“As pessoas não percebem bem a magnitude”: Mundo enfrenta maior ameaça energética da História

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 21/03/2026)


O diretor da Agência Internacional de Energia (AIE) advertiu hoje que o mundo enfrenta a maior ameaça energética da História devido à guerra no Irão, e avisou que pode levar seis meses para restabelecer os fluxos de petróleo e gás do golfo Pérsico.


Numa entrevista ao Financial Times (FT) publicada esta sexta-feira, o diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, afirmou que os políticos e os mercados subestimam a magnitude da interrupção nos fluxos energéticos, dado que aproximadamente um quinto das reservas está paralisado na região.

“Algumas instalações levarão seis meses para estarem operacionais, outras muito mais”, acrescentou.

“As pessoas entendem que isso representa um grande desafio, mas não tenho a certeza de que se compreenda bem a magnitude e as consequências da situação”, destacou Birol, e acrescentou que a crise também afetou o fornecimento mundial de fertilizantes para culturas, produtos petroquímicos para plásticos, roupas e manufatura.

“Trata-se de matérias-primas vitais para a economia global”, afirmou Birol.

As declarações de Birol ocorrem numa altura em que o preço do petróleo Brent superou os 110 dólares por barril depois dos ataques com mísseis desta semana contra centros energéticos vitais, como o campo de gás South Pars do Irão e o complexo Ras Laffan do Qatar.

Na semana passada, a AIE anunciou a libertação de 400 milhões de barris de petróleo e produtos refinados das reservas mundiais para aliviar a escassez global, o que, segundo Birol, representa apenas 20% das reservas.

“A medida mais importante é a retoma do trânsito pelo estreito de Ormuz”, afirmou. Também apontou que a crise energética pode desencadear mudanças políticas nos governos de todo o mundo, e comparou a situação com as crises do petróleo de 1973 e 1979.

// Lusa

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Até ao último kilowatt

(João Gomes, in Facebook, 21/03/2026)


A Europa aproxima-se, mais uma vez, de um ponto de ruptura – não por falta de aviso, mas por excesso de convicção. Um ano depois, a contradição que já então se desenhava transformou-se numa realidade mais dura: uma crise energética iminente, catalisada pela instabilidade no Médio Oriente e pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, expôs aquilo que durante demasiado tempo foi negado – a fragilidade estrutural da política energética europeia.

O que outrora era um paradoxo tornou-se agora um impasse. A União Europeia, que construiu a sua narrativa política em torno de sanções à Rússia após a Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, encontra-se hoje numa posição em que os próprios fundamentos dessa estratégia são postos em causa – não apenas por analistas ou cidadãos, mas pelos próprios aliados. A administração de Trump, cuja política externa contribuiu para a atual instabilidade no Golfo, admite agora aquilo que durante anos foi implicitamente reconhecido mas nunca assumido: o petróleo russo poderá ser necessário para reequilibrar o sistema energético global.

Este reconhecimento, vindo de Washington, contrasta de forma gritante com a posição do Conselho Europeu, que continua a insistir numa linha política rígida, aparentemente impermeável à evolução dos factos no terreno. A recusa em flexibilizar a abordagem energética face à Rússia não surge já como um ato de coerência estratégica, mas como um exercício de inércia política – ou, mais gravemente, de negação. E a realidade não desaparece com discursos.

Os dados já antes eram claros. A Europa nunca deixou verdadeiramente de depender da energia russa. Mesmo no auge das sanções, países como França, Espanha e Bélgica continuaram a importar volumes significativos de gás, evidenciando que a retórica política e a realidade económica seguiam caminhos divergentes. Essa divergência não só persiste como se agravou. A tentativa de substituir rapidamente o fornecimento russo por gás natural liquefeito de outros mercados revelou-se: mais cara, logisticamente complexa e insuficiente para cobrir necessidades industriais e domésticas

As energias renováveis, embora essenciais no longo prazo, não conseguiram – nem poderiam – preencher o vazio no curto prazo. O resultado é uma Europa energeticamente vulnerável, exposta a choques externos e dependente de cadeias de abastecimento instáveis.

Sanções, guerra e desgaste interno

Ao mesmo tempo, a União Europeia mantém um nível elevado de apoio financeiro e militar à Ucrânia, prolongando o envolvimento indireto num conflito cuja resolução permanece bloqueada. A guerra, longe de uma solução rápida, transformou-se num desgaste prolongado – humano, económico e político.

A insistência numa solução exclusivamente baseada no confronto ignora um dado essencial: a Ucrânia não demonstra capacidade clara para recuperar os territórios ocupados e uma vitória decisiva no terreno é-lhe impossível – mesmo com mais investimentos europeus. Já a Rússia parece confortável com a lentidão do conflito, e não tem pressa. Joga com a profundidade estratégica e recursos energéticos vastos, e não depende da Europa para sobreviver. Já a Europa, como agora se evidencia, não dispõe de alternativas energéticas suficientemente robustas para sustentar uma rutura prolongada e gasta fortunas a alimentar um regime comprovadamente corrupto. Este desequilíbrio é estrutural – e, até agora, foi politicamente subestimado.

A ilusão da coerência estratégica?

A posição europeia tem sido apresentada como moralmente coerente: sancionar a Rússia, apoiar a Ucrânia, reduzir dependências. No entanto, na prática, essa coerência revela fissuras profundas: sanciona-se, mas continua-se a importar energia e suprimentos russos, condena-se, mas mantém-se a dependência, financia-se a guerra, mas não se investe com igual intensidade na resolução diplomática. Esta “fuga para a frente” política, já evidente há um ano, tornou-se hoje insustentável. O custo não é apenas financeiro – é sistémico e afeta: competitividade industrial, custo de vida dos cidadãos, estabilidade social e política.

Até ao último kilowatt?

O que está agora em causa não é apenas uma escolha energética – é uma escolha civilizacional sobre prioridades políticas erradas. Persistir numa estratégia que ignora a interdependência energética e rejeita canais diplomáticos efetivos pode conduzir a Europa a um cenário de racionamento, recessão e erosão do seu próprio modelo social. Não por falta de recursos globais, mas por incapacidade de os integrar numa política pragmática.

A alternativa não exige capitulação política, mas sim realismo estratégico:

– reconhecer limites da autonomia energética no curto prazo;

– reabrir canais diplomáticos eficazes;

– dissociar, quando necessário, segurança energética de alinhamentos ideológicos absolutos.

A proposta – outrora considerada controversa – de soluções políticas intermédias para os territórios em disputa, com garantias internacionais para todas as partes, permanece uma via possível. Não perfeita, mas potencialmente estabilizadora e com o respeito pelo que, afinal, gerou esta guerra: a segurança preterida pela Federação Russa quanto á questão da NATO. Afinal, se o próprio Trump dá indícios de abandonar a “cobarde Europa”, porque é que os dirigentes europeus confiam na NATO?

A Europa encontra-se, hoje, mais próxima de uma crise energética severa do que em qualquer momento recente. E fá-lo não apenas por fatores externos, mas por escolhas internas. A insistência numa política que combina sanções incompletas, dependência energética e ausência de diplomacia efetiva está a conduzir o continente a um ponto crítico.

A questão já não é apenas geopolítica. É concreta, quotidiana, mensurável: até quando poderá a Europa sustentar-se – política, militar e economicamente – até ao último kilowatt?

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Um Ano Novo sem gás barato!

(João-MC Gomes, In VK, 02-01-2025, revisão da Estátua)


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A decisão da Ucrânia de não dar continuidade ao contrato de fornecimento de gás natural para a Europa vindo da Rússia, apresenta um desafio significativo não apenas para a Ucrânia, mas para a segurança energética de toda a Europa. A questão exige uma análise cuidadosa e uma abordagem estratégica que envolva uma conciliação de esforços das nações europeias – principais prejudicadas – para garantir que, enquanto alternativas viáveis não estiverem plenamente desenvolvidas, o continente consiga mitigar os riscos associados a essa interrupção no fornecimento de gás barato russo.

A Ucrânia, historicamente, tem sido uma importante via de passagem para o gás natural russo que abastecia a Europa. A hipótese de retaliação russa, através da destruição ou concretizando o fim da utilização dessa infraestrutura de gasodutos, agravada pela já precária situação geopolítica, expõe o país a um cenário onde a sua própria rede energética poderá ser severamente afetada.

A destruição eventual dos seus gasodutos, em especial em tempos de guerra ou conflito, agrava ainda mais as dificuldades internas já há muito sentidas. A Ucrânia será forçada a recorrer a fontes externas, como gás natural liquefeito (GNL) importado via países vizinhos, ou a tentar aumentar a sua própria produção interna, o que, sem uma infraestrutura adequada, se mostra uma solução de médio a longo prazo. Ainda a hipótese dos navios transportadores de GNL – via Mar Morto – serem destruídos está no horizonte de uma guerra que está ainda longe de terminar. Ou seja, ao querer “fechar” a torneira do gás russo para a Europa, Zelensky pode ter dado um enorme tiro certeiro contra a sua própria politica e economia.

Entretanto, a simples busca por alternativas externas não resolverá os problemas energéticos da Ucrânia no curto prazo. O GNL, embora uma fonte importante de gás, requer uma complexa infraestrutura de importação e distribuição, que a Ucrânia ainda não possui de forma robusta. Enquanto as nações da União Europeia têm investido em terminais de regaseificação e gás reverso de vizinhos como Polónia, Eslováquia e Hungria, essas soluções dependem de interconexões que são limitadas em sua capacidade, e a logística de transporte de GNL através da região é uma operação cara e de longo prazo.

Se a Ucrânia não conseguir restaurar ou ampliar as suas opções de importação, a sua vulnerabilidade energética crescerá substancialmente, tornando o país ainda mais dependente de fornecedores externos e expondo sua economia a choques no mercado de energia. E ainda existe a ameaça de retaliação de alguns dos seus atuais aliados que já ameaçaram deixar de fornecer energia elétrica à Ucrânia, como o caso da Eslováquia.

Além disso, a opção de recorrer a fontes renováveis, como energia solar e eólica, embora necessária e vantajosa para a sustentabilidade a longo prazo, não substituirá rapidamente a necessidade de gás natural, especialmente em períodos de alta procura ou em climas mais rigorosos. O aumento da produção doméstica de gás também enfrenta barreiras significativas, incluindo a falta de investimentos e a infraestrutura necessária para extrair e distribuir esse gás de forma eficiente.

A Europa, por sua vez, enfrenta um dilema semelhante. Embora os países da União Europeia se tenham esforçado para diversificar suas fontes de energia, aumentando a importação de GNL dos EUA, Qatar, Nigéria e outros países produtores, o mercado de gás permanece volátil e os preços tendem a ser mais elevados devido aos custos de liquefação e transporte.

A interrupção do fornecimento russo pode, portanto, colocar pressão adicional sobre a procura de GNL, levando a aumentos nos custos e impactando diretamente a economia dos países europeus, especialmente aqueles que dependem fortemente de gás para aquecimento e geração de eletricidade.

A solução para a questão do término do contrato de gás entre a Rússia e a Ucrânia passará, inevitavelmente, por uma conciliação de esforços entre as nações europeias. Será necessário coordenar a construção de novas infraestruturas de importação de GNL, melhorar as interconexões entre os países da UE, e acelerar o investimento em fontes de energia renováveis e alternativas. O apoio à Ucrânia para restaurar a sua capacidade interna de produção e distribuição de gás, assim como sua integração mais profunda ao mercado energético europeu, também será muito difícil atendendo aos custos da guerra – já enormes – embora sendo fundamental para que o país possa atravessar a transição energética sem comprometer a sua segurança energética e militar. Ou seja, a Ucrânia – com esta medida de não aceitar o passagem do gás russo para a Europa – pode ter sido autoderrotada pela via da sua politica energética.

Entretanto, é preciso ser realista quanto ao tempo necessário para que as soluções de longo prazo se concretizem também para a própria Europa. Se a Ucrânia corre o risco de sofrer um impacto energético negativo no futuro próximo – se não houver uma colaboração eficaz e urgente entre os países da União Europeia – a própria Europa verá com dificuldades a solução para as suas necessidades dessa energia.

A conciliação de esforços, a solidariedade entre os membros da UE e a visão estratégica para diversificar as fontes de energia – que são os pilares sobre os quais o futuro energético da Ucrânia e da Europa deve ser construído – podem claudicar rapidamente. Isso provocará a maior crise energética dos últimos anos e os cidadãos europeus verão como a sua vida económica se degradará com o aumento da inflação e dos custos de produção.