A caminho do caos?

(Joseph Praetorius, in Facebook, 05/12/2016)

 

caos

 

A aventura exploratória, sob pretensa égide liberal, iniciada com a certeza próxima da queda do muro de Berlin, atingiu o limite de resistência do tecido social. Em tal aventura todos os recursos organizacionais do sistema se comprometeram. E, por consequência, deles não há nada a esperar do ponto de vista de quem trabalha e deixou de conseguir viver, alojar-se, alimentar-se, sustentar os filhos e educá-los, manter a estabilidade das respectivas famílias, manter até a casa onde a família vive. Não há neste sentido grande diferença entre a flagelação financeira das famílias e a flagelação pela guerra nas pobres terras onde esta foi levada por gente ébria de poder e lucro fácil.

Nesta embriaguez, o Estado transformou-se num instrumento de exploração, mecanismo odioso de extorsão, primeiro problema das comunidades, onde a todo o momento se discute – e põe em causa – a pretensa desproporção do sistema público de saúde, por exemplo, única solução para o risco de cancro que se abate generalizadamente sobre a população, onde se prevê que nas próximas décadas atinja uma em cada duas pessoas, de uma forma ou de outra. Sem que a indústria farmacêutica deixe de fazer disso um negócio protegido pelo Estado e em que os próprios recursos do Estado se exaurem. Sendo certo que nenhum sistema privado de saúde assente nas seguradoras se quer envolver nas despesas correspondentes, às quais sempre oporá o “esgotamento do plafond”, remetendo os doentes para o sistema público, de supetão. Em números imprevisíveis para a gestão do sistema público. E o Estado nada faz, dirigido como está por funcionários ou agentes dos grupos de interesses em que tais seguros se enquadram.

Grupos nos quais se enquadram bancos em falência iminente, mas tratada sempre de modo muito pouco (ou nada) liberal. O profissional liberal médio afasta-se tendencialmente dos bancos onde os saldos podem ser congelados ou penhorados a qualquer momento. E as pessoas perderam até a possibilidade de trabalharem com êxito. Recordo as criaturas da inspecção tributária emboscadas, à espera da hora de encerramento dos bares de convívio, para apreenderem o dinheiro em caixa, deixando os infelizes sem dinheiro para pagarem sequer as horas de trabalho nocturno. Também nada adianta esperar seja o que for de tribunais de funcionários, para quem o arbítrio mais selvagem traduz a ordem natural do mundo, comungando, portanto, como tenho dito, na degenerescência irrecuperável de tudo e produzindo irregularmente as minutas da erística para a frustração de direitos.

Nenhuma esperança resta pois senão nas franjas organizacionais até agora marginalizadas pelo sistema político. Essa esperança é a da possibilidade da vida individualmente considerada. Essa esperança exige o desaparecimento desta perspectivação monstruosa das coisas, que devora vidas, países, estados e povos, continentes, até. Essa esperança contenta-se com o desaparecimento de tal coisa. E parece-lhe que tal desaparecimento bastará para que tudo o que é lícito seja possível. É neste ponto que estamos. Não noutro.

Debalde o sistema notará que falta a esta vaga qualquer programa ou ideia que possa discutir-se. O sistema perdeu a legitimidade para discutir. A projectada aliança de Renzi e Berlusconi, como a candidatura de Valls demonstram, aliás, a incapacidade de discutir seja o que for. Não há nada para discutir. As populações, os estados, os países e os continentes foram até agora meros objectos desta gente.

Chegou o momento. Lixo com isto. (Não esquecendo a cassação de direitos políticos dos que isto geraram ou dirigiram). É uma questão prévia. Inegociável, porventura. Tanto dá que venha à direita como à esquerda, que nenhuma distinção destas faz grande sentido no caos. Francisco de Roma, o Patriarca do Ocidente (neste estado) percebeu isto perfeitamente, tanto quanto parece. Mas parece também ter sido o único. As explosões da jacquerie já começaram. Vão estender-se em explosões por simpatia.


A propósito deste texto, remeto para a excelente entrevista ao Prof. Mário Bruno Sproviero: ‘Entropia: “Progresso” para a destruição’ e que pode ser lida na íntegra aqui.

Para se perceber melhor as razões do fenómeno Trump

Crime, fome e encarceramento na América

(Por Gary Flomenhoft, in Blog Real-World Economics Review)

Os efeitos das políticas neoliberais aí estão. O país mais poderoso do Mundo está a atingir o primeiro lugar noutras classificações. Na pobreza, no crime e no número de encarceramentos. O sistema capitalista no seu pior, criou milhões de pobres e de criminosos. Eles não tem quem os defenda. Hillary Clinton teve 30 anos para o fazer e sempre esteve de mãos dadas com os grandes interesses que promoveram e beneficiaram com tais políticas. Se Trump lhes promete o Céu, ou pelo menos o alívio das dores, não é difícil perceber que o sigam julgando ver nele uma tábua de salvação. Ver estes gráficos é crucial para perceber a dimensão da catástrofe.

(Comentário de Estátua de Sal, bem como a tradução do texto  que segue).


Existindo um mercado de trabalho totalmente desregulado, Polanyi acreditava que “os trabalhadores morreriam, vítimas de aguda desorganização social por vício, perversão, crime e fome”.

Os EUA têm o mercado de trabalho mais “flexível” de todos os países da OCDE, ou seja, o mercado de trabalho mais livre, com a menor intervenção do governo ou das instituições sociais, como definido por Polanyi. “Essencialmente, para obter altas notas escala da flexibilidade, um país deve ter baixas taxas marginais de imposto, um salário mínimo baixo, um alto grau de flexibilidade na contratação e despedimento, uma pequena quantidade de negociação coletiva centralizada e baixos subsídios de desemprego” (Lawson, Robert A . & Bierhanzl, 2004, página 122). Os defensores do laissez-faire “livre mercado” políticas acreditam que a ameaça de fome vai motivar as pessoas a procurar emprego. O número de pessoas em assistência alimentar chegou a um patamar histórico após a crise financeira de 2008, e atualmente nos EUA é à volta de uma em cada seis pessoas no país (14% a partir de 13 de janeiro de 2015, Departamento dos EUA Ag [1]) , E uma em cada cinco crianças (US Census Bureau, 28 de janeiro de 2015) [2] estão no Programa Suplementar de Assistência Nutricional (SNAP), anteriormente conhecido como food stamps. A afirmação de Polanyi de que sem reforçar as instituições sociais, um mercado de trabalho livre, não regulado, resultaria em fome prova-se ser verdadeira. Sem SNAP essas pessoas iriam morrer de fome.

Taxas de encarceramento nos países da OCDE. Grande liderança dos EUA.

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A variação da população prisional, desde Reagan e do neoliberalismo é galopante

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Os Estados Unidos têm 5% da população mundial e 25% dos reclusos. A taxa de encarceramento é mais do que o dobro de todos os outros países da OCDE. Deve sublinhar-se que a era da supremacia neoliberal começou com a eleição de Ronald Reagan em 1980 e acelerou-se com o colapso da União Soviética em 1991. As políticas nos EUA tornaram-se mais favoráveis aos mercados não regulamentados do que nunca, de acordo com a (TINA), e na senda do “Consenso de Washington” sobre a privatização, a liberalização, o livre comércio, a livre circulação de capitais, o ajustamento estrutural e todas as outras políticas promovidas pelos fundamentalistas de mercado desde 1980. Houve Um ponto de inflexão em 1980, quando as taxas de encarceramento dos EUA começaram a aumentar drasticamente (figura 16). Antes disso, os EUA estavam alinhados com outros países da OCDE. Este encarceramento acrescido não foi resultado de um aumento do crime violento porque a taxa de crime violento caiu durante este mesmo período. Embora não possa ser diretamente atribuído a mercados de trabalho flexíveis, esse aumento na taxa de encarceramento é consistente com a afirmação de Polanyi de que tratar o trabalho como um produto de mercado resultará em “crime e fome”.


O artigo original em inglês aqui

E se fosse consigo…? E se fosse consigo…? E se fosse consigo…?

(In Blog Um Jeito Manso, 25/10/2016)

Não vale a pena dizer nada. Tudo isto é demasiado deprimente. Que querem desmantelar a “selva”. Ó Deus. Selva é este mundo em que vivemos, conduzido por um punhado de loucos e alucinados. Ponham o dinheiro que vos move a todos num sítio que eu cá sei. A minha única consolação é que no inferno os dólares e os euros não vos servirão para nada. É o que me ocorre dizer. (Estátua de Sal)

 

Não posso olhar apenas para o hoje. Em todas as eras houve maldições, êxodos, desesperanças. E se alguma coisa me causa estranheza é que a espécie humana, ao contrário de outras, nada aprenda.O aperfeiçoamento natural, fruto de experiências anteriores, não acontece com as pessoas. Encontramo-lo em animais que vivem no fundo do mar, nas mais…

via E se fosse consigo…? E se fosse consigo…? E se fosse consigo…? — Um jeito manso