A fé e a displicência ética

(Por Carlos Esperança, 27/07/2018)

PAGADOR

A mãe que reza um terço para que o filho passe no exame está a meter a cunha à santa para que influencie o júri que o há de avaliar.

O construtor civil que manda o cabaz de Natal ao engenheiro da Câmara, agradece o último andar do empreendimento, que não constava do projeto inicial.

O funcionário que promete ir a Fátima, se for promovido, quer apenas que a Senhora se lembre dele para a vaga que, por mérito, pertenceria a um colega.

O cordão de ouro que a minhota deixou no andor do Senhor dos Passos para que o seu homem abandonasse a galdéria que o transtornou e voltasse para ela, imagina que, sem a renúncia ao ouro, o Senhor não lhe levaria de volta o bandalho do marido.

Sempre que há promessas para obter do santo, especializado em certo tipo de subornos, um qualquer benefício, é a admissão do carácter venal da Providência. É o cabrito que se manda ao chefe na véspera das atualizações salariais.

Ao santo pede-se que interceda junto de Deus para fazer ao mendicante o que não faz a outros. Ao chefe solicita-se que trame o parceiro em benefício próprio.

Portugal é um país venal, de pequenas e vis corrupções, feito à imagem da religião que o formatou, espécie de marca que indica a ganadaria de origem e reparte os portugueses por paróquias e dioceses como animais da respetiva quinta.

Que pode esperar-se da Igreja do Papa JP II que acreditou que a Virgem lhe dirigiu a bala por sítios não vitais poupando-o a ele sem dele poupar os crédulos?

A mentalidade beata cria gente que vê o empenho, suborno e compadrio como virtudes canónicas, que levam as pessoas a condutas que lhes ensinaram a ter com Deus.

Felizmente ainda há gente séria. O mesmo não se pode dizer da fauna mística que povoa o Paraíso, para onde se viaja através de agiotas, à custa de missas, terços, oferendas e da renúncia aos prazeres da vida.

A ligeireza ética é uma consequência da mentalidade autóctone, que nos remete para as “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, bem analisadas por esse grande vulto da cultura portuguesa, Antero de Quental, na 2.ª das históricas Conferências do Casino.

Metam-se na vossa morte

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 25/05/2018)

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Qualquer dia, até morrer mata! Que chatice! Já não se aguenta este tipo de informações. Agora faz tudo mal à saúde. Já não bastava o álcool, a carne de porco, o tabaco, o sal, o açúcar, agora, até a eutanásia mata!

Representantes de oito comunidades religiosas, com “perspectivas distintas” sobre muitas matérias, estiveram esta quinta-feira reunidos com o Presidente da República, a quem transmitiram estar “absolutamente convergentes” em relação à eutanásia, que consideram ser “um retrocesso civilizacional”, tal como a lei do aborto, dos casamentos homossexuais, da adopção gay, do divórcio, etc.

As comunidades religiosas estão assustadas com este retrocesso civilizacional. Se isto continua assim, qualquer dia ainda acabamos a fazer exorcismos, a canonizar pastores ou a andar quilómetros de joelhos por acreditar em milagres.

Católicos, evangélicos, judeus, muçulmanos, hindus, ortodoxos, budistas e adventistas foram recebidos por Marcelo Rebelo de Sousa, e foi um bocado confuso porque o PR não sabia se podia cumprimentar todos com beijinhos. Por exemplo, os budistas, que tinham tomado uma pastilha, já queriam abraços e carícias.

Imagino que, se Marcelo tirou a habitual selfie, com toda aquela gente, fique uma coisa parecida com um cartaz da Benetton.

Custa-me entender que os hindus estejam contra a eutanásia, porque para quem acredita na reencarnação, no fundo, isto é deixar outro ser à espera. Está ali um indivíduo em sofrimento quando já podia ter falecido e regressado ao mundo como uma bonita e saudável gazela e andar a correr feliz pela savana.

Esta ideia de que estar contra a eutanásia é “Lutar pela tua vida” faz pouco sentido. Na eutanásia, as pessoas não querem lutar pela sua vida, querem ter direito à sua morte. O que esta gente quer não é que as pessoas em estado terminal lutem pela sua vida, mas sim pedir às pessoas que estão com saúde, e que não têm nada com isso, que se vão meter na vida e na morte dos outros.

Há na nossa sociedade uma espécie de glorificação do sofrimento. Basta ver as condições em que estão alguns doentes nos hospitais. Deve ser uma coisa que nos ficou do tempo da troika.

Entretanto, o PCP já veio afirmar que vai votar contra a despenalização da eutanásia. Para o PCP, o sofrimento faz parte da vida, daí o apoio ao regime do Maduro. Segundo o PCP, despenalizar a eutanásia “não corresponde a uma necessidade prioritária para a sociedade”, a não ser que entretanto o Sindicato dos Profissionais do sector funerário se manifeste por falta de trabalho.

O CDS também vai votar contra, como ficou bem expresso num cartaz onde o partido afirma que “A Eutanásia Mata.” Por esta é que eu não esperava! Que surpresa! Ia morrendo com esta revelação. Qualquer dia, até morrer mata! Que chatice! Já não se aguenta este tipo de informações. Agora faz tudo mal à saúde. Já não bastava o álcool, a carne de porco, o tabaco, o sal, o açúcar, agora, até a eutanásia mata! Irra!


TOP-5

Aguenta terminal

1. Governo chocado com falta de segurança na Academia do SCP – Provavelmente, precisava do mesmo tipo de segurança que o Governo tinha assegurado no Paiol de Tancos.

2. Pedro Siza Vieira acumulou funções de ministro com gerência de empresa imobiliária. Ministro adjunto abriu empresa imobiliária um dia antes de tomar posse como ministro – Isto é de quem acredita que a sua participação no Governo vai mesmo fazer crescer a economia.

3. Visita de António Costa a Luanda está a ser preparada e acontece em breve – Pelo menos, a justiça já fez a sua parte.

4. CM (sobre morte de Júlio Pomar): “morreu autor do retrato de Mário Soares” – Se morresse João Paulo II, escreviam: “Morreu o dono do papamóvel.”

5. Respeito institucional imbuído de sangue verde – Mas o Grupo Stromp não é só gente de sangue azul?!

Banhadas de ética

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 23/03/2018)

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João Quadros

O meu único receio é o facto de José Silvano ter sido condecorado por Cavaco Silva, e nós sabemos como acabaram a maioria das pessoas que foram condecoradas pelo velho Aníbal.


José Silvano é o novo secretário-geral do PSD. Silvano sucede a Feliciano Barreiras Duarte, que se demitiu do cargo depois de se ver envolvido em polémicas com o currículo e um subsídio de deslocação como deputado, ou seja, aldrabices que fez desde o tempo em que era secretário de Estado e chefe de gabinete de Passos, mas só, agora, deram por isso. Coitado do Rui Rio, para isto correr pior só lhe falta apanhar sarampo. Esta demissão foi um banho gelado de ética.

Feliciano demitiu-se, fez acusações às víboras do partido, e disse que se calhar até perdeu dinheiro com as trafulhices nas moradas. Só lhe faltou afirmar – “este ano até aldrabei as contas do IRS para conseguir subir de escalão e enterrei as facturas para não ter descontos.”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse que não comenta a demissão no PSD, mas recordou que “não vale tudo na política” e foi jantar uma vichyssoise.

Resumindo, depois da investigação na Torre do Tombo feita pelo jornal online Observador, Feliciano foi corrido e José Silvano é o novo secretário-geral do PSD. Pergunta o mais chato dos meus leitores: “Quem é José Silvano? – como tenho uma paciência de santo, vou responder.

José Silvano é ex-presidente da Câmara de Mirandela. Teve os seus segundos de fama quando, em 2006, um ano depois de vencer as eleições autárquicas, decidiu colocar, como no filme, três cartazes de protesto contra a desertificação do interior junto à estrada IP4. As mensagens eram: “Aqui Termina o Portugal da Igualdade de Oportunidades – Bem-vindos a uma zona em desertificação. Próxima saída a 70 quilómetros, Espanha”. Tem tudo para correr bem excepto se o jornal online Observador, entretanto, não descobrir que não foi ele que fez os cartazes ou que houve dezenas de acidentes no IP4 porque as pessoas se distraíam a ler os “outdoors” do Silvano, ou que , afinal, ele aldrabou e são apenas 68 quilómetros até Espanha.

O Observador andou anos a atacar a geringonça e nem um risco na máquina conseguiu fazer, mas desde que a redacção do jornal de (extrema) direita começou a atacar o PSD de Rui Rio, não há dia que não faça mossa no partido. O Observador, finalmente, descobriu a sua verdadeira vocação. Qual será a nódoa que o jornal tem guardada para cair no nobre pano transmontano de José Silvano?

Convém recordar que Miguel Sousa Tavares no jornal da noite da SIC disse , sobre o novo secretário-geral do PSD: “Transmontanos, normalmente, são boa gente e não fazem malabarismos” – hum… assim, de repente , lembro-me de um transmontano que era um razoável malabarista com robalos: Armando Vara. Talvez, desta vez, Rui Rio tenha conseguido escolher alguém com todos os cantinhos bem lavados em termos de ética. O meu único receio é o facto de José Silvano ter sido condecorado por Cavaco Silva, e nós sabemos como acabaram a maioria das pessoas que foram condecoradas pelo velho Aníbal.


TOP-5

Silvano

1. Toupeira do Benfica recebeu dez mil euros suspeitos – Fico muito triste, pensei que era só paixão ao clube – camisolas e convites para jogos -, uma espécie de corrupção platónica mas afinal são todos iguais. Dez mil euros. Já não há amor à camisola.
2. Santana critica forma como direcção de Rio convidou Feliciano a demitir-se e lança o desafio a Rui Rio: “inaugurar a liderança” – Está forte! Imaginem se Santana tem perdido as eleições do PSD.
3. José Sócrates volta à Universidade (Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra) para falar sobre a crise pré-troika – Era mais interessante se fosse sobre o durante e a vida em Paris.
4. Ministério Público pede 5 anos de pena suspensa para Miguel Macedo – Se fosse pelo pescoço estava capaz de achar a pena justa.
5. Marcelo apela a que futebol português manifeste a mesma grandeza “lá fora” e “cá dentro” – E pediu dois bilhetes VIP para o Braga-Sporting.