ensino. É claro que matemática deve haver um teste, mas em quase todas as outras disciplinas, até no Português acho que serial possível fomentar o trabalho que poderia ser concretizado em bibliotecas públicas, com os livros, enciclopédias de casa ou em último recurso com o acesso à rede global, para assim não existir o fator decorar que não serve para nada, só se aprende a estudar (não a empinar) ou a fazer trabalhos práticos ou escritos. Se num teste onde todos são obrigados a responder a mesma coisa, num trabalho individual, encontram-se múltiplas análises e respostas o que só torna mais rica a experiência e gratificante para o ambiente escolar.

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