As melhoras, Rio…

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 25/02/2019)

Quando chegamos a uma época como esta, pré-eleitoral, eu tenho um estranho fetiche que é o de olhar para os painéis de publicidade que os Partidos e seus líderes decidem exibir e tento descortinar, vislumbrar e mesmo adivinhar as mensagens que eles, mesmo que de um modo subliminar, nos tentam impingir…

E a verdade é que já vi dois dignos de acerca deles me de debruçar. E, mesmo com algum sacrifício e dor, da responsabilidade dizem que de uns bicos de um papagaio que um nunca vi nem tive, sobre eles me debruçarei…assim como quem diz, percebem?

Da substância do Melo nem me vou alongar muito, pois já muitos o comentaram e eu parece que me atrasei! Nele ele diz que ” A Europa é aqui”! Todos foram pelo óbvio: claro que é porque tu estás sempre aqui, apressaram-se todos a dizer!  Mas é claro que é e se todos o dizem é porque é mesmo e quem sou eu para o contradizer?

Agora, no que diz respeito ao Portugal ., traduzindo : Portugal “ponto” , aí a coisa muda mesmo de figura e eu dou por mim bloqueado: nem ando para trás nem para a frente! Digamos que esbarrei contra aquele “ponto”, ponto acerca do qual ainda não vi uma única palavra escrita! Que raio quererá ele significar?

Que quererá ele significar se não passa de um inócuo simples ponto e não tem acoplado uma simples virgula de modo a se poder dizer que é um ponto e virgula para assim se poder dar sequência ao Portugal, tipo um País situado na extremidade ocidental da Europa; à beira mar plantado e coisas assim…ou então mais um ponto, de modo a ficar dois pontos, significando esses dois pontos depois do tal Portugal um aviso, ou uma lembrança, vá lá, à Europa, avisando-a de que ” A Europa (agora) é aqui”. Mas falhou o “agora”!

O facto é que o Melo esqueceu-se ( eu ter-lho-ia lembrado mas, na sua sobranceria, nem uma ideia me pediu.,.) e assim se desvaneceu para ele aquilo que poderia ter sido uma grande conquista! O que resta é aquela frase seca e isolada do ” A Europa é Aqui”, como que alguém nisso possa acreditar…Só se for para ti, é o que muitos dizem, ó “Dandy” de Joane! Como é que um tipo tão loquaz tanto simplifica?

Ora deste estamos, portanto, libertos (ufa…) mas, ainda hoje mesmo, em chegando a Esposende, naquela primeira rotunda junto ao Continente, que é que eu vejo ali escarrapachado na minha frente, pois fazia a rotunda para  virar à direita para Góios? Um cartaz do Rui Rio, um cartaz que nem na Póvoa ainda exibe, com a sua cara retocada a botox, só pode ser, e sem aqueles prolongados pêlos que lhe escapam atrás, que significam desleixo porque moda não parecer ser, mas que a produção tratou de eliminar, tudo isto em tom alaranjado, tal como as palavras a seguir no mesmo cartaz impressas: “Conto contigo, ou consigo já nem sei, para melhorar Portugal”!

Desde já vos digo que aquele modo tão directo e franco de a mim se dirigir, não tendo tido aquela ousadia do Seguro quando escrevendo-me uma carta a pedir-me ideias me tratou por caro amigo…ele que nunca me tinha visto mais gordo…nem mais magro, ok?, me embeveceu! E verifiquei que, ao contrário do outro, o tal de Seguro, que queria a minha ajuda para ambos mudarmos Portugal, o Rui é mais comedido e só quer “melhorar” Portugal, o que significa que é contra radicalismos bacocos!

Mas nem ele nem os dele pensaram bem no que escreveram pois é bom de ver que ao querer “melhorar” Portugal é porque admite implicitamente que ele goza de boa saúde, está razoavelmente bem de vida e não apresenta sintomas negativos…Então? Quer contar comigo para quê? Para “melhorar” não conte comigo! Ainda se fosse para “mudar”...

Ele e os seus se tivessem escrito “mudar Portugal”, e talvez por lhe terem lembrado qual era a minha receita, não o escreveram, pois tinham por certo conhecimento do que eu disse ao Seguro quando ele aqui há uns anos me mandou aquela célebre carta em que, tratando-me por amigo, me solicitou ideias, que ele sabia que eu tinha, para ambos mudarmos Portugal!

É que eu, depois de muito matutar sobre o assunto, depois de estudar tudo e mais alguma coisa sobre a nossa génese e os feitos da nossa grei, cheguei à revolucionária solução que, de um modo desinteressado e sem reclamar qualquer soldo, enviei ao Seguro…

António, eu sei que tu sabes que eu decidi concorrer às Primárias para te abater mas, ciente que as oitenta ideias que tens não te chegam para nada, o Costa mesmo sem ideias come-te de cebolada, digo-te de uma vez por todas o que penso, e toma nota:

Mudar Portugal para outro País, um assim tipo Holanda seria até interessante mas como tem diques a coisa fica feia e os custos seriam astronómicos…de modo que te sugiro uma solução mais em conta, restringida ao espaço interno e sem aqueles custos de contexto da outra…

Qual? É simples meu caro: Mudas o Minho para o Algarve; o Algarve para Trás os Montes; Trás os Montes para o Ribatejo; o Douro para o Douro pois está muito bem onde está; o Alentejo para a Estremadura e Lisboa para a Corunha…

Lisboa para a Corunha? Mas isso seria tomar a Galiza? Exacto: não é o crescimento por que anseias? Ora aí esta!

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A raposa, a tartaruga e a lebre

(Vítor Matos, in Expresso Diário, 16/02/2019)

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António Costa organizou uma festa de propaganda em Gaia a lançar Pedro Marques para Bruxelas. Foi uma montra. Rui Rio organizou a Convenção da Comissão Estratégica Nacional (CEN) para o mesmo dia, para ouvir a sociedade civil e preparar o programa do partido. Seria uma montra de ideias. Assunção Cristas antecipou-se e agiu de véspera para marcar a agenda com a moção de censura, apontando a Costa – é um “nado morto”, disse o primeiro-ministro – mas o efeito é para acertar em Rio. A política é para gamers. Este fim-de-semana a competição foi entre o astuto Costa, a velocista Cristas e o fundista Rio.

Os socialistas abriram este sábado a nova fase de uma campanha que começou com a aprovação do Orçamento. As Europeias são o aquecimento para as legislativas e António Costa começa a pôr no terreno a história que quer contar para conter as dificuldades do momento ao mesmo tempo que põe gelo nos pulsos dos parceiros.

“Prometemos com conta, peso e medida”, disse o secretário-geral do PS perante o partido. É o mote para contrapor à contestação social e amainar reivindicações, mas também fala para esquerda e direita. É a moderação como trunfo. Este é o discurso. O resto é ação.

O primeiro-ministro é uma raposa. Com a remodelação, Costa – o hábil – mexe as peças do seu xadrez a preparar o novo ciclo suportado em algumas caras novas e num Governo que só precisará de ajustamentos na próxima legislatura (os ministros da Educação e Ensino Superior continuarão? Marta Temido manterá o lugar?) Os jovens ascendem a posições seniores fora da zona de conforto e Pedro Nuno Santos tem a sua prova de fogo num ministério com as Infraestruturas a cair aos bocados e sem o dinheiro dos fundos europeus que será autonomizado noutro ministério – para outro homem de confiança de Costa. O “pedronunismo” tem um ministério de desgaste. Não será fácil.

À direita, dois ritmos: uma lebre e uma tartaruga. O PSD vai devagarinho, cumprindo o calendário pré-estabelecido por Rui Rio, ao estilo de atleta fundista (só sprinta em caso de necessidade, como quando se viu apertado por Montenegro). Este sábado, a convenção do CEN em estilo de Estados Gerais, passou a ideia da política séria que o líder do PSD quer que seja a marca de água da sua diferença. Política sem politiquece, mas ainda com baixa intensidade, para Rio mostrar que não é como os outros, que procura o conteúdo, para contrastar com um PS em campanha eleitoral pura. O PSD há-de lá chegar. Mas uma convenção com painéis temáticos à porta fechada não dá um retrato de um partido aberto. Não fazemos ideia do que foi debatido em cada um dos 17 grupos temáticos, a não ser o que disseram depois oficiosamente alguns porta vozes. Na maior parte os casos, formularam ideias genéricas. Mas a iniciativa gera a expetativa de o PSD, daqui a uns meses ter um programa com bandeiras mobilizadoras.

O CDS é a lebre. Assunção Cristas tem pressa em aproveitar os espaços vazios que o PSD vai deixando. Se nem sempre a rapidez é a jogada avisada, no curto prazo rende. A moção de censura é um favor ao PS que serve para obrigar o PSD a posicionar-se. Cristas vai forçar Rio a contradizer-se seja qual for a sua opção: se votar a favor da moção de censura, o líder do PSD entra em contradição com a sua filosofia de não fazer oposição pela oposição em nome da tática e dos títulos de jornais; se votar contra, abre caminho a Cristas que vai assumir-se mais ainda como a única que se opõe verdadeiramente a Costa, encostando o PSD ao PS; caso se abstenha, dá a imagem de um líder fraco que não se quer comprometer nem melindrar o PS e continua a dar espaço ao CDS.

Rui Rio, porém, sem falar do assunto, voltou a mostrar este sábado qual é o seu guião: “A política só faz sentido se for para resolver os problemas das pessoas. Não tem qualquer utilidade quando é exercido em torno de guerras partidárias estéreis ou conduzida por temas virtuais, que podem alimentar notícias, mas que nada dizem ao cidadão”. Se estas frases servem de argumento, em breve saberemos como vai posicionar-se o PSD.

Os jogos começaram. Daqui a uns meses veremos qual dos personagens desta fábula escolheu a melhor estratégia.

 

Não há regimes eternos

(Carlos Esperança, 21/01/2019)

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Assunção Cristas (AC) dixit: “As esquerdas não servem para o nosso país porque não têm nenhuma prova dada”.

De facto, durante os 48 anos de fascismo e nos governos da democracia, a que a direita teve de submeter-se, deu abundantes provas, mas não foram boas nem originais.

Numa conferência sobre o tema da saúde, a líder do CDS acusou António Costa de querer “pintar o país de cor-de-rosa”.

[“A preocupação do CDS é mostrar que há alternativa”, com “foco no doente e seu bem-estar e não no sistema”, tanto no setor público como no privado], mas omite que o CDS votou contra o SNS e defendeu sempre o privado e o das Misericórdias.

AC, não tendo argumentos, usa a fé, não tendo ética, acusa sem factos, não sabendo que o passado do seu partido a obrigaria a ter algum pudor, expõe-se ao ridículo. Ela não faz política, usa a maledicência, não tem um programa, reza as orações, enquanto pensa nos negócios da família.


Rui Rio

Depois da retumbante vitória contra Passos Coelho, Relvas, Cavaco e Marco António cujo voto secreto se virou contra eles, exigem-lhe agora uma vitória impossível. Claro que voltam. Marques Mendes, conselheiro de Estado escolhido pelo PR, encarrega-se disso. Aliás, a intromissão de Marcelo nos conflitos internos do PSD, por intermédio de jornalistas e do seu homem de mão, travestido de comentador político, encarregar-se-ão disso se não arranjarem melhores atores.

Rui Rio já teve de alterar o discurso e prometer lugares aos derrotados, que não serão excluídos, e agora é tempo de carregar no discurso contra o PS (o que é legítimo) e «Cavalgar a onda da contestação social», o que é perigoso.

Não são justas todas as greves e nem todas as exigências justas são possíveis de atender, mas é surpreendente que sejam os partidos que votaram contra o SNS, que ora sejam os mais exigentes e apoiem greves com que sabem poder destruí-lo e entregar aos privados e à caridade um direito de todos.

É fácil os trabalhadores destruírem as democracias com greves, quase sempre justas, mas é mais fácil às ditaduras destruírem umas e outras, e abolirem os direitos dos trabalhadores.


Apostila – O PR que, como deputado, votou contra o SNS, quer uma Lei de Bases com o acordo dos dois principais partidos!!! Um deles votou contra o SNS.