Zelensky, viciado em cocaína, diz ao mundo que tem uma “cura para a doença russa”

(S C F in Resistir, 29/09/2026)


– A Rússia não é a doença. A doença é o sistema imperialista ocidental infectado pela russofobia.

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O comportamento do líder fantoche ucraniano nas Nações Unidas esta semana revela uma degenerescência alarmante.

A degenerescência não se resume apenas a Vladimir Zelensky enquanto indivíduo. Trata-se de todo o sistema belicista ocidental e dos seus meios de comunicação mentirosos, que promovem indivíduos como Zelensky para os seus fins nefastos.

A corrupção desta figura está a tornar-se demasiado óbvia para ser escondida, tal como o sistema corrupto que o projeta.

É do conhecimento geral — fora da bolha dos meios de comunicação ocidentais, claro — que Zelensky é consumidor de drogas. A sua substância de eleição é a cocaína, que ele inala pelo nariz em quantidades abundantes. Sabemos isto por várias fontes, incluindo a sua antiga assessora de imprensa, Iuliia Mendel. Numa entrevista com o jornalista norte-americano Tucker Carlson no início deste ano, Mendel contou como o seu chefe tinha de passar habitualmente 15 minutos na casa de banho antes das conferências de imprensa e depois sair completamente pedrado, num modo de atuação efervescente. (Veja o nosso editorial da semana passada sobre a razão pela qual, nomeadamente, Mendel foi proibida de falar no Parlamento Europeu.)

Mais uma vez, a questão aqui não se resume apenas às excentricidades de um indivíduo patético, Zelensky. A verdadeira história é como ele faz parte de uma farsa sistemática que promove os interesses estratégicos e os lucros do Ocidente. Tal como atores de um elenco central, as potências ocidentais recorrem constantemente a ditadores, assassinos e fantoches para cumprirem as suas ordens, como se tem visto em muitos outros locais e ao longo de décadas na história.

Na Assembleia Geral da ONU, esta semana em Nova Iorque, o comportamento errático de Zelensky revelou os estragos causados pelo abuso de substâncias. Não foi a primeira vez que observadores notaram que o seu olhar vazio, os espasmos faciais e o cheirar incessante pelo nariz se tornaram mais pronunciados. Estes são alguns dos sinais reveladores da dependência do pó branco narcótico, conhecido coloquialmente como “docinho do nariz”, que leva à necrose do tecido nasal e a outras patologias.

A distinção entre ficção e vida real é uma linha ténue na carreira de Zelensky. Como revelou o jornalista de investigação americano Ben Swann no seu documentário inovador, Zelensky Unmasked, o antigo ator que se tornou presidente foi sempre, de certa forma, uma produção mediática. As pessoas por trás da sua ascensão à fama foram oligarcas ucranianos criminosos e agências de inteligência ocidentais. O homem que foi eleito com a promessa de trazer a paz à Ucrânia em 2019 acabou por desencadear uma guerra de cinco anos com a Rússia e milhões de vítimas ucranianas. Um potencial acordo de paz com a Rússia no início de 2022 foi sabotado sob ordens dos EUA e da Grã-Bretanha. As origens da guerra remontam ao golpe de Estado apoiado pela CIA em Kiev, em 2014, e, antes disso, a uma revolução colorida em 2004.

De qualquer forma, o mandato eleitoral de Zelensky terminou há dois anos, mas ele continua como “presidente” sob a lei marcial, proibindo eleições e quaisquer partidos da oposição ou meios de comunicação social. Nesta altura, é mais correto defini-lo como um ditador ou um líder fantoche da NATO.

Algumas coisas nunca mudam. Zelensky era e continua a ser um ator. Está a desempenhar o papel de um corajoso líder em tempo de guerra que, ostensivamente, apela à paz, mas que, ao mesmo tempo, garante que a guerra continue, porque este esquema de mil milhões de dólares é lucrativo para as indústrias de armamento ocidentais e para os subornos do regime de Kiev que rodeia Zelensky. Numa reviravolta bizarra da história, o viciado em cocaína, nominalmente judeu, depende dos regimentos neonazis para a sua sobrevivência.

Zelensky não quer a paz na Ucrânia, nem o seu regime corrupto. Os seus esquemas de desvio de fundos dos contribuintes ocidentais dependem de que o conflito se prolongue indefinidamente.

No entanto, é evidente que Zelensky e o seu regime estão em degenerescência.

O fantoche ucraniano parece exausto. Tem o rosto inchado e a voz rouca. Isto não se deve às supostas dificuldades da guerra e ao stress, mas sim ao consumo incessante de narcóticos para manter esta farsa hedionda em andamento.

Quando discursou na Assembleia Geral da ONU este ano, foi notável a ausência de aplausos por parte dos delegados sentados, ao contrário das atuações dos anos anteriores, que eram recebidas com ovações de pé. Este ano, sentia-se claramente, por parte da audiência silenciosa, que o guião se tinha tornado banal, enfadonho e sem credibilidade. Isto apesar de os seus orientadores dos serviços secretos da NATO se terem esforçado por animar a narrativa, com Zelensky a chamar ao presidente russo Vladimir Putin uma pessoa doente que está a infectar o mundo com a guerra.

Com afetação dramática, afirmou: “Senhoras e senhores, o líder da Rússia, o Paciente Zero, o homem a partir de quem esta guerra começou e se espalhou pelo mundo, tornando-se a maior guerra na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, irá inevitavelmente deixar este mundo. Mas quanto mais tempo Putin conseguir travar a guerra, mais maldade deixará para trás neste mundo”.

É isso mesmo. O viciado corrupto, cujos capangas arrastam homens e mulheres ucranianos das ruas para os empurrarem para um moedor de carne na linha da frente, tem a audácia de chamar à Rússia e ao seu líder uma doença que deve ser erradicada.

Num discurso de vendas vil, Zelensky apresentou a Ucrânia como um “fornecedor de segurança” e uma cura para o mundo ao derrotar a Rússia. Apelou a todas as nações para que enviassem mais dinheiro à Ucrânia como ajuda militar, o que significa mais fundos para a sua corrupção entre compinchas.

Diante dos olhos do mundo, Zelensky regozijou-se com a morte de russos e com a destruição das infraestruturas energéticas da Rússia. Afirmou que o seu regime possuía imagens de vídeo de baixas russas no campo de batalha. Isso soou como um anúncio de filmes snuff para atrair investimento na fabricação de drones e mísseis ucranianos.

Numa perversão do propósito das Nações Unidas, exultou com os acordos de armas que alegou ter celebrado com inúmeros países enquanto participava na sessão da ONU. Citou a Finlândia, a Austrália, o Canadá, a França, a Alemanha e o Reino Unido, entre outros.

Numa projeção grotesca, Zelensky alegou que Putin era insaciável e sacrificava vidas de forma cruel para os seus próprios fins mesquinhos, querendo espalhar a doença da guerra pela Ásia, África e as Américas. Putin “tem de ser travado”, declarou ele, numa alusão velada ao assassinato.

Isto vem da boca de alguém cujo regime assassina opositores no Mónaco, em Espanha e noutros Estados europeus, mata o seu próprio povo para manobras de propaganda de bandeira falsa, como em Bucha (ver este artigo de Raphael Machado, da SCF), chantageia outros países europeus com ameaças terroristas, como na Hungria e na Eslováquia, vende armas no mercado negro que acabam por chegar a África e a outros locais, e depois tem a audácia de se promover como um “protetor da segurança”.

Dificilmente se poderia inventar uma história assim, mas é verdade. A farsa que é Zelensky e o seu regime é uma piada de mau gosto para o mundo. A única razão pela qual continua a funcionar é porque os belicistas ocidentais e os seus meios de comunicação mantêm a ilusão de um herói de guerra a defender a democracia, em vez da realidade de um criminoso toxicodependente a cumprir as suas ordens.

A Rússia não é a doença. Esta é o sistema imperialista ocidental infectado com russofobia. Zelensky não passa de um sintoma execrável.

Uma coisa positiva é que toda esta farsa desprezível parece estar a chegar ao fim. Cada vez mais, as pessoas em todo o mundo estão a ver por detrás do véu que encobriu a realidade feia do poder ocidental e dos seus fantoches, como Zelensky.

Fonte aqui.

Desistorização do tempo: ausência de perspectiva histórica, desesperança de um novo futuro

(Por Frei Betto, in Diálogos do Sul, 30/04/2026)

Broken antique clock with cracked face lying in sandy beach.

Um relógio antigo, em pedaços, jaz parcialmente enterrado na areia ao pôr do sol em uma praia. (Imagem gerada por IA).

Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais”. Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.


Enfrenta-se, hoje, um processo de desistorização [ato ou efeito de retirar algo do seu contexto histórico] do tempo. Nessa crise da passagem da modernidade para a pós-modernidade surge a dificuldade de consolidar valores como, por exemplo, a ética. Não existe projeção, prospecção, estratégia, sem a concepção do tempo como história. Esta é seguramente uma das melhores heranças recebidas pelo Ocidente. Sofre agora o risco de descaracterizar-se. Os gregos imaginavam um tempo cíclico — as coisas acontecem e se repetem — e comungavam a ideia do destino implacável — algo anterior e superior a mim traça os rumos de minha vida; e esse poder é inelutável. 

Foram os persas os primeiros a perceber o tempo como história. E os hebreus nos transmitiram, através do Primeiro Testamento, essa ideia-forte de que tempo é história. Entre os grandes pilares da cultura contemporânea, abraçaram o tempo como história três judeus: Jesus, Marx e Freud. Jesus (1) (Vide meu Jesus Militante – o evangelho de Marcos e o projeto político do Reino de Deus. Petrópolis, Vozes, 2024) via o tempo histórico como construção do Reino de Deus, e traçou um arco entre o princípio, o Paraíso, e o fim, a escatologia, o Apocalipse. Graças a essa herança judaica, a visão cristã imprime historicidade ao tempo. Marx ensinou a compreender melhor os vários modos de produção ao resgatar suas histórias. E Freud, ao mapear os desequilíbrios de uma pessoa, recupera a trajetória dela, inclusive garimpando-lhe os porões do inconsciente.

Quando se percebe o tempo como história, tem-se o varal onde pendurar valores. A vida ganha sentido. E este é o bem maior que todos procuram: um sentido que dê razão à existência e, assim, nos faça felizes.

Para o professor Milton Santos, o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em bens finitos, quando deveria ancorar-se em bens infinitos. Se os bens são finitos e o desejo infinito, a antinomia causa frustração para quem centra neles a razão de seu existir. Centrado em bens finitos, o desejo não encontra satisfação. E acrescento à luz da teologia: o apetite do desejo é infinito porque tem gula de Deus.

Os bens da dignidade, da ética, da liberdade são infinitos, como a paz e o amor. Sem valor de mercado. Não podem ser adquiridos na esquina. Contudo, tentam nos vender simulacros. A publicidade sabe que todos buscam a felicidade. Sem poder oferecê-la, tenta convencer-nos ser o resultado da soma de prazeres. O projeto de vida baseia-se no ter e não no ser. 

Cessada a percepção do tempo como história, falta o fio de prumo dos valores e, portanto, corre-se o risco de perda de sentido. Na dinâmica do pensamento único, impõe-se a ideia de que esse modelo de sociedade capitalista neoliberal é o ideal.  O que resulta dessa perspectiva? A perenização do presente: quer nos convencer que daqui a 200 ou 500 anos haverá shopping center, mercado, Bolsa de Valores, competitividade, porque ninguém ousa imaginar algo diferente. Quando muito, haverá inovações científicas e tecnológicas.

Ora, quem conhece a história sabe que Alexandre Magno sonhou com a expansão perene de seu império. Os césares romanos ambicionaram o mesmo. A Igreja, no período medieval, acreditou haver chegado ao Reino de Deus na Terra. Hitler ousou chamar o seu projeto de Terceiro Reich, o reino definitivo da sua conquista, e deu no que deu… Stalin enveredou pela mesma senda na União Soviética. Eis uma grande asneira: a pretensão de perenizar um momento histórico. 

O que preocupa em nosso momento histórico é não haver uma proposta, consistente e convincente, contraposta ao modelo neoliberal. Somos seres visceralmente vocacionados ao sonho. Somos o único animal que não pode deixar de sonhar, devido à nossa incompletude e à nossa liberdade. Uma vaca encontra-se na sua plenitude bovina, feliz; o cachorro na sua plenitude canina, precisa só de ração diária, um carinho, e fala consigo ao nos fitar: “Coitados, eles têm de fazer reuniões, discutir política, consumir notícias, enfrentar problemas familiares”. A samambaia necessita de muito pouco para ser feliz: sombra e água fresca. 

Nós não. Marcados pela carência, a nossa completude só se realiza no sonho, no amor ou na mística. O sonho pode ser um projeto político, um objetivo profissional, uma vocação artística. Vocacionados à transcendência, não nos bastamos. 

A perda da dimensão histórica do tempo ameaça o verdadeiro caráter da cultura. Quanto mais consciência e densidade espiritual uma pessoa tem, menos consumista tende a ser. Porém, cada vez mais a cultura é atrelada ao consumismo. Perde o valor como fator de humanização para virar mero entretenimento. Há uma máquina publicitária desinteressada em formar cidadãos, e sim consumidores. A ponto de se estender isso à infância. 

Vivemos, pois, em uma situação em que a vida volta a ter dimensão cíclica, não histórica, o que torna difícil estender o varal para dependurar os valores. O sonho como utopia ou projeto passa a ser quase anomalia. “Você tem de aceitar essa sociedade tal como ela se apresenta”, insiste o pensamento único. 

A perenização do presente induz à síndrome da juventude eterna. Já que o presente é perenizado, também a nossa existência deve ser. Malha-se o corpo, mas não o espírito. Hoje, ficar velho é falta de educação; engordar então, nem se fala… 

Minha geração — a dos idos de 1968 — vive agora em desconforto. Tantos sonhos e sacrifícios, cantos e passeatas, e o olhar altivo do Che iluminando nossos ideais, para resultar em filhos que se drogam, detestam política e, de academias, só conhecem as de exercícios físicos. Para alguns, o culto do corpo compensa a atrofia do cérebro. Queríamos mudar o mundo e criar o homem e a mulher novos; lutamos pelo fim da ditadura e fomos às ruas em festa pelo advento da democracia; derrubamos Collor como corrupto, repudiamos Bolsonaro como aspirante a ditador e, no entanto, o Haiti é aqui e Gaza fica ali na esquina, nenhum preso pelo massacre do Carandiru; não nascem flores à porta da Candelária, e sangram corações em Vigário Geral, nos complexos da Penha e do Alemão e Eldorado dos Carajás. E tantas vítimas de balas “perdidas”…

A morte da modernidade merece missa de sétimo dia? Não seria estranho que os jornais publicassem este anúncio fúnebre: “Os senhores Derrida, Lyotard, Deleuze, Baudrillard, Vattimo e Lipovetsky convidam para o féretro de Descartes, Locke, Kant, Hegel e Marx”. Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança nas possibilidades da razão e nos ensinaram a situar o sujeito humano no centro do pensamento e a acreditar que a razão sem dogmas e donos construiria uma sociedade livre e justa. E nós, estudantes militantes da rua Maria Antônia, em São Paulo, ou do restaurante Calabouço, no Rio, soberbos filhos diletos da razão moderna, nos abrigamos confortavelmente em sistemas unitários, concepções totalizantes e ideologias sagradas, crentes de que a filosofia nos redimiria dos males deste mundo, cujo futuro era mera questão de geometria política.

Foram Baudelaire e Gautier que, em 1864, falaram pela primeira vez em pós-modernidade. Aferrados à razão, não nos demos conta de que é “a imperfeição da inteligência” (Tomás de Aquino). Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não prestamos atenção à crítica romântica da modernidade — Byron, Rimbaud, Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no planeta que o Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, a ascensão da direita, o ceticismo frente aos valores. Somos invadidos pela incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação, a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história, e o detalhe sobrepuja a fundamentação.

Não há doutrina especulativa que resista diante do massacre de sem-tetos, da impunidade dos assassinos de sem-terras. Hegel equivocou-se. Nem todo real é racional e vice-versa. Trabalhadores lutaram pela derrubada do socialismo no Leste europeu e pela eleição de Trump em 2024; EUA, Reino Unido, França e Alemanha, outrora pátrias de exilados, restringem a entrada de refugiados estrangeiros. As democracias funcionam para as elites e o povo não se manifesta.

O pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a miséria circundante, a filha gasta mais em canetas emagrecedoras do que em livros, e causa profunda decepção saber que no Brasil a impunidade é mais forte que a lei. Ainda assim, relutamos frente à decisão de nos engajar para promover mudanças. Recuamos do social ao privado e, rasgadas antigas bandeiras, nossos ideais transformam-se em gravatas estampadas. Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais.” Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.

Agora predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Resta-nos captar fragmentos do real e aceitar que o saber é uma construção coletiva. Nosso processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, pela descontinuidade e pelo pluralismo. A desconfiança da razão nos impele ao esotérico, ao espiritualismo de efeito imediato, ao hedonismo consumista, em progressiva americanização de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio ou, como predisse Heidegger, caminhamos por veredas perdidas.

Esse momento de sombras e impasses deixa o vácuo que também na vida social é imediatamente preenchido por forças adversas. Não haveria narcotraficantes se não houvesse viciados com seus corações esburacados pela ausência de afeto, de perspectivas, de realização profissional, e com suas mentes atrofiadas pela falta de qualidade no ensino, de livros acessíveis ao bolso e de educação artística. Mas quando o governo de um país sonega verbas necessárias à Educação, paga mal aos professores, não exige que a TV — uma concessão pública — contribua para elevar o nível cultural da população, como estranhar que em uma geração deserdada não sejam nítidos os limites entre polícia e bandido, corrupto e profissional realizado, direito à vida e risco de morte?

Sem o resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que o mais forte faz com as próprias mãos, ainda que a redigir leis discricionárias.

* Artigo em português do Brasil de acordo com a fonte aqui

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Ética e guerra

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/04/2022)

Mudam-se os tempos mudam-se as bondades da UE — O sócio Zelenski vem atrasado

A presidente da Comissão Europeia foi de Bruxelas a Kiev entregar uma proposta de sócio da União Europeia ao regime da Ucrânia representado por Zelenski. Vem atrasado, segundo se conclui.

Há cerca de dois meses a União Europeia ameaçava de expulsão dois Estados, a Hungria e a Polónia, por não cumprirem os critérios mínimos de transparência económica, independência do poder judicial, corrupção, perseguição de minorias.

A hipótese da Ucrânia cumprir os critérios de adesão motivava há dois meses risada geral na União Europeia, de tal modo o regime da oligarquia local estava muitos furos abaixo deles, com violência sobre minorias, desrespeito pelos valores elementares de um Estado de Direito.

Há dois meses a Ucrânia de Zelenski era um Estado mais mafioso do que a Polónia e a Hungria e do que os Estados Bálticos. Um Estado na categoria de iliberal, em que uma democracia formal justificava o poder de uma minoria oligarca. Era uma Rússia em ponto mais pequeno.

Ocorre a invasão russa e por milagre, e desfaçatez, tudo muda em Bruxelas. A Ucrânia, que se dispunha a servir de base americana junto à fronteira russa e a eliminar as populações de origem russa no Leste, para facilitar a instalação de meios de ameaça ao vizinho, passa a ser o nec plus ultra da democracia, da transparência, as suas forças armadas dominadas por forças paramilitares de cariz nazi (o dito Batalhão Azov) passam a ser heroicas defensoras da democracia e do Direito! Zelenski celebra missas em todos os parlamentos, da ONU à Austrália. Falará, em breve, presumo, no Speaker’s Corner, no Hyde Park de Londres, ao lado desse exemplar de senso e respeitabilidade que é Boris Johnson. Irá a um party em Downing Street! Porventura comprará o iate do Abramovitch (a quem a UE atribuiu uma nacionalidade, através do governo português)!

Com a invasão, a Polónia, uma teocracia reacionária gerida por um gnomo antidemocrático — iliberal como se designam agora os neofascistas — passa a ser milagrosamente um exemplo, porque acolhe refugiados, recebe os gigantescos fundos da União Europeia (os nossos impostos) e autoriza bases americanas, logísticas e operacionais para atacar a Rússia, incluindo bases de misseis balísticos com ogivas nucleares! Um aliado abençoado!

Ao lado da Polónia, um regime igualmente oligarca e corrupto, o de Orbán, na Hungria, que fez outra análise dos seus interesses, concluindo (para já) pela conveniência de não se meter debaixo do guarda-chuva americano (aumentando o seu valor no mercado das alianças, porventura) e de lhe servir de albergue, passou a ser execrável, anti-democrata, putinista. Pelo menos por enquanto.

Estamos assim conversados quanto à seriedade política da União Europeia, quanto à invocação da ética e dos princípios por parte dos dirigentes da UE. Gente que disfarça o mau cheiro com desodorizantes!

Há muitas pessoas respeitáveis que defendem esta utilização da ética em Roll-on ou em spray e dos princípios à la carte, segundo as conveniências. Uma ética tipo concertina que estica e encolhe!

Acompanho-os nesse pragmatismo, devedor de Kant, para quem a ética é uma disciplina ligada a um uso prático da razão, isto é, voltada para a ação e para a obtenção de vantagens, que ele designou como o “viver bem”.

Todos pretendem viver bem. O problema é que todos vivemos em conflito com os interesses dos outros. Para alguns, como eu, a paz resulta da conveniência de não fazer a guerra. Para outros, mais decididos, a guerra é um jogo de tudo ou nada: obriga-se o inimigo a jogar todo o seu dinheiro (encavar, no póquer) e aguarda-se que o resultado seja vitorioso. Vitória ou morte!

O pensamento de Kant é, aliás, o orientador dos belicistas que defendem que à invasão da Rússia se reponde acentuando o confronto, aumentando a violência, elevando os patamares de destruição, alimentando as capacidades destruidoras das armas até a um conflito final, que hipocritamente nunca referem como sendo a defesa de utilização de armas decisivas, nucleares. Kant contestou o pensamento de Platão e de Aristóteles, que assentaram as bases do pensamento ético na busca da razoabilidade das ações morais e na sua inteligibilidade. Está na moda.

Estamos hoje no mundo dos defensores dos princípios da ética assentes na emoção que esconde, ou serve o interesse de alguém. Numa situação típica das religiões, que transformaram a ética em fé, e das igrejas, em que a bondade e os princípios dos fiéis servem os interesses dos sacerdotes e das cúrias. As cruzadas são um exemplo deste aproveitamento da ética para fins materiais e de apropriação do poder.

Adiante-se que esta guerra está a servir para consolidar o poder da oligarquia ucraniana, que era execrada há menos de dois meses pelos “democratas humanistas” de Bruxelas! (Mudam-se os tempos…)

Pelo que se vê claramente na mudança da atitude e de julgamento da União Europeia relativamente ao regime ucraniano após 24 de Fevereiro de 2022, não existe para sua defesa nenhum argumento de ordem moral — defesa do Bem, pois o regime não mudou de essência nem de tripulação — nem nenhuma inteligibilidade, a não ser a do seguidismo da estratégia dos Estados Unidos.

Não se tendo alterado a natureza do regime de Kiev, porque não recebeu a UE Zelenski em Bruxelas logo após a passagem do ano, evitando estes incómodos e emoções à senhora Van Der Leyen e ao senhor Borrel?

A invocação da virtude como valor ético (Tomás de Aquino) não faz qualquer sentido nesta disputa entre os belicistas invocadores do princípio de que, sendo a sua guerra (a da Ucrânia e Estados Unidos) uma guerra justa, ela deve ser travada a todo o custo, até à vitória final, a destruição do inimigo; e os que entendem que, não havendo guerras justas, nem razões absolutas, todos os poderes exteriores deviam contribuir para uma paz que evitasse ou prevenisse a continuação da barbárie.

Ou é esta continuação de realidades exploradas à exaustão e com claros intuitos de servirem de alimento à guerra o que pretendem?


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