A vossa vala comum: carta aos governantes do país e da Europa onde nasci

(Alexandra Lucas Coelho, in Público, 08/04/2025

(Um grande bem-haja para a autora deste texto pela coragem de denunciar as atrocidades monstruosas de Israel que sendo descomunais, muita gente, tal como eu, julga que o não são tanto. E pelo o libelo de dedo erguido contra os nossos políticos, cobardes, coniventes com a mortandade e benzendo-a com o seu silêncio cúmplice. A autora é lapidar:

“A Europa é a vergonha da democracia, sua suposta mãe e sua coveira. O Mal está sempre por toda a parte, mas a diferença de Gaza, do ponto de vista de quem nasceu aqui, é que a Europa gerou este último resquício do colonialismo, o alimenta em contínuo, é a sua escrava e agora vemos tudo em directo.”

Estátua de Sal, 10/04/2025


Ao longo deste ano e meio quis esperar que algo ainda acontecesse dentro dos líderes europeus. Algo revelado por este Apocalipse. Tarde, insuficiente, mas algo. Já não o espero agora.


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O primeiro livro da Europa — que é também a sua primeira guerra — começa com a palavra “Mēnin”: Cólera. Vinte e oito séculos depois, as piras dos mortos continuam a arder sem parar. Mas não só as dos mortos: as dos vivos, também. Vivos queimados vivos (um jornalista na sua tenda de deslocado ontem à noite). Talvez ainda vivos sepultados como mortos (quantos dos paramédicos que ouvimos rezar anteontem, quando já eram só vozes resgatadas das cinzas, gravando-se a si mesmas ao morrer?).

A cólera canta: vinte e oito séculos depois da Ilíada, as piras são dos mortos e dos vivos por toda a Palestina. Ardem no instante em que escrevo, 7 de Abril de 2025. E agora é a vós que me dirijo, governantes do país e da Europa onde nasci.

Esta noite mesmo, num palácio neoclássico, um presidente da Europa recebe uma presidente da Ásia, ambos com uma história ancestral de 500 anos em que representam colonizador e colonizada. O meu nome estava na lista de convidados por eu ter feito uma viagem para escrever um livro sobre essa Ásia, com as suas próprias piras de mortos, multicoloniais e pós-coloniais (um dos livros que Gaza adiou). Quando li o email do convite, imaginei que podia ser um ritual interessante de observar, a parte palaciana do terreiro em que os mortos falam vivamente aos vivos, se os ouvirmos. E ao mesmo tempo pensei que Gaza estava ali como está em toda a parte. Então, eu iria à cerimónia: levando ao pescoço uma meia-lua com as cores da Palestina e uma carta para o anfitrião. Uma pequena carta manuscrita, porque desde o 7 de Outubro publiquei dezenas de textos sobre este genocídio e a cumplicidade da Europa onde o presidente já foi visado, não seria necessário alongar-me. Sendo ele o chefe de Estado do país onde nasci, agora tratava-se só de 1) dizer que pela primeira vez me passara pela cabeça renunciar à cidadania portuguesa, e portanto europeia, a única que tenho 2) pedir um gesto imediato para a História, que está a ser escrita todos os dias.

A meia-lua que eu ia levar ao pescoço é uma fatia de melancia, símbolo alternativo da Palestina, feita de missangas. Por acaso, no mesmo lugar africano em que há 500 anos um piloto asiático embarcou na nau de Vasco da Gama para o guiar até à Ásia. O acaso é um deus em que acredito. Temi, porém, que o significado da melancia pudesse não ser claro para alguns dos presentes no palácio, nomeadamente os chefes de Estado. Por isso comecei a desdobrar a Palestina pelo suporte em movimento que seria eu própria. Vestiria uma roupa preta, um casaco verde e o fio da melancia seria branco. Levaria um keffiyeh como cachecol, que ficaria no bengaleiro, chamejando no meio dos abafos. E finalmente: ia bordar uma bandeira para pôr na lapela. Nunca bordei mas tenho bordados da Palestina talvez desde a primeira vez que fui lá, faz este Abril 23 anos. O bordado são os vestidos, as almofadas, as casas da Palestina. As mãos de pessoas que estarão onde agora?

Foi assim que num dia de dilúvio fui a uma linda retrosaria de Lisboa, comprei um retalho de linho, esse tecido que já estava na Ilíada, um bastidor de madeira, uma caneta própria, agulhas de diferentes tamanhos e quatro mechas de fio para bordar com as cores da Palestina. Essas mechas têm uma cinta de papel escrita em japonês, vieram mesmo do Japão, disse a senhora que me atendeu. De volta a casa, quando as dispus na mesa, pensei: Hiroxima. Porque penso em Hiroxima quando penso no Japão, e porque na estante Israel/Palestina tenho Hannah Arendt junto a Günther Anders, o filósofo também judeu que com ela foi casado, autor de Nós, Filhos de Eichmann mas também de Hiroxima Está em Toda a Parte. E só no instante em que escrevo esta frase, hoje, 7 de Abril, já noite, me apercebo de que a primeira vez que escrevi “Gaza está em toda a parte” (num texto de 5 de Outubro de 2024), não pensei em Günther Anders. Estava muito longe de casa, naquela parte da Ásia de que falei acima, no meio de mil e quinhentos milhões de pessoas. Talvez a frase tenha vindo por causa delas. Mas por trás delas talvez estivesse a memória dessa lombada.

Quando o palestiniano Mahmoud Darwish escreveu sobre os seus dias em Beirute debaixo das bombas israelitas, também pensou em Hiroxima. Hiroxima estava em Beirute e agora Gaza está em Hiroxima. Ao voltar da retrosaria e de Lisboa, eu olhava a minha mesa e aqueles fios para bordar ligavam Gaza e Hiroxima: vermelho, verde, branco, preto. O que fazemos com as mãos fica na memória do corpo. Torna-se parte do que é cada corpo, e só ele é, até ser interrompido para sempre. Desde que comecei este texto, quantos em Gaza? A todo o momento. A todo o momento que pegamos no telefone, se quisermos.

E o que aconteceu anteontem, pouco antes de enfiar o primeiro fio na agulha, foi que peguei no telefone e vi aquelas gravações. Vi aquelas ambulâncias, aqueles símbolos de emergência, de socorro humano, todas aquelas luzes ligadas, faróis na noite de Gaza, avançando sem medo, apesar do Mal. E depois ouvi o Mal, ali, como se estivesse na minha cozinha, nitidamente captado pelo telefone do homem que rezava, o homem que via a sua própria morte, o homem que se despedia da mãe, que pedia desculpa por ter escolhido aquele caminho: salvar vidas. Ouvi as rajadas dos que metralhavam a torto e a direito, cérebros lavados ao longo de anos para fuzilar em série, para verem qualquer palestiniano como muito menos do que os belos animais que àquela hora talvez se passeassem por Telavive, a noctívaga, a necro-sexy. Por vezes, pela trela de humanos veganos incapazes de comer até um ovo, militantes contra o sofrimento dos animais.

Ouvi os paramédicos que iam morrer e os que já tinham morrido embora o telefone ainda estivesse a gravar. Sabemos que o Mal abriu uma vala comum, enterrou 15, alguns talvez ainda vivos, depois destruiu as ambulâncias e também as enterrou. Até que o socorro do socorro desenterrou tudo, apareceram as gravações. O Mal reconheceu que mentira, como há um ano e meio mente. Há 58 anos mente. Há 77 anos mente. A guerra de há mais de cem anos contra a Palestina. A vala comum dos paramédicos foi só aquele momento em que o ponteiro bate no zénite porque vem de antes há muito. Há muitos mortos. E de repente eu estava ali na cozinha com o telefone na mão e tinha deixado de ser possível, sequer, estar naquele palácio da Europa, mesmo que em protesto. Sentar-me entre eles, eleitos que continuam como se nada fosse, que contribuem para que nada seja. Foi depois disso que pensei nesta carta, extensível a todos os que desde 7 de Outubro foram ou são governantes na Europa, com muito poucas excepções, sobre as quais também escrevi.

Ao longo deste ano e meio quis esperar que algo ainda acontecesse dentro dos líderes europeus. Algo revelado por este Apocalipse. Tarde, insuficiente, mas algo. Já não o espero agora. O carniceiro procurado pela justiça foi à Hungria, que lhe estendeu o tapete vermelho, pisou nas Nações Unidas, no Tribunal Penal Internacional. Continua a ser União Europeia lá. E, à cabeça da União Europeia, o novel chanceler já tem o seu tapete à espera do carniceiro. Que no dia em que escrevo estava de volta à Casa Branca, ao narcisopata que resume Gaza como “um incrível pedaço de imobiliário”.

Que Nações Unidas? Que Direitos Humanos?

Hoje, 7 de Abril, um ano e meio depois do 7 de Outubro, é a escravos de nazis que me dirijo. Não escravizados por outros, escravos por vontade própria. Vemos sobre-humanos na Palestina que continuamente nos dão provas de vida e do que a mata. Vemos o desfecho do sionismo, esse fruto monstruoso do monstruoso anti-semitismo europeu. E vemos os menos-que-humanos que sois vós, os untermensch: todos os eleitos que nada fizeram desde 7 de Outubro. Aqueles que perderam a Segunda Guerra Mundial em Gaza. Os que capitulam perante o triunfo dos porcos. Que atacam pró-palestinianos hoje como atacaram judeus ontem e continuam a atacá-los hoje. Que censuram, agridem, prendem, deportam. Os que se tornam nazis no meu tempo de vida. Enquanto os EUA, também usando judeus como arma, assistem à sua própria derrocada.

Tenho 57 anos. Nasci no ano em que Israel ocupou Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental. Tive a sorte de ainda ter visto a URSS, saber o Mal que era. Não ter dúvidas sobre o Mal que Putin é. Que a Arábia Saudita é. Que o Irão é. Não perdoarei quem enriquece com os tiranos a jeito e deixou a defesa da Palestina aos ayatollahs. O Irão ser o aliado da Palestina é a vergonha da Europa.

A Europa é a vergonha da democracia, sua suposta mãe e sua coveira. O Mal está sempre por toda a parte, mas a diferença de Gaza, do ponto de vista de quem nasceu aqui, é que a Europa gerou este último resquício do colonialismo, o alimenta em contínuo, é a sua escrava e agora vemos tudo em directo. Nada, nunca, teve estas características. Tal como nunca a Europa desceu tão baixo, caiu tanto para o mundo. A vala comum dos 15 paramédicos é a vossa. A vala comum da Palestina é a vossa. Vós: os sem coluna e sem futuro.

Isto não é a mala diplomática. Não é um apelo, já. Talvez seja um presságio e ainda não uma maldição. Escrevo em plena campanha eleitoral para o que será o terceiro governo português desde o 7 de Outubro. Ainda vou votar. Ainda acredito na democracia. Ainda não passei à clandestinidade nem estou na guerrilha. Sou essa privilegiada, ainda. E se me passou pela cabeça renunciar a ser portuguesa, europeia, o que só será possível se adquirir outra nacionalidade, hoje, 7 de Abril fiquei mais longe disso, ao lembrar-me do pensamento ancestral do que se veio a chamar Brasil, a acumulação de outras cabeças. Ampliar e não subtrair. E porque haveremos nós, que vemos Gaza em toda a parte, deixar a Europa aos coveiros da Europa? Estou aqui com Homero, Arendt, Anders, Darwish, como estou com Dante guiado por Virgílio, Goya pintando os fuzilados, Pasolini contra o fascismo.

Vós, oposto de tudo isso, sois a negação do melhor que a Europa pode deixar às suas crianças. Não peço que olheis as de Gaza, muito menos aquela decapitada que ontem vi, porque ao vosso racismo, ou cobardia sem remédio, 18 mil crianças (ou sabemos lá quantas mais) não mudaram nada até hoje.

O presságio é só este: olhem nos olhos das vossas crianças.


União Europeia – Manipulação informativa para ocultar a crescente agitação social com as despesas militares

(Ángeles Maestro, in Resistir, 10/04/2025)


Apesar de toda a gigantesca manipulação de informação, cada vez mais pessoas estão convencidas de que os verdadeiros inimigos dos povos são os seus governos, a Comissão Europeia, a NATO e, acima de tudo, a oligarquia que puxa os cordelinhos nos bastidores.


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Nos países de uma UE que se precipita no abismo, as classes dominantes e os seus governos estão conscientes de estarem sentados sobre um barril de pólvora. Para tentar evitar a explosão, dedicam-se com zelo inusitado à tentativa de ocultar a realidade.

Ler artigo completo aqui.

A União Europeia perdeu a alma e o rumo

(Viriato Soromenho Marques, in Jornal de Letras, 02/04/2025)


Os focos de tensão mundial são imensos. Israel quebrou o cessar-fogo com o Hamas e prossegue o massacre de civis desarmados. Há fumos de uma agressão dos EUA e de Israel contra o Irão. A matança de combatentes prossegue na Ucrânia. E a União Europeia, em vez de contrariar estas tendências disruptivas, junta-se a elas trocando a sua alma original de força promotora da paz e dos direitos humanos à escala global, pela pulsão de morte, enraizada numa russofobia fanática que nos ameaça devorar a todos.


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NA SEGUNDA DÉCADA deste século tentei compreender se a UE poderia sobreviver às consequências da consistente oposição, liderada pela Alemanha da chanceler Merkel, à indispensável reforma da união monetária do euro. A minha aposta consistia em defender a relação entre a criação de um verdadeiro orçamento federal e a edificação de uma união política, capaz de gerar um governo europeu, com pelo menos o mesmo grau de legitimidade democrática e constitucional que existe nos governos dos Estados-membros. Infelizmente, a realidade, que deve ser sempre a pedra de toque do conhecimento objetivo, mostrou-me que a eventual bondade das minhas propostas – apoiadas na coerência da doutrina e nas lições históricas de sucesso – não colhiam junto dos decisores e atores europeus, individuais e coletivos. Em 2014 e 2019 publiquei dois livros sobre o declínio do projeto da unificação europeia (1). A UE estaria condenada a perder relevância e coesão interna. A recusa do federalismo iria conduzir a um precário “sistema internacional europeu”, uma “nova balança da Europa”, na qual a zona euro, em vez de cola para uma união política posterior, se tornaria, progressivamente, num fator de conflito e desagregação cada vez mais ameaçador.

 Se antes do começo da guerra na Ucrânia, a UE já tinha perdido a alma, isto é, um sentido de propósito com um valor maior do que a simples rotina do business as usual, hoje, mais de três anos de sangrento conflito revelam-nos que a desorientação reinante nas três capitais europeias principais (Bruxelas, Berlim, Paris, acicatadas por Londres, que com o cheiro a pólvora parece ter regressado ao período anterior ao Brexit), está a degenerar num tóxico delírio de impotência e belicismo que nos ameaça arrastar para a autodestruição física.

A UE OSCILOU ao longo dos trinta anos que precederam a guerra da Ucrânia, entre ser um mero figurante, ou um cúmplice de segunda linha da continuada determinação dos EUA para usar a Ucrânia como bastião da sua hegemonia militar na Europa. Os documentos dizem-no sem equívocos, desde o livro de Zbigniew Brzezinski (The Grand Chessboard, 1997) até ao relatório RAND, contendo uma estratégia de aceleração da provocação a Moscovo em torno da Ucrânia (Extending Russia, 2019): com a anuência dos Estados europeus membros da NATO, os EUA prosseguiram com a expansão da Aliança Atlântica, e com a tentativa permanente de nela integrar Kiev, com vista a uma política de mudança de regime e fragmentação da Rússia, como etapa preliminar à contenção e enfrentamento da China. Quando a Rússia passou da diplomacia ao uso da força militar para defender o seu interesse nacional, a UE não só seguiu incondicionalmente a resposta dos EUA, como foi num crescendo de agressividade, sem se preocupar com os danos económicos e sociais imediatos e as consequências estratégicas negativas de longo prazo de transformar a Rússia num inimigo. Seguiram-se três anos de escalada, com a subida de degraus que nos aproximaram de um conflito direto da NATO com a Rússia.

 A vitória de Trump mudou as regras do jogo. Washington parece querer parar a guerra na Europa o mais depressa possível. Percebeu que continuar a escalada, seria um convite à III Guerra Mundial. Trump, por outro lado, mostrou sem máscaras as cartas do jogo geopolítico e militar americano: o que moveu os EUA não foram valores altruístas, mas interesses materiais grosseiros (acesso a matérias-primas estratégicas, encomendas para a indústria de armamento, ocupação do vazio deixado pelas sanções à Rússia na venda de combustíveis fósseis norte-americanos à Europa…). Contudo, aquilo que irritou os dirigentes europeus não foi isso, nem sequer as ameaças de Trump à integridade territorial da Dinamarca, ou do Canadá, mas sim o desejo norte-americano de acabar com uma guerra na Ucrânia, que, a continuar, transbordará para a totalidade do território europeu.

A guerra submete sempre as lideranças políticas a uma prova de fogo. O conflito que devasta a Ucrânia e partes da Rússia, mostrou a perigosa combinação de ignorância e arrogância – nas questões de estratégia militar e relações internacionais – de figuras como Ursula von der Leyen, Macron, Starmer, para não falar de Mark Rutte, Kaja Kallas ou António Costa. Num artigo recente no Público (14 03 2025), Ana Cristina Leonardo recorda a total impreparação de von der Leyen: em abril de 2022 afirmava que “a falência do Estado russo é apenas uma questão de tempo”; em setembro desse ano declarava, com um sorriso de troça: “os militares russos estão a tirar fichas dos seus frigoríficos para os seus equipamentos militares, porque ficaram sem semicondutores”; em fevereiro de 2024 chegou ao ridículo de afirmar que a guerra com a Rússia tinha sido boa para a ecologia europeia, auxiliando a transição energética! O panorama nas capitais nacionais, com escassas exceções não é melhor. Alguém consegue imaginar Luís Montenegro a dizer qualquer coisa, com a densidade de um pensamento, sobre o que significa para o futuro de Portugal a continuação desta guerra?

 O BELICISMO IRRACIONAL da UE é um sinal do seu colapso moral e intelectual. Significa também que na Europa o voluntarismo e o decisionismo arbitrários substituíram o respeito pelas leis, mesmo das leis constitucionais. Vejamos dois exemplos.

Apesar de o Parlamento Europeu (PE) ter sido afastado pela Comissão Europeia da discussão do plano de rearmamento de 800 mil milhões de euros, através do truque de usar o artigo 122º do Tratado de Funcionamento da União Europeia (equiparando, com esse ardil, a corrida aos armamentos à resposta a um “desastre natural”), o PE não deixou de aprovar uma resolução que constituiria uma autêntica declaração de guerra à Rússia, caso Moscovo ainda considerasse a UE como uma entidade credível (2).   De salientar que desde o começo da guerra, a CE atua em matéria de segurança e defesa em constante transgressão das suas competências (artigo 24º do TFUE). Outro exemplo do desrespeito pelo quadro legal ocorreu na Alemanha. A 18 de março, o Parlamento alemão efetuou uma revisão rápida da Constituição federal, para permitir que os artigos limitando as dívidas do governo federal e dos governos estaduais (introduzidos em maio de 2009), fossem suspensos para permitir a criação de um fundo especial, num horizonte de 12 anos, ascendendo a 500 mil milhões de euros, a obter nos mercados da dívida, destinados essencialmente a revitalizar a indústria de armamento, as forças armadas e infraestruturas. Para além de juntar a uma economia em declínio um aumento exponencial da dívida pública germânica, a urgência na aprovação desta revisão, antes da entrada em funcionamento do novo Bundestag eleito em fevereiro, ficou a dever-se a mais um motivo de baixa política: com o novo parlamento, esta proposta não teria sido aprovada, pois a nova composição do Bundestag impediria a revisão de obter os dois terços dos votos necessários para uma alteração constitucional...

Os focos de tensão mundial são imensos. Israel quebrou o cessar-fogo com o Hamas e prossegue o massacre de civis desarmados. Há fumos de uma agressão dos EUA e de Israel contra o Irão. A matança de combatentes prossegue na Ucrânia. E a União Europeia, em vez de contrariar estas tendências disruptivas, junta-se a elas trocando a sua alma original de força promotora da paz e dos direitos humanos à escala global, pela pulsão de morte, enraizada numa russofobia fanática que nos ameaça devorar a todos.

Referências:

  1. Os meus livros, publicados na editora Temas & Debates/Círculo de Leitores, foram os seguintes: Portugal na Queda da Europa (2014) e Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação (2019).
  2. European Parliament resolution of 12 March 2025 on the white paper on the future of European defence (2025/2565(RSP)https://www.europarl.europa.eu/doceo/document/TA-10-2025-0034_EN.html