A vitória de Rui Rio e o PSD

(Carlos Esperança, 19/01/2020)

A vitória esperada de Rui Rio (e agora já confirmada), é mais uma derrota para Cavaco, Passos Coelho, Miguel Relvas, Marco António e Maria Luís.

Montenegro teve melhor imprensa do que Rui Rio, tal como, há anos, Francisco Assis em relação a António Costa. Enquanto der jeito à direita mais à direita, os adversários têm a comunicação social à disposição, e equiparar Rui Rio a Montenegro é comparar António Costa a Passos Coelho, Mário Centeno a Maria Luís e Sampaio a Cavaco.

Rui Rio é um político que prefere a genuinidade de se apresentar como é, com os seus méritos e debilidades, à hipocrisia de imitar os adversários, que escondem a vacuidade de ideias, a leveza ética e a avidez do poder.

Dito isto, a vitória de Rui Rio é o pior que acontece à esquerda. O ciclo político, que lhe é desfavorável, torna precária a vitória, e a alternância, que será tanto mais rápida quanto maiores forem as lutas fratricidas da esquerda e as dificuldades da economia mundial, vão encontrar a direita radical no PSD. O País já esqueceu os quatro anos ampliados por Cavaco a Passos Coelho. Não é o velho salazarista que regressa ou os seus Roteiros que serão lidos, é o seu azedume e ressentimento que transfere para a tralha que apadrinhou.

Não haja ilusões, a direita tem apoios internos e externos com que a esquerda não pode competir. Quando o ciclo eleitoral se inverter, com a esquerda a digladiar-se entre si, não é Rui Rio que estará à frente dos destinos do País, é a direita radical que regressa do caixote do lixo para a ribalta.

Rui Rio voltou a derrotar o vazio intelectual, a leveza ética e os ácidos reacionários que fizeram do País, durante a legislatura, um laboratório de experimentação neoliberal para a qual nem sequer tinham preparação académica ou experiência profissional.

A vitória de hoje de Rui Rio é o prenúncio de um regresso onde o Dr. Miguel Relvas e o ora catedrático Passos Coelho serão figuras de referência, mas rejubilei, não tanto pela vitória que lhe sorriu, mas pela derrota que infligiu. Aliás, a vitória de 53% contra 47% é uma vitória de Pirro.

O PSD é imprescindível à democracia e ao País e só a extrema-direita beneficiará com o regresso da anterior liderança contra a qual não está vacinado.


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Carreiras não paga aos traidores

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/01/2020)

Daniel Oliveira

O presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, conseguiu a proeza de me envolver no confronto interno do PSD. Usando a lógica que entusiasma sempre o sectarismo de todos os partidos, explicou que se um adversário elogia alguém do lado oposto é porque o elogiado está a falhar. Numa ação de Luís Montenegro, a que foi declarar apoio depois do seu vice se ter ficado abaixo dos 9%, disse: “Não vi, até agora a extrema-esquerda a fazer grandes elogios ao doutor Luís Montenegro.” E acrescentou: “Quando vi Daniel Oliveira fazer grandes elogios ao doutor Rui Rio, no mínimo é de nós desconfiarmos.”

Quanto a eu ser de extrema-esquerda, não perco muito tempo, sobretudo quando é dito para consumo de militantes partidários. Apenas fico preocupado com o peso absurdo com que a extrema-esquerda fica se usarem os critérios de Carreira. Porque se eu sou de extrema-esquerda o BE é de extremíssima-esquerda, o PCP é de ultra-extremíssima-esquerda, as alas mais esquerdistas destes partidos serão de mega-ultra-extremíssima-esquerda e partidos como o MAS e o MRPP serão de super-mega-ultra-extremíssima esquerda. Tendo em conta que partilho valores e posições políticas com muitos militantes socialistas e do Livre, isto implicaria que a extrema-esquerda, da sua versão paradoxalmente mais moderada à mais radical, valerá uma parte nada negligenciável do eleitorado. Um ponto de vista aceitável para a Iniciativa Liberal ou o Chega, que acham que o socialismo começa no CDS, mas mais difícil de defender por um quadro do PSD. Mas adiante.

Como não quero “tomar por lorpas” os militantes do PSD (expressão de Carreiras), penso que vale a pena explicar porque é que o raciocínio de que um elogio de um adversário é a prova do nosso erro, sendo sedutor, não é uma boa forma de pensar a política. E é revelador de uma das razões que me levam a criticar o espírito que rodeia a candidatura de Montenegro – incluindo, ao que parece, os apoiantes que vêm de Pinto Luz.

Esclareço o óbvio: sou de esquerda. Serei socialista ou social-democrata (no sentido clássico e original do termo, e não no seu abastardamento, que até permite um partido de centro-direita a identificar-se como tal). Desde muito antes de ter sequer aderido ao BE e, por isso, desde sempre da sua ala moderada até a rutura se ter tornado inevitável. Mas sou seguramente contrário à linha programática do PSD. Deste ponto de vista, apesar de não ter filiação partidária, sou um adversário do PSD. E é assim que devo ser ouvido e lido. Nunca fingi, ao contrário de muitos propagandistas da direita mais radical que se tentam fazer passar por puros analistas políticos, ser o que não sou. Acho que a declaração explícita do meu posicionamento político é um contrato de confiança com os meus leitores, sobretudo os que de mim discordam.

Ao perguntar “se nem Roma pagou aos traidores, porque é que o PSD há de agora pagar aos traidores?” Carlos Carreiras explicita o pior da política partidária. Eu próprio ouvi-o vezes sem conta como libelo contra qualquer pensamento crítico e livre. O extremismo não se mede pela radicalidade política. Mede-se pela intolerância para com o outro, que cava fossos de incomutabilidade entre pessoas que partilham valores fundamentais.

Apesar disto, os elogios que mais aprecio são os que vêm de pessoas que começam por dizer que não concordam comigo em quase nada. Porque sei que refletem um respeito intelectual e ético que não depende de afinidades políticas. Porque, mesmo que Carlos Carreiras me enfie no indiferenciado saco da extrema-esquerda que uma análise séria ao meu posicionamento ideológico dificilmente lhe permitiria, acredito que a tolerância intelectual nos permite respeitar e admirar aqueles a que nos opomos. E a defender o seu papel no jogo democrático.

Já fiz muitas críticas a Rui Rio. Considero-o pouco claro do ponto de vista programático e pouco preparado do ponto de vista ideológico. No mesmíssimo dia em que Carlos Carreiras terá ouvido um elogio meu a Rui Rio, disse que parece acreditar que o programa do PSD é ele e que isso chega. Que não parece ter perfil para conseguir conquistar o governo do país. Isso não me impede de o considerar, a partir da minha subjetividade, um homem sério. Já fiz elogios semelhantes a Adriano Moreira, Diogo Feio, Adolfo Mesquita Nunes, Bagão Félix, David Justino ou Roberto Carneiro. Se há coisa que os que me conhecem sabem, para lamento dos sectários deste e do outro lado da barricada, é a facilidade que tenho em construir relações de respeito e amizade com pessoas de direita. Porque se acreditam no que defendem e o que defendem não promove a cultura do ódio, não avalio o seu caráter pelas suas convicções políticas.

Na realidade, Carlos Carreiras não acredita no que disse. O Presidente da Câmara de Cascais já fez grandes elogios a Pedro Nuno Santos, de quem estou ideologicamente muito mais próximo do que ele. Não me passaria pela cabeça dizer que isso é razão para a esquerda desconfiar do ministro. Pelo contrário, o respeito dos adversários pode ser sinal de qualidade. Não deixam de ser adversários por isso. Ainda assim, com capacidade de, aqui e ali, convergirem.

Os dois elogios que faço a Rui Rio é achar que ele é um produto genuíno, coisa de que a democracia precisa como de pão para a boca, e por me parecer globalmente honesto na sua relação com a coisa pública. E digo-o em contraste com a avaliação que faço, provavelmente injusta, do seu oponente. E, por estranho que possa parecer, prefiro pessoas de direita honestas e genuínas. Ao contrário dos maniqueístas, não atribuo essas características a nenhum espaço político-ideológico específico e acho que elas são úteis em qualquer democrata.

É claro que também faço uma análise política das duas candidaturas. É a mais relevante, aliás. Considero que Montenegro, pelo seu percurso e por muitos dos que o apoiam, corresponde a um retorno ao passismo, que o PSD, seja qual for o balanço que faz desse período, precisa de superar. E aprofunda uma cultura de trincheira que não é saudável para a democracia. Parece-me que este caminho entregará todos os que não votaram no PSD nas duas últimas eleições ao PS e fará do PS um partido charneira. E que isso é mau para a esquerda, para a direita e para a democracia. Para a esquerda, porque deslocará o PS ainda mais para o centro, tornando difícil a construção de maiorias de esquerda coerentes no futuro. Para a direita, porque a reduz a uma representação de fação, sem capacidade de construir alternativas políticas. Para a democracia porque ela precisa que alternativas de poder com alguma coerência se confrontem.

Como Carlos Carreiras, Marcelo Rebelo de Sousa e quase todo o país, acho que o bloco central seria uma tragédia que só faria crescer a extrema-direita. Mas o confronto tem de manter mínimos de diálogo para ser produtivo. E esse diálogo faz-se com base em alguns adquiridos civilizacionais – que eram firmes até ao advento da extrema-direita na Europa, EUA e Brasil – e evitando a demonização moral do opositor, que se tornou habitual depois do caso Sócrates.

Ao contrário do que Carreira pensa, eu quero uma direita democrática forte. Primeiro, porque sei que a esquerda se afirma quando tem opositores sólidos, e não no meio da sua decadência. Depois, porque sei que a decadência da direita democrática não atirará os seus eleitores para a esquerda, mas para a extrema-direita. E é a incompreensão de que mesmo entre mim e Carlos Carreiras poderá haver alguma partilha de valores mínimos que me assusta, como forma de olhar para a política.

A lógica proposta por Carlos Carreiras, que chamou “traidor” a Rui Rio por ter apoiado posições críticas ao comportamento do Governo no tempo da intervenção da troika e que vê o elogio e respeito de um opositor como sinal de fraqueza, ajuda a explicar o estado de degradação do debate político. Ao perguntar “se nem Roma pagou aos traidores, porque é que o PSD há de agora pagar aos traidores?” Carlos Carreiras revela o pior da política partidária. Eu próprio, na minha militância política, ouvi-o vezes sem conta como libelo contra qualquer pensamento crítico e livre.

Esta postura é, ela sim, típica de um extremista. O extremismo não se mede pela radicalidade política. Foram radicais os que defenderam coisas tão disruptivas como o fim da escravatura ou da pena de morte, a Escola Pública para todos ou o Serviço Nacional de Saúde gratuito, as férias pagas ou a instituição do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já o extremismo mede-se pela intolerância para com o outro, que cava fossos de incomutabilidade entre pessoas que partilham valores fundamentais. Entre pessoas que acreditam em coisas tão básicas como a democracia representativa, a liberdade de imprensa e de expressão ou os direitos humanos. Entre elas, há confrontos que até podem ser violentos. Não há traidores.

Rio não oferece oposição ao PS. Montenegro oferece-lhe o centro

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/01/2020)

Daniel Oliveira

Rui Rio não é um líder empolgante. Ou pode ser apenas uma questão de tempo. Lembro-me de António Guterres ser um burocrata cinzento, Durão Barroso um falhado e Passos Coelho um eterno “jotinha”. Se a proximidade do poder pode oferecer carisma a uma alforreca, a sua distância pode tirar carisma a quem nasceu para liderar. Não estou a dizer que é o caso de Rio. Mas sua história política está mais ligada a vitórias do que a derrotas. É indiscutível que tem um estilo próprio, que joga bem com este tempo e que o tem favorecido quando deixa de ter intermediários na relação com o eleitorado de direita. É muito difícil reconhecer isto em Luís Montenegro, o típico político dos corredores e dos golpes palacianos. Bom tribuno, dificilmente desperta empatia com os eleitores. Mais uma vez, esta imagem pode mudar se tiver o poder ao seu alcance.

Mas este não é o momento em que o PSD se limita a escolher entre perfis de liderança. Os anos de chumbo da austeridade tiveram um altíssimo preço na base eleitoral do partido e as mudanças na direita europeia fazem tremer os seus frágeis pilares doutrinários.

Por conveniência interna ou impreparação política, Rui Rio e o partido não olharam para os efeitos profundos que os anos da troika tiveram na sua base de apoio. E, tirando umas frases desgarradas sobre o Chega, são incapazes de se posicionar em relação à radicalização de parte do eleitorado da direita. Nascido para ser “uma coisa em forma de assim”, o PSD não tem tradição de debate ideológico e político e, mesmo em crise, continua a comportar-se como uma mera plataforma de conquista do poder. Não faz esta discussão de forma explícita. Mas ela está lá.

Luís Montenegro representa o regresso ao passismo. Muitos dirão que esse passismo de que se fala não foi mais do que a máscara nacional para o que a troika ou as circunstâncias obrigaram o governo que herdou a bancarrota a fazer. Essa é, aliás, a tese de Rui Rio. Só que isso não é verdade. Mesmo assumindo que expressões como “ir para além da troika” foram meros artifícios para um governo de um país intervencionado fingir que tinha alguma autonomia, Passos Coelho teve um programa às eleições internas do PSD. As que perdeu e as que venceu. E teve um projeto de revisão constitucional ideologicamente claro e radical. Na realidade, a troika não o afastou da sua vontade, permitiu-lhe aplicar parte do seu programa. E os portugueses sentiram-no nas medidas que tomou e nas que não tomou, no que cedeu à troika e no que não se opôs, no que disse para justificar os seus atos e nos alvos que escolheu para eles.

Tenham sido as escolhas que fez fruto da convicção ou da necessidade, o PSD precisa de superar Passos Coelho. Assim como o PS precisou de superar José Sócrates. Paradoxalmente, o processo judicial contra Sócrates facilitou, apenas nisto, a vida aos socialistas. O corte, mesmo dos que eram próximos do ex-primeiro-ministro, foi inevitável. Compreensivelmente, ninguém se sente órfão de Sócrates no PS. Compreensivelmente, ainda há muitos órfãos de Passos no PSD.

Só que Passos é a ferida que deixou o PSD debilitado. Porque a sua política de austeridade atingiu sobretudo os mais velhos e reformados, indispensáveis aos partidos de direita. Aqueles que, ao contrário dos restantes, não têm como se adaptar à perda de rendimentos. Porque, depois disso, desprezou as eleições autárquicas, de que o PSD precisava para resistir à travessia do deserto. E porque o fez especialmente em Lisboa e Porto, agravando um processo de esvaziamento do centro-direita nos grandes centros urbanos. O PSD perdeu os reformados, perdeu os pobres e perdeu as autarquias. E tudo isso é, por culpas próprias e alheias, o legado de Passos Coelho. Montenegro, em vez de o superar, regressa a ele. Rio não faz nem uma coisa nem outra. O que quer dizer que não melhora nada, mas ao menos não volta para trás.

Depois, há o que está a acontecer na Europa e no mundo. O centro-direita está a deixar-se encantar pela direita antidemocrática e ultraconservadora. Em vez de lhe disputar o espaço, combatendo-a, imita-lhe o estilo. Legitima a sua agenda aos olhos dos seus eleitores que, depois, tendem a preferir o original à cópia.

Não é claro que este seja o caminho proposto por Luís Montenegro, mas é acarinhado por uma parte razoável dos que gravitam à sua volta. De Maria Luís Albuquerque a Miguel Morgado, os sinais de aproximação a um discurso mais musculado da direita são evidentes. E esta opção representaria, como representou em quase todo o lado, o suicídio do centro-direita português. Rui Rio está, pelo percurso pessoal, pela geração a que pertence e pela sua estratégia, a léguas desta tentação. Não estou seguro que represente uma alternativa clara. Mas não dará um passo para o abismo.

Uma vitória de Luís Montenegro seria um recuo para o passismo, em vez de o superar, e um avanço para o abismo da radicalização, em vez de o combater. Rui Rio, não estimulando, deixa tudo onde está. Esperando, como fizeram outros líderes do PSD, que António Costa se desgaste.

O que, sem maioria nem estratégia para além da gestão do pântano político que está a criar, não será difícil. Rio não oferece, por agora, grande oposição a António Costa. Luís Montenegro oferecer-lhe-ia o centro, transformando o PS no partido charneira. É mau para todos. Para a esquerda, que perde o seu partido hegemónico. Para a direita, que fica encostada a um canto radicalizado. E para a democracia, que deixa de garantir a escolha entre duas alternativas.