Notas soltas – ou do desplante à subserviência

(Carlos Esperança, in Facebook, 29/06/2025)

A fotografia com Trump vai sair cara aos países da UE e só Pedro Sánchez reservou um espaço sanitário a separá-lo dos vassalos felizes na companhia do Imperador!

1 – O PGR Amadeu Guerra, no caso Spinumviva, promete abrir inquérito a Montenegro “se houver fundamento”, mas não pode a investigação preventiva justificá-lo se a PJ só obtiver os documentos que ele quiser disponibilizar. A investigação preventiva parece criada para arquivar sem investigar. E o PGR já manifestou à Renascença “admiração” pelo PM!

2 – Soube-se que uma morte, durante a greve, foi atribuída a profissionais do INEM. A ministra da Saúde recusa tirar ilações e vai continuar no Governo até cumprir o desígnio de privatizar o SNS, tarefa inadiável dos partidos que votaram contra a sua criação.

3 – Portugal participou na agressão dos EUA ao Irão, através da Base das Lajes, e o PR disse que os EUA pediram autorização ao Governo para 12 aviões de combustível, para navios e aeronaves. Afinal, houve autorização ou, como disse o PM, foi de acordo com o tratado de cedência da Base?  E o que disseram os candidatos presidenciais?  Gouveia e Melo disse que não se pronunciava; Marques Mendes que era “uma não questão” e Seguro não se pronunciou. É desta gente que temos de escolher o PR!

4 – O PM foi a Haia comprometer-se a gastar 3,5% do PIB, até 2035, só em armamento. Não sei se isso se pode fazer, poder pode, porque fez, mas é legítimo tomar medidas tão gravosas para Portugal sem terem sido discutidas na campanha eleitoral? E ao almirante candidato a PR só ocorreu dizer que considera 5% do PIB “meta ambiciosa”!

5 – Pedro Sánchez, PM de Espanha, já tinha problemas com a direita, a extrema-direita, os bispos, a Opus Dei, a Justiça e a Nato. Agora afrontou Trump e os sionistas! Recusa sacrificar o Estado social ao armamentismo da UE, cada vez mais subserviente a Trump e ao seu capataz na Nato, Mark Rutte. E anunciou a defesa em Bruxelas da suspensão imediata pela Europa do Acordo de Associação com Israel “por lhe repugnar a violação constante de direitos humanos na Faixa de Gaza”.

A subserviência aos gazes imperiais... 🙂

 6 – A ameaça de Trump a Espanha, se não cumprir a meta imposta de despesa militar, aliás, da competência exclusiva da UE, esbarrou no vergonhoso silêncio da UE e dos restantes países da Nato. Trump veio à Europa verificar a falta de coluna vertebral dos europeus, extasiar-se com as bajulações e oferecer um boné igual ao seu ao lacaio Mark Rutte. Todos, exceto Sánchez, o ouviram embevecidos a falar “do amor e paixão dos líderes europeus, da vontade de proteger as suas nações e do desejo de que os EUA os ajudem” (sic). Que nojo de gente, Imperador e vassalos!

7 – Montenegro gabou-se de Portugal ser um País fundador da NATO! Ignora que Salazar procedeu à assinatura e promete gastar, ainda neste ano, mais mil milhões de euros, sem precisar de Orçamento retificativo. Que grande herança lhe permite ser tão perdulário! O que assusta é o desejo de recorrer a crédito da UE que pode ser ocultado no OE, mas para pagar, empréstimo e juros, é um ónus para as futuras gerações! Quem o autorizou?

***

Nunca, como com Trump, foram tão desprezados os direitos humanos, desrespeitadas as alianças internacionais e ridicularizadas as organizações multilaterais, incluindo a ONU e a UE, até a própria Nato pelo PR dos EUA, país ao serviço de quem tem estado.

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Lagos – 10 de junho de 2025

(Carlos Esperança, in Facebook, 10/06/2025))


A Pátria, em dívida com benfeitores e filantropos ávidos de veneras, cachaços à espera do aconchego do colar, peitos insuflados para aguentarem o impacto da medalha, foi a Lagos afagá-los em cerimónia vigiada.

Os agraciados são numerosos, mas há outros a quem nunca a venera baterá no peito, sem títulos académicos, militares ou eclesiásticos, simples Pereiras, Silvas ou Oliveiras, sem dinheiro para brasão na casa ou laço de banda de qualquer colar, para a lapela.

É divertido ver o ar dos agraciados e a forma eficiente como os embrulham, com mais esmero do que nas ourivesarias atam as caixinhas das alianças, e dói a manutenção da coreografia, até a soturna evocação, “morte de Camões”, de quem devia celebrar-se a vida dada a incerteza da data e local de nascimento.

O 10 de Junho, cuja simbologia Jorge Sampaio resgatou, há vinte anos que remete para o passado sombrio da ditadura, com gente de negro, pais a receberem medalhas dos filhos, mulheres de maridos mortos e crianças amestradas, junto de Américo Tomás, para lhes ensinarem que deviam estar gratas pela orfandade que as atingira.

A liturgia regressou ao Portugal de Abril, com um presidente eleito a repetir gestos de antigamente, num palanque onde sobem atentos e veneradores os agraciados, com ar de quem vai cumprimentar os familiares do morto.

Está anunciada a outorga de uma venera ao general Ramalho Eanes pelo Comandante Supremo que não foi à tropa, talvez para pedir perdão de o ter combatido na candidatura a PR, ao lado, como sempre, dos piores, para apoiar o general que tinha dirigido um lúgubre presídio, o Campo de S. Nicolau em Angola.

Não simpatizo com o dia, apesar do amor ao poeta e aos dez cantos d’Os Lusíadas. Não vejo televisão nem oiço rádio. Recuso-me a ver cerimónias do passado em ‘playback’.

Prefiro esquecer o épico cosmopolita de que a ditadura se apropriou para a exaltação da suposta raça, ideia de panegiristas de má raça que adularam Salazar. Nem o discurso de Lídia Jorge, cujo mérito é indiscutível, redime a cerimónia lúgubre. Vou ler o poeta lírico:

Sôbolos rios que vão

por Babilónia, me achei,

Onde sentado chorei

as lembranças de Sião

e quanto nela passei.

Ali, o rio corrente

de meus olhos foi manado,

e, tudo bem comparado,

Babilónia ao mal presente,

Sião ao tempo passado.

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Eu e o PS

(Carlos Esperança, in Facebook, 24/05/2025), Revisão da Estátua)

E no fim da noite só se salvou Évora….

(Este texto está escrito na primeira pessoa pelo meu amigo Carlos Esperança, pelo que isso reforça a asserção de que as opiniões políticas nele expressas só a ele responsabilizam. A Estátua não faz propaganda partidária, nem contra o PS nem a seu favor, mas não pode ignorar que há uma “falha” – ideológica e não tectónica -, que divide a esquerda da direita – para usar uma classificação discutível, à falta de melhor -, que passa pelo interior dp PS. Isso fica claro no texto e o autor realiza um debate analítico que muitos simpatizantes e militantes do PS deveriam fazer.

Pela frontalidade sincera das posições expendidas, num exercício de separação ideológica das águas, resolvi publicá-lo.

Estátua de Sal, 25/05/2025)


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Agora que a urgência exige que o PS rapidamente tenha um novo líder, congratulo-me por ver José Luís Carneiro à frente do partido e desejo-lhe as maiores felicidades. É um político decente, sem ser de esquerda.

Não direi mal do PS, para isso bastam os militantes, os que preferem o poder sem cuidar da ideologia, os que estão prontos a denegrir o líder que perde, a favor de qualquer outro que os leve ao poder, os que aceitam que os seus líderes sejam acusados de radicais de esquerda pelos reacionários. Nunca o PS teve um líder radical de esquerda.

Foi assim que renunciaram à herança de Guterres, Sócrates e António Costa e deixaram que os adversários a denegrissem. Falei também de José Sócrates, o PM que a crise das dívidas soberanas destruiu, inovador e corajoso, cujos governos mereciam a defesa dos que querem uma governação entre a social-democracia e a democracia- cristã, devendo saber distinguir entre os problemas judiciais e a qualidade da sua governação.

Antes de José Luís Carneiro ser alvo de investigação preventiva e acusado de radical de esquerda, ele que é de direita, igual a Rui Rio, referência ética do PSD que Marcelo, Montenegro, Aguiar Branco e Ventura, este então no PSD, substituíram por homens de negócios sem visão para o País, continuarei a defender os meus ideais, a democracia liberal e a justiça social de que o IL é inimigo pior do que o Chega.

Assisti ao abandono de Ferro Rodrigues, infamado por um juiz de instrução narcisista e inculto, até ver agora os militantes que a direita mais à direita desejava à frente do PS, sem aí votar, a denegrirem o primeiro governo de António Costa, que os devia honrar, e a afastarem-se de Pedro Nuno dos Santos, imolado em golpes urdidos pelos empresários de Espinho, Montenegro e Hugo Soares.

Até o golpista de Belém, o do parágrafo, o adversário da despenalização do aborto, da regionalização e da decência, o que preferiu à estabilidade, às contas-certas e a Centeno a explosão do partido fascista e a entrega do poder ao bando atual, já foi perdoado.

Os que agora e há um ano invocavam o perigo do Chega para o PS viabilizar o governo reacionário e incompetente de Montenegro, jamais se oporão à aliança do PSD com o Chega, que Cavaco, Moedas e Miguel Relvas defendem. O “não é não”, é não enquanto convier!

A Europa assiste de novo, um século depois, ao advento do fascismo. Caíram primeiro os partidos comunistas, depois os sociais-democratas, enquanto a direita do pós-guerra, que lutou contra o fascismo, se tornou neoliberal e os sociais-democratas se deixaram seduzir pelo triunfo do capitalismo e se confundiram com a direita.

Agora, com a social-democracia afastada através de sucessivas eleições que culminaram golpes palacianos urdidos pelos órgãos que juraram fidelidade à Constituição, só resta a luta entre a direita moderada e a fascista enquanto o PS, como sucedeu em França, Grécia e outros países, se arrisca a desaparecer.

No dia 28 de maio, ironia da data, 99 anos depois, apuram-se os votos da emigração e o Chega passa a maior partido da oposição. No PS a capitulação ganha força. É a vida… 

Eu estarei onde sempre estive. É a vida…