O debate que Costa e Catarina precisavam

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/09/2019)

Daniel Oliveira

O debate mais importante desta pré-campanha não era o que vai acontecer no dia 16, entre Rui Rio e António Costa. Aí só se decidirá alguma coisa se Rio conseguir encostar Costa às cordas e assim mobilizar os eleitores de direita em deserção. É para ter uma derrota digna. Mas suspeito que Costa nem sequer vai deixar que haja um verdadeiro confronto. Para ele, quanto mais morno esse debate for melhor. O debate mais importante foi o que aconteceu na última sexta-feira. (Quem não viu o debate pode vê-lo no filme que se segue).

Porque, como Costa deixou bem claro na entrevista ao “Expresso”, é na correlação de forças à esquerda que se decidirá a futura governação. E é entre o BE e o PS que há maior porosidade eleitoral. Se isto já seria assim, tornou-se ainda mais certo depois de Jerónimo ter perdido a oportunidade de anular o abraço sinceramente simpático mas politicamente mortal de Costa.

Para António Costa, o fundamental era não perder a cabeça para não ser ele o responsável por um desentendimento. E falar ao eleitorado de centro, o único que pode ter qualquer interesse em dar-lhe maioria absoluta. Para isso, tinha de sublinhar o que esse eleitor vê como a irresponsabilidade do BE. Não interessa aqui analisar o rigor da acusação, nem o facto de uma boa parte do que sublinhou já existir há quatro anos e não ter impedido a “geringonça”. Alguém acredita que um BE com um bom resultado e a limitar um Governo de Costa o obrigará a nacionalizar seja o que for? O que interessa é que o eleitorado de centro que não goste do BE é sensível a este tipo de argumento. Sem nunca chegar a ser acintoso, Costa conseguiu sublinhar isso. E este foi, mesmo depois de esclarecimentos, o momento mais difícil para Catarina Martins. Que não conseguiu ser suficientemente eficaz a denunciar o truque de ele não apresentar números e esmiuçar os números alheios.

Para Catarina Martins, o fundamental era sublinhar as diferenças, para que o voto no BE sirva para alguma coisa, mas com uma contenção que evitasse a ideia de que os entendimentos serão mais difíceis no futuro. Conseguiu-o plenamente. E, no meio, sublinhou bem as vitórias que teve nos últimos quatro anos, as vantagens da “geringonça” e a posição que resumiu no fim do debate: nunca ajudará a direita, não faltará à estabilidade e não passará cheques em branco.

Garantir firmeza com responsabilidade, que só depois de quatro anos desta experiência é credível. De tal forma credível que a tentativa de exibir a irresponsabilidade do Bloco resulta no eleitorado de centro – que já o acha irresponsável – e no eleitorado militantemente socialista, mas não tem grande efeito no eleitorado flutuante à esquerda. Não há ninguém que não achasse o BE irresponsável há quatro anos e o vá achar agora. Ou que não se tenha assustado com o programa de há quatro anos e se assuste agora.

Costa conseguiu dirigir-se ao eleitorado de centro para que ele sinta que é melhor dar-lhe a maioria absoluta que ele nunca pede. Catarina conseguiu surgir como uma aliada que continua disponível para entendimentos, mas que é firme e não passa cheques em branco. E a comparação com o debate entre Rio e Cristas é mortal para a direita. Ajuda a explicar os resultados eleitorais que as sondagens nos fazem adivinhar

Há uma segunda vitória de Catarina Martins que não sei se terá efeitos eleitorais: a comparação com Jerónimo de Sousa. Ao deixar que o tom do seu debate com Costa se tivesse transformado no que se transformou, Jerónimo deixou campo aberto na esquerda que não confia no PS e quer um aliado firme. Mais uma vez, não está em causa a realidade. Os bloquistas não são mais firmes do que os comunistas na relação com Costa. Uns e outros são mais ou menos firmes em agendas que são mais ou menos importantes para si. E têm estilos diferentes. As maiores dificuldades entre PS e BE resultam apenas de disputarem mais eleitores entre si. Mas a verdade é que, vendo os debates, a diferença funciona mal para o PCP.

António Costa conseguiu o que queria: dirigir-se ao eleitorado de centro para que ele sinta que era melhor dar-lhe a maioria absoluta que ele nunca pede para que o PS não dependa do BE. Catarina Martins conseguiu o que queria: surgir como uma aliada firme, que continua disponível para entendimentos mas não passa cheques em branco, representando o eleitor de esquerda que não confia num PS sozinho. E mostrou-se tecnicamente preparada, o que ajudou a limitar os estragos do discurso de Costa. Como os debates não servem para vencer um adversário, mas para conquistar eleitores, o facto de o debate ter tido conteúdo, diferença e contenção foi excelente para os dois. Porque os dois cumpriram o seu objetivo.

Este foi, de muito longe, o melhor debate até agora. Aquele que teve mais substância, as diferenças ficaram mais claras e mesmo assim a coisa nunca descambou. E a comparação com o debate entre Rui Rio e Assunção Cristas é mortal para a direita. Num debatem-se coisas que contam e no outro não. Porque uns vão tomar decisões e outros não. Num lado está-se a pensar e a agir politicamente e no outro apanham-se cacos. Há um lado que está fora de jogo enquanto o outro joga entre si, podendo até dar-se ao luxo de ser aliado e adversário em simultâneo. Esta comparação ajuda a explicar os resultados eleitorais que as sondagens nos fazem adivinhar.


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Bloco e Podemos, o mesmo drama: para que servem os seus votos?

(Joaquim Vassalo Abreu, 05/09/2019)

Vassalo Abreu

Afirmou já há uns anos José Sócrates ser ele o líder que a Direita gostaria de ter. O tempo e as circusntâncias trataram de deixar em suspenso tal proposição e é agora ANTÓNIO COSTA, em tempos seu fiel discípulo, esse tal líder que grande parte da Direita gostaria de ter mas, mesmo  não o podendo  ter, nele vai votar.

É que, mesmo sendo ele o Secretário Geral do maior Partido da Esquerda portuguesa, o P.S., e Primeiro Ministro de um Governo declaradamente de Esquerda, após a  trapalhada em que os Partidos da Direita e os da Esquerda à sua esquerda se deixaram embrulhar, num triste e decadente espectáculo de desnorte, desleixo e mesmo infantilidade políticos, no caso da contagem dos anos de serviço dos Professores e depois ainda com a “crise” dos combustíveis, ficou evidente para todos, nomeadamente para muitos sectores da Direita, quem estava mesmo preparado para governar e, dignificando o Estado e a sua autoridade, fazer valer a força da Lei a favor dos interesses de todos.

Juntando a isso os êxitos conseguidos com a sua governação no controlo e melhoria substanciais das nossas contas públicas, com um Ministro das Finanças afável mas firme, obstinado mas incisivo e acima de tudo competente, não foi com muita surpresa que ouvi  da boca de alguns amigos de Direita a intenção de votarem COSTA e com uma explicação muito simples: sendo nós eleitores de Direita mas observando que , no fundo, muito do que se baseia o nosso pensamento foi concretizado por COSTA e a sua equipa, então votaremos em COSTA porque na Direita ninguém tal faria ou será capaz de fazer…

Daí que, conquistado muito do “centro” e daquele eleitorado volúvel, o tal que dá ou retira maiorias, sejam elas relativas ou absolutas, eis que o P.S. de ANTÓNIO COSTA surge nas sondagens como estando no limiar da dita maioria.

E este cenário está a deixar o Bloco de Esquerda num tal nervosismo , que até se reflete num cartaz aqui ao perto em que ao lado de uma Catarina esbugalhada de azul esverdeado surge um José Soeiro atarantado e a parecer sair da cama, e no pânico dos seus principais pontas de lança na comunicação social, o Daniel Oliveira e o Francisco Louçã, pela possibilidade do seu Bloco não vir a fazer parte da solução de uma maioria parlamentar da qual saia o próximo governo e tornar-se, assim, numa excrescência inútil.

Mas, a não alcançar uma maioria absoluta e precisando de acordos pontuais, exclusão a favor de quem? Do seu arqui-inimigo PCP que, ao contrário do Bloco, se apresenta perante a sociedade como um partido sério, experiente e fiável, para além de fiel cumpridor de tudo com se compromete.

Eu ainda não ouvi e estou seguro de que não ouvirei o ANTÓNIO COSTA  a pedir declaradamente a maioria absoluta aos Portugueses e, como tal, torna-se para mim difícil entender por que o Daniel diz que COSTA “ameaça” com o exemplo do Podemos Espanhol para a alcançar. Só pode ser delírio pois o exemplo do Podemos não é efectivamente o melhor pois a sua frivolidade, a sua sobranceria e a arrogância do seu líder só têm feito gorar governos de esquerda em Espanha. E não queremos cá réplicas, é claro. Isso mesmo diz COSTA.

E quando ANTÓNIO COSTA afirma ser o P.S. o único Partido da Geringonça que assume tudo quanto de bom e de mal foi feito, ele está a dizer a mais pura verdade, mas a dizer mais: como confiar numa força politica para uma possível futura coligação quando ela apenas se arroga e reclama de tudo o que de bom se fez e se afasta de tudo o resto? Eu já uma vez aqui abordei um pouco disto num Artigo aqui publicado e chamado O ORÇAMENTO ELÁSTICO DA CATARINA cuja leitura aconselho pois me poupa a mais adjetivações. ( Ver aqui. )

Mas um artigo no Público de há uns dias de Rui Oliveira e Costa, reputado técnico de análise sociológica e Sondagens, veio trazer-me mais luz sobre o assunto e sobre algo que tanto o Daniel como o Louçã sabem mas evitam dizer: o facto de, segundo Rui Oliveira e Costa, devido às alterações no espectro politico partidário Português, mais Partidos a concorrerem e votos mais distribuídos, para além do significativo aumento dos votos brancos e nulos, já não serem precisos os anteriores cerca de 44% dos votos para alcançar uma maioria absoluta, podendo bastar para isso os 39%!

A possibilidade cada vez mais real da não renovação da Geringonça faz com que o sonho do Daniel – agora que já nem “Livre” vai poder voltar a ser…- mais o de Louçã, que acusou o COSTA de exercer “bulling” sobre o seu Bloco, diz que passa a vida a bater-lhe…, de ver o seu Bloco elevado à categoria de “imprescindível” sair gorado!

É que aí, se o P.S. ficar no limiar de uma maioria absoluta ou mesma a alcançar e prescindir do Bloco, “goodbai” Catarina mais a sua sempre sofrida arrogância e “goodbai” Mortáguas mais as vossas imberbes absolutas certezas….

O BE num governo? “Vade rectro”!

Nota- O “ipsilon” fugiu do meu computador…

Reviravolta na Lei de Bases da Saúde: BE volta às negociações e ‘tira’ PPP da lei

(David Dinis, In Expresso, 09/06/20199

(Mas que grande jogada da Catarina. Agora o PS que mostre afinal de que lado está: se está com as ideias para a saúde de António Arnaut ou se está com o jeito para as negociatas na saúde com os privados, mais ou menos subterrâneas, de Maria de Belém. 

Se, como se fartou de dizer António Costa no último debate quinzenal na Assembleia da República, o essencial na nova Lei de Bases da Saúde não são as PPP, então aprove-se o essencial e deixem-se as PPP para melhor análise e posterior debate. 

Agora é que se vai ver se as PPP são ou não “essenciais” para o PS.

Comentário da Estátua de Sal, 09/06/2019)


A dias da votação final, depois de terem ficado bloqueados com o recuo do Governo, Catarina Martins propõe a António Costa solução para aprovar Lei de Bases à esquerda… e PPP à direita.


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