“Muito mau”, “desastroso”, “grande derrota”, “vergonhoso”. Críticos não poupam Rio

(Miguel Santos Carrapatoso, in Expresso Diário, 08/10/2019)

Aí vem Montenegro – Imagem in Blog 77 Colinas

Críticos de sempre e ex-apoiantes de Rui Rio concordam: não há como camuflar um dos piores resultados de sempre. O líder do PSD mantém o tabu e não abre jogo sobre o futuro – e os putativos candidatos à sua sucessão também.


Estava escrito nas estrelas: assim que estivessem contados todos os votos e se as piores expectativas se concretizassem, os adversários de Rui Rio não o iam poupar. Assim tem sido ao longo do dia. Autarcas e dirigentes do PSD divergem em relação ao método e ao calendário – se as eleições internas devem ou não ser antecipadas -, mas concordam no essencial: Rio é o grande responsável pela derrota histórica e tem de cair.

Em declarações ao Expresso, Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais, não tem dúvidas: “Não há que copiar outros partidos de esquerda e transformar derrotas em vitórias. Há vitoriosos e derrotados e o PSD está do lado dos derrotados”. E o líder tem condições para continuar? “O que prevalece é aquilo sair da reflexão que ele se comprometeu a fazer. Rui Rio tem uma grande propensão para vitimizar-se e eu não quero contribuir para isso”, diz.

“É inegável que o PSD perdeu as eleições e quebrou um ciclo de vitórias nas legislativas. O PSD está habituado a líderes que lutam pela vitória e não por segundos lugares honrosos”, concorda Paulo Cunha, autarca de Famalicão.

Antes deles, Almeida Henriques, presidente da Câmara de Viseu, que até apareceu ao lado de Rio na campanha, já tinha considerado o resultado “globalmente mau” e defendido a antecipação do congresso. “Globalmente o resultado é mau e o PSD deve antecipar o congresso. Um dos erros deste ano e meio foi o excessivo fechamento do PSD sobre si próprio”, afirmou na Antena 1.

Também de Viseu, Pedro Alves, líder da distrital do PSD, um dos grandes apoiantes de Rio contra Santana Lopes e depois um dos maiores desiludidos com a performance do presidente social-democrata, exige eleições o quanto antes. “O PSD perdeu e não há vitórias morais. Tem de arrumar a casa no mais curto espaço de tempo”, diz ao Expresso.

Carlos Morais, outro ex-apoiante de Rui Rio, considera que o partido “teria tudo ganhar em antecipar as eleições o quanto antes. “O resultado foi muito mau e Rui Rio nem sequer foi capaz de assumir a culpa. Não nos podemos conformar”, sublinha o líder do PSD de Viana do Castelo.

João Moura, de Santarém, que também chegou a estar próximo do líder do PSD, assina por baixo. “Não há como camuflar as evidências aritméticas. O PSD não é um partido qualquer. O PSD é um partido que tem de ser alternativa para governar Portugal. Rui Rio teve toda a liberdade, escolheu tudo e perdeu”, diz ao Expresso o dirigente social-democrata

“Rui Rio não pode entender um dos piores resultados de sempre como um resultado positivo. Foi uma grande derrota, ponto. Mais: Rui Rio, que sempre disse que as sondagens não contavam para nada, não pode dizer que ganhou porque as sondagens se enganaram. Muito menos culpar todos os outros”, insurge-se Rui Rocha, dirigente de Leiria e que chegou a fazer parte da Comissão Política Nacional do líder do PSD.

De Coimbra, Maurício Marques, que se demitiu da liderança da distrital em divergência com Rui Rio, reforça as críticas que fez desde sempre: “Não o podemos esconder: os resultados são péssimos para não dizer desastrosos. Não me conformo. Rui Rio não tem condições para continuar à frente do partido e devia ter feito o mesmo que Assunção Cristas, não estar à espera que o empurrem”, nota.

Sem surpresa, Bruno Vitorino, líder da distrital e um dos maiores críticos de Rui Rio, subscreve todas as críticas. “Não consigo deixar de sentir vergonha do discurso de ontem [domingo]. Para Rui Rio, a culpa foi de todos menos do próprio. O PSD merece mais e merece que um resultado daqueles não seja encarado com aquela leviandade”. O até agora deputado – não fez parte das listas que Rio levou a voto – desafia ainda o presidente do PSD a ir a votos e sufragar internamente a sua estratégia. “Tem a obrigação de ir a votos. Não o fazer seria uma cobardia política. Que não arranje desculpas”, desafia o social-democrata.

RIO E PUTATIVOS CANDIDATOS EM SILÊNCIO

Apesar das críticas (e de alguns apoios tímidos que foram chegando dos seus mais próximos), Rio vai esconder o jogo nos próximos dias. O discurso na noite de domingo, o de um homem acossado que atirou contra adversários internos e externos até finalmente assumir a sua quota de responsabilidade “para o bem e para o mal”, permitiu a Rio ganhar tempo e ensaiar argumentos para uma futura disputa eleitoral interna. Quem o visse e ouvisse seria capaz de jurar que o líder do PSD quer e vai disputar as próximas eleições, agendadas para o início de 2020. Mas Rio é imprevisível e não está a excluída a hipótese de o presidente do PSD ter apenas adiado o anúncio público de uma decisão que já estará praticamente fechada na sua cabeça: a de deixar a liderança do partido.

Do lado dos putativos candidatos à sucessão de Rui Rio – e são quatro, Luís Montenegro, Miguel Pinto Luz, Jorge Moreira da Silva e Miguel Morgado -, os trunfos vão sendo geridos. E o silêncio também. Estarão todos à espera do que vai fazer Rui Rio e a gerir timings. Os próximos dias serão de definição.


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Não há gerinpança. Será geringonça ou gerinsonsa?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/10/2019)

Daniel Oliveira

Como era previsível, o Partido Socialista venceu as eleições sem maioria absoluta. Não se trata apenas de ter ficado folgadamente em primeiro, o que lhe dá uma capacidade negocial diferente. Não precisa dos outros para ter legitimidade para tentar formar Governo. Não se trata sequer de ter mais sozinho do que toda a direita junta. Tem, agora, mais parceiros possíveis para negociar. Mas a isso lá irei.

Os derrotados e vitoriosos medem-se pela frieza dos números, pela força política que cada um ganha ou perde e, só depois disto, pela relação com as expectativas. Assim, os derrotados são claros. O PSD tem o pior resultado desde 1983. Com votações destas, caíram Pedro Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite. Sim, é verdade que as sondagens chegaram a dar bem pior e que as autárquicas foram uma tragédia. Mas se isto não foi uma derrota, não sei o que é uma derrota. O que se exigia de Rui Rio era, mesmo mantendo-se, um discurso mais consentâneo com o resultado que teve.

O PCP, que ao contrário de Rio soube admitir de forma clara a sua derrota, consegue o pior resultado de sempre em legislativas. Depois da tragédia das presidenciais, das autárquicas e das europeias já se pode falar de um padrão. E a distância a que fica do Bloco terá um efeito duradouro e complica bastante os entendimentos à esquerda. Já o CDS, que passa para quase um terço do que teve da última vez que concorreu, perdendo 13 deputados. Teve uma derrota de proporções épicas. Que é agravada pela chegada de dois concorrentes – a Iniciativa Liberal e o Chega. O CDS passa a ser o primeiro dos pequeninos. É o maior derrotado da noite, com a menor votação de sempre, a menor percentagem de sempre e o segundo menor número de deputados de sempre. Mas a derrota que conta é a do conjunto da direita, que consegue aprofundar a que já tinha tido há quatro anos e que só pelo facto de terem ido coligados ficou disfarçada.

Depois, temos os vitoriosos. O PS, seja qual for o ponto de vista, venceu a noite. Consegue um bom resultado, fica em primeiro e ganha maior autonomia do que tinha. Mas fica longe da maioria absoluta. O PAN é outro dos vitoriosos. Passa de 1,4% para 3,2% e de um deputado para quatro. Se falássemos de expectativas, ficou aquém do que queria: nem teve um crescimento exponencial em votos, nem o PS depende dele. Mas veio para ficar. O Bloco fica próximo dos resultados anteriores, com uma descida muito sensível mas o mesmo número de deputados, o que tendo em conta a chegada do Livre e o aumento do PAN é um ótimo resultado. Mas, acima de tudo, afirma-se de forma clara como terceira força e o partido hegemónico à esquerda do PS, tornando-se o parceiro difícil de ignorar. E, claro, os novos partidos que chegam ao parlamento: Iniciativa Liberal, Livre e Chega. Um parlamento com nove partidos é algo de absolutamente novo na democracia portuguesa.

Tudo isto é excelente para nós, que fazemos disto vida. Mas para as pessoas e para o país dura uma semana. Talvez duas. O que conta é que realidade política sai daqui. E aí, o que conta é quem ficou em condições de governar, quem ficou em condições de ser um aliado dessa governação, quem ficou em condições para fazer oposição e quem ficou em condições para, se souber aproveitar, ser uma nova força no xadrez político.

Por enquanto, os partidos falam da continuação da geringonça, que foi expressamente assumida pelo próprio António Costa. Não será fácil, com o resultado do PCP e o facto de o PS só precisar de um dos partidos, repetir a solução que durou estes quatro anos. É provável que nos próximos dias se assista a um jogo de sombras em que ninguém se compromete e todos juram que sim. Seguro, seguro, é que não haverá acordo escrito.

A outra solução seria uma aliança com o PAN, juntando-lhe talvez o Livre. Seria a “gerinpança”. Nem depois de virem os eleitos dos emigrantes – na melhor das hipóteses o PS elege 109, o que juntando aos quatro do PAN e a deputada do Livre dá 114 (são precisos 116). Por fim, o facto do PS ter, sozinho, mais deputados do que o PSD, CDS e a Iniciativa Liberal juntos (na melhor das hipóteses, terão 86), permite que governe com a abstenção da esquerda. Seria uma geringonça não assumida. Uma “gerinsonsa”. A verdade é que António Costa está mais forte mas a sua vida não está mais fácil.

Quanto à oposição de direita, o CDS não tem nenhumas condições políticas para ter um papel minimamente relevante. Espera-o uma agonia que vai ser difícil de acompanhar. Logo se vê como sairá dela. Quanto ao PSD, estamos perante uma posição difícil. Depois de ter sobrevivido a esta dura prova, que papel terá Rui Rio? Não tem força que chegue para entendimentos com os socialistas. E não sai reforçado para uma oposição. E como lidará com as grandes mudanças que se esperam à direita, que resultam a implosão do CDS e a chegada de mais dois concorrentes?

É sobre isto e sobre tudo o que de novo aconteceu nestas eleições, à esquerda e à direita, que tentarei escrever ao longo desta semana, à medida que as coisas se vão clarificando. Por agora, ficam as dúvidas. Agora sim, será precisa a arte de Costa. Aquela que ele não tem para fazer campanhas eleitorais.


Da arte da dramatização

(Daniel Oliveira, in Expresso, 04/10/2019)

Daniel Oliveira

Quase sempre que os partidos se queixam da injustiça das sondagens têm como exemplo estudos de opinião feitos a alguma distância das eleições. Sabendo-se que 20% dos eleitores decidem o seu voto uma semana antes de votar, pode bem não ser erro mas apenas o retrato daquele momento. As sondagens que são feitas próximas do ato eleitoral (geralmente as últimas e maiores) não costumam, em Portugal, falhar por muito. Pelo menos em eleições nacionais. Ainda assim, elas serão usadas, nestas últimas horas de campanha, para dramatizar e convencer os eleitores mais impressionáveis. Essa dramatização faz-se exagerando uma tendência para criar uma noção distorcida da realidade.

As sondagens grandes, que são aquelas que nos dão informação fidedigna, são relativamente consensuais e claras nos dados fundamentais: o PS vai ganhar folgadamente as eleições, a maioria absoluta é uma impossibilidade, o PSD recuperou mas está a léguas de ser um risco para Costa e tudo indica que o PS precisará do BE, do PCP ou dos dois para governar. À volta disto podem fazer-se muitas conjeturas, não se pode pôr tudo de pernas para o ar.

O PS vai dramatizar, aproveitando uma recuperação do PSD que não belisca nem por um segundo a sua vitória folgada, para ir buscar votos à sua esquerda. O PSD vai dramatizar, tentando usar essa recuperação como sinal de uma vitória que é inalcançável, quer pela distância que o separa do PS, quer pela abissal diferença entre o bloco de partidos de esquerda e o bloco de partidos de direita.

Os partidos à esquerda do PS, e em especial o Bloco, tentarão agitar o fantasma da maioria absoluta, muitíssimo improvável. E o CDS poderá apelar à guerra perdida da direita, que liberta o voto de simpatia. Mas não é muito mobilizador. É aquele que está numa situação tão dramática que não sei se tem por onde dramatizar.

A dramatização é um recurso de todas os partidos nos últimos dias de campanha. Depois de o Parlamento ter ganho nova centralidade e de os portugueses terem descoberto que o que conta são as maiorias que se formam, o voto tático ganhou mais importância.

E é a ele e à mobilização dos seus eleitores (Tancos serviu para isso, no caso do PSD) que os partidos se dedicarão neste último dia. Tratam de migalhas. O essencial está feito e todas as sondagens tornam forçados jogos dramáticos. Os dados estão lançados. Até domingo.