(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/09/2026)

Já a nossa velha Europa continuava como sempre, entre a cumplicidade com o terrorismo de Estado de Israel e a imbecilidade estratégica na Ucrânia: lá foram todos eles outra vez em excursão a Kiev, não para pensarem no fim da guerra, mas para prometerem mais dinheiro e mais armas para que a guerra não acabe, Deus nos livre!
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Quando desapareci para férias, estava Agosto a entrar e Bordéus e a Estremadura espanhola a lutarem contra incêndios de uma ferocidade nunca vista. Mas aqui, já íamos com três semanas da operação mediática destinada ao linchamento de Luís Neves. Nos jornais, nas televisões, nas rádios, editores, comentadores, humoristas e jornalistas, todos sem desfalecimento, empurravam-se para ver quem chegaria primeiro ao último estertor do acossado. Acusado de crimes tão graves como, enquanto director nacional da PJ, aceitar os serviços de um empreiteiro que tinha contratos com a mesma PJ e de também aceitar a sua oferta para armazenar um furgão apreendido com componentes químicos que a PJ não tinha onde armazenar, Luís Neves era, sobretudo, acusado de dois pecados imperdoáveis: ter construído um tanque de rega que também podia servir de piscina sem autorização e ter “impermeabilizado” uns metros quadrados de terreno no fim do mundo para poder chegar a casa sem pisar na lama. O suficiente para lhe cortarem a cabeça, mesmo que, num país onde tanto se suspeita de corrupção, ninguém se detivesse a pensar que aquele homem que servira durante 30 anos numa posição exposta como raras outras a abordagens de corrupção, tudo o que tinha para apresentar como património era uma casinha herdada de família no deserto alentejano, alvo de “sumptuosas” obras de 15 mil euros e um carro com 15 anos.
Entretanto, o mundo avançou Agosto adentro e tragicamente: aos incêndios apocalípticos seguiram-se imagens dos dois maiores rios da Europa, o Reno e o Danúbio, quase transformados em riachos, as verdes paisagens inglesas parecendo o Magrebe, Londres sob 39 graus de canícula e Bruxelas 37, terramotos em vários lados e, por fim, as neves dos Himalaias derretendo-se e tornando-se súbitos rios diluvianos, destruindo e matando tudo à sua frente. Mas aqui, à falta de catástrofes, de incêndios e de crimes tipo-CMTV, continuava tudo na mesma: Luís Neves, Luís Neves, Luís Neves. E o planeta a explodir à volta.
Agosto aproximava-se do fim quando Trump, desvairado pelo atoleiro do Irão, onde a sua soberba e estupidez o enfiaram, voltava a ameaçar a anexação da Gronelândia e agora também Omã, enquanto prosseguia a sua ofensiva de raiva contra o Canadá, cujo primeiro-ministro tem a rara ousadia de o desafiar. Já a nossa velha Europa continuava como sempre, entre a cumplicidade com o terrorismo de Estado de Israel e a imbecilidade estratégica na Ucrânia: lá foram todos eles outra vez em excursão a Kiev, não para pensarem no fim da guerra, mas para prometerem mais dinheiro e mais armas para que a guerra não acabe, Deus nos livre! Mas aqui, eis que afortunadamente surgia novo dado gravemente incriminatório de Luís Neves: afinal, além do Ford Focus com 15 anos, o homem “tinha” outro carro, um Nissan Micra, que o sogro oferecera à sua mulher e que, sendo eles casados em comunhão de adquiridos, pertencia também ao suspeito — e viva a autonomia conjugal!

E assim, a novela prosseguiu ainda até final do mês e continua Setembro adentro, sem que, por um só momento, fossem levantadas as questões políticas que interessa levantar a um ministro da Administração Interna: continua o caos nos aeroportos? Resposta: não. Aumentou o número de mortes nas estradas? Resposta: não, diminuiu em Agosto. Aumentou a criminalidade violenta? Não. Aumentou a área ardida até agora? Não, diminuiu quatro vezes, comparado com igual período de 2025. Mas isso que interessa, quando toda esta operação — obviamente soprada e alimentada de dentro da PJ, e certamente por razões de desforra pessoal — visa, antes de mais, servir o Chega e vingar a ofensa feita por Luís Neves a André Ventura, quando, com números e estatísticas na mão, desmentiu publicamente as suas alegações de que os imigrantes pobres faziam aumentar a criminalidade?
2 No pelotão de fuzilamento de Luís Neves não poderia faltar João Miguel Tavares, o grande pregador moral do regime. Depois de ter esgotado os factos e os argumentos contra Neves, o nosso comissário para a Promoção da Virtude e Repressão do Vício atirou-se a Luís Montenegro, que, tendo declarado que não tiraria férias este Verão, foi fotografado um dia numa praia, por um desses também zelosos “jornalistas balneares”. Eu conheço este discurso populista e sei bem o que se pretende com ele. O melhor exemplo prático desta espécie de franciscano-fascismo foi-nos dado longamente pelo doutor Oliveira Salazar. Sem mulher nem filhos, “casado com a Pátria”, que lhe sustentava todas as necessidades financeiras até que uma cadeira o derrubou — do poder, mas não das benesses do Estado —, Salazar era um poço de proclamadas virtudes e um deserto de vícios, ou até mesmo de prazeres. Não frequentava restaurantes, nem cinemas, nem livrarias, nem concertos; nunca foi visto num estádio, numa tourada ou sequer numa praia; senhor de um Império que proclamava ir do Minho a Timor, nunca pôs um pé no estrangeiro, excepto numa ida a Sevilha para se encontrar com Franco. Foi o exemplo perfeito do governante que a ditadura exaltava e alguns ainda ensaiam promover. Pelo contrário, o melhor exemplo de um governante em tudo diferente, que a democracia nos deu, foi Mário Soares. Soares amava a vida, a praia, as viagens, os almoços com amigos, os prazeres da vida; gastava dinheiro em livrarias, em galerias de arte, em idas a museus ou concertos de música. Não é apenas o facto de eu preferir gente que aproveita e celebra a vida àqueles que, com inveja e medo de viver, se tornam reclusos de si próprios e castradores da liberdade alheia: é que me sinto mil vezes mais seguro com um primeiro-ministro que se atreve a fugir um dia ao trabalho para ir à praia do que com aqueles que vigiam os dias de praia alheios.
3 Apenas 3% dos alunos mais pobres conseguiram entrar este ano nas universidades. Como disse um reitor, a constatação obrigatória é a de que falhou o elevador social — que a educação pública deveria garantir, depois de milhares de milhões nela investida ao longo dos anos. E falhou onde? No ensino secundário público — aquele onde “os professores a lutar também estão a ensinar”, lembram-se? Eis o resultado de 50 anos de luta da Fenprof, e não só, contra a avaliação séria de desempenho. Ou seja, na protecção dos medíocres, dos absentistas, ou dos grevistas das sextas-feiras. Ou haverá outra leitura possível para este número vergonhoso?
4 Do Expresso: o Colégio de Cirurgia Torácica da Ordem dos Médicos enviou uma carta à ministra da Saúde “recusando as definições e os valores a receber” segundo as novas regras para cirurgia nos hospitais do SNS, estabelecidas após o escândalo no serviço de dermatologia de Santa Maria. Nessa carta, os cirurgiões avisavam a ministra de que já estavam a surgir, em protesto, atrasos nas cirurgias dos doentes com cancro de pulmão — o que, segundo os subscritores, “poderá significar a perda de anos de vida para doentes que poderiam beneficiar de tratamento cirúrgico adequado”. E assim encostada à parede, a ministra cedeu e recuou. Mas vale a pena lembrar que todos os anos a mesma Ordem dos Médicos leva a cabo várias sessões solenes do “Juramento de Hipócrates”, em que os novos médicos juram, entre outras coisas, que “a saúde e bem-estar dos meus doentes serão a minha primeira preocupação”. Pobre Hipócrates, estes são mesmo tempos novos!
5 E a Europa com que tantos sonharam e sonhavam morreu neste mês de Agosto, em Ceuta. O tratamento que tantos líderes europeus deram a Espanha (incluindo países como a Finlândia ou a Dinamarca, que beneficiam do apoio político e militar de Espanha) foi de uma absoluta indecência e, simultaneamente, a consequência da autodestruição do ideal europeu levada a cabo por uma leva de dirigentes sem visão nem vergonha. Aos olhos deles, havia que tirar uma desforra de Pedro Sánchez, um exemplo raro de um líder que pensa pela própria cabeça, que se recusa a aceitar os ultimatos de Trump e da NATO, a alinhar na histeria anti-imigração ou a ser conivente com o branqueamento dos crimes de Israel. E que, ainda para mais e para desespero do PP espanhol, a mais estúpida direita europeia, vive uma situação económica próspera, comparada com a dos países que lhe querem dar lições. Por isso o quiseram matar: mas mataram, sim, a Europa, doravante uma simples associação de pedintes e contabilistas.
A gente já sabe que o Miguel confirma os seus preconceitos, apenas, pela manchetes que lhe convêm. Mas, convém saber ler. Ler o título “Estudantes mais pobres representam 3% do total dos colocados no ensino superior” e depois afirmar que “apenas, 3% dos alunos mais pobres conseguiram entrar este ano nas universidades” é de ignorante ou mal intencionado.
Se soubermos que os “mais pobres” (beneficiários do escalão A da ASE) compuseram 6% dos inscritos no ensino secundário e que, aproximadamente, metade de todos os que concluíram o ensino secundário transitaram para o superior, quase não há razão estatística para manchetes. É que 3% é metade de 6%, certo?
As manchetes existem para propagar a léria neoliberal do “falhanço da escola pública enquanto elevador social” e para convencer palermas da correlativa solução milagrosa, o “cheque-ensino” (eufemismo para a subsidiação pública dos colégios privados).
Falta ao Miguel explicar por que os professores/sindicalistas não estão disponíveis para ensinar mas, aparentemente, cheios de vontade de fazer horas extraordinárias para corrigir exames cortados às tirinhas.
O Miguel voltou de férias revigorado e igual a si próprio, desancando nos professores mandriões (os que acabaram de safar precisamente em pleno Verão o fiasco dos exames nacionais, ou melhor, da sua avaliação que foi reformulada pelo ministério de Fernando Alexandre), como dos médicos do SNS, mais uma vez a safar na época alta, com inúmeras limitações e sobrecarga, as urgências, as cirurgias, os partos, o funcionamento clínico e hospitalar mínimo – ainda ontem se demitiu a direcção clínica do hospital da D. Estefânia por falta de quadros e anestesistas… bela moral para voltar e logo a fazer das suas, isto para enaltecer as virtudes do governo (que passa entre pingos da chuva, aAna Paula Martins, o ministro da Educação, o das Infraestruturas…), de Luís Montenegro (o timoneiro ele próprio enredado em casos, casinhos e casinos) e de Luís Neves, o intratável…
Que há muito aproveitamento e pouco direccionamento do foco para coisas mas importantes e decisivas? Claro, como é normal. O país não pode reduzir-se a uma pessoa, a um primeiro ministro ou um ministro… mas também não era preciso vir de férias logo a zurzir nos sindicatos (FENPROF, médicos, enfermeiros, INEM… tudo gente calona e indigente que gosta é de andar na boa vida), quando se anda a abanar folhas e plumas para refrescar e dar balões de oxigénio ao Governo… Já agora, deve ter andado nas nuvens, porque não é só um monte no “meio do nada/deserto/Alentejo”, consta que tem mais dois montes. E as regras urbanísticas existem por alguma razão, a classificação dos solos e zonas também, o que o Miguel fez foi contar uma historinha para adormecer garotos. Pelos vistos é um advogado que não percebe um boi de urbanismo, e não é o único pelo que se tem visto por aí a argumentar (Rogeiro Alves, Manuel Magalhães e Silva, notáveis juristas de painel). Ou então fingem que não sabem, é mais fácil apontar o dedo a um cigano que tem uma piscina de plástico no acampamento do que a um ex-director da PJ e ministro da Administração Interna, que tem também a obrigação de saber se o que está a fazer é de legal ou não.
*Rogério Alves
Ou as regras são para cumprir por todos sem distinção, ou não têm legitimidade para ser aplicadas. E os ministros por acaso até são dos que mais prevaricam e ao mesmo tempo escapam impunes. Como na velocidade que as viaturas onde se deslocam andam, sobretudo nas autoestradas, onde abusam, e já houve acidentes e até vítimas mortais em consequência dessas infracções.
E se na estrada há leis, também as há noutras áreas, como no urbanismo e construção, na afectação dos solos, etc. Isso ate foi bastante focado quando se andou a falar, discutir, anunciar, e aprovar a Lei dos solos, que é um documento jurídico, uma legislação com efeitos e consequências práticas. Além disso ainda temos os Planos Directores Municipais, os Planos de Pormenor, etc a nível dos Concelhos e das Câmaras Municipais, do poder autárquico; e documentos que regulam o ordenamento do território de cariz diverso, consoante a sua dimensão, características e propósito, potencial económico, situação geográfica, geológica, ambiental, populacional, cultural, etc. Rede Natura, por exemplo, derivados de normas europeias (comunitárias), de cariz ambiental, ou RAN e a REN, de abrangência nacional e com um cariz central mas com departamentos regionais ou distritais.
Se um habitante batutal do Alentejo, esse “deserto” não pode impermeabilizar o seu terreno na parcela rústica inserida na RAN ou na REN, um “ministro desenrascado” já pode, sem dar cavaco aos alentejanos (CM Odemira e vizinhança/freguesia), ainda por cima com arranjinhos manhosos com construtores “para toda a obra”? Faz lembrar a do Miguel Nobre Guedes do CDS que tinha uma ruína na Arrábida que transformou num casarão, ou os sobreiros em parque natural que mandaram abater para lá construir… para MST já sabemos que só a vida humana conta, o resto é paisagem… deserto. No Porto também funciona assim, ou lá é mais refinado, estamos numa urbe civilizada à parte, muito sofisticada, paraíso dos Fernandos Gomes, Nunos Cardosos, este novo fanático do FCP que agora lá anda a cantar enquanto outros fecham portas, Selminhos, Dragões Caixa, Casas da Música e Torres das Antas? Entretanto o Estádio do Boavista vai ser trespassado e o ex-2,º clube da cidade (sobrou algum além do que o que Pinto da Costa mal deixou?)…
Com que então as regras não são para ministros e juristas cumprirem, se forem urbanísticas e de ordenamento territorial. Por isso é que foram a correr aprovar a Lei dos Solos, mesmo antes das tempestades e das cheias chegarem em 2026 e mostrarem os problemas de construir desordenamente em qualquer lado, sem respeitar os mínimos critérios de bom senso e metodologia técico-científica. Com os resultados, prejuízos e desgraças que bem sabemos – sa cheias e as derrocadas também destroem casas, propriedades e matam pessoas, não são só os incêndios!
Queria ver se fosse um ministro “desenrascado” do Sul a fazer piscinas no Douro Vinhateiro e a impermeabilizar estradas e acessos em reserva agrícola ou ecológica a cantiga era a mesma.
Que o CU (candidato único) anda a ver se lhe dão ainda mais palco e foco com a Moção de Censura ao Governo por causa do Luís Neves, isso qualquer um consegue perceber. Isso é defesa das “informalidades”, atropelos às regras e ilegalidades que cometeu? Nem por sombras.
Que a extrema-direita não gosta do ex-director nacional da PJ por este ser comedido e não alimentar teorias da “Grande Substituição” (de pategos) e da “Grande Invasão” (de turistas) para justificar medidas excepcionais em relação à imigração como as do ICE nos EUA, também é evidente, ainda mais é o Ministro da Administração Interna que toma conta das fronteiras, vistos, PSP, GNR, controla as entradas de estrangeiros não-comunitários, etc…
Da Grande Inflação é que ninguém fala…