Comitre

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 24/10/2016)

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Comitre: Oficial que superintendia os forçados das galés. Os salários da administração da Caixa. A questão não tem nada que ver com estes, nem com os anteriores. A minha questão tem a ver com o sistema de condenados às galés em que o sistema bancário internacional colocou os cidadãos que eram livres. Desde a antiguidade os poderosos escravizaram os vencidos e de entre os vencidos, os últimos eram designados por heretes, os condenados às galés, a remar nas galés. As galés foram os navios que dominaram o Mediterrâneo durante séculos, na guerra e no comércio. O segredo do seu êxito estava na velocidade que os remadores amarrados aos remos, três, cinco ou até sete, conseguiam imprimir. O filme Ben Hur tem cenas nas galés que ajudam a perceber como o sistema funcionava. Quem conseguia a velocidade das galés e a sua manobra era uma figura chamada Comitre, auxiliada por sota-comitres, encarregada de estabelecer o ritmo da remada à custa de chicotes e de tambores. O grande problema do comitre era estabelecer o melhor ritmo dos escravos e dos condenados sem os esgotar. É exactamente do problema dos especuladores financeiros, dos ministros das finanças, dos administradores de bancos centrais e do Estado: como extrair dos contribuintes (os condenados às galés) tudo o que eles têm, sem os matar de exaustão (financeira, no caso)? Um bom comitre, com os seus sota-comitres tem de ser bem pago, claro. O chefe dos comitres, Draghi é principescamente bem pago, assim como os seus sota-comitres, entre eles Constâncio. O Costa do Banco de Portugal também não passa de um marcador do ritmo dos condenados.Assim como o novel Domingues, da Caixa. Estes especialistas da chicotada (tributária), do ritmo da remada (financeira), do limite de vida dos condenados são hoje gente apresentada como respeitável. Tão respeitável que são pagos como alguém que executa um trabalho respeitável, e não, o de extorquir a tipos amarrados por correntes aos impostos o máximo que estes possam dar.

Eles, do Draghi ao Costa do BP e ao Domingues da Caixa, são os comitres, os capatazes encarregados pelos comandantes e almirantes e chicotearem os condenados para lhes extorquírem as últimas forças. O sistema especulativo de fabricação de dinheiro faz destes algozes figuras centrais do capitalismo na atual vertente.

Os atuais donos das galés, os atuais negociantes de escravos, os atuais juízes que condenam os devedores a serem remadores, fazem hoje o que desde a antiguidade até à baixa idade média não fora conseguido: colocarem os condenados a pagar a quem os chicoteia! Estamos a pagar a todos eles. Este Domingues da Caixa é o último dos comitres e por isso aqui fica o ai depois da chicotada.

As pensões mínimas: para acabar de vez com a demagogia

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/10/2016)

Autor

                        Daniel Oliveira

A atualização extraordinária de 10 euros das pensões até 628, em agosto, causou polémica. Este aumento extraordinário, que será por pensionista – e não por pensão -, visa, segundo o Governo, compensar as perdas pelo congelamento das pensões entre 2011 e 2015. De fora desse congelamento ficaram os pensionistas que recebem as mais baixas das pensões mínimas da segurança social e da Caixa Geral de Aposentações e quem recebe a pensão social e agrícola. Por isso, elas serão abrangidas pelo aumento normal, já em janeiro, mas, como é natural, não estão incluídas num aumento extraordinário de agosto, que se destina a quem perdeu rendimento.

Vale a pena recordar que o anterior governo congelou as pensões mínimas do regime contributivo relativas ao 2º, 3º e 4º escalões (entre 275 e 380 euros), enquanto enchia a boca com preocupações sociais. De facto, apenas aumentaram as pensões rurais, sociais e mínimas do 1º escalão.

A decisão do Governo provocou incómodo em muitas pessoas e não foi ao encontro do que é defendido pelo Bloco e pelo PCP. Independentemente da posição com que cada um fique, é importante cortar as pernas à demagogia fácil que por aí campeia e de que, com a falta de rigor que lhe é habitual, Marques Mendes foi um dos principais porta-vozes. Já nem preciso de recordar que as pensões mínimas vão ser, como as restantes abaixo de 838 euros, aumentadas em janeiro, tendo em conta a inflação. Já nem me concentro no facto de a atualização extraordinária de agosto visar compensar um congelamento que não abrangeu estas pensões. Poderia argumentar-se que, estando nós a falar de pensões tão baixas, seria justo juntá-las a este bolo de aumentos de agosto, para as aproximar dos mínimos aceitáveis. Só que isso é partir de um princípio que em imensos casos não é verdadeiro – que as pensões mínimas correspondem aos pensionistas mais pobres e precisariam, por isso, de ser discriminadas positivamente – e ignorar que existe uma coisa chamada Complemento Solidário para Idosos (CSI), onde essa justiça se tem de fazer.

É verdade que muitos pensionistas, por razões históricas ou outras, trabalharam a vida toda, não descontaram e os magros 200 ou 260 euros não chegam para viver. Para esses foi criado o tal CSI, sujeito a condição de recurso (prova de que eles ou familiares próximos não têm outros rendimentos, pensões e património), que permite que o rendimento do pensionista chegue sempre a cinco mil euros anuais. A condição de recurso, sendo inaceitável para regimes contributivos (as pessoas, tenham o rendimento que tiverem, descontaram para receber aquilo), podem ser justas quando estamos perante prestações que não resultam de contribuições.

Ao contrário do CSI, as pensões mínimas não estão sujeitas qualquer condição de recurso. Elas, propriamente ditas, nunca poderiam estar: mesmo quem as recebe pode ter feito descontos. Mas o complemento social, que cobre a diferença entre a pensão que resultaria dos descontos feitos e o valor da pensão mínima, sim. Porque é, na prática, um subsídio pago pelo Orçamento de Estado. No entanto, entre os seus destinatários, há quem receba mais do que uma pensão (pensões de sobrevivência, por exemplo), tenha património ou viva uma situação financeira desafogada (apenas tiveram uma atividade profissional que não permitiu grandes descontos). Não se julgue que estou a falar de exceções. Pensa-se que será muita gente, mas não há números seguros. O único estudo que conheço é muito antigo (2003) e baseia-se em números de 2000. É do Banco de Portugal, foi coordenado por Carlos Farinha Rodrigues e inclui todos os escalões das pensões mínimas e não apenas o 1º, que aqui está em debate. Ainda assim, e com todas as cautelas, vale a pena ficar com este dado, que serve apenas para desmentir o automatismo de pensar que a pensões mais baixas correspondem sempre pensionistas pobres: entre os que recebem as várias pensões mínimas apenas 31% estariam em agregados pobres. Defender um tratamento de exceção para quem recebe a pensão mínima e não é pobre, tendo direito a aumentos extraordinários destinados a pensões que, ao contrário das mínimas, estiveram congeladas, é defender, em demasiados casos, um aumento das desigualdades, beneficiando ainda mais pensões não contributivas de reformados que não precisam de ser descriminados positivamente.

Mas não o fazer levanta problemas semelhantes. Porque ali também estão alguns dos pensionistas mais pobres. Nas pensões não contributivas teria de haver uma forma de distinguir quem precisa e quem não precisa, para lhe dar um tratamento diferente. Sem explicar muito, o ministro Vieira da Silva já anunciou que passará a haver condição de recurso em todas prestações sociais não contributivas. No caso das pensões mínimas, imagino que ela seja aplicada ao complemento social. Parece-me justo. Não há razão para dar uma pensão mínima a quem não contribuiu para o sistema e não precisa dela, podendo até ter uma situação financeira mais desafogada do que grande parte dos reformados. Como é evidente, tal medida só pode ser aplicada a futuras pensões. O direito adquirido não é um capricho: é, para além de uma imposição constitucional, uma questão de bom senso. As pessoas organizaram a sua vida, quando já não podem procurar outro sustento, contando com um determinado rendimento. Ele não pode ser alterado. Para as pensões que já estão a ser pagas, é através do Complemento Solidário para Idosos que se combate a pobreza dos reformados. Porque as pensões mínimas, apesar de o serem, nem sempre são de pobres.

A Realidade e a bússola

(Isabel Moreira, in Expresso, 15/10/2016)

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Ontem, antes da apresentação do OE para 2017, assistimos a horas de comentário televisivo, sendo de destacar a quantidade de vezes que foi dito, nomeadamente por Tiago Caiado Guerreiro, que estamos perante um OE “ideológico”.

A coisa é dita com horror, quando vivemos quase 50 anos numa “ideologia” de proibição de ideologias.

Ora, felizmente, o OE para 2017 é ideológico. É apresentado por um governo socialista e isso quer dizer alguma coisa. O parlamento tem a composição atual e isso quer dizer alguma coisa. Quer dizer que os portugueses escolheram uma política que brotasse de uma linha, imagine-se, ideológica.

Anda para aí uma propaganda segundo a qual a ideologia é o equivalente a uma utopia que impede os irresponsáveis socialistas de serem pragmáticos, de aterrarem na realidade.

Os propagandistas deste horror ditatorial tentam fazer esquecer que andar na realidade sem ideologia é como que andar por aí sem uma bússola.

Precisamente o que este governo faz é olhar para a realidade com uma bússola, a tal da ideologia, que tem consequências terríveis para os comentadores comprometidos em salvar a face, porque estiveram quatro anos ao serviço da esdrúxula “austeridade expansionista”.

As consequências terríveis passam desde logo por demonstrar que o problema do crescimento económico também está na desigualdade criada pela direita.

Para os socialistas é ideologicamente imperativo, por razões de decência, devolver rendimentos, aumentar salários, repor prestações sociais, devolver pensões, aumentar pensões, diminuir impostos sobre o trabalho, entre outras medidas, mas também sabemos, ao contrário da direita, que não há crescimento económico sem esta decência.

As escolhas feitas no OE, como a tributação do património (nos exatos termos em que o mesmo está previsto no OE e não na versão José Gomes Ferreira) é uma escolha ideológica no sentido de diversificar as fontes de financiamento da segurança social. E, para desgraça de quem já quem só tem como arma afirmar que o OE é ideológico, o “governo das esquerdas” consegue o que a direita foi espetacular em falhar: rigor na consolidação das contas públicas e justiça social.

Continuaremos assim. Não queremos andar por aí com oito orçamentos retificativos. Queremos estar atentos à realidade, claro, mas com ideologia. Com bússola.