A Alemanha era o motor da Europa, porque usava carburante russo

(Ricardo Nuno Costa, in Geopol, 22/10/2024)

A questão fica agora no ar; vai Berlim reconsiderar o seu papel com a Rússia, ou deixar o motor gripar?


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Recentemente um importante canal de geopolítica brasileiro convidou-me para elucidar-lhes um pouco a situação política na Europa e em particular na Alemanha. Desde que estou em Berlim, tenho seguido também com atenção a reação do público brasileiro da internet à decadência da UE e da Alemanha, que já são impossíveis de dissimular. Por aquilo que depreendo, há ainda uma admiração dos brasileiros por um país que se habituaram a conhecer como uma potência económica mundial e “motor do projeto europeu”, mas também é claro o crescente desprezo pela política externa transatlântica que a República Federal tem seguido nos últimos anos, vista de soslaio, como forçada e pouco genuína.

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O preço da liberdade e as suas vantagens

(Hugo Dionísio, 14/12/2023)

Os EUA quando decidiram “isolar” a Rússia criaram um problema para si mesmos. Desde há muito que Washington se esforça para que muito poucos tenham acesso à energia nuclear. Afinal, uma das salvações dos países mais empobrecidos (por causa da pilhagem ocidental) reside, precisamente, na soberania energética, através da energia nuclear. É barata, é limpa, segura, sustentável…

Uma vez obtida a independência energética, nunca mais os  EUA e  Europa poderão impor a sua chantagem por dominarem (hoje muito menos) as principais fontes energéticas, como o petróleo e o gás.  

Outra frente de combate ao desenvolvimento, independência, soberania e liberdade dos países empobrecidos reside na ideologia verde. Não que não tenhamos de defender o planeta dos danos que a ganância do capitalismo ocidental provoca no mundo, ou que não tenhamos de controlar a poluição…

Mas, a verdade é que os principais países a propagarem a ideologia verde, são, precisamente, os que maiores níveis de poluição per capita apresentam.  

Como não querem perder os seus privilégios e ciclos de acumulação, oprimem os países empobrecidos levando-os (e obrigando também) a adoptar agendas verdes que lhes são muito danosas para a elevação da sua base material. O Brasil é um exemplo e Lula, com todas as suas qualidades, vive nessa contradição. 

A Rússia, aproveitando o isolamento, e agindo à chinesa, aproveitou a crise como uma oportunidade para não ter de cumprir as exigências ocidentais, impostas através da agência internacional de energia atómica.

Então, o isolamento da Rússia é bom para o mundo, porque democratiza o acesso à energia (Wellington fala da Rosatom, a empresa líder mundial e dominante em matéria de energia atómica), permitindo o desenvolvimento dos países antes oprimidos. Mas o “isolamento” da Rússia de Putin, demonstra outra coisa: o preço de fazer negócios com o Ocidente é muitíssimo elevado e impossível de sustentar.

A Rússia, para negociar com o Ocidente, mesmo em posição de dependência e desvantagem (era um fornecedor barato de matérias- primas, energia e produtos derivados e intermédios de baixo valor acrescentado), prescindia da sua própria liberdade e com ela, da sua Soberania. Com os danos que tal tinha para o seu povo e para os povos que poderiam beneficiar da liberdade russa. Se a URSS libertou muitos povos do colonialismo, a Rússia, tal como a  China, agora pode libertá-los da pobreza.

Um, fornecendo energia e matérias-primas, o outro tecnologia e infraestruturas. A Rússia é então um exemplo para o Brasil de Lula. Enquanto o Brasil não se libertar do jugo imperial, nem que seja pela força (como fez a Rússia, mesmo não o querendo), não lhe será possível cumprir o seu papel no mundo, nem para si, nem para os outros países. Porque viver na dependência do imperialismo é isso mesmo: é prescindir da sua liberdade ,  independência e  soberania. 

Não existe papel para os vassalos que não seja o da dependência. Está mais do que estudado, desde que Engels o escreveu há mais de 100 anos.

Daí que Lula tenha de fazer essa difícil escolha: sair de cima de um muro (entre ocidente e maioria global) cuja posição é insustentável; abraçar com coragem o caminho em direcção à sustentabilidade, suportando-se apenas e tão só na maioria global composta por 85% da população mundial. 

Não sou, contudo, ingénuo ao ponto de não saber que Lula tem muitas barreiras pelo caminho. Uma elite submissa aos EUA que detém, no  Brasil, a propriedade dos principais factores de produção e a maioria do capital acumulado; um povo inculto e despolitizado que segue a propaganda ocidental, como se se tratasse de uma bíblia; um país fracturado e dividido em que a influência da CIA e suas ONG’s, seja através da ideologia woke, seja através da ideologia neoliberal, conservadora), leva a iguais resultados: revolução colorida. 

Considero, contudo, que se existe alguém no Brasil que tem a capacidade, o carisma e a força popular para encetar essa verdadeira revolução é Lula. Assim o escolha fazer. Não existem caminhos fáceis para a liberdade, e a Rússia, sem querer (a Rússia mesmo assim tentou manter os negócios com o Ocidente até não mais poder), está a demonstrá-lo e todos ganhamos com isso.

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Como vai ser

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 26/07/2023)

Penso que já deve ser óbvio para toda a gente que a guerra na Ucrânia constitui uma verdadeira catástrofe que provavelmente não irá terminar tão cedo e, quando terminar, o resultado final não vai ser uma paz duradoura. Vejamos então como foi que o Ocidente acabou por se encontrar nesta terrível situação. A argumentação tradicional da maioria dos dirigentes e “sabichões” ocidentais sobre as origens da guerra é que Putin lançou um ataque não provocado em 24 de Fevereiro de 2022, motivado pelo seu grande plano de criar uma Rússia ainda maior. A Ucrânia, assim o pintam, era o primeiro país que ele pretendia conquistar e anexar, mas não seria o último.

Mas, em alternativa a esse delírio visionário e como já muitos e bons repetiram em várias ocasiões, não há quaisquer evidências a sustentar essa linha de alegações e, pelo contrário, há provas consideráveis que directamente a contradizem. A realidade foi que, em 2021, ucranianos e americanos já tinham decidido tentar a recaptura da Crimeia pela força (o que projectaram para o final do inverno seguinte) e para esse efeito começaram a concentrar as tropas ucranianas na frente do Donbass, procederam ao fornecimento maciço de armamento e ao treino de combate acelerado dos regimentos ‘Azov’ e do exército. Entre 16 e 23 de Fevereiro e obviamente no âmbito de uma grande operação militar em perspectiva, foram intensificados de forma exponencial os bombardeamentos sobre Donetsk e Lugansk. O objectivo da operação (à semelhança do que foi feito na operação “Tempestade” na Croácia em 1995) seria rapidamente tomar o controlo de todo o território ucraniano na posse dos separatistas, sem que os russos tivessem tempo de reagir.

Em face desta possibilidade, a reação russa teve de ser planeada e executada à pressa – decidiram surpreender os ucranianos tomando a iniciativa de serem os primeiros a atacar e em cerca de dez dias reconheceram a independência das repúblicas separatistas e estabeleceram com as mesmas os legítimos acordos de cooperação e operação militar à luz do direito internacional. Embora não haja dúvidas de que, na prática, a Rússia invadiu a Ucrânia, a causa final e principal desta guerra foi de facto a decisão do Ocidente – e neste caso referimo-nos principalmente aos Estados Unidos – de fazer da Ucrânia um baluarte ocidental na fronteira da Rússia.

O elemento fundamental dessa estratégia era a entrada da Ucrânia para a NATO, um acontecimento que Putin e os seus acólitos, e os deputados de todos os partidos do espectro político russo, viam unanimemente como sendo uma ameaça existencial que teria de ser eliminada. Esquecemo-nos frequentemente que um grande número dos que conceberam as políticas e de estrategas, americanos e europeus, se opuseram à expansão da NATO desde o início, porque entendiam que os russos a veriam como uma ameaça e que essa política acabaria levando ao desastre. A lista dos que se opuseram inclui George Kennan, o Secretário da Defesa do Presidente Clinton, William Perry e o seu Chefe do Estado-Maior Conjunto, general John Shalikashvili, Paul Nitze, Robert Gates, Robert McNamara, Richard Pipes e Jack Matlock, apenas para citar alguns.

Na cimeira da NATO em Bucareste, em Abril de 2008, quer o Presidente francês Nicolas Sarkozy quer a Chanceler alemã Angela Merkel se opuseram ao plano do Presidente George W. Bush de trazer a Ucrânia para a Aliança. Merkel disse mais tarde que a sua oposição se baseou na sua crença de que Putin interpretaria esse facto como uma “declaração de guerra”.

É agora claro que aqueles que se opunham à expansão da NATO estavam correctos, mas infelizmente perderam esse debate e a NATO avançou para o leste, o que acabou por levar os russos a desencadearem esta guerra.

Se os Estados Unidos e os seus aliados não tivessem actuado de forma a procurarem trazer a Ucrânia para a OTAN em Abril de 2008, ou se tivessem estado dispostos a acomodar as preocupações de segurança de Moscovo, depois de ter rebentado a crise na Ucrânia em Fevereiro de 2014, provavelmente não teria acontecido a actual guerra na Ucrânia e as fronteiras desta estariam ainda como eram, quando do seu acesso à independência em 1991.

O Ocidente cometeu um erro colossal, pelo qual todos nós e muitos outros mais, ainda iremos pagar severamente.  


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