A fábula Barreiras Duarte

(Por Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 19/03/2018)

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Pronto, já está: o secretário-geral de Rio caiu. Estamos contentes e saciados? Felizes com a nossa democracia, o nosso jornalismo, a nossa academia, a nossa justiça? Que bom.


Antes da atual polémica, só associava o nome do ex secretário-geral do PSD (demitiu-se enquanto escrevia este texto) a um episódio em que me causou boa impressão. Em agosto, numa altura em que o seu partido apresentava um candidato autárquico com discurso xenófobo em Loures, verberou duramente Passos por este, no último comício do Pontal, associar imigração a criminalidade e terrorismo e manifestar preocupação pela possibilidade de “qualquer um poder entrar em Portugal”.

Numa articulada entrevista ao Expresso, Barreiras Duarte, que foi secretário com a tutela da Imigração em governos de Barroso, Santana e do próprio Passos, criticou aquilo que descreveu como “análises e proclamações políticas baseadas no achismo” e, afirmando que a atual política de imigração portuguesa é sobretudo fruto de governos PSD (o que pode ser contestado) e não advém de “visões securitárias”, manifestou a sua preocupação por “agora o PSD, pelo que se percebe, também [ter] racistas e xenófobos, que pelos vistos têm apoios internos para defenderem essas posições”. A uma pergunta direta sobre o discurso de Passos, respondeu: “Até mete dó a contradição e a incoerência de algumas pessoas que brincam com o fogo, ao abordarem de forma populista e generalista estas matérias, descurando potenciais efeitos de ricochete sobre os portugueses [emigrantes].” E manifestou a sua convicção de que “o PSD nunca foi, não é, nem deverá ser um partido político com discursos (e espero práticas) com tiques “trumpistas” e “lepenistas” (…) Porque, a acontecer, estará a hipotecar muito do seu futuro de partido político moderado, tolerante e humanista. E a acantonar-se na direita política retrógrada, caceteira, populista e oportunista. (…) Aliás, não deixa de ser curioso verificar a incoerência de pessoas que se têm assumido tão liberais, defensoras da sociedade aberta, do globalismo, da circulação de capitais e de empresas, e que nestas matérias são por um Portugal a preto e branco e fechado. O PSD nunca foi isso e no futuro deverá tudo fazer para combater isso.”

Tive pois dificuldade em reconhecer a pessoa apresentada na entrevista como estando a fazer “um doutoramento sobre políticas de imigração” no autor de uma tese (ou relatório) de mestrado de 2014 escrita com os pés e na qual nem as dedicatórias escapam ao ridículo e ao péssimo português – sendo que, parece, a profusão de textos que tem publicado na imprensa (curiosamente sobretudo no Sol, onde saiu a primeira notícia sobre o caso Berkeley) padece de problemas semelhantes – e que, para meu espanto, terá sido valorada com 18. Quanto ao apresentar-se como “visiting scholar” de uma universidade californiana onde nunca terá posto os pés e com a qual não terá tido qualquer contacto académico nem consigo comentar, de tão patético.

Mas, confesso, se acho muito preocupante descobrir que existe um deputado, ex governante e alto dirigente partidário que alegou um estatuto académico a que não tinha direito e aparentemente não consegue escrever uma frase que faça sentido e com as vírgulas no sítio, assim como que uma tese nesses preparos tenha uma nota tão elevada, se considero tudo isso notícia, não posso deixar de anotar que todos estes factos têm anos e surgiram agora, por magia, nos media, quando Barreiras Duarte foi nomeado secretário-geral da direção de Rio.

E dessas evidências se retiram várias coisas, que estão longe de se ater à pessoa e caso de Barreiras Duarte. Uma é que o sistema de acreditação e de avaliação em algumas universidades portuguesas – e todos os escândalos conhecidos ocorreram com privadas –, é algo de inadmissível e que tem de ser resolvido. Outra é que os media funcionam demasiadas vezes como braço armado de interesses muito óbvios e repositório acrítico e assanhado de “campanhas”, sem o mínimo de distância e reflexão. Por exemplo, onde é que vimos, nesta chusma de notícias, questionar a antiga direção do PSD, o ex PM e o ex ministro Miguel Relvas (do qual Barreiras Duarte foi secretário de Estado e que também teve um pequeno problema académico), sobre se sabiam alguma coisa sobre o que agora se revelou? Ou a universidade (a privada Autónoma) e o orientador, por acaso Diogo Leite de Campos, do PSD, sobre a qualidade daquela tese ou relatório ou que raio é? Porque é que o que é estrutural suscita tão pouco interesse e tudo se parece resumir a “demite-se ou não se demite”, “cai ou não cai”?

Como se não bastasse o gritante de alguém ter colocado a questão Berkeley numa “pastinha” até dar jeito usá-la, lá voltámos a ver a PGR, depois do caso Centeno, a mergulhar de cabeça na refrega político-mediática. A que propósito correu a anunciar um inquérito? Qual o crime em causa, se a acusação de que o ex governante teria forjado um documento foi logo desmentida por quem acusou?

Entendamo-nos: é irresistível gozar Barreiras Duarte – eu própria o fiz no Twitter, analisando o seu quilométrico CV no site do parlamento e gracejando, entre outras coisas, sobre apresentar-se como conselheiro económico de um município chinês: “Põe no CV tudo o que apanha do chão”. Mas uma coisa são piadas nas redes sociais, outra o jornalismo, a política, a justiça. Era bom poder distinguir.

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UM LÍDER MAL PREPARADO?

(In Blog O Jumento, 17/03/2018)
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Rui Rio é o líder partidário que esteve mais tempo a preparar a sua candidatura à liderança do PSD, durante anos dedicou-se a “fazer a cama” a Passos Coelho. Era suposto que ao fim de anos de preparação soubesse o que queria, fosse claro nas matérias e opções em que se demarca do seu antecessor, tivesse constituído uma equipa experiente e que conhecesse bem. Mas nada disto parece suceder até parece que Rui Rio chegou à liderança do PSD só porque se lembrou de vir a Lisboa dar quilómetros de estrada ao seu velho Simca.
O caso do “scholar visitor” revela muita incoerência e alguma falta de inteligência. O secretário-geral do PSD não deve ter a coerência de Rui Rio em grande conta, se assim não fosse ter-se-ia lembrado que não sabe onde fica a Califórnia e quando foi convidado para secretário-geral do PSD teria dito que não ou informado Rui Rio que tinha telhas muitas frágeis no seu telhado. Preferiu achar que o discurso da ética era para inglês ver e quando foi denunciado disse umas baboseiras.
Rio deveria ter percebido, desde a primeira hora, que estava perante uma falha ética demasiado grave para sugerir que se enquadrava nos golpes de que estava à espera.Na posse de todos os dados Rui Rio mandou os seus valores da ética às urtigas e preferiu fazer os portugueses de parvos. Acabou por se dar muito mal e ao fim de mais de uma semana acabou por entender aquilo que alguém com uma inteligência mediana percebeu na primeira hora.
Como se tudo isto não bastasse, Rio em vez de dar a cara e ao lado do seu secretário-geral informar que aceitou o seu pedido de resignação, optou por uma jogada digna de um pequeno Estaline com sotaque da Foz. Desapareceu, mandou um vice empurrar pela borda fora e fez constar nos jornais que esperava que o pobre diabo se cremasse em público. Enfim, uma forma muito ética de resolver os problemas que ele próprio ajudou a criar.
É cada vez mais óbvio que Rui Rio pode ser um grave problema de casting, um mês depois do congresso só cometeu erros; desde a sua chegada à liderança do PSD que só se aproveitam os momentos prolongados de silêncio. Não admira que suba ligeiramente nas sondagens, todos os políticos que não se deixam ver têm uma boa imagem. O problema é que ninguém ganha eleições estando em parte incerta, com um secretário-geral criativo, e vice-presidentes que parece terem sido escolhidos por estarem disponíveis para jogadas sujas.

RUI VERSUS CRISTAS

(In Blog O Jumento, 08/03/2018)
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Nas próximas legislativas vão haver duas disputas, uma disputa entre a direita e a esquerda e uma segunda disputa entre Rui Rio e o CDS. Se as sondagens passarem a perceção de que a esquerda ganha sem problemas, a verdadeira luta eleitoral vai ser entre os dois partidos da direita. Cristas já ganhou à candidata do PSD em Lisboa, onde nem a paragem do presidente num sinal laranja a ajudou, espera agora ganhar ao PSD no país.
Passos Coelho cometeu o erro estratégico de em vez de se assumir líder da oposição ter optado por ser devoto do mafarrico, esperando que fosse este a fazer a vida do António Costa num Inferno. Durante dois anos foi Assunção Cristas quem assumiu a liderança da oposição, muitas vezes de forma desastrada, mas a verdade é que o PSD esteve ausente.
Se Passos optou pela ausência, parece que Rui Rio preferiu desaparecer e em vez de fazer oposição opta por ir de vez em quanto tomar um chá com Marcelo Rebelo de Sousa para aparecer na televisão. Mas o pior é que só ao fim de dois meses e depois de um namoro prolongado com o primeiro-ministro é que se lembrou que tinha algumas obrigações como líder da oposição.
Parece que David Justino vai ser o primeiro-ministro sombra do Conselho Estratégico Nacional, cabendo-lhe estudar as diferenças em relação à política do governo. Curiosamente, há poucos dias eram os tais ministros na sombra que iriam negociar os consensos com os ministros. Por outras palavras, ainda não se sabe muito bem como é que Rui Rio faz oposição, se negoceia de manhã e se opõe à tarde, se faz consensos em Lisboa e oposição no Porto.
Cristas percebe que ou a direita ganha as eleições ou o PSD não resistirá a satisfazer os seus partilhando o poder com o PS, dispensando os serviços do CDS e pondo fim a uma aliança que não se percebe se ainda existe. A líder do CDS não só assume a liderança da direita, fazendo um discurso que condiciona o PSD, como não tem vergonha de fazer seu o legado do governo de Passos Coelho.
Cristas sabe que pode ficar afastada do poder durante mais uma legislatura, mas aceita esse preço se sair das eleições como líder da direita. A verdade é que neste momento Assunção Cristas já não é apenas líder do CDS, é líder de uma direita onde está mais de 40% do PSD, precisamente os apoiantes de Passos Coelho. Ao assumir o legado do anterior Governo, ao ser mais leal com o PSD de Passos do que Rui Rio e ao continuar a segurar a bandeira e o programa do PAF, é bem provável que Cristas tenha o apoio silencioso dos apoiantes de Passos Coelho.
Rio ficou preso na sua própria estratégia e depois de anos num jogo de toca e foge, de deslealdade e de pequenas falsidades não sabe se deve assumir o legado do seu partido afastando-se de consensos com o PS sob o patrocínio de Marcelo, ou se não deve assumir esse legado e assumir todas consequências eleitorais.
Com as hesitações de Rio a líder do CDS afirma-se cada vez mais como líder da direita e Rui Rio arrisca-se a ser uma Teresa Leal Coelho das legislativas. A vingança serve-se fria e da mesma forma que os seus apoiantes tiraram o tapete à candidata por Lisboa, é a agora a vez de os apoiantes de Passos verem Rio em dificuldades.