Apenas coincidências…

(Estátua de Sal, 28/07/2016)
Operação%20Marquês
Ontem, dia em que se sabia  que a Comissão Europeia iria decidir sobre as sanções a Portugal, alguém, supostamente muito inteligente, mas talvez não tanto que se lembrasse que também há mais gente inteligente que poderia topar a jogada, decidiu colocar o sr. Procurador Amadeu Guerra, atual Diretor do DCIAP. a dar uma entrevista à SIC, culminando os holofotes do dia sobre o caso Sócrates com uma reportagem (nitidamente preparada com significativa antecedência) seguida de debate na mesma estação televisiva.
Esta reportagem e debate foi uma espécie de julgamento em direto baseado nas presunções do costume e nas elucubrações do sr Gomes Ferreira que disse que se farta de conhecer economistas e advogados que ganharam milhões de forma, disse ele, pouco clara, mas que engoliu em seco quando Rogério Alves lhe perguntou se já os tinha denunciado como é obrigação de um cidadão íntegro. Eu acho que o Ministério Público deveria convocar o José Gomes Ferreira para prestar esclarecimentos sobre as trafulhices, que ele diz conhecer a rodos, e abrir um inquérito, para que a Justiça não seja gozada dessa forma. Passando à frente.
Entretanto, o Dr. Amadeu Guerra, que se tinha imposto a si próprio o prazo de 15 de Setembro para concluir ou desistir da acusação a Sócrates, veio agora na referida entrevista  dizer que tal prazo poderá ser ultrapassado, “logo se verá”. Desmontemos  então o enredo.
Não convém encerrar o inquérito para se poder desenterrar o espantalho de Sócrates sempre que politicamente convenha a alguém e ontem era um desses dias: se houvesse sanções convinha desculpar  Passos Coelho e comandita e servir a efígie de Sócrates, colando-a ao Governo atual, numa bandeja de pecado a espiar; se não houvesse, como sairiam, nessa hipótese, muito mal na fotografia depois da vergonhosa campanha anti-Pátria que conduziram, teriam aí uma forma de ofuscar a vitória de António Costa e do Governo e ocultar a sua própria derrota.
Não gosta a Direita deste meu enredo? Acredito que não deva gostar e ache que isto é tudo uma grande fantasia.
Até pode ser. Mas está ao mesmo nível dos supostos indícios que se diz existirem no caso Marquês e que, ao que parece, vão levar a que os meus netos – que não tenho hoje -, ainda venham a assistir ao julgamento de Sócrates, se é que ele alguma vez vai ser julgado em Tribunal.
Só que há uma diferença: enquanto eu não acuso ninguém em concreto como sendo o autor destas maquinações, por falta de provas, – apesar de ter as minhas suspeitas -, o MP e os amigos da caranguejola na comunicação social vão acusando Sócrates,  fazendo reportagens, entrevistas e debates, sempre com o intuito de condenar quem a Justiça ainda não se atreveu a acusar em juízo, quanto mais, sequer a condenar.
Que tudo isto se passe na SICN, para mim é apenas uma coincidência, porque eu não sou o Dr. Rosário Teixeira, nem o Dr. Amadeu Guerra. Porque se fosse e pensasse como eles isto seriam fortes indícios de qualquer coisa pouco transparente e iria mandar prender o Dr. Balsemão para poder investigar sem que ele, com o seu grande poder, pudesse perturbar o inquérito.
E eu já nem falo nos fracos indícios, que transpiram diariamente do alinhaento noticioso desta estação televisiva, da ênfase que dá a certas notícias em detrimento de outras que cala ou minimiza, e sobretudo da forma como enquadra e encadeia a sequência das próprias notícias, construindo assim mensagens subliminares que em si próprias se tornam elas mesmas também notícias.
Não é que estas técnicas sejam novas no currículo da SICN, mas agora estão a raiar os limites do despudor. De forma que eu aconselhava a SICN, por transparência, a mandar colocar no canto esquerdo do écran, acompanhando os blocos noticiosos, um quadrado bem visível com os dizeres: Publicidade Paga, para que os espectadores mais incautos não comam gato por lebre sem darem por isso.
Seria mais honesto, e o Dr. Rosário Teixeira já nada teria a investigar, porque sendo publicidade paga seria tudo legal. Ao fim e ao cabo, business is business, e nesse caso já o Dr. Balsemão não teria que revelar quem paga os serviços da SICN e quem são os seus clientes.
(Imagem in Blog 77 Colinas, 28/07/2016)

O cherne pescado em nome de Deus

(Estátua de Sal, 08/07/2016)

Barroso-Cherne-caricature

“Sou um banqueiro a fazer o trabalho de Deus”. A afirmação foi proferida por Lloyd Blankfein, Presidente (CEO) do Goldman Sachs, e retrata a forma como o presidente do maior banco de investimento do mundo vê a sua missão. O Goldman, para muitos, uma espécie de governo sombra do capitalismo financeiro na era da globalização, serve-se da referência ao Divino e à materialização deste em religião – como sempre os poderosos fizeram ao longo da História -, para obter todo o tipo de poderes e bens terrenos pouco ou nada espirituais. Mas, Blankfein, esclareceu ainda melhor o seu pensamento sobre o que é o trabalho de Deus. Disse o personagem que a luta atual consiste numa guerrilha que se desenrola entre o capitalismo e o estado social dos regimes democráticos e que em nome de Deus, a vitória do capital sobre o social deve ser esmagadora e absoluta.

Para a execução da sua missão, apesar de divina, não confiam lá muito em milagres, mas muito mais nos homens que saem dos seus quadros para ocupar cargos de poder nos Governos e nas instituições supranacionais um pouco por todo o mundo, ou na transumância inversa, pautada pelo ingresso de ex-políticos na sua elite de dirigentes e de consultores. (1)

Em Portugal temos exemplos vários: Carlos Moedas veio do Goldman para o Governo e daí para a Comissão Europeia; António Borges, vice-presidente do Goldman, para consultor de Passos Coelho nas grandes privatizações; José Luís Arnaut dos círculos do poder dos Governos do PSD para o Goldman.

Mas, a cereja no topo do bolo, é a notícia de hoje que dá conta que Durão Barroso, também ele, vai ser consultor e presidente não executivo do Goldman. Eu diria que, se em tempos a Durão ficou colado o epíteto de O cherne, talvez fosse melhor mudar o apodo para A pescada, porque tal como a pescada, Durão antes de ser do Goldman hoje, já o era certamente enquanto presidia à Comissão Europeia.

E depois estranhamos a Comissão Europeia ser como é, tomar decisões que minam a coesão europeia, atacar países, discriminar países, não se percebendo a razão por que o faz, admitindo muitos de nós, ingenuamente, que ainda existe um projeto europeu que vale a pena defender e prosseguir e que tais decisões são incompreensíveis à luz dessa defesa.

Pois bem, sendo a Comissão Europeia e as restantes instituições minadas por dentro por estes submarinos infiltrados, como Durão, Moedas e outros, só há uma grelha de leitura possível para os objetivos que ela irá prosseguir a longo prazo, e que decorre dos fins últimos do Goldman e afins: obter a vitória total e absoluta do capitalismo financeiro global sobre o estado social dos regimes democráticos como enunciou, sem qualquer pudor, Blankfein. Usando tal algoritmo de leitura, tudo se torna de imediato percetível.

É também nesse quadro mais amplo que se deve descodificar a novela das sanções a Portugal, novela para a qual Barroso também contribuiu recentemente dizendo que as ditas sanções “dependem do que o Governo disser e fizer”. Uma ameaça velada em forma de aviso que, deve ser levada a sério, pois é feita seguramente em nome de Deus, e com as divindades não se brinca. E a razão é simples: as políticas implementadas e defendidas pelo atual Governo só podem desagradar ao Goldman e afins porque interrompem  a destruição do estado social, e colocam o enfoque na redistribuição do rendimento em detrimento do suposto aumento da competitividade através da degradação salarial e da flexibilização do mercado de trabalho. Nada que seja coincidente com o que deve ser o trabalho de Deus.

Mas, o mais curioso é uma passagem do comunicado do Goldman saudando a contratação de Barroso: “A sua perspetiva, capacidade de avaliação e aconselhamento irão acrescentar muito valor ao conselho de administração da Goldman Sachs International, à Goldman Sachs, aos seus acionistas e trabalhadores”. Não tenho qualquer dúvida sobre isso. Mas, o que é o valor, como se cria e como é distribuído na atual fase do capitalismo? Deixo algumas reflexões para esse complexo debate:

  • O modelo de concorrência, o mantra do mercado, que os economistas continuam a estudar e as universidades a ensinar, e que nunca existiu no seu estado puro em qualquer realidade social ao longo da História, ainda assim permite aos economistas produzir algumas toscas explicações do funcionamento das economias, senão a nível macroeconómico, pelo menos a nível microeconómico.
  • O modelo da concorrência pressupõe, entre outras exigências a existência da perfeita transparência do mercado, o mesmo é dizer que todos os intervenientes no mercado têm, em simultâneo, o mesmo nível de informação sobre os preços e as quantidades. Claro que, tal nunca ocorreu, porque sempre houve agentes a saber mais que todos os outros, a deter informação privilegiada, estando numa posição dominante. Este problema de informação assimétrica, há muito conhecido dos economistas, levou inclusive os poderes regulatórios dos mercados a tipificar o chamado crime de inside trading, penalizando e criminalizando os agentes faltosos.
  • Pois bem, o valor, que o comunicado do Goldman refere em relação às vantagens da contratação de Barroso, vem exatamente daí já que esta contratação materializa um crime de inside trading a céu aberto, às claras, e sem subterfúgios. Barroso irá levar para o Goldman, não só os contactos às pessoas certas dos lugares certos, mas toda a informação privilegiada sobre as economias da União Europeia, dossiers de privatizações, grandes empresas, financiamentos, projetos de investimento, etc.
  • Ou seja, a ideia de que o capitalismo funciona com base no mercado e na concorrência, e que dessa forma se obtém um equilíbrio ótimo na utilização de recursos, apesar de há muito ter sido questionada ao nível teórico, fica no atual momento, com a vulgarização desta transumância de informadores para as grandes corporações definitivamente posta em causa.
  • Mais interessante ainda: são os maiores defensores dos mercados livres, no que toca aos bens públicos e ao fator trabalho, os mais ativos destruidores dos mercados quando recorrem a estas contratações e expedientes que distorcem toda a concorrência a seu favor. São todos a favor dos mercados mas no fundo todos lutam tenazmente por ser monopolistas.
  • Na atual fase do capitalismo, pautada pela globalização e pela crescente importância da distribuição das mercadorias e da negociação dos fatores de produção através de redes de informação cada vez mais globais e instantâneas, o valor tende a concentrar-se cada vez mais na mão daqueles que conseguem o controlo em antecipação da informação, mormente da que não é pública, em detrimento daqueles que o produzem, sejam trabalhadores sejam produtores.
  • Assim sendo, e não ocorrendo uma reversão deste estado de coisas, a tendência para a queda do investimento em atividades produtivas da economia real, em benefício das atividades financeiras e especulativas irá continuar, originando uma situação que só poderá ser de decadência do próprio sistema, o que de alguma forma já está a verificar-se.

Mais que criticar as opções individuais dos Barrosos deste mundo – censuráveis certamente no plano da ética e da probidade -, convirá, contudo, refletir sobre as condições atuais de funcionamento das economias e dos regimes políticos, que permitem que eles sejam úteis aos que os compram ou alugam, sem que existam quadros legais e sancionatórios que tal impeçam.

Em nome de Deus, ao longo da História, sempre se cometeram as maiores barbaridades. E como a História se repete, esta é mais uma.

Estátua de Sal, 08/07/2016

  1. Ver o link abaixo sobre o Goldman, a sua forma de atuar e os serventuários que foi contratando nos vários cantos do mundo.
  2. http://economico.sapo.pt/noticias/afinal-o-goldman-sachs-manda-no-mundo_129681.html

 

1 000 000

(Estátua de Sal, 05/07/2016)

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Estátua de Sal

Este blog atingiu hoje 1 000 000 de visualizações, número acumulado, desde 26 de Setembro de 2014, segundo as estatísticas do WordPress. O primeiro texto aqui publicado “O Coelho no País das Maravilhas” (1), era uma espécie de fábula à La Fontaine que pretendia desmontar os malefícios das políticas de austeridade da governação de Passos Coelho, executadas supostamente em benefício do País, quando na verdade, eram e sempre foram executadas em benefício de interesses muito específicos, a começar pela corte que o rodeava e pelos lote de súbditos laranjas do PSD e fiéis apaniguados.

Comecei com o blog numa tarde em que achei que devia dar voz à minha insatisfação com a situação política, social e económica que o País estava a seguir na época. Não podemos, sozinhos, fazer grande coisa, mas por pouco que façamos é sempre mais que fazer coisa nenhuma. O objetivo inicial era publicar textos meus, sempre que tivesse vontade e oportunidade de os escrever. Contudo, como manter uma continuada regularidade é extremamente difícil e desgastante, e como uma regularidade diária só é possível se fizermos da escrita profissão a tempo inteiro, desde cedo passei a republicar textos que vão surgindo na comunicação social institucional ou noutros sites e páginas da blogosfera.

É evidente que sou seletivo. Nem sempre concordo com a totalidade dos argumentos que os textos que publico expendem, mas subscrevo, no essencial a substância dos mesmos. Alguns dos autores que aqui publiquei durante meses, por exemplo, passaram a ter, por aqui, apenas esporádica hospitalidade. É o caso de Miguel Sousa Tavares e de Clara Ferreira Alves, os quais, produziam prosas com as quais me sintonizava no tempo do Governo de Passos, mas que, após a entrada em funções do governo atual, revelaram, de facto, que não passam de dois lídimos defensores do Bloco Central de interesses que durante décadas governou o País com os resultados que se conhecem. Para eles, atacar Passos Coelho, era apenas uma forma de atingir uma desejada aliança PSD/PS, governando o País por décadas, sem oposição, de acordo com as ordens de Bruxelas, dos mercados, do Grupo de Bilderberg, ou de quaisquer outros mandantes.

Aliás, podem ver, se consultarem o Leitor, que se encontra no canto superior esquerdo da página, quais os sites e blogs que sigo e dos quais é frequente republicar muitos dos textos que aqui apresento.

Decidi escrever este texto porque um milhão é um número muito grande. Claro que é inferior à dívida pública do País, mas é bem superior ao número de desempregados registados, e como se sabe, toda a gente diz que temos um desemprego elevado. E o número é tanto maior tendo em conta a temática das publicações. Textos de carácter marcadamente político e económico, sempre numa perspetiva que não é a da manutenção do status quo, mas da alteração do status quo. E como não debato as chuteiras ou as namoradas do Ronaldo, nem as intrigas dos reality show, nem os enredos das telenovelas ou as novas receitas para fazer bacalhau, é óbvio que os que visitam a Estátua de Sal, não são, infelizmente, uma amostra maioritária daquilo que é a população do país ou correspondem ao perfil maioritário da população internauta, e isto tanto é válido para os que concordam quer para os que discordam daquilo que aqui é publicado.

E sobre a concordância ou discordância, é sempre possível e desejável que os visitantes deixem os comentários que acharem por bem. Todos eles foram e continuarão a ser publicados (independentemente da minha posição sobre eles), desde que obedeçam ao mínimo de civilidade na linguagem e no formato. Após a primeira aceitação de um comentário de um dado visitante, o sistema publica automaticamente os seguintes do mesmo autor, sem eu ter que dar qualquer aprovação.

A Estátua de Sal irá continuar com a mesma orientação e a prosseguir os mesmos fins. Usando a crítica, a liberdade de expressão e a escrita como arma, pugnando por uma sociedade melhor e mais justa como objetivo, porque, citando Vítor Hugo, “As palavras tem a leveza do vento e a força da tempestade”.

Estamos a atravessar tempos perigosos, de incerto rumo, e duvidoso norte. E só a capacidade coletiva de refletirmos sobre eles e sobre as tortuosas veredas por onde nos querem conduzir, agindo antecipadamente em conformidade, poderá evitar cenários de previsível catástrofe e retrocesso civilizacional.

Como proclama o lema da minha página do Facebook, “Entre as fendas dos dias e os sons feéricos dos vídeos dos novos tempos. Entre as palmas digitais dos novos mensageiros”, a Estátua de Sal continuará por aqui.

A todos os que me leem e me seguem e que por aqui tem passado, só me resta deixar uma palavra final: obrigado e regressem.


(1) O referido texto pode ser visto acedendo ao seguinte link:

https://estatuadesalnova.com/2014/09/26/o-coelho-no-pais-das-maravilhas/