Rui Rio e o esgoto que corre contra ele

(Carlos Esperança, 25/09/2018)

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A família política de Rui Rio não é a minha, mas não posso deixar de denunciar os seus adversários, aqueles vermes que circulam nos esgotos do neosalazarismo e desaguaram nas alfurjas do PSD. São os mais ressentidos reacionários os que mais o contestam.

A decadência ética do partido acelerou quando o cavaquismo se tornou a sua referência e Passos Coelho a escolha de Miguel Relvas e Marco António. Sá Carneiro, Magalhães Mota e Pinto Balsemão desapareceram da memória coletiva do PSD e deram lugar aos adversários da Constituição, seduzidos pelos ventos reacionários que sopram da Europa.

O exemplo húngaro e polaco são o desígnio oculto dessa oposição interna que rejubilou com a eleição de Pablo Casado para a liderança do PP espanhol. Velhos militantes do MRPP e novos neossalazaristas engrossam as fileiras da oposição a Rui Rio, tendo no Observador o órgão oficioso e na generalidade da imprensa os almocreves de serviço.

Quando um partido se sente órfão do ora catedrático Passos Coelho e não permite que o economista Rui Rio o substitua, talvez porque pagou sempre o que devia à Segurança Social e ao Fisco, não arrecadou fundos europeus para uso fraudulento e não tem títulos académicos oferecidos, é porque é infecto o ar da Rua de S. Caetano, à Lapa, e suspeitos os que querem assaltar a liderança. Não são políticos que defendam causas, são piratas ávidos do poder.

O Observador exumou o vereador de Loures, André Ventura, um professor universitário fascista que teve o apoio expresso de Passos Coelho para candidato à autarquia e cujas posições xenófobas e extremistas levaram o CDS, por cálculo ou vergonha, a abandonar a coligação que tinha sido firmada. É ele o atual adversário de Rui Rio.

O primata, professor de direito, defensor da pena de morte, do trabalho obrigatório para reclusos e da castração química de pedófilos, é o académico erudito, com conhecimento aprofundado de hebraico e arábico, que apoia Luís Montenegro para substituir Rui Rio.

Para já, tem tempo de antena e propõe-se arranjar o número de assinaturas necessárias a um congresso extraordinário para afastar Rui Rio. Ao pé dele, até Nuno Melo e João de Almeida, do CDS, parecem democratas, e a Dr.ª Cristas uma estadista.

Com o afastamento do menino guerreiro à procura de gente para o seu novo partido, não faltam guerreiros nas hostes de Passos Coelho cujo regresso aguardam para a batalha de Alcácer-Quibir onde soçobrará o que resta do PSD.

Talvez Marcelo lhe dê a mão e resgate o partido da infâmia, deixando ao CDS o trabalho sujo contra o Estado de Direito.

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Como é que se discorda estruturalmente do PSD?

(Daniel Oliveira, 17/09/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(Grande texto, ó Daniel. Eu aconselhava o Rui Rio a não perder e a reflectir. Talvez assim ficasse a entender melhor o que lhe está a acontecer. Nada melhor para a direita se reencontrar e tornar mais eficaz do que atentar às reflexões alguém de esquerda como tu, ó Daniel… 🙂

Comentário da Estátua, 17/09/2018)


“Todos aqueles que discordam do ponto de vista estrutural obviamente que é mais coerentemente saírem” do PSD. Esta frase, dita por Rui Rio no programa da TSF de Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva (Bloco Central), tem um problema de base: temos de descobrir o que é discordar estruturalmente do PSD. Partindo do princípio que Rui Rio não acha que o partido é ele, temos de imaginar que a discordância estrutural não se resume às suas posições ou às posições circunstanciais do partido. Ninguém se demite de um partido por isso. Uma discordância estrutural é anterior a isso. Ora, o PSD tanto é o de Rui Rio como o de Cavaco Silva o de Passos Coelho ou o de Manuela Ferreira Leite. É impossível alguém não discordar estruturalmente de algum deles.

Na verdade, não é Rui Rio que está perdido quando não consegue dizer que Mário Centeno não caberia num governo seu e não consegue renegar de uma penada a proposta do Bloco de Esquerda para combater a especulação imobiliária. Rio é apenas demasiado sincero ou ingénuo.

Faltam-lhe filtros. Mas quem está perdido há muito tempo é o PSD. Sempre o esteve. Não fosse o partido que, no tempo do cavaquismo, aumentou o número de funcionários públicos ao mesmo tempo que privatizava funções do Estado.

O PSD é um partido híbrido, sem paralelo na Europa. Isso não foi um problema quando a escolha era entre o comunismo e o resto. Isso não foi um problema na adesão à CEE. Isso não foi um problema no processo de liberalização controlada. Isso não foi um problema no tempo das vacas gordas. Agora, que a Europa e a crise obrigam a grandes escolhas, isso é evidente.

Este é um momento de clarificação e até de alguma radicalização do debate. Daqueles momentos quentes que acontecem sempre na história e sem os quais o mundo e as nações não evoluem. Levantam-se questões ideológicas fundamentais e o PSD não está minimamente apetrechado para se posicionar. Não preciso de dizer mais: acha que é social-democrata e está no Partido Popular Europeu. Tem vários dirigentes que recusam ser de centro-direita e está alinhado com a direita conservadora europeia. O PSD é uma coisa em forma de tudo e de nada. Não foi um problema enquanto se tratava de gerir a prosperidade ou um consenso que ia do CDS ao PS. Agora é.

.Aquilo que considerámos um desvio ideológico para a direita, protagonizado por Pedro Passos Coelho, não foi um acidente. Pode ter sido acentuado pela intervenção externa, pelo grupo de jovens ortodoxos que influenciava Passos e pela pouca preparação ideológica do então líder do PSD. Mas foi muito mais do que isso. A adesão dos socialistas à “terceira via”, a que o Partido Socialista de Sócrates não foi imune, e o que aconteceu em toda a Europa empurrou o PSD para a direita. Assim como empurra, neste momento, todos os partidos socialistas que se queiram salvar para a esquerda.

Passos foi a clarificação do que o PSD podia ser perante um PS que aceitou o fundamental da contrarreforma liberal, pedindo apenas um período de transição mais suave. Rui Rio tenta ser o que o PSD já não pode ser.

Havia um tempo em que Portugal podia ter um partido que só havia por cá. Uma direita única, envergonhada e atípica. Esse tempo passou com as fronteiras abertas, o povo na internet e o poder orçamental centralizado em Bruxelas. A direita social moderada que Rio quer já não existe. Com grande pena minha.

É claro que a sabotagem que os derrotados do PSD fazem ao novo líder é o problema mais imediato. E que as provocações de Rui Rio ao próprio partido ainda tornam tudo mais difícil de resolver. Mas para aguentar a revolta interna e a campanha mediática contra si Rio precisa de um discurso que se perceba e que tenha alguma coisa a ver com o tempo que vivemos. Não chega o estilo de homem sério e austero. Não quer dizer que o discurso de Rui Rio esteja errado. Está, tal como Rio, demasiado desfasado deste tempo.

O “desrespeito pelos proprietários”

(Pacheco Pereira, in Público, 15/09/2018)

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(Grande sova no Almeida, ó Pacheco. Está bem que, o motivo último da malha, é a defesa do teu amigo Rui Rio, mas ainda assim, e por óbvias e diferentes razões, eu diria que, “só se perdem as que caem no chão”, quando toca a sovar os “almeidas” da nossa cena política.

Comentário da Estátua, 15/09/2018)


 João Almeida não é uma personagem maior da nossa política, que, aliás, não tem quase nenhumas. Mas às vezes são as personagens menores que explicam melhor o que está mal no nosso discurso político, muito abastardado, pobre e completamente dependente de uma agenda mediática igualmente paupérrima. Aliás, nas notícias sobre as suas recentes declarações, é várias vezes chamado “João Oliveira”, o que o deve levar a torcer-se todo. O problema nem é com João Oliveira, corrijo, João Almeida, é em parte com o CDS no seu estilo actual, que maximaliza a dependência da agenda mediática, transformando “casos” em reivindicações políticas ao ritmo da “novidade” jornalística, que é tão grande na frequência como no esquecimento. Pelo caminho, ficam dezenas de exigências, ataques, declarações, protestos, num rastro de palavras que hoje só tem comparação com o do Presidente da República.

O CDS acha que isto é que é “fazer oposição”, em contraste com o PSD que não a faz. E, se calhar, na imediaticidade e rapidez jornalística, que migrou dos mediapara a política, tirando autonomia ao discurso político, tem razão. E ainda mais quando do lado do PS e do Governo se reage exactamente do mesmo modo, como aconteceu com os comboios. Parece também que o CDS teve uma subida numa sondagem recente, o que tem o efeito perverso de os levar ainda mais a reforçar o estilo. Nessa sondagem, o PS também subiu e o PSD desceu, mas a julgar pela intenção do CDS de ser o mais consequente na oposição, o PS parece ser imune à “oposição” do CDS. Mas, até uns meses antes das eleições, as sondagens são “apareçómetros” e aí o CDS tem enorme vantagem.

O que disse João Almeida que justifica entrar para o clube selecto do “ruído do mundo”, que neste caso só eu devo ter ouvido? Azares. Fez uma conversa com os jornalistas na Assembleia que ilustra quase tudo que está mal na nossa actividade política ao nível verbal e de ideias ou ausência delas. Pronunciava–se sobre a “taxa Robles”, a que chama agora “taxa Robles versão Rio”. Está bem, é como se fosse um título do jornal, e como de costume quer fazer colar a classificação pela repetição. É um mecanismo puramente mediático, mas pouco nos diz sobre a substância da coisa. Aliás, é esse o primeiro problema, a classificação substitui a substância, visto que a classificação circula nos media e a substância não, mas João Almeida é um político moderno. Claro que escapa a estas pessoas que, logo à cabeça, fazer isto encapsula o discurso na escassa minoria dos portugueses que acompanha esta vida política e já está também viciado neste estilo. Aos restantes passa-lhes ao lado.

Ele está a falar essencialmente contra Rio e não contra o PS ou sequer o BE, mas como é habitual nas actuais “fake news” só refere parte da proposta de Rio, a que lhe convém. Aliás, mais importante na economia do discurso do CDS do que a proposta é o escândalo com o facto de Rio ter admitido que a proposta do BE “não era tão disparatada assim”. No dia seguinte, Rio precisou o que queria dizer, de uma forma mais consistente do que é comum na vida política actual, mas durante 24 horas caíram o Carmo e a Trindade que, aliás, estão sempre a cair. Na verdade, 24 horas hoje é um século ao ritmo dos media. Durante 24 horas, os media não falam de outra coisa, em particular se não houver futebol. E, sim, Rio fez mal em exprimir uma opinião genérica e ambígua, no actual terreno minado, mas a irritação dele com a obsessão posicional na nossa política é certa.

João Almeida, muito acompanhado pela fracção organizada anti-Rio no PSD, deu um estatuto de dignidade “ideológica” à sua recusa. Afirmou que quem é de direita não pode levar em conta qualquer posição que venha das “esquerdas”. Aqui está outra característica actual da política portuguesa: é posicional antes de tudo, vem do inimigo, é má, vem do amigo, é boa. E confunde “ideologia” com aquilo a que os marxistas chamavam “posição de classe”, interesses.

Na verdade, o único interlocutor de Almeida são os “proprietários”, expressão que prefere a “senhorios”, porque as palavras fazem parte da guerra. E considera, falsamente — visto que apenas fala da parte da proposta de Rio que faz um agravamento fiscal e não da que diminui a fiscalidade, que “aumenta a carga fiscal, desrespeita os proprietários — sejam grandes ou pequenos — e contribui para o desaceleramento da nossa economia”. Foi, aliás, mais papista que osproprietários”, bem mais moderados na apreciação da proposta.

A expressão “desrespeita os proprietários” é interessante, como a prevenção de que “sejam grandes ou pequenos”, o que convenhamos faz uma diferença. João Almeida nunca diria, certamente por razões ideológicas, que uma proposta “desrespeitaria os trabalhadores” ou “desrespeitaria os inquilinos”. Por exemplo, nunca diria que a Lei Cristas “desrespeita os inquilinos”, pondo-os na rua em massa. E nunca acrescentaria “sejam ricos ou pobres”.

Porque é que isto é o pão nosso de cada dia da nossa política? Conjuga pretensão “ideológica” que confunde com interesses, falsifica a posição que combate e incorpora a pobreza posicional da política portuguesa. E, acima de tudo, não fala da substância, do conteúdo, do miolo, do que faz tiquetaque como as bombas, da especulação imobiliária, o pequeno problema que mereceu de uma instituição amiga do CDS, o FMI, a muito recente recomendação ao Governo de que lhe devia dar “particular atenção”. Mas está visto que João Almeida deve achar que enunciar sequer que existe especulação imobiliária, como faz o FMI, “desrespeita os proprietários”.