A moral do regime em relação ao Estado Novo (onde Rio perdeu)

(Vítor Matos, in Expresso Diário, 17/09/2019)

O líder do PSD foi ao tapete no debate que estava equilibrado quando caiu na armadilha de Costa e disse que o atual regime (o democrático), com as fugas de informação da Justiça, perdia a “autoridade moral” em relação ao salazarismo. Não foi uma frase feliz…


“Se isto fosse hóquei em patins, este debate seria um Portugal-Espanha” Rui Rio, presidente do PSD, no debate com António Costa

12 valores no índice dos melhores do mundo. A metáfora de Rui Rio logo no início do debate tem piada, mas é ligeiramente exagerada. O frente a frente emitido pelas três televisões esta segunda-feira era o primeiro confronto entre o líder do PSD e António Costa – e era terreno virgem por desbravar, daí o interesse dos 2,8 milhões de pessoas que assistiram àquela ‘final’ de 60 minutos. Havia, de facto, grandes expectativas sobre o desempenho de Rui Rio naquele ringue, mas não estávamos perante uma final entre iguais, não era um Portugal-Espanha daqueles emotivos até ao último segundo. Por uma razão muito simples: o ponto de partida dos dois protagonistas era demasiado desigual: Rio partia para o debate com uma enorme desvantagem em relação a Costa. Foi mais como se estivessem a disputar a segunda eliminatória de uma competição, em que o socialista entrava em campo com uma séria vantagem e bastava gerir o resultado (avanço nas sondagens, na perceção dos eleitores, o facto de Costa estar no poder e de Rio ter o seu próprio partido dividido e desmobilizado, etc.).

Como balanço geral, Rui Rio esteve bem – sobretudo no tom, pode assim convencer alguns indecisos, recuperar em relação ao que as sondagens preveem – mas isso não chega. O debate não foi decisivo, como aliás seria de esperar que não fosse. Apesar de o líder do PSD ter cumprido o que se lhe exigia – até porque as expectativas eram muito baixas –, se analisarmos o debate ao detalhe quem ganhou foi António Costa. Escrutinando a troca de argumentos tema a tema, foi mais Rio quem acabou por ceder ou por ficar encostado às cordas do que o socialista, que teve sempre mais frieza e golpe de asa para desacreditar os argumentos do social-democrata ou para o levar ao seu regaço. Já lá vamos.

Outra consideração genérica tem a ver com a falta de dramatismo e contraste: Rio foi criticando Costa, mas com exceção da questão fiscal o líder do PSD não se apresentou ao eleitorado como uma verdadeira alternativa à governação socialista. Desde 2005, pelo menos, que PS e PSD se apresentam ao eleitorado com dois modelos diferentes, alternativos e contrastantes de sociedade e de governação – e os debates Sócrates-Santana, Sócrates-Passos, ou Passos-Costa foram muito mais dramáticos. Esta segunda-feira isso não aconteceu. No final, a sensação também foi de que aqueles dois homens podiam perfeitamente entender-se a governar o país juntos (mais Rio em relação a Costa do que Costa em relação a Rio) se limassem umas arestas das propostas – as diferenças do PS para a esquerda são bem maiores e aguentaram-se quatro anos.

Ora, acontece que o hóquei luso-espanhol é um desporto que exige rapidez, reflexos e capacidade de reação, algo que tem faltado a Rui Rio, cujo risco no fim da partida, quando assomarem os adversários internos, são mesmo os “patins”…

“É mais um debate (…). Espero que seja esclarecedor para os portugueses” António Costa, secretário-geral do PS, à entrada do debate com Rui Rio

17 valores no índice do jogo para empate. António Costa subiu para o estúdio improvisado no Pavilhão do Conhecimento a desvalorizar o adversário. Rui Rio era só mais um igual aos outros, e essa estratégia podia ter corrido mal, mas não correu. O socialista jogou o seu ‘catenaccio’ político, com a sorte de Rio não ter sacado de golpes que o seu eleitorado adoraria, como o ‘familigate’ ou as falhas do Estado (fogos, Tancos, hospitais, urgências das maternidades, etc.). Se Rio preferiu a credibilidade moderada a ataques que podiam parecer excessivos, Costa defendeu os tiros do adversário e ripostou com eficácia e golpe de asa (jogou sobretudo no contra-ataque quando Rio desguarneceu a sua posição, como o David Dinis explicou aqui.

Resumindo esta ideia, Rio Rio entrou em perda quando Costa lhe desmentiu os números da emigração – passou a ideia de que estava mal preparado – mas também resvalou noutros temas. Na economia desmontou bem como Centeno cumpriu o défice, mas depois foi desarmado no dossiê do Montijo (afinal concordava com Costa) e também no TGV (quando viu Costa a ler-lhe o programa do PSD). Se nos impostos Rio estava a marcar pontos – foi o ponto onde mais se distinguiu dos socialistas –, a seguir acabou a concordar com a leitura de Costa sobre os valores das contribuições para a Segurança Social que insuflaram os números da carga fiscal com o aumento do emprego. Na Saúde, esteve bem ao lembrar a falta de medicamentos e a falta de investimento, mas admitiu um “empate” no jogo dos números. Era onde teria mais terreno aberto, mas o mantra de Costa a debitar números acabou por também ser eficaz.

No fim de contas, Costa geriu o debate e jogou apenas aquilo que precisava de jogar… e jogou ao centro e centro-direita, no terreno do adversário: lembra-se de alguma coisa de esquerda que Costa tenha dito no debate, depois de quatro anos a liderar o Governo teoricamente mais à esquerda de sempre?

“Rui Rio tem uma obsessão contra a Justiça, não gosta de juízes, é o líder da oposição ao Ministério Público, felizmente não tenho essa obsessão, a democracia precisa de uma democracia forte” António Costa

17 valores no índice do uppercut político. António Costa tinha esta engatilhada. Foi o momento em que ganhou o debate, que estava basicamente empatado. Tocou no tema e no nervo que faz Rui Rio estremecer até às entranhas e só pode ter sido propositado. A estratégia para um debate político também passa por isto, a política é um jogo, sempre foi um jogo: levar o adversário a reagir. O social-democrata caiu na armadilha e soltou-se, no momento mais emotivo e genuíno da sua prestação. O que nos leva à próxima frase…

“Temos um país em que os julgamentos se fazem nas tabacarias e nas televisões. Arrumam logo com uma pessoa nas capas dos jornais. Isto é digno de uma democracia? Defendo o Ministério Público, mas quero um Ministério Público eficaz. Qual é a autoridade moral de um regime que faz uma coisa destas sobre o Estado Novo?” Rui Rio

18 valores no índice da sinceridade total. Rui Rio não se tentou moderar com hipocrisias e disse mesmo aquilo que pensa sem filtros. Costa provocou a reação e levou o líder do PSD a cair na armadilha, ao usar argumentos que José Sócrates ou Ricardo Salgado (cujos casos foram enunciados na pergunta) não desdenhariam. Que Rio tem uma “obsessão” com a justiça e os jornalistas é uma evidência há muito tempo (Costa explicou-lhe que hoje não é possível a informação ficar confinada às paredes dos tribunais), mas o problema já nem é esse. É a questão do relativismo político enunciado pelo social-democrata em relação ao salazarismo.

Rui Rio acha que pode comparar as fugas de informação da Justiça (ou o jornalismo de investigação) numa sociedade democrática com as prisões da PIDE ou os tribunais plenários. As coisas têm o seu lugar na memória e na história e o líder do PSD não distinguiu bem as coisas: não é ‘o regime’ que está a fazer os julgamentos na praça pública que incomodam Rio (mais do que os casos em si), mas era o regime anterior que fazia aquilo que Rio acha que o regime atual não tem moral para condenar. O líder do PSD perdeu o debate com esta frase triste.


Advertisements

Rui Rio: um bom adjunto para Costa

(Joaquim Vassalo Abreu, 16/09/2019)

E, digo eu, até é bom que assim seja! Em nome do País e em nome do nosso futuro é bom e salutar que haja um líder da oposição com este porte: que diga abertamente que concorda e apresente, aqui e ali, visões diferentes, mas sempre sem aquele jugo ideológico que tinha, por exemplo, o seu antecessor.

Ficou vincado que Rio, um homem de números, não conseguindo rebater esses mesmos, adoptou uma postura “estadista”, não se distanciando nem afastando de Costa, como quem diz eu até discordo em alguns pontos (;o Partido a isso obriga) mas, no fundo estamos de acordo, prestou neste debate um bom serviço ao País!

Mostrou ser um homem aberto e pragmático tendo sempre por fundo um País melhor e isso, comparativamente com o seu antecessor até que me agradou!

Mostrou ser um ser aberto e liberal e, acima de tudo, um político ( sem ter ares disso) em quem Costa até pode confiar para, num País como o nosso, levar avante realizações importantes e decisivas de que o País necessita.

É evidente para mim que esse não é, nem de perto nem de longe, o que o PSD de quem ainda é líder, assim pense e esse é o seu maior problema: o de afirmar-se perante os seus na sua maioria distanciados do seu pensamento pragmático e aberto.

Os comentadores de serviço que por alguns instantes ouvi falaram das espectativas e, como tal…mas como tal o quê? Pensavam ser Rio como Passos? Não e faço-lhe essa justiça!

Mas esse é o problema deste PSD, um partido de bases radicais e direitistas e que, a partir de hoje, mais vão odiar este líder que, definitivamente, não é o seu! E não ver ser pela sua prestação de hoje que a sua ideia vai mudar… Então votamos Costa como muitos já decidiram…

É que esta manifesta concordância e abrangência não lhes agrada. É e será um traidor, pensam muitos embora não o digam…

Números são números e ele nenhum dos apresentados por Costa desmentiu ( ele é um homem de números) e isso, para os seus ficou gravado na pele! Concordar com este Governo naquilo que ele é mais forte? Imperdoável..

Foi este debate decisivo? Claro que não mas foi, na minha humilde óptica, decisivo no seu manifesto anuimento aos números, incostentaveis, apresentados por Costa: os atestados e verdadeiros!

De modo que Rui Rio, mesmo pretendendo com esta postura, próxima à de Costa, mobilizar as suas direitistas bases deu um tiro no pé e mostrou à saciedade o quanto delas está distante!

Costa esteve igual a si próprio, ciente do trabalho feito e que todos, com mais ênfase ou menos ênfase, reconhecemos.

Que ficou do debate, afinal?

O de um Rio mortinho por trabalhar com Costa!

Estarei assim tão errado? Mas será que os “seus” deixam?!!!

BASTA, André!

(Carlos Esperança, 16/09/2019)

Não, não me refiro ao André Ventura, um ex-candidato de Passos Coelho à Câmara de Loures, agora no partido BASTA, de extrema-direita, abertamente racista e xenófobo. É mau e inteligente, mas suficientemente claro para não iludir inocentes.

Há mais Andrés na política. André Silva, engenheiro, é a face visível do PAN, partido das «Pessoas-Animais-Natureza», mais de animais do que das pessoas ou da natureza.

Aconteceu-lhe ser protagonista de uma novidade que resultou, e temo que passe a líder do grupo parlamentar de um partido sem conteúdo, que entrou no comboio da ecologia sem conhecer as pessoas, os movimentos ecologistas e os seus objetivos.

Confrange a ignorância política, as contradições e a impreparação que o separam de políticos competentes, por mais afastados que ideologicamente se encontrem entre si.

Foi deprimente assistir a debates de André Silva com António Costa, Catarina Martins, Rui Rio, Jerónimo de Sousa e Assunção Cristas, e apreciar o desastre na argumentação, nos conhecimentos e nos objetivos. Não foi um líder político, foi o pastor evangélico da seita radical a que faltam apoiantes e sobram crentes. O PAN não é um partido político, é uma patologia mediática com ambições parlamentares conseguidas.

A benevolência da comunicação social, a proteção de que gozam as figuras exóticas e a facilidade com que a ignorância é promovida a pós-ciência, apagam a mediocridade das prestações televisivas e a indizível entrevista ao Expresso, com gente letrada a imaginar que daquela cabeça possa sair um programa, um projeto ou uma ideia para o País.

A benevolência com que é tratado o medíocre pregador de banalidades compromete os políticos, que não lhe desmascaram a ignorância, por calculismo ou receosos de serem vistos como arrogantes.

André Silva não é uma desilusão, é uma perigosa ilusão que pode sair cara.

Apostila – Era cómodo ignorar este epifenómeno do folclore eleitoral, mas era cobardia de quem não teme insultos da horda de acólitos que o seguem, silenciar a opinião sobre uma epidemia que lembra os movimentos anti vacinas e os das medicinas alternativas. Não são ideologias, são crenças.