Zozi, a Miss Universo que questiona e redefine a beleza

(Ricardo Vita, in Público, 20/12/2019)

“Cresci num mundo onde uma mulher que se parece comigo, que tem a cor da minha pele e o meu cabelo, nunca foi considerada bonita, e acho que chegou a hora de acabar com isso, hoje. Quero que as crianças olhem para mim e vejam o meu rosto, e quero que vejam os seus rostos reflectidos no meu.”

Foi com essas palavras retumbantes, mas serenas, que o mundo inteiro descobriu surpreendido, no dia 8 de Dezembro, a Miss Universo 2019; uma mulher negra, inspiradora e sublime, em sintonia consigo mesma e com este século de afirmação de todas as diversidades. Lembrou-nos Nefertiti, a poderosa rainha egípcia negra de lendária beleza. Tem 26 anos e vem da terra de Mandela, África do Sul. Chama-se Zozibini Tunzi, uma genuína deusa da beleza do novo paradigma e do futuro.

É Zozi, para os amigos que, como ela, entendem a importância dos imaginários, da iconografia e as modalidades das suas construções. É a quinta mulher negra a ser coroada Miss Universo, mais é a primeira a reivindicar em voz alta a sua intenção de mudar mentalidades — para defender a beleza e a mulher — destacando a cor da sua pele e o seu cabelo crespo como triunfos intrínsecos. Pois, Zozi entendeu que a sua coroa já havia sido comprada e paga. Tudo o que ela precisa fazer é usá-la. Sabe que a sua história não começou no século XV com a chegada dos europeus a África, mas foi com eles que murchou. Sabe disso.

O frescor de Zozi faz-nos pensar sobre a beleza. Quem a define e como? E essa definição, a quem beneficia e a quem prejudica? Basicamente, como é que escolhemos entre o belo e o feio nas nossas sociedades? Pois, se a beleza é inevitavelmente uma construção cultural, então como podemos desconstruí-la, quebrá-la quando a definição não nos corresponde? Em 2011, critiquei, num artigo publicado no diário francês Libération, a uniformidade que reinava no universo da alta-costura.

Quis mostrar como designers como Karl Lagerfeld impuseram um modelo de beleza que excluía quase todas as mulheres não brancas. A mulher que ele sublimava era andrógina, magra, para não dizer anoréctica, sem formas ou curvas que subjugariam o olho imparcial posado sem concupiscência malsã na mulher não caucasiana, geralmente fora do padrão. Por exemplo, o olho parcial de Lagerfeld não podia apreciar a beleza e a escultura divina do corpo de várias mulheres negras. Era incapaz de ir além dos muros que cercavam a sua ilha. Com ele, graças à força de ataque que adquirira na Chanel, a digna alta-costura, a de Paco Rabanne, Yves Saint Laurent e Jean-Paul Gaultier ou John Galliano, havia deixado de rimar com diversidade.

Lagerfeld reinou como um absolutista neste mundo durante décadas, ditava a chuva e o bom tempo. Mas, com os outros, a haute couture era mais bonita e temos boas lembranças disso. Azzedine Alaïa lançou e defendeu com unhas e dentes Naomi Campbell; Saint Laurent fez o mesmo com Mounia, Iman Bowie e Katoucha; e Alek Wek foi várias vezes a “noiva” nos desfiles de Christian Lacroix.

No entanto, havia, e ainda há, uma constante. Fora de Alek Wek, na pele, impuseram-nos modelos negros — tanto mulheres como homens — com pele clara e feições finas. Essa segregação persiste em praticamente todos os lugares, como no mundo da música. No ano passado, numa entrevista sincera, Mathew Knowles, pai e ex-manager de Beyoncé, reconheceu, e insistiu, que a sua filha não teria o sucesso nem a carreira a solo que tem se não tivesse pele clara. “Se fizermos uma retrospectiva, sobre Whitney Houston, por exemplo, analisando as suas fotografias, veremos como elas foram trabalhadas para a tornar mais clara de pele! Há uma percepção, um colorismo, quanto mais clara for a pele, mais inteligente e rico parecemos. Portanto, existe uma percepção da cor em todo o mundo, mesmo entre os negros”, afirmou. Esse fenómeno, “selectivo e imposto”, continua até hoje. Winnie Harlow, uma linda modelo negra canadiana, vítima de vitiligo, é usada, positivamente, pelas marcas Desigual e Diesel; e Ashley Graham, uma modelo branca com excesso de peso, também goza dos favores de marcas e revistas famosas.

Portanto, há pessoas que decidem o que é bonito e o impõem a todos. Quando isso é feito de maneira sã, como no espírito de Yves Saint Laurent — o espírito que une, que celebra a diversidade e a diferença —, é claro que devemos recebê-lo de braços abertos para o abraçar. Mas devemos recusar com força os Lagerfelds de ontem, hoje e amanhã, devemos combatê-los.

E sejamos como Zozi, ela sabe que a beleza do mundo foi construída contra os negros, desde que foram dominados. Ela sabe que é por isso que os negros se rejeitam hoje, que a história de submissão se tornou a razão da sua vergonha de existir, o auto-ódio. Mas o que Zozi sabe melhor é que ela vem de uma longa linhagem de nobreza; de monarcas cujos poderes e inteligência eram temidos por todos os povos da terra, de filósofos, sábios e poetas que treinaram a humanidade toda. Ela sabe disso, é o que justifica a sua dignidade reconfortante. Essa dignidade, que ouvimos na voz segura e vemos no seu cabelo natural, não se deve apenas à vitalidade e pujança de Winnie Mandela, mas também ao orgulho das Candaces, essas rainhas poderosas do reino matrilinear de Kush (ou Cuxe). Ela sabe que os seus antepassados construíram e governaram o Egipto da abundância e alta expansão.

Zozi sabe o preço da sua coroa, sabe que é sua, de pleno direito. Ela faz parte dessa geração consciente que não quer mais ser definida por outros; a sua é a geração do novo paradigma. É essa geração que está determinada a reabilitar todas as belezas ocultadas ou minoradas, e as belezas confiscadas há muito tempo por gurus oportunistas e dogmáticos da monocultura, aqueles que definem a beleza como bem entendem por seu único e insaciável desejo de continuar a dominar.

Alegremo-nos então hoje, pois, pela primeira vez na história, ao mesmo tempo, no momento em que escrevo estas linhas, a Miss Teen USA é negra, a Miss USA é negra, a Miss America é negra, a Miss Mundo é negra e até a Miss França é negra. Não é um favor que vem do white-saviorism, como alguns revisionistas sempre tentaram afirmar nessas circunstâncias, é a força de um movimento de base que está determinado a mudar o mundo. A maioria de jovens do mundo — brancos, amarelos, vermelhos, negros — quer criar um outro mundo, um lugar mais agradável para se viver na diversidade. E só espero que, no próximo ano, todos esses títulos sejam atribuídos a outras belezas diversas, das quais o mundo é abundante: asiáticas, orientais, ameríndias, brancas. Este é o ciclo normal da vida humana, que devemos plenamente libertar das intenções vis dos supremacistas e segregacionistas.

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A vaga conservadora contra as mulheres

(Francisco Louçã, in Expresso, 22/06/2019)

Um velho aforismo dizia que se mede o progresso de uma sociedade pela forma como esta respeita as mulheres e os seus direitos. Mesmo que essa sabedoria possa ser estendida para considerar outras partes da população (as crianças, os refugiados e tanta gente), continua a haver um nó simbólico que diz respeito às mulheres, nesta espécie de disputa perpétua de poderes das profundezas. Como que a confirmá-lo, a nova direita radicaliza as ideias da velha direita contra as mulheres.

Em Espanha com o Vox, agora aliado do Ciudadanos e do PP, no Brasil com Bolsonaro, nos Estados Unidos, esta violência ancestral tem um discurso (o direito da mulher é “ideologia de género”), tem protagonistas (o marialvismo renascido que vai de Berlusconi a Trump) e exibe um poder (as leis que perseguem as mulheres). A agenda conservadora é agora um programa.

NO CENTRO DO MUNDO

Nos tempos modernos, tudo começa nos Estados Unidos. E a vaga é poderosa: só durante estes meses de 2019 já foram aprovadas proibições de atos médicos relacionados com aborto em doze dos estados dos EUA. No Alabama, foi aprovada a criminalização de quem realize abortos; no Missouri, proibido qualquer aborto depois das oito semanas de gestação; no estado de Luisiana, o limite passou a ser de seis semanas; Arkansas e Utah também impuseram limites mais apertados; Georgia, Kentucky, Mississípi, North Dakota e Ohio seguiram os mesmos passos. Na maior parte dos casos foram maiorias republicanas, mas houve também votos de deputados do partido democrata para estas mudanças legislativas.

Todas acabarão por ser analisadas pelo Supremo Tribunal, cuja doutrina é, desde 1973 com o julgamento do caso Roe vs. Wade, que o aborto é praticado legalmente. Mas o tribunal tem a maioria mais reacionária das últimas décadas e é pressionado pela radicalização da direita trumpista. Este movimento tem também uma dimensão internacional, sobretudo na América Latina.

PRENDAM ESSAS MULHERES

Quando na Nicarágua foi aprovada a lei que pune com 10 a 30 anos de prisão as mulheres que interrompem a gravidez, passaram a ser seis os países que proíbem o aborto em todas as circunstâncias. Chile, Salvador, República Dominicana e Malta já o faziam, além do Vaticano. O tema tinha sido discutido apaixonadamente no país, depois de uma criança de nove anos, que tinha sido violada, ter sido autorizada a interromper a gravidez à luz da lei então vigente. A resposta do bispo de Manágua foi excomungar os pais e o médico que tinha realizado o aborto, enquanto os legisladores se dedicaram a tornar impossível a repetição desse ato a partir de 2006.

Em El Salvador, talvez o país que aplica com maior dureza a proibição, o aborto era legal em três casos: se tivesse havido violação, se houvesse perigo de vida para a mulher ou inviabilidade do feto. Essas três exceções foram anuladas em 1998 e há hoje 17 mulheres no cárcere, condenadas a entre 30 e 50 anos de prisão. A ONU alertou para que “o Código Penal de El Salvador afeta desproporcionadamente as mulheres pobres” e o Parlamento Europeu pediu a libertação destas mulheres, mas não obteve resposta.

Em todos estes casos, as proibições e a decisão de julgar e condenar as mulheres que abortam resultam da pressão da extrema-direita cristã, que ganhou corpo na América Latina depois da repressão que se abateu sobre a Teologia da Libertação, culminando com a ação do Papa Bento XVI. Esse integralismo tem crescido também em França e Itália.

Mas, tanto nas Américas quanto na Europa, o movimento teve a cooperação de políticos que se declaram progressistas: Daniel Ortega, hoje Presidente da Nicarágua, apoiou a lei restritiva no seu país, e a proibicionista Malta tem sido governada por um partido social-democrata desde há muito parceiro do nosso PS em organizações internacionais. A regressão de uma sociedade mede-se pela forma como pisa as mulheres.


O arrependido

Olivier Blanchard (na foto) foi o economista-chefe do FMI nos tempos da troika. Era um talibã. Agora é um arrependido. Promoveu um plano de ajustamento que dilacerou a sociedade portuguesa, mesmo que depois tenha reconhecido que os seus “multiplicadores” estavam errados, ou seja, descobriu que a política destrutiva destruía mesmo. Veio agora a Portugal explicar que, com juros tão baixos, “se houver uma recessão, a economia monetária não vai chegar, será precisa também a política orçamental”. Ou seja, mesmo que “a dívida ainda seja alta, o serviço da dívida não é, em termos históricos” e “não há uma crise da dívida”. Portanto, “os défices são necessários”, devendo “ser usados, o máximo que for possível, para investir no futuro, seja através de investimento público seja suportando os custos de reformas estruturais”. O máximo que possível, leu bem?


O ataque do Governo contra o PCP

O argumento mais hábil dos advogados do Governo na Lei de Bases da Saúde é que a questão das PPP é insignificante e, portanto, a esquerda devia ceder para se alcançar a substituição da lei anterior, de Cavaco Silva. Parece inteligente e tem uma conveniente declamação dramática. O problema é que não pode ser enunciado o que, em alternativa, seria tão prioritário: mais anestesistas ou obstetras para evitar a degradação dos serviços incomodaria Centeno e esse crime de lesa-majestade não é admissível, muito menos no Governo. Depois, a própria ideia da urgência socialista em substituir a lei Cavaco é uma bizarria histórica, pois o PS esteve doze anos no poder desde 1990 até à presente legislatura, alguns deles com maioria absoluta, e nunca esboçou um gesto para melhorar a lei, como Arnaut lembrava frequentemente. Mas o problema mais espinhoso da narrativa sobre a irrelevância é ainda outro, é que funciona para os dois lados: se é tão menor a questão, porque é que o PS não procura um acordo e, pelo contrário, usa a cavalaria prussiana para preservar a todo o custo essas insignificantes PPP e lhes garante dois mil milhões de euros no Orçamento por legislatura? Porque é que aplaude a lei Arnaut-Semedo e cria imediatamente uma comissão Maria de Belém para a sabotar? Porque anuncia no Parlamento acordos com a esquerda sobre o assunto e logo os rompe à primeira vociferação da ala direita do Governo? Porque é que torna as PPP a condição fatal para a lei, a ponto de se virar para o PSD, o que tinha jurado pelas alminhas que era manobra interdita?

Creio que o faz por frio calculismo político: ao recusar qualquer base de acordo com a esquerda, o que não parecia ser a intenção original de António Costa, o PS está a escrever o manifesto eleitoral. A estratégia é evidente. Com o PSD fraco, o PS quer ocupar o seu lugar. Para mais, com o PSD manejável na gestão da saúde, o PS oferece uma solução de direita para ser o líder desse espaço. Pela maioria absoluta vale tudo.

E isto implica atacar impiedosamente a esquerda. Contra o Bloco é tudo normal, há mais de um ano que o PS prossegue esta senda, recusando negociar por princípio. Isso cria uma vulnerabilidade, como enunciar que a questão das PPP é insignificante e portanto motivo para rutura, ao passo que a esquerda, sensatamente, alega que é fundamental e portanto motivo para negociação. Certo é que o risco de revelar arrogância não incomoda em demasia o Governo.

No entanto, o ataque mais perverso é contra o PCP e ganhou contornos novos. O PCP teve uma posição ambígua, sugerindo Jerónimo que as PPP “não são o alfa e ómega da lei”, mas suponho que não permitiu que o Governo anunciasse que tinha o seu voto garantido. Terá sido abuso do PS. Por isso, Jorge Pires, em conferência de imprensa, reafirmou o seu partido na oposição à gestão privada dos hospitais públicos. Mesmo assim, Costa usou o último debate para humilhar o PCP: ao acusar o Bloco de ser o obstáculo “exclusivo” à aprovação das PPP, aponta o outro partido como seu cúmplice nesta escolha. Esta forma de condescendência é um truque que pretende menorizar o PCP, tratando-o como irrelevante ou, pior, como uma espécie de MDP dos socialistas. É ofensivo e falso. Despreza a realidade e tem um objetivo eleitoral, tendo esta estratégia sido acentuada pelos resultado das europeias. Nada acontece por acaso e esta é só mais uma forma de reclamar a maioria absoluta.

Porquê as mulheres?

(Isabel do Carmo, in Público, 14/03/2019)

Isabel do Carmo

Por que é que são as mulheres espancadas, algumas até à morte, ameaçadas, assediadas, sobrecarregadas com trabalho doméstico, ganham menos desempenhando as mesmas funções, vivem na sombra? Porque vivemos numa sociedade patriarcal hierarquizada. Os casos extremos são a ponta do iceberg. É uma questão de poder e é também o quotidiano que temos que discutir, para pôr ao sol o que parece subtil ou insignificante. Dar testemunho é um dever.

Participei na avaliação das consequências físicas do inquérito de prevalência de violência sobre mulheres (Manuel Lisboa, 2006). Algumas ousavam revelar lesões, arranhões, encontrões, hematomas, torções. As que tinham sofrido fracturas tinham ido ao hospital. Quase todas “porque tinham caído na escada” na declaração feita à entrada da urgência. Não sabemos os comentários que aí as acolheriam se dissessem o verdadeiro motivo.

Há portanto aqui uma escala, em que o assassinato emerge como caso extremo e sinal de alarme. No entanto, sei o que ouço nas minhas consultas clínicas, e por dever de médico, pergunto o que é que se passa “lá em casa”, para além das queixas que são motivo da consulta. O que ouço também é uma escala. Há as que se queixam que os maridos são uns “brutamontes”, dos quais nunca se separaram porque não tinham condições para isso. E há aquelas, muitas, a quem o marido “levanta a mão”, entra em cólera e impede qualquer conversa sobre razões conflituosas. Enfim, uma relação de maior força física e de poder que regula a relação doméstica.

Estes homens já foram crianças que assistiram a espancamentos ou a simples empurrões ou cóleras exercidas sobre a mãe, para eles “naturais”, assimilados, interiorizados. Foram crianças elas próprias espancadas pelos pais e educadas a reguadas na escola pública. Ou que, mais elegantemente, levaram “uns açoites” ou umas “palmadas que não fazem mal a ninguém”, exercidas pelas mães, subjugadas pelo patamar de cima. A escala do poder foi pois “natural” e interiorizada, o comportamento e o impulso nem são interrogados.

Este ambiente foi o mesmo em que viveram ou vivem polícias e juízes, para só falar nos que têm que exercer autoridade e decidir. É pois necessário meter a mão naquilo que é a vida privada, a vida quotidiana, sem ter medo de ferir susceptibilidades. Mas também sem considerar os homens como inimigos das mulheres ou dizer que “são todos iguais”. A par das histórias dramáticas e sobretudo tristes que ouço, também testemunho muitos casos de casais de muitos anos, verdadeiros companheiros solidários e jovens rapazes que partilham com alegria os cuidados dos filhos e da casa, o que nos dá esperança para o futuro.

Mas a maior parte das vezes em que pergunto sobre as tarefas domésticas, as mulheres descrevem um quotidiano em que fazem quase tudo. Nos casos mais simpáticos ele “ajuda”. Ele “ajuda” e ela até fica agradecida, como se fosse a vizinha do lado, prestável, que a ajudasse. E não a pessoa que tem os mesmos filhos e vai utilizar os mesmos objectos, a mesma roupa e comer a mesma comida que ela, que tem os mesmos horários e os mesmos transportes. Pôr em questão estes problemas relacionados com a sociedade patriarcal e com estas relações de poder não é coisa fácil e atravessa classes sociais e ideologias. Indignação perante um assassinato é uma coisa, mexer nas relações do quotidiano é outra. Infelizmente, a primeira tem que servir para trazermos à luz do dia aquilo que está oculto.

Podemos lembrar as concepções ditas machistas que emergiram a seguir ao 25 de Abril e durante o processo revolucionário. Iam muito além dos tradicionalistas e conservadores e atravessavam os politicamente à esquerda, que se diziam “chefes de família”, respeitavam as suas “esposas”, mas tinham uma vida hipócrita tal como o papa Francisco descreve para os habitantes do Vaticano — moralistas para fora, “pecadores” para dentro. Aliás, homem que tinha “casos por fora” até era engraçado, sinal de virilidade, mas as mulheres tinham que ser “sérias”, “honradas”. Considerar “histéricos” os protestos contra a estrutura machista da sociedade veio até agora.

Só há poucos anos vou a sessões do dia 8 de Março com alguma tranquilidade, pois durante muitas comemorações fui objecto de provocações e tentativas de desacato, as quais foram provocadas por personagens insuspeitos. Numa, um militar muito radical interrompia e queria provar que os homens é que eram vítimas das mulheres. Noutra, uma jovem mulher dizia que estas questões da mulher não deviam ser levantadas porque quando a sociedade mudasse elas ficavam resolvidas, o que desde já se provava pelo facto de no partido dela não haver discriminação de sexos. Noutra, numa sessão da Ler Devagar, uma “feminista” vestida à homem contestava violentamente que estivéssemos a exibir um belo filme, Curvas Graciosas, onde se mostravam as formas próprias das mulheres novas e velhas, muito para além do estereotipado. Todos estes casos foram provocações premeditadas e destinadas a acabar com a sessão, em locais considerados “abertos” e com frequentadores habituais.

Evoco, todavia, também como janela de esperança, o caso de um adolescente, numa escola que servia o Vale da Amoreira, no Barreiro, que numa dessas sessões me colocou uma verdadeira questão: ser ou não verdade que se for o homem a estar desempregado e a fazer tarefas domésticas se sente mais humilhado do que se for o inverso. Foi há poucos anos, estávamos e estamos ainda muito na infância da discussão do quotidiano. Quando estou numa reunião, seja política, seja institucional, seja profissional, com homens e mulheres, proponho sempre que quem fale o faça pedindo a palavra ou, muito melhor, dando a volta à mesa. Porque se não for assim… já sei quem vai falar primeiro, mais alto e a sobrepor-se. E quantas vezes em reuniões sociais vemos as mulheres entrarem e saírem caladas porque “onde há galos não cantam galinhas”. E não evoquemos as excepções para provar o contrário, porque são mesmo excepções conseguidas a custo!

Aprofundando mais ainda os sinais e observando a linguagem, não se poderá reflectir sobre a expressão de insulto “filho da p…”? Não considero que a prática da prostituição seja uma profissão, também não considero que seja crime ou delito e conheço o sofrimento que acarreta. O que sei é que as mulheres que a praticam e os filhos delas são tão dignos de consideração como qualquer cidadão.

O insulto é mal escolhido. Indo mais longe: o que é que queremos dizer com a expressão agressiva “fuck you” nos vários idiomas? Falocrático, não é? Com isto não quero fazer qualquer campanha moralista contra os palavrões e até aprecio a poesia erótica de José Maria do Bocage, que os empregou na verdadeira acepção. O que quero mostrar é que esta sociedade está cheia de sinais que vão da linguagem banal, à ordem “natural” do quotidiano, público e privado, passando dos pequenos gestos ameaçadores até grandes gestos. Para finalmente emergir em crimes baixos que fazem tocar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.