Nem Marques Mendes falou dele!…

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 06/06/2017)

tadeu1

Será que a Europa vai voltar as costas aos Estados Unidos e virar-se para a China? Não faço ideia do que Mao Tse Tung, se fosse vivo, pensaria dessa reviravolta geoestratégica mas há muitos amigos da globalização que, nos últimos tempos, passaram a achar que sim.

Cito um: “estou convencido de que é do interesse chinês que a União Europeia seja uma potência económica com voz forte na cena internacional, o que contribuirá para mitigar o peso dos Estados Unidos como a voz ocidental nas questões de política global”.

O mesmo analista conclui, um pouco mais adiante: “é minha firme convicção de que o reforço de cooperação entre os países da Ásia Oriental e a União Europeia, e não apenas com os Estados Unidos, pode contribuir para a segurança e prosperidade na região”.

O homem das “firmes convicções” em Portugal, como toda a gente se lembra, é o professor Cavaco Silva e é precisamente ele o autor daquelas frases, publicadas como artigo de opinião, quinta-feira passada, pelo site Observador, numa versão do que o ex-Presidente da República foi dizer, nesse mesmo dia, à Coreia do Sul para os participantes do meu desconhecido, peço desculpa, Fórum de Jeju para a Paz e Prosperidade.

São 8606 caracteres sobre “A União Europeia e a Ásia Oriental” publicados no mesmo dia em que Donald Trump oficializou a intenção de saída dos Acordos de Paris, um dos factos apontados pelo professor como “perturbadores da ordem política e económica mundial”.

Pois as convicções de Cavaco Silva, que ainda há um ano e meio eram capazes de ocupar páginas e páginas de jornais e suscitar inúmeras análises de inúmeros colunistas e cronistas encartados, são, agora, totalmente ignoradas.

Durante o fim de semana, nos jornais e sites que li, nem uma referência encontrei. Cinco dias depois uma busca no Google dá… nada!

Há 194 comentários de 30 ou 40 leitores do Observador, muitos anónimos ou com falsas identidades, quatro quintos dos quais ocupados a insultar o articulista ou a insultar os que insultaram o articulista. Poucos parecem ter lido, realmente, o texto.

Note-se que a única intervenção pública anterior de Cavaco Silva, depois de sair da cena política, foi a do lançamento de um livro cheio de acrimónia contra José Sócrates, que ocupou imenso espaço mediático.

Note-se ainda que aquilo que Cavaco Silva diz no texto não é uma irrelevância, quer se esteja de acordo ou não com ele, pois o tema abordado caiu mesmo em cima dos assuntos dominantes da atualidade noticiosa do dia e a sua larga experiência de Estado, apesar de, do meu ponto de vista, ter sido péssima para o país, dá-lhe qualificação mais do que suficiente para abordar o assunto com pertinência.

Finalmente, se comparar esta situação com as ocorridas com textos enviados para os jornais por Ramalho Eanes (fê-lo muito raramente), Mário Soares (semanalmente, durante muito tempo) e Jorge Sampaio (pontualmente), não estarei errado se disser que nenhum dos antigos Presidentes da República foi submetido a um “apagão” mediático tão negro quanto o que recebeu, agora, Cavaco Silva. Nem Marques Mendes lhe deu alguns segundos na SIC!

A explicação para este silêncio ruidosamente embaraçoso para Cavaco Silva parece-me óbvia: o país, à direita, à esquerda, ao centro ou sem qualquer ideologia, já não quer saber dele, precisa mesmo de não saber dele. E isso diz tudo sobre o valor dado hoje pelos portugueses ao legado que o homem das “firmes convicções” lhes deixou: zero.

A história do cavaquismo está por fazer

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 08/04/2017)

cavaco_loureiro

A entrevista a Dias Loureiro – “Temos um Presidente com opinião sobre tudo menos os direitos fundamentais dos cidadãos” – oferece duas passagens geradoras de granítico silêncio no comentariado, seja à direita ou à esquerda:

À boca pequena toda a gente diz que há uma central de informação em tal lado, as pessoas são estas e aquelas… Eu não vou dizer porque ainda vou ter outro processo a seguir, porque não posso provar também, não é? Mas nada acontece, a justiça tem sido incapaz de se investigar a ela própria nas coisas mais comezinhas.

– Cortei com um só amigo, um grande amigo. Um amigo a quem devotei uma amizade incondicional nos últimos 32 anos. Um amigo a quem dei, em tudo, o melhor de que fui capaz. Admirava-o como pessoa e como político. Continuo a admirar a sua obra política como primeiro-ministro. Falo do professor Aníbal Cavaco Silva. Da pessoa. Não lhe falei durante todo o segundo mandato presidencial e quando terminou as funções procurei-o para lhe dizer por quê me afastei dele. Disse-lhe que fui sempre leal à amizade que lhe dediquei. Disse-lhe que ele não o foi em relação à amizade que eu esperava dele. Disse-lhe que tenho a consciência tranquila. Agora a vida segue. A dele e a minha. Sem rancor. Às vezes lembrarei a mágoa.

Na primeira citação, Dias Loureiro está a declarar que tem conhecimento dos nomes dos agentes de Justiça que cometem crimes em conluio com jornalistas e órgãos de comunicação social. E acrescenta que essa informação a que se refere está na posse de muitos que a repetem em círculos privados, na “boca pequena”. Na segunda citação, Dias Loureiro humilha Cavaco Silva e mostra qual dos dois é que detém o poder dentro da relação. Pista: não é o orquestrador da “Inventona de Belém”.

Antes de irmos às ilações que estas duas citações legitimam, uma nota sobre a figura. No seio do PSD sabe-se muitíssimo bem como é que o Manuel de Aguiar da Beira subiu dentro do partido. Corriam anedotas ao longo das décadas sobre os tempos de Coimbra que eram contadas por militantes e dirigentes laranjas. Este aparato sórdido, pois as histórias eram sórdidas, ligava-se com a percepção de que ele se tinha tornado na eminência parda do cavaquismo. E o que foi o cavaquismo? Foi algo sem o qual não teria nascido o BPN, por exemplo, daí a teia de relações entre os seus protagonistas, os da corte de Cavaco e os do banco, sendo que nalguns casos eram exactamente os mesmos. Donde, quando rebentou a crise do BPN, e se deu a intervenção do Ministério Público, muito boa gente jurava que seria impossível tocar em Dias Loureiro. A lógica sendo a de que, se ele caísse, inevitavelmente cairia Cavaco. E jamais a oligarquia deixaria que isso acontecesse.

Os factos vieram dar razão a estas profecias, pois Dias Loureiro acaba de ver um bizarro e escandaloso despacho de arquivamento a, para todos os efeitos práticos, ilibá-lo de crimes que o Ministério Público mantém terem acontecido por sua responsabilidade, por um lado, e Cavaco permite-se gozar com o regime e a comunidade, vindo mentir pateticamente a respeito de um crime que igualmente cometeu, pelo outro. Do ponto de vista da opinião, são dois escroques. Do ponto de vista da Lei, dois inocentes. E é a Lei o que mais importa.

Voltando às ilações, a primeira consiste nesta constatação: nem quando um cidadão declara ter conhecimento da prática de crimes e de quem são os criminosos tal impele o Ministério Público a agir caso as implicações corporativas e políticas lhe desagradem. Joana Marques Vidal não quer saber se Dias Loureiro mente ou se está na posse de uma valiosíssima informação que permitiria, finalmente, apanhar um dos criminosos na origem das violações do segredo de Justiça? O corolário é o de que os partidos, o Governo e o Presidente da República ficam automaticamente na categoria de cúmplices pela sua passividade e silêncio. A segunda remete para a História de Portugal e, em particular, para a história de Cavaco Silva primeiro-ministro e Presidente da República. O que Dias Loureiro quis mostrar foi que o seu “grande amigo” o atraiçoou e que, portanto, há uma história secreta entre os dois que nunca veio a público. Conhecer essa história corresponderia a conhecer os meandros da oligarquia portuguesa dos últimos 30 anos.


Fonte aqui

Regime, prefere doce ou Salgado?

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 15/03/2017)

 

"Continuei a privar com Ricardo Salgado."

(Marcelo Rebelo de Sousa, 13 de Dezembro de 2015)


A notícia de que o trajecto dos indícios sólidos para os indícios robustos, num périplo de 3 ou 4 anos exposto ao detalhe na indústria da calúnia, tinha finalmente conseguido ligar Sócrates a Salgado não entusiasmou a direita decadente que tem dominado PSD e CDS desde meados dos anos 80. Uns patos-bravos do Interior, apenas se distinguindo dos pedreiros porcalhões pelos Mercedes e pelas inflacionadas baselgas, isso sim. Uns escroques da ralé inglesa e seus envelopes, como no Freeport, mesmo fixe. E um sucateiro, cujo dinheiro tresanda a lixo e mijo, maravilha (é escarafuncharem mais um bocadinho que ainda o vão conseguir enfiar na “Operação Marquês” sem dificuldade). Essa tipologia dos putativos corruptores do odiado, porque temido até ao pavor, Sócrates está em perfeito acordo com a cosmogonia e teodiceia dos pulhas em versão direitola. Agora, o BES? O Espírito Santo mais espírito santo é que se lembrou de comprar um primeiro-ministro? Eh, pá… Então, mas o BES e o GES não alimentaram tantas bocas, e durante tantos anos, dos senhoritos (e suas famílias) que têm pululado nos quadros partidários e dirigentes do PSD e CDS? Atão mas, bá lá ber, será que agora vai-se também saber quem mais é que o santo Salgado comprou ou ajudou a comprar? Quer-se dizer, e isto sim é que é importante: a Comporta, afinal, não era um santuário ao ar livre só com gente séria e melgas em ininterrupto bacanal?

Como está claro desde o início, um processo judicial que leva à prisão de um ex-primeiro ministro por suspeita de corrupção torna-se, acto contínuo, uma questão de regime. Podemos até separar a exploração política do caso que foi e é insistentemente feita através de alguns órgãos de comunicação social, o que permanece incontornável é a gravidade do que está em causa: é impossível que a eventual corrupção, qualquer que se conceba, tenha sido concretizada apenas pela acção de um único indivíduo então no Governo, mesmo que esse indivíduo fosse o chefe do Executivo; aliás, por estar nesse cargo, a realização dos actos corruptos – dada a sua permanente exposição burocrática, política e mediática – implicaria uma logística cuja complexidade está absolutamente ausente em tudo o que foi vertido publicamente até à data e que acabaria necessariamente por envolver o próprio Partido Socialista e sua elite dirigente. Por outro lado, esta é uma questão de regime pela qualidade da investigação e dos actos judiciais que foram assumidos pelo Ministério Público e pelo juiz de instrução. Tal como não queremos viver numa sociedade onde após se deterem suspeitos de crimes, quaisquer crimes, eles sejam humilhados pela turbamulta e espancados pelos polícias só porque parece que cometeram ilegalidades, assim ficará por fazer a história deste processo onde desde o primeiro momento condicionador da liberdade de um cidadão, a detenção de Sócrates no aeroporto acabado de chegar a Portugal, tudo tem sido feito para condenar na praça pública um ex-primeiro-ministro e ex-secretário-geral do PS sem que ele se possa defender de ataques criminosos. Estes actos têm responsáveis, se depois o País se dará ao respeito de os expor e julgar é o que veremos – mas não veremos, né?

E como temos descoberto nas últimas semanas, tocar em Ricardo Salgado é abraçar o regime. Um regime onde até Marcelo Rebelo de Sousa aparece na berlinda como um dos seus mais influentes e poderosos maestros. Perante a magnitude do que está implícito nas acções e omissões do Banco de Portugal e do Governo de Passos, este miserável caso onde ainda nem sequer se conseguiu acusar o bode expiatório da Nação seja do que for é agora uma fonte de luz apontada às mãos, e cabeças, escondidas na escuridão oligárquica.


Fonte aqui