Rapariga bonitinha precisa-se

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 10/04/2020)

Clara Ferreira Alves

Terça-feira, 7 de abril de 2020, 13h.

Abro a homepage de quatro jornais, o “Público”, o “Diário de Notícias”, o “Observador” e o meu jornal, o Expresso. Todos os dias faço este exercício, para ver se me engano. Conto as fotografias publicadas dos homens e das mulheres, incluindo as de publicidade ou promoção, as colunas de opinião, as notícias nacionais e internacionais. Corro tudo. Corro a homepage até ao fim e faço a contagem. Excluo as fotografias de grupo confusas e os conjuntos de futebolistas, mas não as repetições, porque as repetições ajudam a compreender o fenómeno da omnipresença. As mulheres não estão apenas em minoria em todas as representações, as mulheres são uma ínfima parte do espaço público e são usadas para ilustração de três coisas básicas: família ou casal, trabalho considerado feminino, como coser ou cuidar dos filhos, e limpeza.

Vamos ao dia em que escrevo, terça-feira, 13h.

No “Público”, um jornal com fama de feminista, conto 39 fotos de homens, onde se incluem chefes políticos, e quatro, 4, fotografias de mulheres. Mesmo as ilustrações de notícias covid, as prisões, a quarentena, quem morre no hospital, fotografias genéricas incluem mais homens do que mulheres, e temos também o homem mais velho do mundo. Haverá uma mulher?

app da empresa Idealista, publicidade, tem como ilustração um homem, género normalmente escolhido pela publicidade para tudo o que não seja detergente ou cosmética. As fotografias de banqueiros? Homens. De autarcas? Homens. Até a ilustração de uma rua de Londres traz um homem numa trotinete. A opinião masculina tem um destaque fotográfico que a opinião feminina muitas vezes não merece. Tenho vindo a investigar estas discriminações há muitos meses, desde antes da covid, sei do que falo. Nos conteúdos comerciais, as mulheres são largamente postas de lado, exceto na venda de carne a peso, caso das raparigas que entretêm o olhar masculino ou de celebridades. Uma ilustração de sem-abrigo traz um homem, e um abraço plastificado, covid recomenda, é entre pai e filha. A fotografia da possível abertura das escolas? Um grupo de rapazes.

Entretanto, esta semana morreu uma Bond girl, Pussy Galore, com quase 100 anos, e teve destaque nas respetivas homepages, porque Pussy Galore é um protótipo feminino velho como o mundo. A Bond girl, bonitinha e inútil. Mesmo que nada disto se aplique hoje à nossa sociedade, a Pussy teve mais fotos do que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Vamos ao “Diário de Notícias”. Conto 45 fotos de homens, incluindo publicidade, e 23 de mulheres, incluindo uma promoção à Portugal Mobi Summit, que usa mulheres profissionais como ilustração. Para ilustrar a defesa das mulheres da limpeza do Luxemburgo lá vem uma mulher de vassoura. E no fabrico de máscaras lá está a máquina de costura. Na opinião, o “DN” dá voz a várias especialistas de circunstância, incluindo uma que ensina a sobreviver aos filhos. Numa rubrica, uma mulher aparece agarrada ao telemóvel com o título “Esta não é a altura de mandar mensagens ao ex”. O lugar-comum da ex-namorada histérica e que não larga o osso, assediando ex-namorados.

Num momento histórico em que o abuso e a violência doméstica estão a aumentar devido ao confinamento, não há sobre isto muitas linhas nos jornais portugueses, ao contrário do que fez “The Guardian”. Em compensação, a notícia da série de televisão “A Espia” tem no “Público” a melhor foto de mulheres, uma rapariga bonita e fresca. Os homens velhos aparecem em todo o lado. As mulheres velhas raramente são vistas em página. Falta de fotogenia. As exceções são Lagarde, que aperta os cordões da bolsa, e Merkel, pela mesma razão.

No “Observador”, temos 50 fotos de homens, com repetições, e Cristiano Ronaldo, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa são os reis da repetição em todos os jornais, e 14 fotos de mulheres, com algumas repetições. Lá anda por entre as notícias a nossa Pussy Galore. Um anúncio da Cofidis, “Conta Connosco”, tem um homem por ilustração, porque sabemos que pedir dinheiro emprestado, tal como comprar casas, é privilégio masculino. Na opinião do “Observador”, as mulheres são clara minoria. Em compensação, a opinião masculina abunda e orneia, como diria o Eça ao Camilo.

No Expresso, conto, às 13h06, 44 fotografias de homens e 19 de mulheres, incluindo um torso feminino a ilustrar uma notícia. O destaque feminino vai para uma interessantíssima peça sobre Ming Hsu, a milionária chinesa que doou quase cinco milhões de euros de material médico a Portugal. Este perfil estava em primeiro lugar nos mais lidos, o que demonstra que as boas peças sobre mulheres poderosas são lidas. Mas Ming não é apenas uma mulher poderosa, é apresentável e sobretudo, a avaliar, muitíssimo generosa. Apesar de Ming constar dos “Paradise Papers”, que o Expresso e o Consórcio Internacional de Jornalistas publicaram, ela revela uma “paixão filantrópica” pelos lusitanos e pelo torrão nacional, onde tem investimentos. Tal como a Fosun, do Partido Comunista Chinês, que também doou material médico aos portugueses. Ming, figura nebulosa, recorda-me dois aforismos. O primeiro: a cavalo dado não se olha o dente, com um ponto de interrogação. O segundo: não há almoços grátis.

Tal como Isabel dos Santos, que por aí continua nos rodapés, figuras femininas como as de Ming Hsu ou outras, e há muitas, atraem leitores, mas este tipo de notícias, reportagens ou investigações são minoritárias. O grosso do que é produzido nos media, e não apenas portugueses, é supervisionado por homens para ser consumido por homens, visto e lido por homens. Boys will be boys. O preconceito está tão arreigado que nem as mulheres o notam. Sempre que é necessário produzir uma opinião de potestade, o homem é convocado. A mulher é relegada para a opinião de nicho, moda e design, cozinhados (mas não de chefe, categoria superior), família, filhos, crianças, cuidados, limpezas. Nessa disciplina essencial que é a economia, ou a gestão do dinheiro e da banca, as mulheres foram relegadas para o secretariado e a máquina de café. Olhe-se para a composição do Banco de Portugal ou dos conselhos de administração das empresas. Quando Cláudia Azevedo, filha de Belmiro de Azevedo, sucedeu ao irmão, Paulo Azevedo, como CEO da Sonae, as ações desceram, num sinal de desconfiança, entretanto recuperando. Apesar de tudo, o Governo de António Costa é mais ou menos representativo do “eterno feminino”, mas o PSD de Rui Rio é um imenso patriarcado.

De Jane Austen para cá, parece às vezes que nada mudou. E nem falo da discriminação salarial. As mulheres são quem mais consome informação e cultura, quem compra mais livros e quem mais lê. E votam. Façam as contas.


Zozi, a Miss Universo que questiona e redefine a beleza

(Ricardo Vita, in Público, 20/12/2019)

“Cresci num mundo onde uma mulher que se parece comigo, que tem a cor da minha pele e o meu cabelo, nunca foi considerada bonita, e acho que chegou a hora de acabar com isso, hoje. Quero que as crianças olhem para mim e vejam o meu rosto, e quero que vejam os seus rostos reflectidos no meu.”

Foi com essas palavras retumbantes, mas serenas, que o mundo inteiro descobriu surpreendido, no dia 8 de Dezembro, a Miss Universo 2019; uma mulher negra, inspiradora e sublime, em sintonia consigo mesma e com este século de afirmação de todas as diversidades. Lembrou-nos Nefertiti, a poderosa rainha egípcia negra de lendária beleza. Tem 26 anos e vem da terra de Mandela, África do Sul. Chama-se Zozibini Tunzi, uma genuína deusa da beleza do novo paradigma e do futuro.

É Zozi, para os amigos que, como ela, entendem a importância dos imaginários, da iconografia e as modalidades das suas construções. É a quinta mulher negra a ser coroada Miss Universo, mais é a primeira a reivindicar em voz alta a sua intenção de mudar mentalidades — para defender a beleza e a mulher — destacando a cor da sua pele e o seu cabelo crespo como triunfos intrínsecos. Pois, Zozi entendeu que a sua coroa já havia sido comprada e paga. Tudo o que ela precisa fazer é usá-la. Sabe que a sua história não começou no século XV com a chegada dos europeus a África, mas foi com eles que murchou. Sabe disso.

O frescor de Zozi faz-nos pensar sobre a beleza. Quem a define e como? E essa definição, a quem beneficia e a quem prejudica? Basicamente, como é que escolhemos entre o belo e o feio nas nossas sociedades? Pois, se a beleza é inevitavelmente uma construção cultural, então como podemos desconstruí-la, quebrá-la quando a definição não nos corresponde? Em 2011, critiquei, num artigo publicado no diário francês Libération, a uniformidade que reinava no universo da alta-costura.

Quis mostrar como designers como Karl Lagerfeld impuseram um modelo de beleza que excluía quase todas as mulheres não brancas. A mulher que ele sublimava era andrógina, magra, para não dizer anoréctica, sem formas ou curvas que subjugariam o olho imparcial posado sem concupiscência malsã na mulher não caucasiana, geralmente fora do padrão. Por exemplo, o olho parcial de Lagerfeld não podia apreciar a beleza e a escultura divina do corpo de várias mulheres negras. Era incapaz de ir além dos muros que cercavam a sua ilha. Com ele, graças à força de ataque que adquirira na Chanel, a digna alta-costura, a de Paco Rabanne, Yves Saint Laurent e Jean-Paul Gaultier ou John Galliano, havia deixado de rimar com diversidade.

Lagerfeld reinou como um absolutista neste mundo durante décadas, ditava a chuva e o bom tempo. Mas, com os outros, a haute couture era mais bonita e temos boas lembranças disso. Azzedine Alaïa lançou e defendeu com unhas e dentes Naomi Campbell; Saint Laurent fez o mesmo com Mounia, Iman Bowie e Katoucha; e Alek Wek foi várias vezes a “noiva” nos desfiles de Christian Lacroix.

No entanto, havia, e ainda há, uma constante. Fora de Alek Wek, na pele, impuseram-nos modelos negros — tanto mulheres como homens — com pele clara e feições finas. Essa segregação persiste em praticamente todos os lugares, como no mundo da música. No ano passado, numa entrevista sincera, Mathew Knowles, pai e ex-manager de Beyoncé, reconheceu, e insistiu, que a sua filha não teria o sucesso nem a carreira a solo que tem se não tivesse pele clara. “Se fizermos uma retrospectiva, sobre Whitney Houston, por exemplo, analisando as suas fotografias, veremos como elas foram trabalhadas para a tornar mais clara de pele! Há uma percepção, um colorismo, quanto mais clara for a pele, mais inteligente e rico parecemos. Portanto, existe uma percepção da cor em todo o mundo, mesmo entre os negros”, afirmou. Esse fenómeno, “selectivo e imposto”, continua até hoje. Winnie Harlow, uma linda modelo negra canadiana, vítima de vitiligo, é usada, positivamente, pelas marcas Desigual e Diesel; e Ashley Graham, uma modelo branca com excesso de peso, também goza dos favores de marcas e revistas famosas.

Portanto, há pessoas que decidem o que é bonito e o impõem a todos. Quando isso é feito de maneira sã, como no espírito de Yves Saint Laurent — o espírito que une, que celebra a diversidade e a diferença —, é claro que devemos recebê-lo de braços abertos para o abraçar. Mas devemos recusar com força os Lagerfelds de ontem, hoje e amanhã, devemos combatê-los.

E sejamos como Zozi, ela sabe que a beleza do mundo foi construída contra os negros, desde que foram dominados. Ela sabe que é por isso que os negros se rejeitam hoje, que a história de submissão se tornou a razão da sua vergonha de existir, o auto-ódio. Mas o que Zozi sabe melhor é que ela vem de uma longa linhagem de nobreza; de monarcas cujos poderes e inteligência eram temidos por todos os povos da terra, de filósofos, sábios e poetas que treinaram a humanidade toda. Ela sabe disso, é o que justifica a sua dignidade reconfortante. Essa dignidade, que ouvimos na voz segura e vemos no seu cabelo natural, não se deve apenas à vitalidade e pujança de Winnie Mandela, mas também ao orgulho das Candaces, essas rainhas poderosas do reino matrilinear de Kush (ou Cuxe). Ela sabe que os seus antepassados construíram e governaram o Egipto da abundância e alta expansão.

Zozi sabe o preço da sua coroa, sabe que é sua, de pleno direito. Ela faz parte dessa geração consciente que não quer mais ser definida por outros; a sua é a geração do novo paradigma. É essa geração que está determinada a reabilitar todas as belezas ocultadas ou minoradas, e as belezas confiscadas há muito tempo por gurus oportunistas e dogmáticos da monocultura, aqueles que definem a beleza como bem entendem por seu único e insaciável desejo de continuar a dominar.

Alegremo-nos então hoje, pois, pela primeira vez na história, ao mesmo tempo, no momento em que escrevo estas linhas, a Miss Teen USA é negra, a Miss USA é negra, a Miss America é negra, a Miss Mundo é negra e até a Miss França é negra. Não é um favor que vem do white-saviorism, como alguns revisionistas sempre tentaram afirmar nessas circunstâncias, é a força de um movimento de base que está determinado a mudar o mundo. A maioria de jovens do mundo — brancos, amarelos, vermelhos, negros — quer criar um outro mundo, um lugar mais agradável para se viver na diversidade. E só espero que, no próximo ano, todos esses títulos sejam atribuídos a outras belezas diversas, das quais o mundo é abundante: asiáticas, orientais, ameríndias, brancas. Este é o ciclo normal da vida humana, que devemos plenamente libertar das intenções vis dos supremacistas e segregacionistas.

A vaga conservadora contra as mulheres

(Francisco Louçã, in Expresso, 22/06/2019)

Um velho aforismo dizia que se mede o progresso de uma sociedade pela forma como esta respeita as mulheres e os seus direitos. Mesmo que essa sabedoria possa ser estendida para considerar outras partes da população (as crianças, os refugiados e tanta gente), continua a haver um nó simbólico que diz respeito às mulheres, nesta espécie de disputa perpétua de poderes das profundezas. Como que a confirmá-lo, a nova direita radicaliza as ideias da velha direita contra as mulheres.

Em Espanha com o Vox, agora aliado do Ciudadanos e do PP, no Brasil com Bolsonaro, nos Estados Unidos, esta violência ancestral tem um discurso (o direito da mulher é “ideologia de género”), tem protagonistas (o marialvismo renascido que vai de Berlusconi a Trump) e exibe um poder (as leis que perseguem as mulheres). A agenda conservadora é agora um programa.

NO CENTRO DO MUNDO

Nos tempos modernos, tudo começa nos Estados Unidos. E a vaga é poderosa: só durante estes meses de 2019 já foram aprovadas proibições de atos médicos relacionados com aborto em doze dos estados dos EUA. No Alabama, foi aprovada a criminalização de quem realize abortos; no Missouri, proibido qualquer aborto depois das oito semanas de gestação; no estado de Luisiana, o limite passou a ser de seis semanas; Arkansas e Utah também impuseram limites mais apertados; Georgia, Kentucky, Mississípi, North Dakota e Ohio seguiram os mesmos passos. Na maior parte dos casos foram maiorias republicanas, mas houve também votos de deputados do partido democrata para estas mudanças legislativas.

Todas acabarão por ser analisadas pelo Supremo Tribunal, cuja doutrina é, desde 1973 com o julgamento do caso Roe vs. Wade, que o aborto é praticado legalmente. Mas o tribunal tem a maioria mais reacionária das últimas décadas e é pressionado pela radicalização da direita trumpista. Este movimento tem também uma dimensão internacional, sobretudo na América Latina.

PRENDAM ESSAS MULHERES

Quando na Nicarágua foi aprovada a lei que pune com 10 a 30 anos de prisão as mulheres que interrompem a gravidez, passaram a ser seis os países que proíbem o aborto em todas as circunstâncias. Chile, Salvador, República Dominicana e Malta já o faziam, além do Vaticano. O tema tinha sido discutido apaixonadamente no país, depois de uma criança de nove anos, que tinha sido violada, ter sido autorizada a interromper a gravidez à luz da lei então vigente. A resposta do bispo de Manágua foi excomungar os pais e o médico que tinha realizado o aborto, enquanto os legisladores se dedicaram a tornar impossível a repetição desse ato a partir de 2006.

Em El Salvador, talvez o país que aplica com maior dureza a proibição, o aborto era legal em três casos: se tivesse havido violação, se houvesse perigo de vida para a mulher ou inviabilidade do feto. Essas três exceções foram anuladas em 1998 e há hoje 17 mulheres no cárcere, condenadas a entre 30 e 50 anos de prisão. A ONU alertou para que “o Código Penal de El Salvador afeta desproporcionadamente as mulheres pobres” e o Parlamento Europeu pediu a libertação destas mulheres, mas não obteve resposta.

Em todos estes casos, as proibições e a decisão de julgar e condenar as mulheres que abortam resultam da pressão da extrema-direita cristã, que ganhou corpo na América Latina depois da repressão que se abateu sobre a Teologia da Libertação, culminando com a ação do Papa Bento XVI. Esse integralismo tem crescido também em França e Itália.

Mas, tanto nas Américas quanto na Europa, o movimento teve a cooperação de políticos que se declaram progressistas: Daniel Ortega, hoje Presidente da Nicarágua, apoiou a lei restritiva no seu país, e a proibicionista Malta tem sido governada por um partido social-democrata desde há muito parceiro do nosso PS em organizações internacionais. A regressão de uma sociedade mede-se pela forma como pisa as mulheres.


O arrependido

Olivier Blanchard (na foto) foi o economista-chefe do FMI nos tempos da troika. Era um talibã. Agora é um arrependido. Promoveu um plano de ajustamento que dilacerou a sociedade portuguesa, mesmo que depois tenha reconhecido que os seus “multiplicadores” estavam errados, ou seja, descobriu que a política destrutiva destruía mesmo. Veio agora a Portugal explicar que, com juros tão baixos, “se houver uma recessão, a economia monetária não vai chegar, será precisa também a política orçamental”. Ou seja, mesmo que “a dívida ainda seja alta, o serviço da dívida não é, em termos históricos” e “não há uma crise da dívida”. Portanto, “os défices são necessários”, devendo “ser usados, o máximo que for possível, para investir no futuro, seja através de investimento público seja suportando os custos de reformas estruturais”. O máximo que possível, leu bem?


O ataque do Governo contra o PCP

O argumento mais hábil dos advogados do Governo na Lei de Bases da Saúde é que a questão das PPP é insignificante e, portanto, a esquerda devia ceder para se alcançar a substituição da lei anterior, de Cavaco Silva. Parece inteligente e tem uma conveniente declamação dramática. O problema é que não pode ser enunciado o que, em alternativa, seria tão prioritário: mais anestesistas ou obstetras para evitar a degradação dos serviços incomodaria Centeno e esse crime de lesa-majestade não é admissível, muito menos no Governo. Depois, a própria ideia da urgência socialista em substituir a lei Cavaco é uma bizarria histórica, pois o PS esteve doze anos no poder desde 1990 até à presente legislatura, alguns deles com maioria absoluta, e nunca esboçou um gesto para melhorar a lei, como Arnaut lembrava frequentemente. Mas o problema mais espinhoso da narrativa sobre a irrelevância é ainda outro, é que funciona para os dois lados: se é tão menor a questão, porque é que o PS não procura um acordo e, pelo contrário, usa a cavalaria prussiana para preservar a todo o custo essas insignificantes PPP e lhes garante dois mil milhões de euros no Orçamento por legislatura? Porque é que aplaude a lei Arnaut-Semedo e cria imediatamente uma comissão Maria de Belém para a sabotar? Porque anuncia no Parlamento acordos com a esquerda sobre o assunto e logo os rompe à primeira vociferação da ala direita do Governo? Porque é que torna as PPP a condição fatal para a lei, a ponto de se virar para o PSD, o que tinha jurado pelas alminhas que era manobra interdita?

Creio que o faz por frio calculismo político: ao recusar qualquer base de acordo com a esquerda, o que não parecia ser a intenção original de António Costa, o PS está a escrever o manifesto eleitoral. A estratégia é evidente. Com o PSD fraco, o PS quer ocupar o seu lugar. Para mais, com o PSD manejável na gestão da saúde, o PS oferece uma solução de direita para ser o líder desse espaço. Pela maioria absoluta vale tudo.

E isto implica atacar impiedosamente a esquerda. Contra o Bloco é tudo normal, há mais de um ano que o PS prossegue esta senda, recusando negociar por princípio. Isso cria uma vulnerabilidade, como enunciar que a questão das PPP é insignificante e portanto motivo para rutura, ao passo que a esquerda, sensatamente, alega que é fundamental e portanto motivo para negociação. Certo é que o risco de revelar arrogância não incomoda em demasia o Governo.

No entanto, o ataque mais perverso é contra o PCP e ganhou contornos novos. O PCP teve uma posição ambígua, sugerindo Jerónimo que as PPP “não são o alfa e ómega da lei”, mas suponho que não permitiu que o Governo anunciasse que tinha o seu voto garantido. Terá sido abuso do PS. Por isso, Jorge Pires, em conferência de imprensa, reafirmou o seu partido na oposição à gestão privada dos hospitais públicos. Mesmo assim, Costa usou o último debate para humilhar o PCP: ao acusar o Bloco de ser o obstáculo “exclusivo” à aprovação das PPP, aponta o outro partido como seu cúmplice nesta escolha. Esta forma de condescendência é um truque que pretende menorizar o PCP, tratando-o como irrelevante ou, pior, como uma espécie de MDP dos socialistas. É ofensivo e falso. Despreza a realidade e tem um objetivo eleitoral, tendo esta estratégia sido acentuada pelos resultado das europeias. Nada acontece por acaso e esta é só mais uma forma de reclamar a maioria absoluta.