Não há regimes eternos

(Carlos Esperança, 21/01/2019)

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Assunção Cristas (AC) dixit: “As esquerdas não servem para o nosso país porque não têm nenhuma prova dada”.

De facto, durante os 48 anos de fascismo e nos governos da democracia, a que a direita teve de submeter-se, deu abundantes provas, mas não foram boas nem originais.

Numa conferência sobre o tema da saúde, a líder do CDS acusou António Costa de querer “pintar o país de cor-de-rosa”.

[“A preocupação do CDS é mostrar que há alternativa”, com “foco no doente e seu bem-estar e não no sistema”, tanto no setor público como no privado], mas omite que o CDS votou contra o SNS e defendeu sempre o privado e o das Misericórdias.

AC, não tendo argumentos, usa a fé, não tendo ética, acusa sem factos, não sabendo que o passado do seu partido a obrigaria a ter algum pudor, expõe-se ao ridículo. Ela não faz política, usa a maledicência, não tem um programa, reza as orações, enquanto pensa nos negócios da família.


Rui Rio

Depois da retumbante vitória contra Passos Coelho, Relvas, Cavaco e Marco António cujo voto secreto se virou contra eles, exigem-lhe agora uma vitória impossível. Claro que voltam. Marques Mendes, conselheiro de Estado escolhido pelo PR, encarrega-se disso. Aliás, a intromissão de Marcelo nos conflitos internos do PSD, por intermédio de jornalistas e do seu homem de mão, travestido de comentador político, encarregar-se-ão disso se não arranjarem melhores atores.

Rui Rio já teve de alterar o discurso e prometer lugares aos derrotados, que não serão excluídos, e agora é tempo de carregar no discurso contra o PS (o que é legítimo) e «Cavalgar a onda da contestação social», o que é perigoso.

Não são justas todas as greves e nem todas as exigências justas são possíveis de atender, mas é surpreendente que sejam os partidos que votaram contra o SNS, que ora sejam os mais exigentes e apoiem greves com que sabem poder destruí-lo e entregar aos privados e à caridade um direito de todos.

É fácil os trabalhadores destruírem as democracias com greves, quase sempre justas, mas é mais fácil às ditaduras destruírem umas e outras, e abolirem os direitos dos trabalhadores.


Apostila – O PR que, como deputado, votou contra o SNS, quer uma Lei de Bases com o acordo dos dois principais partidos!!! Um deles votou contra o SNS.

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A próxima batalha no PSD

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 19/01/2019)

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Pedro Marques Lopes

Um dos argumentos mais descabidos que ouvi para que existissem eleições antecipadas no PSD foi o de que isso conduziria a uma clarificação.

Presumo que com isso se quereria dizer que, de facto, neste momento, os militantes do PSD deveriam diretamente dizer se queriam Rui Rio ou Luís Montenegro ou outro qualquer como presidente do partido.

Esqueçamos, por agora, que estamos a quatro meses de umas eleições europeias e a oito das legislativas e que um processo desses faria que de manhã se estivesse a fazer campanha para essas eleições e de tarde para a liderança do PSD.

O que convém lembrar é que o líder do partido foi eleito há um ano e que o partido ainda não disputou nem uma eleição desde essa data. Quem acha que Rui Rio devia convocar diretas pensa, por imperativo de coerência, que um primeiro-ministro devia convocar eleições gerais se um líder da oposição pensasse que ele não estaria a conduzir o país no sentido que achasse certo e havendo sondagens que indicassem um défice de popularidade.

O Conselho Nacional de passada quinta-feira serviu para mostrar que os militantes através dos seus representantes estão maioritariamente com Rui Rio, o que não sendo pouco apenas servirá para pacificar uma ala oposicionista, mas não evitará a continuação de uma guerra sem quartel de outra.

Se tenho poucas dúvidas de que Luís Montenegro até às próximas eleições permanecerá em silêncio e até se empenhará na campanha, há um grupo de militantes que não parará com a campanha contra o líder e fará os possíveis e os impossíveis para que o PSD tenha o pior resultado possível.

Aliás, se a hipótese de que o repto extemporâneo de Montenegro tinha tido apenas o objetivo de marcar terreno, mais claro ficou no discurso pós-derrota de ontem. Ficou agora claro que foi mais uma manobra para afastar outros opositores internos no futuro do que propriamente vontade de derrubar Rui Rio. Uma forma de dizer, na eventualidade de maus resultados eleitorais, “muita gente protestou, mas fui eu que avancei”. Como se os resultados forem satisfatórios, vai argumentar que o seu passo serviu para acordar o partido.

Os próprios resultados do Conselho Nacional assim o mostraram. É difícil pensar que um homem com a experiência política do ex-líder da bancada parlamentar social-democrata não soubesse que Rio não convocaria diretas. E que assim sendo não tivesse garantido um conjunto de apoios no Conselho Nacional que, pelo menos, lhe desse uma hipótese de poder convocar o sufrágio.

A afirmação de que mantém as divergências estratégicas (ainda não se percebeu bem quais são e em que áreas ou políticas) com Rui Rio e o “acordei um gigante adormecido” foram evidentes das intenções futuras de Montenegro.

A diferença entre Luís Montenegro e o grupo da alt-right à portuguesa é que o homem de Espinho, se chegasse a presidente do PSD, não o quereria transformar num projeto de extrema-direita soft nem, se nunca chegar à liderança, quererá destruir o partido. Para os Bannons lusos daria muito jeito conquistar uma estrutura montada e com muitos votos assegurados, não o conseguindo o PSD será um empecilho à sua estratégia e tratarão de o tentar fazer implodir. Tem de se reconhecer que têm feito um bom trabalho e tido até um apoio precioso de muita gente que está muito longe de secundar esta estratégia destrutiva. Montenegro, não há dúvida, ajudou.

Esta vitória de Rui Rio não deixa grandes dúvidas sobre a composição da próxima lista de deputados do PSD à Assembleia da República. Claro que a alt-right que se colou ao PSD vai fazer os possíveis e os impossíveis para que as eleições europeias sejam uma catástrofe para o partido e que ainda possa haver uma revolução antes das legislativas, mas esse cenário é praticamente impossível. O palco principal que essa alt-right que se colou ao PSD tinha vai-lhes fugir. São eles os grandes derrotados neste processo: nem marcaram terreno para o futuro nem conseguirão manter os seus bastiões no Parlamento. Manterão o seu órgão de comunicacional oficial, mas a capacidade de chegar aos militantes e votantes habituais do PSD vai diminuir muito. Se agora, sendo deputados, podem sempre argumentar que representam os eleitores sociais-democratas e podem afirmar as suas posições contra a direção do partido, sem esse respaldo a mensagem chegará com muito menos intensidade. Sobra-lhes um último recurso quando deixarem de ter palco, trazer o homem que os levou para o partido e lhes deu poder: resta-lhes Pedro Passos Coelho.

Justiça

Depois de um processo que durou onze anos, Armando Vara foi para a prisão.

Tenho muitas dúvidas sobre a adequação da pena aos factos efetivamente provados, bem como à qualificação jurídica de algumas ações do ex-governante, mas foi assim que as várias instâncias judiciais decidiram e, com certeza, estão convictas de que fizeram justiça.

Não sou dos que pensam que o nosso sistema jurídico penal é excessivamente garantista. Em face dos constantes graves atropelos aos direitos fundamentais de arguidos ou simples suspeitos, não estou disposto a abdicar de um milímetro das minhas garantias constitucionais. Pelo contrário, penso até que em muitos casos deve haver um reforço dessas garantias.

Uma justiça, no entanto, que leva onze anos a condenar alguém não faz justiça nenhuma. E não me venham com garantismos nem meios garantismos, é simplesmente péssimo funcionamento.

Talvez se alguns elementos da justiça se concentrassem em investigar e acusar condutas definidas e se deixassem de megaprocessos para vender a ideia de que são os defensores da democracia contra uma conspiração de políticos e “poderosos” as coisas corressem melhor.

Vá ao teatro

O nosso teatro vive as dificuldades normais de um país pobre, com níveis altos de iliteracia, pouco qualificado e com uma educação que despreza a expressão artística. O que falta, porém, em meios e apoios sobra em talento e, sobretudo, em vontade e amor ao teatro de quem dele faz a sua vida.

Nas duas últimas semanas vi duas magníficas peças. Uma no Teatro Aberto e outra no Teatro do Bairro. O Novo Grupo do João Lourenço tem em cena na Sala Vermelha A Verdade e, na Azul, A Mentira. Já vi A Mentira e só consigo explicar a falta de filas de pessoas para ver o espetáculo que cheguem ao Rossio por mera falta de publicidade. Nesta semana, fui ao Teatro do Bairro para ver a encenação de Muito Barulho por nada e podia dizer exatamente o mesmo – além de que vi um dos melhores Beneditos de que tenho memória.

Não tenho dúvidas de que muitas mais e excelentes peças andam por Lisboa e pelo resto do país.

Sendo verdade que as salas andam muito bem compostas, é ainda mais verdade que a qualidade dos espetáculos merecia ainda mais gente. Vá ao teatro, você merece.

Uma vitória de Pirro?

(Luís Alves de Fraga, 18/01/2019)

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Rui Rio saiu vencedor no resultado da votação da moção de confiança apresentada. Mas, parece-me, é uma vitória de Pirro. Vejamos em que tipo de raciocínio me apoio para dizer tal.

O simples facto de Luís Montenegro Esteves ter desafiado Rui Rio foi, como disse há dias, a demonstração de que já não há um só PSD, mas sim dois: um, o da velha guarda, ou seja, ainda imbuído do espírito fundador, e, outro, claramente influenciado pelas novas gerações, que vêem no partido um “caminho” para o neoliberalismo. Passos Coelho abriu essa porta.

O facto de António Costa ter aceite o apoio parlamentar do PCP e do BE, abriu, também, uma nova era na política nacional. Tratava-se do único caminho possível depois de José Sócrates. As esperanças que depositei em António José Seguro foram vãs, pois este não teve a coragem política de dar o “salto” para o entendimento à esquerda.

O “velho” PSD dos Balsemão e outros do mesmo quilate foi ultrapassado pela “geringonça”, porque esta está a fazer a política que os “barões” de antanho poderiam levar a cabo depois de Passos Coelho.

Santana Lopes deu o sinal de desmembramento, fazendo outro partido, que não admite entendimentos nem com o PS e muito menos com o PCP.
O que resta à ala menos conservadora do PSD – aquela que poderia chamar de passista – é sair ou para a Aliança de Lopes ou formar mais um novo partido.

Ora, em face deste panorama – perfeitamente possível de se tornar real em curto espaço de tempo – posso dizer que estamos num momento de grande viragem ideológica dos partidos políticos: o PS, depois da experiência da “geringonça” não vai voltar a ser o mesmo, dado que perdeu o medo da “outra” esquerda; o PCP também não vai voltar a ser o que foi – julgo mesmo, haverá uma natural tendência para sofrer fortes erosões, que o poderão, a médio prazo, levar à agonia, por transferência do eleitorado jovem para o BE, o qual, também ele, no plano ideológico, será diferente daquilo que ainda é. Mas, o maior ajuste, a maior modificação, segundo penso, acontecerá à direita. O PSD vai começar a perder eleitorado, que procurará reflectir o seu voto e vontade política nos partidos mais definidos e identificados com o capitalismo global e, eventualmente, com algumas franjas de populismo. O CDS terá de procurar o seu lugar ideológico.

Curiosamente, embora saiba que a História não se repete, acho que a intervenção da Troika e a afanosa atividade de Passos Coelho em “libertar” o país de algumas das suas empresas mais estratégicas – quatro anos de duração – têm equivalente aos quatro anos da Primeira Grande Guerra, os quais fizeram desaparecer do quadro político nacional os tradicionais três partidos republicanos para dar lugar a uma miríade sem um rumo bem definido do ponto de vista ideológicos, gerando, deste modo, o desequilíbrio que desaguou na ditadura militar de 28 de Maio de 1926, originando a ditadura de Salazar.

O descalabro europeu, do ponto de vista político, que se avizinha não vai criar o melhor contexto para a mudança em Portugal. Penso que, daqui para a frente, começando já nas primeiras eleições, o alinhamento vai ser diferente, gerador de uma angústia e intranquilidade nos portugueses conscientes do que podem esperar da União Europeia e do capitalismo global que nos submerge.