Depois de Trump, o dilúvio

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/08/2020)

Daniel Oliveira

Corre por aí um meme em que aparece Bernie Sanders ao lado da Ocasio-Cortez, em cima, e Joe Biden ao lado de Kamala Harri, em baixo. A legenda diz: “quando pedes uma Coca-Cola e eles perguntam: ‘pode ser Pepsi’”? Claro que este meme foi feito por um apoiante de Bernie. Se fosse este o sentimento dos democratas, Sanders teria ganho. Só que Biden é o “outro”. Aquele que era preferível a Bernie para os centristas e agora será preferível a Trump para os progressistas, sem nunca mobilizar realmente muita gente. E não se pode sentar na vantagem que as sondagens lhe dão, porque o espera o inferno. Para Trump e as suas tropas vale tudo e tudo será feito. Se já é geralmente assim nos EUA,se já é assim com os republicanos há muito tempo, com Trump não há limites para o mergulho na lama.

Nas últimas semanas e na própria convenção republicana, Donald Trump regressou ao que parece ser a sua linha de campanha enquanto as sondagens não lhe correrem de feição: que os EUA se prepararam para o maior golpe da história do mundo. Com ele é sempre em grande. Em causa está a necessidade de alargar o voto por correspondência, devido à covid 19. Na realidade, os democratas até serão os que mais usarão este método de voto. O texto em português mais esclarecedor e sintético que li sobre o tema foi aqui.

A pandemia trocou as voltas a muitos governos. E também as trocou a Trump. Se todos tiveram de improvisar um pouco, a sua resposta foi especialmente incompetente. Uma pandemia não se combate com tweets e polémicas diárias. Nem sequer chega arranjar um inimigo, apesar de Trump, como Bolsonaro, o ter tentado com a China. Não consta que com isso tenha sido salva uma única vida. Para lidar com uma pandemia é preciso mínimos de competência política – e nem assim corre bem – que todo o foguetório de que vive a extrema-direita não consegue simular. E com a pandemia veio a crise económica. A economia, e não o seu discurso incendiário e de ódio, é que lhe podia dar a reeleição. Sobra o discurso da “lei e da ordem” perante a revolta racial. Um discurso que funciona.

Não sei se Trump tem as eleições perdidas. Desde as últimas, em que senti nos EUA coisas bastante diferentes daquelas que por cá se diziam, que desconfio de sondagens e previsões. Sei que tudo está contra ele. E ao lançar a suspeita de fraude eleitoral, Trump dá sinais de nervosismo. Se há quatro anos até um Trump vencia Hillary, pode ser que agora até um Biden vença Trump.

A preparação dos seus apoiantes para a recusa de uma derrota não surpreende. Trump usa a democracia, não acredita nela. Como Bolsonaro, que perante os contrapoderes que qualquer democracia exige põe os seus seguidores a defender golpes militares e o encerramento de tribunais. Todas as instituições e as suas decisões são politicamente contestáveis. Mas contestar é diferente de defender o derrube pela força dos que limitem o poder executivo.

Há uma diferença entre Trump, Bolsonaro ou, à sua pequeníssima escala, Ventura e os outros políticos, sejam moderados ou radicais: eles não têm um projeto de continuidade que exija a preservação das instituições; não têm um programa político que sobreviva ao seu exercício de poder. Eles são o projeto. À sua volta, há quem tenha projeto e os use, há quem tenha interesses e também os use. Bandos de fanáticos e de oportunistas, uns com projetos futuros outros com ganâncias presentes, aproveitam o momento da conquista para a violência ou o saque. Mas eles têm o seu próprio ego como único fim. Não faria qualquer sentido para um político como Trump aceitar uma derrota eleitoral. Ele está nos antípodas de Al Gore, que em nome do futuro do país aceitou uma derrota que estava convencido, ele e muita gente, que não tinha sofrido. Trump nada tem a preservar a não ser o seu próprio poder.


O que não é Bernie será o que não é Trump para ser o que não é Presidente?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 04/03/2020)

Daniel Oliveira

A desistência de Amy Klobuchar e Pete Buttigieg, nas vésperas da super terça-feira, depois da vitória folgada de Joe Biden nas primárias da Carolina do Sul, fez o ex-vice-presidente ressuscitar como único candidato centrista capaz de enfrentar Bernie Sanders. O voto em Biden foi, para muitos eleitores democratas que esta terça-feira falaram com os jornalistas, um voto no centrista que restava na corrida. Nem contrariado nem entusiasmado.

Umas horas antes de se conhecerem os primeiros votos, o “New York Times” considerava muito provável que Biden vencesse no Alabama, Arkansas, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee e Virgínia. Que Bernie vencesse na Califórnia (tendo passado a ser, depois da desistência de dois candidatos do centro e a permanência de Warren, improvável que conseguisse a totalidade dos delegados, por mais ninguém ultrapassar os 15%), Colorado, Utah e o seu estado, o Vermont. Estavam em disputa Maine, Massachusetts, Minnesota e Texas (que o apoio de última hora de Beto O’Rourke a Biden pode ter desequilibrado). Todas as vitórias de um e de outro se confirmaram (sendo a mais relevante em delegados, de longe, a Califórnia). E dos estados que estavam em dúvida, Biden ganhou tudo, apesar disso ter acontecido, em geral, por margens pequenas, sobretudo no Texas e Maine. Sanders teve o pior resultado dentro dos resultados que foram previstos.

Bernie Sanders continua na corrida. A vantagem de Biden em delegados não chega a ser esmagadora. Quando escrevo ainda se distribuem alguns, mas está próximo dos 60. Está tudo longe de estar fechado, mas Bernie perdeu o momento. Determinante para a vitória de Joe Biden na Carolina do Sul e em vários dos estados que ontem votaram foram os eleitores negros, sobretudo os mais velhos – enquanto latinos e jovens votaram em Bernie. De certa forma, esse voto não é bem de Joe Biden. É voto de Obama que se transfere para ele por associação. Elizabeth Warren ficou em terceiro lugar no seu próprio estado. Se verá se faz o que devia ter feito anteontem: desistir para o candidato mais bem colocado do campo progressista. Não foi esse o sinal que deu ontem, o que é surpreendente tendo em conta a dimensão da sua derrota e os efeitos que a sua permanência tem.

Para além de todas as diferenças políticas entre Joe Biden e Bernie Sanders, há uma fundamental: a capacidade de Bernie Sanders mobilizar uma campanha resulta de uma adesão a si, ao seu discurso e às suas propostas, não de uma recusa de Donald Trump, a um mal menor ou a uma simpatia difusa. E isso é fundamental para estas eleições. Porque não há uma luta pelos moderados no confronto com Donald Trump. Os moderados que detestam Trump votarão contra Trump. Aliás, Bernie tem, dizem todos os dados em cada uma das primárias abertas, mais simpatia de eleitores independentes e republicanos do que Joe Biden. A luta contra Trump é a uma luta pela mobilização. E não vejo pior característica do que ser o que restou para vencer Bernie.

Se a grande qualidade de Biden nas primárias é não ser Bernie e a grande qualidade nas eleições for não ser Trump, o seu provável defeito será o de não ser presidente. Porque, limitando-se a não ser aquele contra quem concorre, nunca mobilizará os que desistiram da democracia. Todos apostam, no entanto, numa qualidade de Biden: afinal de contas, não é Hillary

A verdade é que o mainstream do Partido Democrata, que se virou para Biden, depois para Buttigieg, depois para Bloomberg e finalmente de novo para Biden, uniu-se em torno de um sobrevivente, não de um candidato. Segundo as sondagens à boca da urna, grande parte dos eleitores decidiu o seu voto nos últimos dias. Ao contrário do voto em Sanders, o voto do centro foi um voto no que restava.

No entanto, Bernie Sanders não conseguiu resistir às desistências centristas, que deram ânimo a Biden. Joe Biden sai desta terça-noite reforçado e Bernie Sanders em pior forma. Como aconteceu há quatro anos, a cúpula do partido e a comunicação social que lhe está próxima farão neste campanha o que fizeram até aqui, agora com um candidato claro para apoiar. Aposto as minhas fichas numa nomeação de Joe Biden.

Se Biden for o candidato democrata não é difícil antever o que serão as eleições. Iguais às últimas. A receita é a mesma, os eleitores são os mesmos, os ignorados são os mesmos, os frustrados continuarão os mesmos. Os democratas preferem continuar a representar o que cada vez mais norte-americanos sentem ser o “sistema” e isso pode determinar, mais uma vez, a sua derrota. Não chega não ser Trump para vencer. Não chegou em 2016, não deve chegar em 2020.

Se a grande qualidade de Biden nas primárias é não ser Bernie e a grande qualidade nas eleições for não ser Trump, o seu provável defeito será o de não ser presidente. Porque, limitando a não ser aquele contra quem concorre, nunca mobilizará os que desistiram da democracia. Todos apostam, no entanto, numa qualidade de Biden: afinal de contas, não é Hillary.


O anti-Trump

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/03/2020)

Daniel Oliveira

Era suposto Bernie Sanders vencer no Nevada. Não era suposto esmagar. E esmagou. Por outro lado, era suposto perder na Carolina do Sul contra Joe Biden, mas não ser suposto perder por tanto. Joe Biden continua a ter o voto negro à boleia de Obama. A verdade é que os centristas – não lhes chamem moderados, porque Sanders é tão radical como um social-democrata escandinavo – continuam às voltas com a escolha de quem se tem de medir com Bernie. Já se pensou que era Buttigieg, e como se viu desistiu. Já se pensou que fosse Biden, depois pareceu que estava fora e agora volta a parecer que está dentro. E pensou-se que seria Bloomberg, mas a sua prestação no primeiro debate deixou claro que o dinheiro não compra tudo. Hoje, a tão esperada super terça-feira, ficará tudo mais claro. Com vantagem para Biden se transformar num forte rival de Sanders.

Duas ideias tentam-se instalar na cúpula democrata: que Bernie é um perigoso socialista e que, tocando-se os extremos, ele é uma versão esquerdista de Donald Trump, cabendo nesse conveniente saco sem fundo do “populismo”. Esta tem sido a linha da CNN, que já replica como se fossem objetivos os termos dos adversários, referindo-se a Bernie Sanders como “milionário”, por causa do dinheiro que ele ganhou com a venda dos seus livros e que não dá para pagar um pequeno devaneio de Trump ou Bloomberg. O comportamento dos media nestas primárias dariam para um tratado sobre as razões profundas da crise do jornalismo.

Como escreveu Paul Krugman, Bernie Sanders nem é propriamente um socialista. Pelo menos para um europeu, Bernie é um social-democrata ao estilo tradicional escandinavo (não confundir com a corruptela portuguesa). Não defende nacionalizações nem sequer uma economia mista. Mas teve a inteligência que falta aos que julgam que a “moderação” é uma boa estratégia defensiva: antes que dissessem que ele era socialista afirmou-o ele. E com isso normalizou o que era tratado como um insulto, obrigando Michael Bloomberg a dizer que ele é um “comunista”, o que nos EUA se aproxima de dizer que é criminoso e levou a uma reação indignada de quem assistia ao primeiro debate em que participou o milionário (esse é mesmo).

Bernie Sanders não é um Trump de esquerda. Há uma enorme diferença entre propor a perseguição a imigrantes ou exigir que os milionários paguem impostos, entre defender o preconceito como forma de convivência social ou o aumento do salário mínimo como forma de partilhar a riqueza. E a tentativa de criar um paralelo entre as duas coisas, fazendo assemelhar os mais fortes e protegidos aos mais fracos e vulneráveis, o esmagamento dos excluídos ao combate ao privilégio, é um programa político. Ele sim, radical

Como também escreveu Paul Krugman, que não é um apoiante do senador (tem mostrado mais simpatias por Elizabeth Warren), Bernie Sanders também não é um Trump de esquerda. Tirando apresentar-se como adversário de um sistema político e económico em falência, o que apenas faz dele um candidato eficaz no combate a Trump, Bernie não aposta na divisão mas na unidade, não aposta no ódio mas na solidariedade. Bernie Sanders não é um fanfarrão.

Claro que Bernie tem um adversário social. Mas há uma enorme diferença entre propor a perseguição a imigrantes ou exigir que os milionários paguem impostos, entre defender o preconceito como forma de convivência social ou o aumento do salário mínimo como forma de partilhar a riqueza. E a tentativa de criar um paralelo entre as duas coisas, fazendo assemelhar os mais fortes e protegidos aos mais fracos e vulneráveis, a base social ao topo do poder, o esmagamento dos excluídos ao combate ao privilégio, é um programa político. Ele sim, radical. A ideia instalada de que “os extremos se tocam” tenta tornar moderado o que é extremo – a crescente desigualdade económica e a demissão de uma pequena elite dos seus deveres sociais – e tornar radicais todas as propostas democráticas e populares.

“Vote blue no matter who” é o mantra democrata destas primárias. Que todos se unirão em torno daquele que vencer na convenção. Mas há uma parte do partido que prepara o caminho para não o seguir. Ou para passar a ideia de que não o vai seguir, dando força à tese de que Bernie nem os democratas consegue unir. Apesar de várias sondagens dizerem que ele é dos candidatos mais bem colocados para enfrentar Trump, não me fio nisso. Os candidatos só o são no confronto, com a narrativa que se constrói quando se enfrentam. E sobre isso ninguém pode fazer adivinhações. Por isso, não sei se Sanders é o melhor candidato para derrotar Trump. Nem ele nem outro qualquer. Sei que ele é o melhor candidato para contrariar a sua narrativa, assim como Hillary foi e Bloomberg seria dos melhores candidatos para a confirmar. Exatamente porque ele não é o Trump de esquerda, é o anti-Trump.

A ideia absurda que as antíteses se assemelham deitaria por terra todos os movimentos libertadores que a História conheceu, fazendo deles a mesma coisa que combatiam. Bernie Sanders é o candidato ideal contra Trump porque, ao contrário de Trump, é mesmo antissistémico. Porque o sistema que ele combate não é o democrático, é o que está a destruir a democracia. Bernie Sanders é o único que pode mostrar que Trump é o sistema em versão descarada e musculada. E isso torna-se evidente quando, sem uma única proposta que possa levantar qualquer dúvida quando ao seu respeito pela democracia, o aparelho democrata parece ter mais medo dele do que de Trump. Bernie propõe-se libertar a democracia da desigualdade extrema que a limita, Trump propõe-se libertar a desigualdade de uma democracia já frágil que ainda a limita.

Só a nomeação de Bernie Sanders para enfrentar Tump já teria efeitos políticos internacionais. Assim como teve a nomeação de Donald Trump, ainda antes de vencer as eleições. Em vez de ser um sistema em crise contra a extrema-direita xenófoba, o que só dá força à extrema-direita, é a recuperação da agenda social para travar o ódio. Foi ela que o travou quando Roosevelt impediu que os EUA seguissem o caminho que seguiu a Europa. Foi ela que reconstruiu a própria Europa. Por isso, definir quem é o adversário contra a extrema-direita é o mais determinante neste momento. Porque determinará se será mesmo um adversário ou, como seria com um Michael Bloomberg, uma cedência.