Hoje é Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres e o PSD é nosso inimigo

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 25/11/2020)

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Focando-nos em Portugal, em 2020 foram assassinadas 30 mulheres: 15 em relações de intimidade. Desde 2004, já foram assassinadas 564 mulheres. Sabemos que na esmagadora maioria dos femicídios a violência não acontece num ato isolado, ela é histórica, prolongada e, pior, conhecida de terceiros, que nada fazem. A tragédia de tantas histórias cheias de violência histórica deixou para trás, só este ano, 21 crianças órfãs. A história de cada uma dessas crianças está na sua memória que certamente condicionará a possibilidade do futuro.

Não morremos por acaso. A dimensão de género no femicídio é evidente. Ninguém usa da sua voz pública para quebrar o coro unívoco contra o rio de sangue que todos os anos corre em nome da misoginia. Mas não morremos por acaso. Não somos espancadas, humilhadas e torturadas psicologicamente por acaso.

A violência doméstica, o femicídio, repousam numa permissão histórica: essa de, por defeito, serem os homens que mandam, que podem, que ditam, que têm e que definem.

É por isso que quebrar o ciclo infernal da nossa morte começa, de facto, na educação para a igualdade. O sexismo pode ser desconstruído. A escola tem o dever constitucional de o fazer, já que concretiza, como já escrevi, uma Constituição não neutra em relação à igualdade de género, como de resto à não discriminação racial ou à não discriminação em função da orientação sexual. E, já agora, todas estas (não) discriminações andam de mãos dadas. Os nossos corpos, as nossas existências, sobrevivem de forma diversa consoante os fatores históricos de discriminação se cruzam numa mesma pessoa e a lei ainda não está preparada para responder à mulher que, por exemplo, é pobre, negra e lésbica.

A permissão histórica que referi foi-nos ensinada num contexto português mal acordado de 48 anos de menorização das mulheres não votantes, propriedade dos maridos, adúlteras penais, inibidas em várias profissões, subjugadas aos “chefes de famílias”. Um contexto, assim, até 1974, legalmente sexista e também violentamente homofóbico e racista. A revolução não revolucionou tudo e todos, não varreu mentalidades, não demitiu juízes, pelo que as pessoas da minha geração, nascidas já em democracia, aprenderam direitinho a aceitar a desigualdade como o estado natural das coisas.

As antecâmeras da nossa morte foram experienciadas por todas nós, isto é, a raiz da misoginia que mata, a tal miséria que felizmente agora se despromove, com esforço, nas escolas precisamente educando para a igualdade. Mas eu, como tu e tu e tu, aprendi por defeito a mudar de passeio quando me diziam na rua “comia-te a cona toda”, nunca me ocorreu queixar-me, não é? Aprendi a viver a violência sobre o meu corpo devidamente objetificado perguntando da porção da minha culpa naquilo: então não ouvimos todas as perguntas sem simetria “porque é que lá foste” ou “porque é que subiste” ou “porque é que o deixaste entrar”? Aprendi a falar baixo para não passar por histérica, fiz a escola toda da subjugação estética para agradar os homens ou para parecer respeitável, aprendi a admirar muito, mas muito, homens e mais homens, não nos davam referências femininas e o espaço público era e é o que é. Aprendi a ser inquirida sobre o que fiz e o que não fiz, homens cheios de virilidade convictos de que estavam no direito de averiguar da pureza do meu percurso, confirmando o binómio das putas e dos garanhões.

É por isso que tenho a certeza que podia ter morrido. As mulheres que morreram este ano e nos últimos anos não são abstrações. São mulheres concretas que amaram como nós, que viveram os anos que viveram num país que ainda está longe de nos ver como iguais.

Temos de destruir as antecâmaras da nossa morte, e isso passou, infelizmente, a ser uma guerra inesperada. A ciência sabe que a igualdade só se conquista, após séculos de opressão, se a aposta começar cedo, na educação. Da linguagem aos papéis de género, tudo, mas tudo tem impacto no número de mulheres que em cada ano constam de uma lista infernal.

Acontece que esta simplicidade, de que depende a sobrevivência dos nossos corpos, é negada não apenas por maluquinhos, por Bolsonaros e afins, mas por um novíssimo PSD, que se juntou numa proposta de alteração ao OE2021 ao Chega (e ao inexistente CDS) para a realização de uma “inquirição” sobre a alegada existência de “ideologia de género” nas escolas, ou seja educação para a igualdade.

Se o PSD é Damares e Ventura, em nome das nossas vidas, bem como das pessoas racializadas e LGBT, passou de adversário a inimigo.


4 pensamentos sobre “Hoje é Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres e o PSD é nosso inimigo

    • Podes crer.

      Aos gajos muito bonzinhos as gajas até lhes cagam em cima.

      Tenho neste momento um caso destes na família.

      A gaja despachou à bruta um gajo porreiro e inofensivo que gostava imenso dela ao ponto de ficar com a vida destruída com a separação para se juntar a um pintas marginal.

      Quando o vi até me caiu o queixo e pensei logo que ia dar merda. Mas como não tinha nada a ver não disse nada. Que elas são livres e tal.

      Agora, passado um ano, está a família toda a fazer de guarda costas sujeita a ter problemas por elas não gostarem de tipos pacatos e preferirem os macho man das esquinas.

      Vá lá, o gajo não é preto, e assim se se aleijar no nosso turno de guarda costas pelo menos não vamos ter manifestações “contra o racismo com o Mamadu a clamar pela “morte do homem branco” tudo por causa da gaja.

  1. Muito bem Isabel Moreira. Um texto a merecer atenção de todos e todas. Este é o tempo certo para assumir com frontalidade a urgência da formação para a igualdade e para o imperativo de uma sociedade com iguais direitos e deveres. Perdeu-se muito tempo e a Mulher demorou muito tempo a gritar com veemência os seus direitos, pois como muito bem diz, estava preocupada com os julgamentos sociais hipócritas. Fui educada por um pai muito aberto e muito culto para o seu tempo que contrapunha com uma mãe conservadora e nós dependíamos totalmente dos amores do irmão que gozava dos privilégios da sua condição. Reconheço que daí para cá se avançou muito, mas esse muito ainda é insuficiente e como tal é preciso avançar com determinação e coragem Aprecio a sua determinação e desejo que o seu exemplo chegue às muitas jovens que ainda hesitam na luta pela emancipação.

  2. 40 mulheres mortas este ano.

    Convém não esquecer que morrem por assassinatos à volta de 80-100 pessoas por ano em Portugal.

    Morrem menos mulheres do que homens por homicídio.

    Classificar crimes contra um dos sexos como especialmente mais graves, dando-lhes outro nome e tudo e dizendo que é perseguição de género é um bocado abusivo.

    O pessoal do feminismo põe-se a jeito com estes exageros.e depois queixam-se que os conservadores sobem.

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