Criticar o hospital não é defender a doença, criticar a polícia não é defender o crime

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 24/10/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Os três alegados autores de vários assaltos a idosos na região do Porto foram, depois de oito meses de investigações, levados ao Tribunal de Instrução Criminal (TIC) do Porto, onde foi decretada a sua prisão preventiva. Ainda dentro do tribunal, os três suspeitos, dois irmãos gémeos e um sobrinho, conseguiram apoderar-se das chaves da cela do TIC, fugir por uma janela e apanhar um táxi. Foram apanhados 24 horas depois. Vários órgãos de comunicação divulgaram uma imagem dos três fugitivos, algemados e sentados no chão, quando foram recapturados. A divulgação destas imagens foi criticada pela Ordem dos Advogados, pelo Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas e pela Amnistia Internacional. Uma crítica dirigida a quem tirou as fotos, quem as deu aos órgãos de comunicação social e a quem as publicou. Ou sejam, o Sindicato dos Jornalistas fez aquilo que os sindicatos de polícia não fazem: criticou a sua própria classe. A Inspeção Geral da Administração Interna e a própria PSP abriram inquéritos separados para investigar a fuga e a divulgação das fotografias.

Para valorizar o trabalho da PSP, o Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública decidiu republicar as fotografias com um comentário: “Aqui estão os campeões, obrigaram os polícias, depois de um excelente trabalho, a fazerem horas extra para a recaptura”. Parece-me que o maior crime destes três homens está bem longe de ser o desrespeito pelos horários dos agentes da PSP.

Não é fácil, neste tempo de recuo civilizacional onde todos os valores construídos pelas democracias e em que se baseia o Estado de Direito passaram a receber o carimbo de “politicamente correto”, explicar porque não se devem divulgar fotos de detenções, com pessoas algemadas e sentadas no chão. Porque não cabe à polícia organizar julgamentos internáuticos através da humilhação de suspeitos, por mais abjetos que sejam os seus crimes.

Cabe-lhes investigar, capturar, levar à Justiça (que cabe a outras pessoas) e encaminhar, quando é caso disso, para a reclusão. E não é por a PSP ter falhado neste último passo que se justificam formas mais expeditas de julgamento. E publicar estas fotos não contribui em nada para a execução da Justiça. Apenas contribui para o ambiente geral de abandalhamento institucional. Como deveríamos saber, o abandalhamento institucional não facilita a vida à lei, facilita a vida ao crime.

Criticar um hospital não é elogiar a doença, criticar os militares por causa de Tancos não é elogiar quem roubou as armas, criticar políticos eleitos não é elogiar a ditadura, criticar a polícia não é elogiar os criminosos. Para eles temos tribunais e prisões, um pouco mais eficazes do que a crítica, a que suspeito que serão pouco sensíveis

As investigações internas explicarão as razões da fuga e não serei eu a fazer aquilo que critico nos outros: a julgar sem qualquer dado. Apenas sublinho que era à guarda da PSP que aqueles homens estavam. Criticar a PSP por os ter deixado fugir é tão legítimo como elogiar a PSP por os ter descoberto e capturado antes e por os ter voltado a recapturar. Elogiar e criticar um qualquer organismo público é o que pode acontecer em qualquer sociedade livre. Criticar um hospital não é elogiar a doença, criticar os militares por causa de Tancos não é elogiar quem roubou as armas, criticar políticos eleitos não é elogiar a ditadura, criticar a polícia não é elogiar os criminosos. É fazer o que se faz em democracia. Porque não criticamos os criminosos da mesma forma? Porque para eles temos tribunais e prisões, um pouco mais eficazes do que a crítica, a que suspeito que serão pouco sensíveis. Os dois inquéritos que se mandaram abrir são, por isso, absolutamente legítimos e totalmente independentes dos crimes cometidos por estes três suspeitos, de que os tribunais tratarão.

Infelizmente, a história não acaba aqui. O Sindicato Vertical de Carreiras da Polícia (é outro) ficou irritado por o ministro da Administração Interna ter, como a generalidade das instituições relacionadas com o tema, criticado a divulgação das fotografias. E decidiu publicar uma montagem fotográfica do ministro e de três vítimas idosas com as caras desfeitas pela violência. Diz a legenda: “Por favor, Sr. Ministro do MAI, Srs. da Amnistia Internacional, Sr.ª Cancio e todos os demais….indignem-se”. Não bastasse esta forma informal de um sindicato de forças de segurança comunicar com os cidadãos, como se fosse o nosso vizinho indignado a comentar no Facebook, a montagem pretende induzir-nos em erro. Não se trata de vítimas daqueles três suspeitos. Nem sequer vítimas de qualquer criminoso português. As fotografias que aparecem são de pessoas do Reino Unido e do Brasil e são antigas. Num momento em que nos preocupamos com “fake news” é inquietante ver que há agentes da autoridade que as promovem.

Vamos então rever a matéria dada. A PSP consegue, e muito bem, capturar três suspeitos de crimes contra idosos. Cumprida a sua função e a lei, leva-os ao TIC do Porto. Cumprindo a sua função e ao abrigo da lei, o juiz decreta a prisão preventiva. Falhando na sua função, a PSP não consegue garantir que os três suspeitos à sua guarda cheguem à prisão. Voltando a cumprir a sua função, montam uma operação de busca e conseguem voltar a apanhar os fugitivos. Em violação da lei, surgem nos jornais fotos os três suspeitos algemados e sentados no chão, como se a humilhação viral subsistisse o julgamento ou compensasse a falha de segurança. Cumprindo as suas funções, a PSP abre inquéritos às duas falhas e o ministro da Administração Interna deixa clara a posição do Estado português sobre este tipo de conduta, não faz qualquer julgamento sumário sobre as responsabilidades pela fuga, que deixa às autoridades competentes. Perante tudo isto, dois sindicatos mostram-se indignados com todos os que cumpriram o seu dever, repetem a publicação e um deles divulga imagens enganadoras para manipular a opinião pública. Não é preciso muito mais do que os factos para formar uma opinião. E estar do lado dos factos não é estar do lado dos criminosos. Aliás, estar do lado da lei e do cumprimento de regras é estar contra o crime. Seria bom não invertermos as coisas.

Nota importante: a Associação Sindical de Polícia (ASPP/PSP), o primeiro e mais representativo sindicato de polícias, que conquistou com risco e sacrifício o direito destes homens se sindicalizarem, tem-se pautado sempre por um comportamento responsável e com o rigor institucional que se espera por parte de quem, em nome do Estado, veste uma farda. Infelizmente, a luta consequente por direitos laborais dá menos noticias do que a demagogia incendiária. A multiplicação de microssindicatos oportunistas, muitos deles com ligações à extrema-direita e com o objetivo de minar o Estado de Direito por dentro, não fazem justiça ao que é a maioria da PSP.

“SERÁ QUE NOS PORTAMOS MESMO BEM, Gente?”

(Joaquim Vassalo Abreu, 08/10/2018)

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Catherine Deneuve

Pergunta-se o Brasil e perguntam-se o PT e Lula da Silva, para que conste. E aqui também poderia acrescentar a “Democracia Brasileira”, através dos seus representantes Parlamentares e outros poderes.

Recordo agora e vou mesmo transcrever um texto que aqui publiquei vai fazer precisamente três anos no próximo dia dez deste mês, depois de amanhã, portanto, e a que apelidei de “EU PORTO-ME BEM”! Ora leiam, se fazem favor…

Esta frase aqui escrita e dita por mim não me pertence, descansem! Ela foi proferida por uma grande senhora do cinema Francês e mundial chamada CATHERINE DENEUVE. Todos já a vimos e dela ouvimos falar e uma grande parte considera-a mesmo o exemplo da beleza perfeita. Eu também.

Na verdade, ela tem uma beleza harmoniosa e indefinível, em que a tranquilidade do seu rosto adornado de traços perfeitos nos transmite uma sensação de perene leveza. A idade vai avançando e essa beleza vai-se mantendo retocada pela vida e amaciada pelo tempo, parecendo que não envelhece.

Mas o certo é que tendo sido durante muitos anos o modelo da elegância preferido por grandes marcas da alta costura, ela foi fazendo filmes atrás de filmes, sobrevivendo à passagem do tempo e sem medo desse mesmo tempo. Há coisas que não se explicam e a sua sobriedade e postura distante fazem dela o protótipo da beleza intemporal.

Ela nunca precisou de ter uma vida frívola como a grande maioria das actrizes suas contemporâneas, exceptuando Merryl Streep ou Sofia Loren afirmo eu, para impor a sua presença ao mesmo tempo serena e altiva.

Perguntada há tempos por um jornalista como, sendo ela uma figura tão famosa e rica, uma actriz tão conceituada e reconhecida, uma Diva mesmo, se podia afirmar ou considerar uma mulher de Esquerda, ela respondeu-lhe simplesmente isso : “ Eu porto-me bem!”.

Esta curta e singela resposta concentra no entanto em si uma imensa sabedoria e remete desde logo para o facto de, ao afirmar-se uma pessoa como ela de Esquerda, assumir ser-lhe  de imediato imposto um selo que a impede de ser como os outros. Ela não poderá mais ser frívola ou inconsequente e tem que permanecer uma cidadã exemplar : não poderá fugir ao fisco nem ter contas em offshores como os outros, tem que cumprir as suas obrigações como todos fazem e tem que ser uma figura pública acima de qualquer suspeita. Se assim não for logo todos dirão : afinal são todos iguais!

E esse “ afinal são todos iguais definindo desde logo a distância entre o que pode ser tolerado nuns e noutros não, também atesta da desilusão que seria para quem vive habituado a conviver com os “ são todos iguais”  o ver uma pessoa pertencente aos “ Não são todos iguais” ser, afinal, igual a todos os outros, pois deles se espera melhor comportamento, melhor exemplo e, inconscientemente ou não, uma superioridade moral e ética que implicitamente lhes reconhecem.

Para assim ser e para uma tão curta resposta ter um efeito tão contundente é porque a sociedade tem por assumido que assim é. A vida está aí repleta de casos exemplares e não foi, portanto, impunemente que a grande CATHERINE DENEUVE o intuiu!”. SIC.

A razão por que me lembrei disto e sobre isto dissertei, eu disse na altura que deixava à Vossa imaginação, mas hoje, inquestionavelmente, relembro acerca do Brasil e suas Eleições.

LULA pactuou com a corrupção, é um dado adquirido e, mesmo isso não justificando a sua prisão, no meu modesto entender, o seu procedimento merece a minha discordância e condenação. É que ele pactuou com a corrupção quando acordou num pacto com muitos dos restantes grupos parlamentares ,um autêntico pacto de regime paralelo, levado ou não a escrito, permitindo o chamado “Mensalão”!

É que, pesem todas as virtuosas razões que a isso levaram (a impossibilidade de conseguir uma simples maioria que permitisse a aprovação indispensáveis aos trabalhadores e demais população, de leis tendentes ao apoio integral às suas vidas, ao erradicar da fome, ao progressso das zonas do interior etc  )  e que doutro modo seria de acesso inalcançável, num consenso que englobasse as restantes forças partidárias, ou suas cúpulas, tudo isso acabou por se mostrar ruinoso…

E acabou por se mostrar ruinoso por várias razões: a primeira, imediata, e que consubstancia a entrada em cena, como principal obreiro do esquema, do seu Chefe da Casa Civil (José Dirceu), pessoa bem conhecida da luta à ditadura e a segunda, ainda mais importante, porque tal ignomínia lhe ficou apegada à pele, qual selo, qual marca ou qual tatuagem de impossível erradicação.

E tal sucedeu porque LULA, nunca e em tempo algum, poderia ser apelidado de “Igual aos Outros” ou então do “Afinal Eles são Iguais aos Outros!” E porquê: porque mesmo que LULA não o pretendesse fazer (corrupção), e não fosse assim igual aos outros, aceitando fazê-lo mesmo que para benefício geral e nunca particular, nunca tal poderia ser feito pois teria que se lembrar que, mais cedo ou mais tarde, tal coisa, em efeito boomerang, se haveria de voltar contra si.

E o “Afinal são todos iguais” teve também o condão imediato de, aos olhos do cidadão comum, perante tal pecado de quem os representava, transformar os outros, os detestáveis, em normais, aceitáveis e até presidenciáveis… tipo Bolsonaro.

O rico, em toda a sua ostentação, (meia dúzia dos mais poderosos possuem mais riqueza que todo o Norte e Nordeste , metade do Brasil), usa e manipula a corrupção, as leis, o medo, a hipocrisia e o Trabalho (e a falta dele) como chantagem extrema sobre tudo o que exista procurando apenas um destinatário para o seu usufruto: ele! E a ele, assim, tudo é permitido.

Quem isto ousar questionar, quem isto ousar querer parar, nem que algumas das suas armas pretenda utilizar, nem que a finalidade última seja o bem do Povo, não tem perdão e não o tem porque ousou pretender tocar em algo que sempre foi “sagrado”. Sempre foi seu, por ordem de Deus, louvado Deus, também acrescentam…

Nunca será Balsonaro a acabar com o cancro da corrupção no Brasil e a militarização das ruas, das favelas, das casas e das cidades, só trará mais violência, como se tem visto no Rio nestes meses em que as forças militarizadas tomaram as ruas…sob a égide desse “grande” Governo do Temer…

E esta desgraça de governo brasileiro continuará a sê-lo ainda mais se com ele vier maior repressão, maior exclusão e maior abandono…e nada remediará!

Mas voltando ao tema,  LULA e o PT “não se portaram bem…”. Não, não se portaram…

Mas ainda acredito que vão ser os “Alentejos” do Norte e Nordeste, o Povo pobre, o Povo simples e o Povo ostracizado, quem vai salvar a Democracia Brasileira…

Que os seus Deuses os guiem…

SARAVÁ!

Sobram Mujica e Che

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/08/2018)

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O “Observador” titulava, na semana passada, que Evo Morales tinha triplicado a sua conta bancária em 12 anos de poder. A triplicação era de 18 para 51 mil euros, facilmente explicável para quem ocupa um cargo que garante as despesas de representação e um exemplo de frugalidade se comparado com a generalidade dos chefes de Estado. Já o vice-presidente duplicou: de dois mil para 3500 euros.

Para além da busca fácil de visualizações na internet, o bombástico anúncio da “triplicação” de rendimentos denuncia uma ideia: a de que um político de esquerda deve empobrecer. Pelo contrário, à direita tudo se permite porque não sendo supostamente moralista o político de direita está livre do julgamento moral e nada tendo contra o capitalismo o seu enriquecimento legal é sempre legítimo.

É por isto que, apesar de Robles não me interessar grandemente, o caso que o envolveu me interessou bastante. Porque a sua demissão, depois de uma pressão púbica e mediática que não deixou outra alternativa a um partido que sempre cavalgou algum moralismo político, institucionaliza esta duplicidade de critérios. Políticos de esquerda buscam uma coerente santidade, os de direita tratam da sua vida.

A crença na superioridade moral da esquerda, alimentada por ela e caricaturada pelos seus adversários, acaba sempre na esperança redentora do advento de um “homem novo”, puro de vícios e de cupidez. Eu, talvez mais modesto e menos religioso, só quero políticas mais justas aplicadas pelos homens que existem e que funcionem com o homem que temos.

Até porque estou convencido de que a ambição individual não tem de nos conduzir ao capitalismo selvagem, como mostram as sociedades que construíram o Estado Social e mais direitos garantiram aos trabalhadores. Aquilo que defendo é para funcionar na sociedade que conheço.

Claro que para termos uma sociedade mais justa são precisos indivíduos melhores. Mas isso não passa pela transformação da esquerda numa seita de inadaptados exemplares. Até porque, como sabem os religiosos, a única coerência verdadeiramente redentora é a da pobreza ou a do martírio. Ou o inspirador casebre do ex-Presidente uruguaio Jose Mujica ou o calvário boliviano de Che Guevara. Tudo bastante cristão, aliás.

Numa economia onde cada vez mais gente deixa de estar protegida pelo Estado Social, a esquerda pode ir buscar quadros ao Estado, onde essa proteção do passado ainda resistirá por uns anos; à burocracia partidária, onde os revolucionários profissionais confiam ao partido os negócios que os salvem a eles da contradição (o PCP faz excelentes negócios imobiliários sem que isso belisque os seus dirigentes); ou entre os que são obrigados a garantir a sua própria segurança futura. Podemos acreditar que as forças políticas de esquerda serão construídas apenas por pobres e remediados, afastados à força da tentação do pecado. Nunca aconteceu, nem sequer em movimentos revolucionários. Se a esquerda quer ser determinante terá de contar com as pessoas que existem, de várias classes sociais. Entre elas há quem tenha alguns recursos financeiros e os vá aplicando.

Quem defende mudanças sociais não pode estar obrigado a viver numa sociedade diferente daquela que existe, condenado a ser julgado por parâmetros morais e éticos diferentes daqueles que são exigidos a todos os cidadãos.

E, acima de tudo, não pode estar livre da critica quem governa em proveito próprio, porque se bate apenas pelo seu interesse e não pode ser acusado de hipocrisia, enquanto censuramos quem defende políticas justas que podem limitar os seus próprios negócios, porque não faz no privado o que defende para o público.