A guerra, esse videojogo

(Manuel Loff, in Público, 14/04/2026)


A guerra contra o Irão mostra como a fascização das relações internacionais avançou de tal forma que EUA e Israel já nem mostram um assomo sequer de preocupação simulada com o direito internacional.


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Desde, pelo menos, a Guerra do Golfo (1991) que tínhamos percebido que a cobertura das guerras americanas as tinha transformado num puro espetáculo mediático, “uma encenação tecnológica”, um “simulacro” que, aos olhos dos seus espetadores (nós próprios), procura substituir-se à realidade. Víamos a escuridão riscada pela trajetória brilhante de mísseis que explodiam em Bagdade, mas, ao contrário da cobertura da guerra do Vietname, 20 anos antes, já não nos mostravam os mortos e os feridos que resultavam daquela espécie de videojogo. Os bombardeamentos da NATO em Belgrado (1999) ou dos EUA no Iraque (2003), nos quais os civis mortos sob as bombas eram descritos como “vítimas colaterais”, vieram acentuar o processo de insensibilização face à violência e à morte. A guerra foi transformada numa encenação que, como escreve Adlene Mohammedi, “segue os códigos da cultura pop e dos videojogos”.

Reforçado por um uso deliberadamente grosseiro das redes sociais – por Trump, mas não só –, “o ataque contra o Irão desencadeado por Washington e Telavive confere a este mesmo fenómeno uma outra dimensão. A morte é banalizada, é até glorificada em certos casos (o assassinato do Guia Supremo Ali Khamenei)” (Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, abril 2026). Para Louis Lapeyrie, um investigador da Sorbonne, “esta mudança não é insignificante. Elevar o domínio visual à condição de vitória política, tornar o poder tecnológico no ecrã um fim em si mesmo, é substituir a estratégia pela estética”, especialmente adequado numa “guerra travada sem um objetivo claro, impulsionada apenas pelo espetáculo do seu próprio poder” (Le Monde, 21.3.2026). Por isso, sempre que este padrão de guerra-videojogo se dissolve perante as imagens dos efeitos reais da guerra, da fome e do genocídio em Gaza, por exemplo, percebe-se quer o empenho totalitário de Israel em proibir a entrada de jornalistas independentes, quer o negacionismo desenfreado do genocídio que ele e os seus aliados ocidentais montaram, no que constitui o mais desavergonhado contributo para a negação do próprio Holocausto.

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A guerra contra o Irão, que Israel, no seu velho projeto colonial, alargou ao Líbano, é a enésima confirmação de como a fascização das relações internacionais avançou de tal forma que estadunidenses e israelitas, que se apresentam sempre como “campeões do Ocidente”, já nem mostram um assomo sequer de preocupação simulada com o direito internacional. Como sempre, não faltaram as vozes europeias a dar-lhes razão. Para Von der Leyen, discutir se a guerra de Trump e Netanyahu é ilegal “não capta a essência” (9 de março). Para Luc Ferry, ex-ministro da Educação de um Governo da direita francesa, “o direito internacional é algo fantástico entre nações respeitáveis (…), mas com Estados párias criminosos é uma piada” (8 de março).

Depois de 73 mil palestinianos mortos em Gaza pelas tropas israelitas (20 mil dos quais crianças) desde 7 de outubro, de outros mil na Cisjordânia (a maioria às mãos dos colonos), de 1500 no Líbano só no último mês, da ocupação ilegal continuada da Palestina, de parte do Líbano e da Síria, a UE ainda não encontrou motivos para romper o seu acordo comercial com Israel, muito menos as relações diplomáticas e o apoio militar. “Piada” é o que os governos de quase toda a Europa acham do direito internacional. “Piada” é Von der Leyen continuar a considerar Israel “uma democracia vibrante” e não se lhe conhecer vontade alguma de apurar os comportamentos genocidas nem de Netanyahu, nem de Trump, como manifestou com os de Putin. Trump virou o Hitler narcísico e patético que Chaplin representava no Grande Ditador (1936), promete “apagar uma civilização inteira” e fazer regressar o Irão “à Idade da Pedra”, mas isso não impede que Mark Rutte, o liberal que dirige a NATO, continue a ver nele uma “liderança e visão ousadas”, num tom de “autoflagelação e a auto-humilhação” que ofereceu a Trump “na condenação [da atitude] dos seus compatriotas europeus” (Guardian, 11.4.2026). E esta talvez seja a melhor representação da vacuidade política e ética das “nações respeitáveis” da Europa. E nós no meio delas.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

6 pensamentos sobre “A guerra, esse videojogo

  1. Sem esquecer a Alemanha, que chegou tarde a África mas arrecadou com amplos massacres das populações dos territórios onde hoje e a Namíbia, os povos Nama e Herrero.
    E o plano de colonização nazi da Europa e da União Soviética, a nefasta teoria do espaco vital, com o seu cortejo de atrocidades que não vitimou apenas judeus, mas muitos milhões de europeus, sendo que a União Soviética perdeu 27 milhões dos seus habitantes, a esmagadora maioria dos quais civis chacinados em massacres perfeitamente planeados e coordenados está bem documentado.
    Um avô da Von der Pfizer participou nesse projecto e morreu na Ucrânia as maos das tropas soviéticas.
    Não admira que diga as barbaridade que diz e seja uma fervorosa sionista.
    Israel está a tentar o que a Alemanha não conseguiu. Como disse Merz com as letras todas, “faz o nosso trabalho sujo”.
    Que grande cambada.

  2. Essa treta de que o Direito Internacional deve ser um privilégio das nações ocidentais que terão o direito de se estar nas tintas para isso tudo quando se trata de castigar estados que eles decidem que são parias também cheira a racismo que tresanda.
    E radica, claro, na nefasta Ideia colonialista de que o Ocidente nunca se livrou.
    Que temos uma espécie de direito divino e até um dever de civilizar esses povos bárbaros e selvagens mesmo que para isso tenhamos de matar milhões deles.
    Não admira que existam em Inglaterra em França muitos a pensar assim.
    Não foi fácil nem para uns nem para outros, largar o osso.
    Inglaterra conduziu massacres na Índia e noutros locais, abandonou a Palestina deixando lá um bando de assassinos messiânicos que acreditam que os povos vizinhos são subhumanos e não teem direito algum a existir.
    França teve o seu apogeu na Indochina e na sangrenta guerra da Argélia em que cometeu toda a casta de barbaridades.
    E tanta gente não queria largar aquele osso que até se tentou um golpe de estado contra de Gaulle que acabou com uns quantos fuzilados numa altura em que tal punição já não era comum a Ocidente.
    Para o Ocidente o Direito Internacional sempre foi um conjunto de regras para usar a seu bel prazer.
    Os Direitos Humanos tornaram se uma arma para usar contra quem não se submetesse.
    Em nome da sua imposição o Ocidente arrogou se o direito de pilhar e matar onde bem entendeu.
    Por coincidência todas as intervenções humanitárias se deram em paises ricos em recursos que não tínhamos.
    O sonho colonialista nunca morreu na Europa e por isso temos gente a debitar as atrocidade descritas no artigo.
    E claro que os radicais somos nós. Os que não acreditamos em chacinas em nome nem de Deus, nem dos Direitos Humanos, nem do destapar das mulheres nem do raio que os parta.
    Os que acreditam que se aprendessemos a negociar honestamente estaríamos todos melhor a começar por aqueles que decidimos atacar e destruir em nome dos direitos humanos.
    Vao ver se o mar da Kraken, bicho que teria especial predileção por navios piratas.

  3. Dei por mim a constatar que, aos dias que correm, na comunicação social de massas, há extremistas em todo o lado, menos nos EUA e em Israel… mas os problemas do mundo são todos atribuídos aos extremistas da esquerda radical (“radical left”)… eles é que desestabilizam o mundo…

    …não sei se é um jogo, um videogame ou uma fabricação pop, mas que há uma manipulação retórica e uma distorção forçada da realidade, sem dúvida…

    …os clichés são autênticas peças fabricadas por medida, de forma a melhor “montar” o construto cuja estrutura é a súmula de factóides concebidos como informação, mas que são na verdade feitos de propaganda.

  4. Quer o francês dizer que quem não se curva aos ditames ocidentais e um estado paria e não merece a proteção do direito internacional contra agressões?
    Então porque tanta indignação quando a Rússia interveio na Ucrânia, o país mais corrupto da Europa, o local onde todos os neonazis iam treinar, grande exportador de prostitutas, bebés e ate órgãos humanos?
    E um país que mata dezenas de milhares de pessoas em dois anos, cujos soldados cometem crimes de sodomia contra prisioneiros e se filmam a torturar e matar e um pais respeitável?
    Vao ver se o mar da um cardume de megalodontes.

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