O nazismo geracional e o Diário de Anne Frank

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 15/10/2024)


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A geração nascida no pós Segunda Guerra, a dos babyboomers, cresceu e foi educada na associação do nazismo à Alemanha e à caraterização do nazismo como uma ideologia assente no racismo, na imposição de um grupo classificado como raça, a raça ariana, como superior e de uma outra raça, a dos judeus, como uma espécie infra-humana, que deveria ser reduzida a cinzas em campos de concentração e depois eliminada em massa.

A geração atual, a do neoliberalismo e da lei da selva, do sucesso assente na violência, dos meios justificarem os fins, está a ser confrontada com o nazismo israelita, que considera os palestinianos infra-humanos e os israelitas a raça eleita e superior. Esta geração não parece ter termo de comparação e desculpa a violência que lhe é servida nos ecrãs assumindo que os israelitas estão a defender os seus valores, como surge nas legendas.

Na Europa e na União Europeia, a geração dos netos dos que fundaram a Europa com base em valores antinazis, os netos da geração que leu o Diário de Anne Frank, estão agora a viver e a participar na ressurreição do nazismo enquanto ideologia e estão a ser condicionados pelos atuais meios de manipulação a aceitar essa ideologia como a “defesa da liberdade e da democracia e do mercado livre”, valores entendidos segundo o seu ponto de vista: sou superior, logo sujeito os outros, se necessário elimino-os. O neoliberalismo era, sempre foi, um produto do ovo do nazismo! Por detrás do espetáculo da liberdade de comportamentos, mas não tanta que não separe cultura branca (a da elite), de cultura afro e de cultura latina ou hispânica, como é visível nos prémios da indústria do infoentretainment da oligarquia americana) encontra-se o racismo das oligarquias designadas por WASP (White, Anglo-Saxon Protestant), um branco, protestante, cuja família tenha origem no noroeste da Europa e que passou a integrar a oligarquia judaica, Rothschild, Rockefeller, Morgan, Goldman entre outros que dominam o mercado financeiro mundial. O liberalismo nem é livre, nem igualitário.

Assentando o nazismo israelita e o nazismo alemão nos mesmos princípios ideológicos, a superioridade rácica ou étnica, ou até religiosa como razão, a justificação para ocupação de territórios e eliminação de povos, a perversidade do nazismo israelita tem a vantagem de ser patrocinada económica, militar e, no essencial, politica e ideologicamente pela superpotência Ocidental, enquanto que o nazismo alemão dispunha apenas das suas próprias forças e atuava por si e pelos seus interesses. O nazismo israelita beneficia do poder financeiro dos Estados Unidos, do seu aparelho militar industrial e da cobertura fornecida pela sua poderosa indústria de comunicação e manipulação da opinião pública. Fatores determinantes e que permitem todos os atrevimentos e provocações.

O nazismo alemão tinha uma doutrina expressa no Mein Kampf (A minha Luta), superioridade rácica, recuperação da antiga ideia nacionalista alemã do “Drang nach Osten”, a necessidade de ganhar o Lebensraum, o espaço vital, que vemos reproduzido nos nacionalistas israelitas na criação do Grande Israel, que inclui o Líbano e a Síria, e na estratégia do Grande Ocidente Global, leia-se dos Estados Unidos, do domínio do Médio Oriente.

Sendo a mesma a base ideológica no nazismo alemão e do nazismo israelita, a radical diferença entre ambos reside no tempo histórico em que eles se manifestam e na inversão de valores que a adoção do nazismo israelita representa na ideologia do Ocidente — no seu sistema de valores.

O neoliberalismo enquanto doutrina dominante no Ocidente justificou e impôs os fundamentos do nazismo como condição para a sua existência enquanto sistema dominante no mundo no século XXI, mas colocou-o em confronto com a emergência de antigas civilização durante séculos sujeitas ao domínio ocidental e que o contestam.

O Ocidente, como a Alemanha de Hitler, justifica-se pela necessidade de impor a sua supremacia através da conquista de territórios e da eliminação de povos para em seu lugar colocar o povo eleito — arianos num caso, judeus israelitas noutro — que servissem os interesses da sede do império, em Berlim, num caso, em Washington atualmente. O nazismo alemão tem, como qualquer fenómeno político, várias causas e várias explicações, mas todas elas vão convergir na necessidade de impor um poder para defender um interesse julgado vital.

No caso do nazismo alemão, além da crise do orgulho ofendido com a derrota na Grande Guerra e da crise económica provocada pelas reparações que resultaram dela, ou da luta contra a ameaça comunista, ele tem, na essência, por base o objetivo da recuperação do estatuto de grande potência mundial por parte da Alemanha, num tempo em que a Europa ainda era o centro do mundo e de esse objetivo apenas poder ser alcançado pela forma mais brutal que pudesse ser utilizada para o efeito. Por isso os alemães estiveram tão perto da construção da arma atómica, um conhecimento científico que os Estados Unidos aproveitariam em Hiroshima e Nagasáqui. Não herdaram apenas o saber técnico, mas também o objetivo que ele proporciona.

No caso do nazismo israelita, estamos a assistir e a participar na repetição dos mesmos princípios do nazismo alemão para imposição de um poder, o dos Estados Unidos, que seja incontestado. Porque são quem financia (paga), arma e, sabemos agora com a presença dos mais altos comandantes militares americanos em Israel, manda e comanda as operações de Israel no Médio Oriente, como já se sabia que era esse o papel da NATO na guerra na Ucrânia, onde vigora um poder de cariz nazi, apoiado pelos Estados Unidos.

Também é interessante verificar que, tal como no nazismo alemão, o nazismo israelita jamais refere que tipo de sociedade pretende impor nos territórios ocupados a não ser que ficam sob a lei da superioridade ariana ou judaica. Estados teocráticos, na sua essência, o que não os distingue do Irão, do Afeganistão ou da Arábia Saudita.

Jamais o Ocidente — os Estados Unidos — referem nos seus planos de guerra e de pós guerra de valores, de Liberdade, de Justiça e de Respeito pelos povos. Tal como o nazismo alemão jamais o fez. Também, tal como no nazismo alemão, o nazismo israelita impôs a mais férrea censura à contestação à sua política e, fundamentalmente, aos resultados desta. Fê-lo, como o nazismo alemão havia feito, eliminando intelectuais, jornalistas e repórteres e impondo regras leoninas sobre segredo de Estado, utilizando os onze princípios de propaganda de Goebbels, o ministro de Hitler.

Os cidadãos dos Ocidente Global passaram a ter direito apenas a uma verdade oficial, todos os que se manifestam contrários são classificados como traidores, marginais e, logo, banidos do rebanho e do espaço público.

A grande vitória do nazismo israelita é que ele provou que o nazismo pode ser apesentado com sucesso como uma ideologia e uma prática que os ocidentais, os europeus, quer os da geração dos babyboomers, quer a dos precários liberais da nova geração, tomam não só como aceitável moralmente, mas como o melhor lugar ideológico para obter sucesso, lugares de topo da administração pública e privada, títulos académicos, negócios e tudo dentro de uma embalagem que apregoa os grandes valores do Ocidente no pós Segunda Guerra, é certo que mais apregoados do que praticados, mas ainda assim invocados.

No pós Segunda guerra, a Europa Ocidental declarava-se Mundo Livre, patrocinadora da libertação de África, liberal nos costumes e nos mercados, acolhedora de emigrantes de mão de obra barata, mas implacável com os que colocassem em causa a ordem e a exclusividade da violência por parte do Estado, mantendo nos seus aparelhos de poder uma rede protofascista de desestabilização, a GLADIO, gerida pela NATO, aceitando as ditaduras portuguesa, espanhola e grega. Chegou o momento de a embalagem ir borda fora!

A normalização de Hitler e do Mein Kampf tem sido feita diante dos nossos olhos através da glorificação de Zelenski, o ilusionista escolhido pelos americanos para transformar os batalhões nazis em combatentes da liberdade e os antigos nazis em heróis, caso de Bandera e de apresentar Netanyahou como o Herodes que, segundo a Bíblia cristã, ordenou a matança dos inocentes para evitar o nascimento de um verdadeiro rei dos Judeus, que ameaçasse o poder romano.

A normalização de uma estratégia nazi está certificada nos documentos que definem a política dos Estados Unidos para o século XXI, entre eles os recentes National Security Strategy (NSS) e National Defence Strategy (NDS) publicados na segunda metade de 2022 pela administração Biden, que reafirmam a preeminência dos Estados Unidos na ordem mundial em termos militares e económicos e referem a continuidade dos esforços de Donald Trump para estabelecer regras que garantam os meios para as empresas americanas “vencerem na cena mundial”. O Irão é um grande produtor de petróleo e um grande exportador para a China, o inimigo principal dos Estados Unidos económica e militarmente.

Israel representa o papel de provocador de um conflito que permita aos Estados Unidos atacar a China e as suas empresas por via da dificuldade de abastecimento de energia. Os Estados Unidos estarão por detrás do ataque de Israel ao Irão, que utilizou como operações provocatórias e preparatórias o ataque a Gaza, a pretexto do Hamas, o ataque ao Líbano a pretexto do Hezbolah, o assassinato de lideres palestinianos no Irão para dar oportunidade a este ataque.

Imagens do nazismo alemão, tendo a adolescente Anne Frank como figura referencial, do tratamento dado às crianças fechadas no gueto de Varsóvia revelam a herança do nazismo através das práticas dos militares israelitas em Gaza.

Em termos de princípios e valores estamos perante o mesmo fenómeno, o nazismo. Também estamos perante os mesmos objetivos. O nazismo alemão tinha como objetivo a preeminência da Alemanha na cena mundial, cujo centro a Europa ainda representava nos anos vinte do século passado e é pela mesma preeminência, agora ao serviço de um outro patrocinador, e noutro tempo, que o nazismo israelita age para garantir a hegemonia dos Estados Unidos.

O próximo ato de afirmação de luta pela imposição da hegemonia dos Estados Unidos será o ataque ao Irão. Que ele seja desencadeado por um estado nazi caracteriza os valores essenciais pelos quais se rege o estado patrocinador que colocou duas esquadras e forneceu os mais modernos equipamentos de guerra ao serviço de Israel, o estado vassalo. E indicia os valores que vão ser os dominantes no Ocidente Global.

Não foi certamente para defender Israel dos ataques de grupos de guerrilha e resistência que são o Hamas e o Hezbolah que os Estados Unidos deslocaram duas esquadras, forneceram os mais modernos sistemas de armas e, por fim, colocaram em Israel, no comando da operação militar, generais de quatro estrelas do topo da hierarquia das Forças Armadas Americanas, como tem sido a narrativa passada pela comunicação social do Ocidente alargado.

Um êxito no ataque ao Irão será assumido como um êxito americano e um sopro vital para os Democratas, que se apresentarão como os “capitães América” contra os Republicanos; um fracasso ou uma meia vitória será imputada aos israelitas. O nazismo alemão utilizou até ao fim a estratégia de atribuir as vitórias a Hitler e as derrotas aos exércitos executantes no terreno. Os nazis israelitas tanto correm o risco de serem os bodes expiatórias de um mau resultado, como têm a possibilidade de reforçar a condição de elementos indispensáveis ao futuro dos Estados Unidos, com quem partilham os conceitos de conquista e gestão do poder.

Quem está já fora da mesa do jogo de xadrez é o esforçado Zelenski, porque a Ucrânia passou à condição de causa perdida e o Irão passou a ser o objetivo principal para chegar à China.

O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do Sol. – Eclesiastes

Médio Oriente — Um claro momento de exposição da natureza humana

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/10/2024)


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O aniversário dos acontecimentos de 7 de Outubro de 2023, um sangrento ataque de guerrilheiros do Hamas a uma povoação do sistema de ocupação do Estado de Israel do território palestiniano serviu, como se esperava, para a montagem de uma gigantesca campanha de apoio à política que desde a sua fundação o Estado de Israel conduz na Palestina .

Para erigir Israel como mártir e vítima valeu tudo: Inventar a História, esquecer o passado, manipular factos do presente. A linha central da mistificação da justificação dos atos assenta na afirmação do direito “à defesa de Israel” e da sua existência. Na realidade o Estado de Israel é uma entidade política criada pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial e por sua conveniência. O direito à defesa de Israel é o mesmo de qualquer guarnição romana nos confins do império. Tem o direito a defender-se correspondente à força de que dispuser ou lhe for proporcionada. Quanto ao direito à existência do Estado de Israel ele resulta do poder de potências exteriores imporem um bastião armado num ponto chave de domínio de um território. Em resumo, o atual Israel corresponde ao Krak des Chevaliers do tempo das cruzadas, uma fortaleza da Ordem dos Hospitalários na Síria e que serviu como centro de administração e base militar, permitindo aos europeus dominar a ampla região do Médio Oriente.

Desde a ocupação do Krak pelos cruzados da ordem dos Hospitalários, 1142, esta fortaleza foi o centro do conflito entre os cruzados e os árabes com vitórias e derrotas. Na primeira metade do século XIII, enquanto outras fortalezas dos cruzados foram ocupadas, o Krak e sua guarnição permaneceram na sua posse até 1271, sendo a única área importante sob seu controlo. A proximidade da fortaleza dos territórios muçulmanos permitiu-lhe assumir um papel ofensivo como uma base a partir da qual áreas vizinhas poderiam ser atacadas. Em 1250 um exército muçulmano devastou o campo ao redor do castelo. Em 1268, o mestre da ordem, Hugo Revel, informou os superiores que a área estava deserta e que a propriedade do Krak no Reino de Jerusalém já valia pouco. O direito do Krak a existir extinguiu-se com a perda de valor para a estratégia do Ocidente, que iria concentrar-se no seu desenvolvimento e na expansão marítima.

Krak des Chevaliers, como atualmente Israel, são exemplos clássicos de perturbadores estratégicos. Os pregadores da nova história têm inventado um outro, o Irão, agora o responsável pelo genocídio israelita na Palestina e pela invasão do Líbano. O Irão faz parte da história do Médio Oriente desde sempre. Para não ir aos tempos bíblicos, o Médio Oriente e o Norte de África foram dominados por dois grandes impérios, o império persa e o império otomano. Quem não faz parte da história, a não ser como interventor externo, são Israel, o império britânico e o seu herdeiro, os Estados Unidos.

Durante a antiguidade, o império persa englobava os territórios desde a atual Turquia até o Punjab, incluindo o Egito. Do século VII até ao século XI a Pérsia foi anexada pelo império árabe e a partir de então o islamismo passou a ser a religião oficial, mas os iranianos adotaram a versão xiita como forma de reação nacionalista, já que o império árabe seguia a versão sunita. Da mesma forma, a língua persa foi mantida em oposição à língua árabe. Mais tarde a Pérsia vir-se-ia espremida entre os impérios russo na Ásia Central e britânico na Índia. Cada um destes retirou ao Irão territórios que se tornariam Azerbeijão, Quirguistão, Turcomenistão, Tajiquistão, Uzbequistão e partes do Afeganistão.

A Convenção Anglo-Russa de 1907 formalizou as esferas de influência da Rússia e do Reino Unido sobre o norte e o sul do país, respetivamente, onde a potência colonial detinha a decisão final em assuntos económicos. O Xá Cajar concedeu à Anglo-Persian Oil Company autorização para explorar e operar campos de petróleo, que começaram a produzir em 1914. Winston Churchill, que supervisionava a conversão da Marinha Real Britânica para navios de guerra movidos a petróleo, nacionalizou parcialmente a companhia antes do início da Primeira Guerra Mundial.

O atual Irão foi envolvido na Primeira Guerra Mundial devido à sua posição estratégica entre o Afeganistão e os impérios otomano, russo e britânico e ao seu petróleo. Em 1914, o Reino Unido enviou uma força militar à Mesopotâmia para negar aos otomanos o acesso aos campos de petróleo persas. A Alemanha infiltrou agentes na Pérsia para atacar os campos petrolíferos e provocar uma guerra santa contra o governo britânico na Índia. Após a I Grande Guerra o norte do Irão foi ocupado pelo general britânico William Edmund Ironside e o Reino Unido assumiu o controlo dos campos petrolíferos.

Em 1953, após a nacionalização da Anglo-American Oil Company surgiu um conflito entre o xá (pró-americano) e o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh (nacionalista), que levou à deposição e prisão deste num golpe militar realizado com a ajuda dos serviços secretos do Reino Unido e dos Estados Unidos. O xá Reza Pahlevi, que havia fugido do país, retornou e assumiu poderes ditatoriais.

Os laços militares com os Estados Unidos aprofundaram-se em 1971, quando os norte-americanos concederam ao Irão crédito para a compra de armas no valor de um bilião de dólares.

Os Estados Unidos são o herdeiro do império britânico e utilizam Israel como base de ataque na sua estratégia de domínio do Irão. É esta a causa da guerra de Israel contra todos os seus vizinhos e é a recusa em serem submetidos que leva os persas ou iranianos a atacar Israel, que vêm como um factótum americano.

Na década de 80 os interesses no domínio da região do Médio Oriente materializaram-se na guerra Irão-Iraque, oficialmente por razões de definição de fronteiras na região do Shatt al-Arab, onde os rios Tigre e Eufrates se encontram e desaguam no Golfo Pérsico e com um fundo religioso, porquanto o Irão seguia a versão xiita do islamismo, o Iraque era de maioria xiita, mas com um governo sunita e secular. Além disso, o Iraque possuía uma minoria curda que não apoiava o governo iraquiano e, por isso, recebia apoio secreto dos iranianos. Os Estados Unidos apoiaram o Iraque, aliados à Arábia Saudita, dentro da estratégia que está em curso de domínio da versão atual do “Crescente Fértil”, o que inclui os Estados do Golfo, a Arábia Saudita, o Iraque, a Síria, o Líbano e o Egito, tendo como objetivo final o domínio do Irão. Esta estratégia replica a reconstituição do união dos antigos impérios Otomano e do Persa, o domínio do Mediterrâneo Oriental, do Mar Vermelho, do estreito de Ormuz, que permite ameaçar a Rússia e controlar o tráfego marítimo entre o Índico (Índia e China) e o Ocidente através do Canal do Suez. Israel é o pivô desta estratégia e o elemento desestabilizador que a justifica.

O apoio do Irão a vários grupos de resistência na região tem por objetivo opor-se ao domínio dos Estados Unidos que seria a continuação do domínio do império britânico e do regime do Xá Reza Pahlevi.

Durante séculos o desestabilizador da região foi o Império Britânico e desde a revolução industrial e a importância do petróleo, os Estados Unidos e as grandes companhias petrolíferas. O Irão nunca foi um desestabilizador, foi sempre uma entidade sujeita. A justificação de que a Arábia Saudita se aliou aos Estados Unidos por se sentir ameaçada pelo xiismo de Teerão é do domínio da mais despudorada desonestidade. O regime religioso da Arábia Saudita, o wahhabismo sunita, não deve nada em termos de exigência fundamentalista ao xiismo. Grupos terroristas como o Estado Islâmico e a Alqaeda são expressões do radicalismo sunita. O fundamentalismo foi legitimado com a formação da dinastia saudita, no século XVIII, e institucionalizado pelo Reino da Arábia Saudita, formado em 1932, criado pelos ingleses. O fundador da dinastia saudita, Muhammad bin Saud, incorporou na sua política as ideias radicais de Wahhab. Não existe em termos de radicalismo religioso distinção que favoreça o apoio dos Estados Unidos e do Ocidente à Arábia Saudita a não ser a venda de petróleo barato e a compra de material de guerra caro. O resto é hipocrisia e desonestidade intelectual.

Os israelitas são apenas os atuais ocupantes do Krak des Chevaliers que é Israel.

A posição do “resto do mundo” sobre a ação dos Estados Unidos no Médio Oriente reflete o momento de transição das relações de poder que estão em curso. Ao resto do mundo interessa o desgaste que esta guerra provoca nos Estados Unidos, que são quem a paga. À China e à Rússia, em particular, interessa o empenhamento dos EUA nesta região, que limita as possibilidades de intervenção na Ucrânia e em Taiwan. Para os BRICS, esta guerra irá aumentar a já monstruosa dívida pública americana e desvalorizar o dólar, o que é para eles um fator positivo.

A ação de Israel durará até os financiadores americanos entenderem ser lucrativo pagá-la. Uma ação devastadora de Israel sobre o Irão obrigaria os Estados Unidos a empenharem ainda mais meios na região e a aumentar a despesa e é este balanço entre custos e benefícios que os estados maiores financeiros americanos devem estar a fazer relativamente à retaliação de Israel ao Irão.

Contas. Contabilidade. Nada mais do que isso. As vidas humanas estão fora da contabilidade. A nossa civilização é um mercado! Estamos num claro momento de exposição dos valores da nossa civilização e da natureza da humanidade.

BRICS, outra maneira de moldar o mundo

(José Goulão, in AbrilAbril, 13/06/2024)

Levar a sério o significado que Washington, Bruxelas e a NATO pretenderam dar actualmente ao desembarque na Normandia equivale a acreditar que uma equipa de futebol amadora com apenas cinco jogadores foi capaz de derrotar o campeão mundial até então invencível e no zénite do seu esplendor.


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A recente comemoração do 80.º aniversário do dia do Desembarque na Normandia (Dia D) foi uma encenação, uma patética operação de propaganda do mundo unipolar norte-americano para tentar corromper a História e procurar convencer as opiniões públicas internacionais de que a realidade actual no mundo é consequência natural dessa narrativa adulterada segundo métodos tacanhos.

A ausência ostensiva da Federação Russa e a monopolização da vitória contra o nazifascismo pelos países que hoje integram a NATO, ignorando a parte que contribuiu decisivamente para o triunfo dos Aliados na II Guerra Mundial, e sem a qual não teria havido Dia D, é mais um acto da tragicomédia através da qual se pretende reescrever a História.

O formato deste ano para celebração do Dia D simula que os supostos vencedores do nazifascismo, hoje amigados na NATO, incluindo todos os derrotados no conflito de 1939-45, são os mesmos que actualmente combatem o novo fascismo e o «novo Hitler» personificado por Vladimir Putin. Há estórias para crianças muito mais convincentes, nas quais a dualidade entre o Bem e o Mal é exposta com maior criatividade e inteligência do que neste conto para indigentes.

A generalidade dos povos do mundo sabe muito bem – e não esquece – que o nazifascismo foi derrotado porque a União Soviética não apenas conseguiu finalmente travar as hordas hitlerianas, que até então pareciam invencíveis, como reduziu de maneira drástica o seu poder, as suas capacidades militares, circunstância que tornou possível reconfigurar a frente Ocidental e gerar o Dia D.

Levar a sério o significado que Washington, Bruxelas e a NATO pretendem dar actualmente ao desembarque na Normandia equivale a acreditar que uma equipa de futebol amadora com apenas cinco jogadores foi capaz de derrotar o campeão mundial até então invencível e no zénite do seu esplendor.

Numerosos analistas militares sérios e profundamente conhecedores das causas e consequências dos mais determinantes feitos alcançados durante a II Guerra Mundial asseguram que uma hipotética presença do lendário general Patton, endeusado segundo os delírios de Hollywood, nas terríveis e decisivas batalhas de Estalinegrado e Kursk contra as tropas nazis teria sido um zero à esquerda, um empecilho e um pesadelo para os generais soviéticos.

Do fim da URSS aos BRICS

A ordem mundial nascida da II Guerra Mundial acabou com a extinção da União Soviética. É ponto assente. Qualquer outra versão está totalmente desfocada da realidade ou tem intenções propagandísticas como gato escondido com o rabo de fora.

Querer transplantar a guerra contra o nazifascismo para o momento actual é uma manobra primária na qual só acredita quem quer ou tenha sido irremediavelmente envenenado pelos conteúdos tóxicos da comunidade mundial de propaganda, também conhecida por teia internacional de comunicação social corporativa.

Nem a Federação Russa é a Alemanha hitleriana, nem Vladimir Putin, apesar do seu reaccionarismo ideológico e da reactivação dos ambientes sociais retrógrados associados à Igreja Ortodoxa, é Adolf Hitler.

Pelo contrário, e por muito que pese aos polícias de opinião que põem cada vez mais as garras de fora e montaram uma paranóica e pidesca caça aos «amigos de Putin» em cada canto, são os países congregados no Dia D da NATO que financiam, alimentam, armam  e prolongam na Ucrânia a existência de um regime que se reclama herdeiro do nazi-banderismo hitleriano. Ao mesmo tempo que choram, com lágrimas de crocodilo, a ascensão das correntes fascistas (disfarçadas ou não) na Europa. Ou seja, dão o exemplo e depois queixam-se… ou fingem fazê-lo.

Com a desagregação da União Soviética nasceu uma nova ordem mundial, unipolar, sob o domínio imperial e colonial dos Estados Unidos da América. Segundo a «doutrina Wolfowitz» formulada para gerir a nova situação, os Estados Unidos não deveriam (não devem) permitir a existência de qualquer potência com dimensão e poder capaz de rivalizar com Washington. Nem mesmo a União Europeia, como se percebe todos os dias nas andanças das relações transatlânticas, melhor dizendo, na submissão europeia à América.

Nato e nazismo, uma irmandade

Durante quase 20 anos, os aliados da NATO, com destaque esmagador para os Estados Unidos, puseram e dispuseram dos restos mortais da União Soviética; e tudo fizeram, inclusivamente inserindo ministros nos governos de Moscovo, entregando nominalmente a presidência a aberrações humanas e políticas como Boris Ieltsin, para submeter a Rússia à nova ordem unipolar, à selvajaria neoliberal, à ditadura económico-financeira – e, no caso, também política – do Ocidente, prenunciando a sua desagregação territorial.

Simultaneamente, fazendo gato-sapato das promessas feitas em 1990 a Mikhail Gorbatchov, a NATO e depois a União Europeia foram-se expandindo em direcção às fronteiras russas, montando um cerco militar ao território da Federação e acabando por desencadear uma guerra por procuração contra Moscovo através do golpe fascista da Praça Maidan em Kiev, em 2014.

Até que chegou Vladimir Putin, nos primeiros anos do século XXI. Os abutres não estavam satisfeitos, havia ainda muita carniça disponível, afinal a herança económica, industrial e tecnológica soviética não estava tão decomposta como garantiam os salteadores, além de que as matérias-primas disponíveis em volumes astronómicos eram cada vez mais indispensáveis para um mundo ocidental e «civilizado» que se gabava da desindustrialização, da miraculosa e enfática «transição verde» e que, sobretudo a partir de 2008, começou a perceber, ainda que não o admitindo, que a economia de casino tinha mais buracos que um queijo suíço.

Putin tentou arrumar a casa, deu grandes passos nesse sentido e, vade retro socialismo, recuperou o nacionalismo ruralista massivo, de braço dado com a ultramontana mas muito enraizada Igreja Ortodoxa, que nem durante a União Soviética deixara seus créditos por mãos alheias.

Vladimir Putin olhou igualmente para o exterior do país, percebeu desde muito cedo que do Ocidente não havia que esperar coisa boa na bagagem das hordas militares que se iam instalando nas suas fronteiras e, com a inteligência estratégica que não pode deixar de se lhe reconhecer, apostou fundo no conceito de Eurásia, esse imenso continente de Lisboa a Vladivostoque e às Ásias mais orientais, República Popular da China incluída.

Primeiro, com alguns vizinhos, consolidou a organização securitária designada Tratado de Segurança Colectiva (TSC); depois, também agregando a vizinhança, aprofundou a União Económica da Eurásia.

O passo seguinte provocou abalos geoestratégicos. Nasceu a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) em torno do eixo formado pelas duas bestas negras de um Ocidente unipolar e senhor do mundo, disparado em direcção ao domínio globalista. Nele se uniram a Rússia e a China, respectivamente o maior país mundial em área e o país mais populoso, com um crescimento económico fulminante e um imparável desenvolvimento industrial e tecnológico. O cenário não poderia ser mais aterrador para uma «civilização» ultra minoritária no plano planetário, afinal o acanhado «jardim» de Borrell afogado nos pântanos do neoliberalismo e a temer em cada dia que passa a explosão descontrolada de uma revolta social, porque a paciência do ser humano tem limites perante o acelerado avanço do esclavagismo, por muito que tentem poli-lo.

Além da Rússia e da China, juntaram-se à OCX o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão, o Uzbequistão e depois o Irão, permanecendo uma série de observadores regionais, entre eles o Afeganistão. A Bielorrússia será em breve um membro de pleno direito.

Os objectivos principais da OCX são «a paz, a segurança e a estabilidade na região», a «confiança mútua, amizade e relações de boa vontade», a «efectiva cooperação» entre os Estados membros e, escândalo dos escândalos, «promover uma nova ordem internacional democrática, justa e racional».

O interminável pesadelo

«Eles querem criar uma nova ordem internacional», gemeu um dia o então ministro português dos Negócios Estrangeiros e emissário do Departamento de Estado norte-americano, Santos Silva.

Os lamentos irados de SS não tinham só a ver com a Organização de Cooperação de Xangai: centravam-se já no papel crescente, activo e organizado desenvolvido, a partir de 2008, pelo grupo de países chamado BRICS, uma sigla enunciando os Estados membros: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Na cena internacional surgia assim uma organização de grandes nações de quatro continentes, representando mais de 40% da população mundial e mais de 30% do PIB em paridade de poder de compra, que passou a contestar activamente a «ordem internacional baseada em regras», um heterónimo de unipolaridade adoptado pelo poder colonial e imperial dominante. As «regras», desconhecidas, casuísticas e arbitrárias, mais não são do que os instrumentos para que o chamado Ocidente Colectivo, governado a partir de Washington, possa gerir o mundo não apenas à margem, mas também contra o direito internacional e a Carta das Nações Unidas. 

No fundo, a «ordem internacional baseada em regras» é o instrumento de um bando de foras-da-lei que, invocando os mais nobres valores humanistas e democráticos, se acha no direito de submeter e agregar nações retirando-lhes os mais elementares mecanismos de soberania, de manter um assalto permanente contra o planeta multiplicando guerras sem fim, saques de bens, de recursos naturais e matérias-primas; além de penalizações arbitrárias, cruéis e mortíferas contra as populações de países que não cumprem as suas «regras». Uma acção desenvolvida sem respeito pelo meio ambiente do planeta e que agrava a deterioração climática, ao mesmo tempo que diz combatê-la.

O BRICS declara-se nos antípodas destas práticas. Assenta na afirmação da soberania de Estados, considerados iguais entre si, que procuram a cooperação mutuamente benéfica nos planos bilateral e multilateral; e na restauração plena do primado do direito internacional. Entre os princípios invocados pelo BRICS estão o de «evitar a militarização das relações internacionais»; o desenvolvimento harmónico e igualitário, com respeito pelo ambiente, das relações livres entre os países do planeta, «independentemente dos seus sistemas políticos, ideologias, culturas, religiões e raízes civilizacionais»; e «combater o branqueamento de capitais, o financiamento do terrorismo e reforçar o diálogo anticorrupção» – matéria compreensivelmente incómoda para os países das «regras internacionais», porque mexe potencialmente com os paraísos fiscais, a gestão de organizações terroristas como a al-Qaida, o ISIS e tantas outras denominações de ramos dessas mesmas entidades manobradas por estruturas imperiais.

As linhas programáticas do BRICS e as acções já desenvolvidas no terreno cativaram dezenas de nações do mundo, de todos os continentes, incluindo Europa, algumas das quais já integraram o grupo e outras que fazem fila para serem admitidas. A rejeição das relações de tipo colonial e imperial e o tratamento igualitário entre Estados ameaçam, de facto, a ordem «ocidental» e «civilizacional» vigente nos últimos 500 anos; abrem novos horizontes à esmagadora maioria das nações do mundo que, ao mesmo tempo, pretendem um funcionamento democrático e verdadeiramente supranacional da ONU.

Para o BRICS, o ano em curso, sob a presidência da Federação Russa e antecedendo a presidência do Brasil, tem vindo a ser dedicado à integração harmónica dos países admitidos em Janeiro último: Irão, Etiópia, Egipto e Emirados Árabes Unidos.

Outra das linhas da actual presidência tem sido a de reforçar a realização de operações comerciais e financeiras utilizando moedas nacionais dos Estados-membros, de forma a dispensar progressivamente a presença do dólar nas relações internacionais. A criação pelo BRICS de uma moeda transnacional alternativa ao dólar é uma ideia no ovo e de concretização difícil, mas ainda assim bastante para inquietar as instituições financeiras internacionais como o FMI e o Banco Mundial e, sobretudo, Washington, como centro do poder global neoliberal.

Thomas Hill, do Atlantic Council, instituição ao serviço da NATO, escreveu que «os esforços de desdolarização são um desafio significativo para os interesses dos Estados Unidos», como se percebe, uma heresia provocatória. Hill acrescenta que «isso pode limitar a capacidade dos Estados Unidos para executar défices e garantir baixas taxas de juro» – e também a impressão em massa de dólares sem qualquer valor em termos de riqueza para despejar sobre o mundo os seus descontrolados défices orçamentais e a dívida astronómica que o «establishment» não tem a menor intenção de liquidar.

No próximo mês de Outubro realiza-se em Kazan, na República do Tartaristão, integrada na Federação Russa, uma cimeira do BRICS com importância transcendente porque, entre outros temas com peso estratégico – não apenas para o grupo – vão ser apreciadas as candidaturas de numerosos países.

Entre os cinco BRICS existem divergências sobre esta e várias outras matérias. A Índia, ao contrário da China, deseja uma ampliação muito gradual – certamente porque o regime de Narendra Modi se caracteriza por funcionar como uma enguia no cenário internacional, tentando beneficiar do melhor dos mundos entre os círculos anti-imperiais e o Ocidente, o qual, por sua vez, não perde uma oportunidade para acicatar os diferendos territoriais e as contradições ainda existentes entre Nova Deli e Pequim.

Os países membros, contudo, têm conseguido encontrar consensos nas suas cimeiras, aguardando-se com alguma expectativa o tipo de influências que a presença dos novos membros irá exercer. 

O BRICS evoluiu para o conceito de BRICS+ ou BRICS Plus, reflectindo o alargamento, para já, a nove países; mas esta designação corresponde igualmente a uma plataforma de inovação, criatividade e sustentabilidade já representada em 186 países. Trata-se, como se define no seu website, de «uma plataforma internacional de negócios de ponta com a participação de cientistas, especialistas, investidores, políticos e figuras públicas para melhorar a qualidade de vida dos povos em todo o mundo, aperfeiçoando os padrões de responsabilidade ambiental e social do funcionamento das empresas, governos e sociedades».

O BRICS é uma nova realidade com peso no cenário mundial. Apresenta-se como uma forma de moldar o mundo alternativa ao sistema de cunho imperial e ao seu caminho para impôr um globalismo susceptível de reduzir os cidadãos a simples máquinas.

O grupo tem igualmente como um dos seus objectivos o de favorecer parcerias estratégicas, a exemplo da que foi estabelecida entre a Rússia e a China e que tem vindo a ser reforçada e consolidada em sucessivas cimeiras entre Vladimir Putin e Xi Jinping.

Entre os países que solicitaram formalmente a adesão ao grupo estão a Argélia, Bahrein, Bangladesh, Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Koweit, Paquistão, Senegal, Tailândia, Venezuela, Vietname e Iémen. Quanto aos que que já manifestaram interesse em integrar-se, destacam-se a Turquia (membro da NATO e repudiado pela União Europeia), Angola, Arábia Saudita, Camarões, Colômbia, Indonésia, Jamaica, Mianmar, Nicarágua, Síria, Tunísia, Somália, República Democrática do Congo e Zimbabwe, entre vários outros.

O BRICS+ não deve ser encarado isoladamente, mas sim no âmbito de um sistema de reorganização de relações entre as nações, à margem dos mecanismos coloniais, imperiais e globalistas, centrado na região da Eurásia – estratégica à escala global.

O novo sistema de relações igualitárias entre nações independentes e soberanas assenta também num inovador sistema multimodal e transcontinental de mobilidade que institui rotas através do mundo alternativas aos velhos, desgastados e penalizadores movimentos ditados pelos interesses imperiais e coloniais. O sistema criado pela China inspirado nas antigas rotas da seda e o Corredor Internacional de Transportes Norte-Sul, entre a Índia, o Irão e a Rússia, são dois exemplos em pleno desenvolvimento; além do memorando de entendimento já estabelecido na OCX para estabelecer um corredor de mobilidade entre a Bielorrússia, Rússia, Cazaquistão, Uzbequistão, Afeganistão e Paquistão.

As inquietações do Ocidente enquanto dono e senhor do mundo têm razão de ser. Um cenário que enquadra o BRICS+, a Organização de Cooperação de Xangai, a União Económica da Eurásia, com poder de atracção, envolvendo as mais populosas nações do mundo, assente no respeito pelo direito internacional, na soberania dos Estados, ameaça o status quo, apresenta-se efectivamente como alternativa à «ordem internacional baseada em regras». A multipolaridade contesta a sério, pela primeira vez desde o fim da guerra fria, a unipolaridade imperial.

Existe, inegavelmente, um confronto de grandes proporções e decisivo para o que poderá ser o mundo num futuro que não é longínquo.

Testemunhamos no presente um combate sem quartel entre uma ordem mundial em degradação, desmascarada mas militarmente poderosa, belicista, acima das leis internacionais, ancorada em privilégios seculares usurpados, arrogante, segregacionista e xenófoba, que não hesita em violar compromissos assumidos ou em assumi-los de má-fé ciente de que irá violá-los, tudo em nome de uma «civilização» única e dominante; e uma ordem mundial em ascensão, potencialmente apoiada pela maioria das nações do mundo, mesmo algumas que não estão em condições de se manifestar nesse sentido, onde prevalecem as relações entre países soberanos e iguais, guiada pelo direito internacional. Um frente-a-frente entre a unipolaridade e a multipolaridade; entre a «ordem baseada em regras» e o direito internacional; entre a guerra como instrumento prioritário de decisão e o desejo em evitar soluções militares; entre o sistema de uma nação prevalecendo sobre as «aliadas» transformadas em ovelhinhas dóceis alimentando-se de erva tóxica cultivada no «jardim» de Borrell; e uma «selva» de nações dispostas a manter relações mutuamente benéficas, muitas delas ansiosas por libertar-se finalmente da canga colonial. Um confronto entre o capitalismo financeiro e especulativo e o capitalismo industrial e produtivo, entre o G-7 e os BRICS+ conjugados com a Organização de Cooperação de Xangai e outras entidades transcontinentais afins, um sistema cada vez mais determinante no G-20.

A velha ordem não abdica nem está disposta a partilhar o controlo geoestratégico. A exploração da situação sempre irresolúvel no Médio Oriente, sobretudo na Palestina, e a criação artificial da guerra na Ucrânia, em 2014, são exemplos flagrantes dessa recusa ocidental em admitir que a relação de forças mundial está a alterar-se.

Para assegurar os privilégios seculares, a «nossa civilização» tem como objectivos estratégicos indispensáveis o desmantelamento da Rússia em várias «nações», a exemplo do que conseguiu fazer com a União Soviética. E a desestabilização permanente da China recorrendo à armadilha de Taiwan, à ameaça militar permanente e à guerra comercial, tecnológica e das sanções. O «Ocidente colectivo» crê que, rompendo o eixo estratégico Pequim-Moscovo, tem a sobrevivência garantida. Antes disso, porém, pode acontecer que se vire o feitiço contra o feiticeiro. O que aconteceu nas eleições europeias ao truculento napoleãozinho Macron, em França, e ao invertebrado Scholz, na Alemanha, parecem ser advertências para levar a sério. E também não é por acaso que os mais destacados dirigentes europeus invertem a estratégica económica de que tanto se ufanaram e falam agora na necessidade de «reindustrializar» os seus países. Uma correcção de rota que depende do resto do mundo e não dará frutos amanhã.

Quem sabe se mais depressa podem ruir fragorosamente os pilares da União Europeia e as pontes transatlânticas do que a parceria estratégica entre a Rússia e a China?

Mais depressa ainda, a irresponsabilidade psicopática dos que não desistem de continuar donos do mundo pode jogar a cartada desesperada, lançar as armas nucleares para o campo de batalha e então a nova ordem internacional será a dos cemitérios. E não temos assim tanta certeza de que o bom senso prevaleça e, no mínimo, se avance para sérias e credíveis negociações de paz na Ucrânia; e de que haja coragem para travar Israel, porque não se sabe até onde os delírios esotéricos e divinos do sionismo podem chegar. Sobre nós continua, ainda e sempre, a pairar a sentença proferida pelo criminoso de guerra Ariel Sharon ao jornal Guardian de que mais depressa acaba o mundo do que se destrói Israel.

E os povos?

Todos estes confrontos se travam, é natural recordá-lo, à revelia dos povos de todo o mundo e, no essencial, contra as pessoas, contra os seres humanos, as maiores vítimas das guerras, da fome, das migrações, das catástrofes ambientais, da perversão ideológica, do envenenamento mediático. A velha ordem tem as mãos sujas de tudo isto; a ordem em ascensão tem linhas programáticas diferentes mas tudo se passa nos terrenos do capitalismo, sabendo-se ainda que em ambos os campos do confronto a selvajaria neoliberal tem deixado feridas profundas no ser humano. É um confronto titânico à margem dos povos e de que os povos sofrerão as mais nefastas consequências. 

Uma ordem internacional justa e humanista só poderá ser instaurada pelos povos inconformados com o uso e abuso da sua condição humana ao serviço de interesses minoritários contrários aos seus. Por quanto tempo mais durará a sua paciência? Conseguirão despertar antes de a insanidade dominante dar cabo do que ainda resta?