Os cataventos do comentário

(Major-General Carlos Branco, in BlindSpot, 25/08/2023)

A «operação especial» levada a cabo pela Rússia na Ucrânia tem captado a atenção internacional e, em particular, a europeia. Desde a primeira hora que considero ser a solução diplomática o caminho para a paz. Contudo, uma máquina de propaganda bem oleada tem passado a ideia de que era possível uma vitória ucraniana rápida e fácil, o que não coincide com os factos. Apesar desta realidade ser cada vez mais incontornável, os mensageiros dessa propaganda, que repetiram e amplificaram a vitória ucraniana como certa dizendo tudo e o seu contrário, contribuíram para a manipulação da opinião pública que, no momento presente, é confrontada com o falhanço da estratégia de Biden e com a necessidade de uma solução política.


Como muitos analistas, também eu considerei que a Rússia não invadiria a Ucrânia, “só o farão in extremis.” A razão por detrás dessa consideração é, ainda hoje, válida. A Rússia não estava militarmente preparada para o confronto que daí adviria. Tinha-se preparado para enfrentar sanções, mas não para fazer face à resposta solidária do Ocidente, em especial nos termos e na dimensão em que ocorreu. Mas o in extremis aconteceu. As forças ucranianas concentradas no Donbass preparavam-se para atacar as duas repúblicas independentistas. Putin antecipou-se e invadiu a Ucrânia.

A necessidade da solução diplomática

A falta de preparação russa, não constituindo uma debilidade ao ponto de ser militarmente derrotada pela Ucrânia, mesmo ajudada pelo Ocidente, foi responsável pelos revezes em Kharkiv e em Kherson, interpretados por observadores menos experientes como um caminho irreversível para a claudicação. Sem perceber o que se estava a passar, viram erradamente nesses acontecimentos a antecâmara da derrota russa.

A convicção arrogante do Ocidente de que seriam “favas contadas” levou à sabotagem das iniciativas de paz quando, em março de 2022, Zelensky manifestou publicamente a intenção de renunciar a ser membro da NATO. Nessa altura, Minsk estava ainda na agenda e tudo era reversível. A continuação da guerra viria a ter consequências dramáticas em múltiplos aspetos, em particular na convivência futura de povos que tinham, até aí, coexistido sem problemas de maior no mesmo território.

Mas se a Rússia não estava preparada para este embate, o Ocidente também não! Três décadas de operações de paz deram no que deram. Foi evidente a incapacidade do Ocidente para fornecer, em tempo e em quantidade, os recursos necessários à manutenção de uma guerra prolongada.

Embora se soubesse que o confronto não envolveria apenas a Rússia e a Ucrânia, como a Newsweek deu nota, «seria pouco plausível admitir que um país com um PIB de $200 mil milhões e uma população de 44 milhões de habitantes conseguisse derrotar um país com um PIB de $1.8 triliões e uma população de 145 milhões,» ao que se acrescenta uma força aérea «não desprezível», uma indústria de defesa poderosa e capacidade nuclear. «A Ucrânia tem quase tanta possibilidade de vencer uma guerra contra a Rússia como o México tem de vencer uma guerra contra os EUA.».

Exatamente por estar convicto de que a Rússia não iria ser derrotada militarmente, defendi sempre uma solução política para o conflito. O seu prolongamento iria ser altamente prejudicial, em especial para a Ucrânia, mas também para a Europa. Passado um ano e meio, a Ucrânia tem a economia destroçada, o aparelho produtivo destruído, menos de 30 milhões de habitantes, quase 50 mil amputados e mais de 200 mil mortos, civis e militares, numa estimativa modesta. E para quê? A Ucrânia traz à memória a guerra na Bósnia. Três anos de uma guerra fratricida conduziram, em Dayton, a uma solução política pior do que aquela inicialmente encontrada em Lisboa (plano Cutileiro).

A propaganda e os seus mensageiros

Para levar a opinião pública a acreditar numa ideia, mesmo que incoerente ou até estúpida, é preciso montar uma campanha de Comunicação Estratégica, ter mensageiros devidamente socializados com os temas e mensagens articuladas pela potência hegemónica e coniventes com os seus interesses. Ou seja, os mensageiros têm de funcionar como repetidores e amplificadores das mensagens que lhe são impingidas, independentemente do seu conteúdo.

Não têm faltado especialistas instantâneos oriundos dos mais diversos setores de atividade (academia, comunicação social, etc.) para corroborar voluntariamente a mensagem, quais apresentadores de televendas. Para que as massas acreditem na verossimilhança de um plano idiota, também as elites têm de ser coaptadas para a causa. É preciso fazer com que as massas acreditem dogmaticamente ser possível o “Ocidente alargado” derrotar estrategicamente a Rússia, sem colocar “botas no terreno” e recorrendo apenas à «mão-de-obra» ucraniana. Como disse o Presidente polaco Duda, explicando porque é que os EUA deviam mobilizar-se para ajudar a  Ucrânia, «Agora, o imperialismo russo pode ser parado de modo barato, porque os soldados americanos não estão a morrer. Mas, se não pusermos agora um fim à agressão russa, haverá um preço alto a pagar.».

Quem, há um ano, questionava os motivos oficiais desta guerra e não alinhava na versão simples e maniqueísta do «invadido e do invasor», dos bons contra os maus, e antevia que a Rússia não ia ser derrotada, sendo necessária uma solução diplomática, era democraticamente trucidado na praça pública, vítima de julgamentos de carácter, apelidado de putinista, traidor, e objeto de outros encómios. Independentemente da razoabilidade dos seus argumentos, a sua opinião era, por não enquadrada nos cânones permitidos, liminarmente desconsiderada. Esta campanha de comunicação estratégica veio trazer à tona o estado deplorável da democracia e do espaço mediático em que vivemos. Deixou de haver necessidade de escrutinar os argumentos. Qualquer coisa servia.

Não bastavam as infantilidades de fontes «insuspeitas» como os serviços secretos ingleses ou o Instituto dos Estudos da Guerra – os soldados russos não tinham munições, aprendiam a manejar as armas na wikipedia, estavam mal equipados, não tinham meias, Shoigu tinha sido demitido, e Putin tinha vários cancros, etc.  Ouvimos, inclusivamente, a Presidente da Comissão Europeia no Parlamento Europeu dizer, sem se rir, que «o Exército russo está a retirar chips das máquinas de lavar e dos frigoríficos para consertar o seu armamento, porque já não tem semicondutores. A indústria russa está feita em cacos.». Não se ouviu a voz de nenhum mensageiro a comentar tão ridículo disparate. Remeteram-se obedientemente ao silêncio.

A propaganda e o double thinking

O nível de descerebração massiva foi ao ponto de se acreditar, em simultâneo, numa coisa e no seu contrário. Dizia-se que a Rússia estava militarmente de rastos e, no minuto seguinte, que ia invadir a Europa. Aquilo a que George Orwell chamou de double thinking.

A propaganda em que os mensageiros alinharam sem pudor visava criar nas opiniões públicas ocidentais a perceção de que a campanha militar ia ser «um passeio no parque». As sanções iam dar cabo da Rússia. As elites recusaram-se a questionar o óbvio. Esqueceram-se do histórico pantanoso do Vietname, Iraque, Líbia, Afeganistão, etc. Nada aprenderam. Tornaram-se num instrumento de credibilização da propaganda. Salvo honrosas exceções, deleitaram-se com verves belicistas sem questionar a possibilidade de a «coisa» não ser exatamente como se contava. O que seria, por exemplo, a reação da Rússia se confrontada com a eventualidade de uma derrota convencional? Ponderaria o recurso a armas nucleares? Minudências…

Se calhar até nem seria descabido procurar entender as legítimas preocupações securitárias de Moscovo e incluí-las na equação. Nem seria uma ideia original. Já muitos outros pensadores de elevada craveira o fizeram. Não significava abraçar nem defender o regime russo.

A intoxicação das mentes afetou muita gente por esse mundo fora. Como se nada tivesse acontecido em 2014, o Guardian, que antes dava as «boas-vindas à Ucrânia, a nação mais corrupta da Europa»» veio depois afirmar que a “luta pela Ucrânia é o combate pelos ideais liberais»; a Reuters, que antes apontava o «problema neonazi na Ucrânia», veio depois afirmar que «para os combatentes estrangeiros [evitando usar o termo mercenário] a Ucrânia oferece um propósito, camaradagem e uma causa»; enquanto antes a Vox dizia que «um comediante ucraniano tornado presidente está envolvido na confusão da impugnação de Trump», a CNN veio depois dizer que «os ucranianos estão a dar duas lições de democracia que os americanos esqueceram»; o Neweurope veio dizer que a «liderança do presidente ucraniano tornou-se corrupta e autoritária», enquanto o Washington Post (WP) veio mais tarde afinar a pontaria e dizer «Zelensky: o presidente que a TV tornou herói de guerra.». A guerra serviu para reabilitar, por exemplo, Oleh Tyahnybok, líder do partido de extrema-direita Svoboda. Em junho de 2013, Tyahnybok fora impedido de entrar nos EUA pelas suas posições antissemitas, o que não obstou a que, em dezembro de 2013, socializasse com John McCain em Kiev e fosse, em 2014, recebido pelo então Vice-Presidente Joe Biden na Casa Branca. Tudo normal e sem merecer reparos.

Afinal, a Ucrânia não vai vencer

Em fevereiro de 2023, o WP dava já nota da ansiedade que começava a grassar por Washington e colocava pressão sobre Kiev para obter ganhos significativos no campo de batalha, enquanto as armas e a ajuda dos Estados Unidos e dos seus aliados aumentavam. Os trunfos foram apostados na designada contraofensiva ucraniana, que tardava em chegar e que, quando chegou, rapidamente deixou perceber que iria ficar muito aquém das expetativas. Nesta linha, em fevereiro de 2023, o Die Welt avançava com cinco razões para explicar porque era cada vez menos possível a Ucrânia ganhar a guerra. Aos poucos, o Ocidente foi percebendo que a Ucrânia não ia vencer.

A Administração Biden começou discretamente a preparar-se para essa possibilidade. Enquanto, publicamente, a equipa do Presidente Joe Biden oferecia apoio inabalável à Ucrânia – armas e ajuda económica «pelo tempo que for necessário» -, nos bastidores, os funcionários do governo não escondiam o seu ceticismo relativamente à possibilidade de a Ucrânia algum dia vir a recuperar a Crimeia.

Começou a tornar-se difícil disfarçar e encobrir o óbvio: a incapacidade ucraniana para repelir a Rússia do seu território. Afinal, a ofensiva ucraniana não estava a quebrar a Rússia nem era o golpe fatal que ia acabar com a guerra. Washington percebeu e aceitou que a contraofensiva ucraniana não tinha chance. A admissão mais evidente de tal facto foi feita por Richard Haass, antigo presidente do reputado Council on Foreign Relations, «Se a Ucrânia não pode ganhar no campo de batalha, surge inevitavelmente a questão de saber se não será a hora de uma paragem negociada dos combates». Esquecendo-se do apoio prometido à Ucrânia as long as it takes,pragmaticamente Haass diz que «É caro, estamos a ficar sem munições, temos [EUA] outros desafios no mundo para os quais temos de nos preparar.». Imagino que os afegãos que leiam este texto compreendam imediatamente onde pretendo chegar.

Progressivamente, a narrativa do apoio as long as it takes foi sendo substituída pela necessidade de se encontrar uma solução política, surgindo imensas propostas. Um artigo publicado no Wall Street Journal dizia que as negociações dos EUA com a Rússia teriam lugar até ao fim do ano, e apontava a possibilidade de a China vir a ser um dos mediadores.

Ironicamente, Richard Haass e Charles Kupchan escreveram um artigo na Foreign Affairs com o título «O Ocidente precisa de uma nova estratégia para a Ucrânia» (13 de abril de 2023) onde defendiam «um plano para se ir do campo de batalha para a mesa das negociações… por reconhecerem que a Ucrânia é incapaz de expulsar totalmente as forças russas e restaurar a sua integridade territorial». E, acrescentavam que «O Ocidente precisa de uma abordagem que reconheça essas realidades sem sacrificar os seus princípios.», seja lá isso o que for.

Numa entrevista à UnHerd, Edward Luttwak veio dizer que «a guerra na Ucrânia pode terminar antes do esperado», e que «Biden e Putin estão prontos para fazer um acordo.». Luttwak argumentou que «uma mudança na situação geral resultou em líderes mais dispostos a negociar o fim da guerra na Ucrânia.».

A adaptação à nova narrativa

Conforme previ, a estratégia de Biden está a falhar. A probabilidade de não falhar é extremamente reduzida, porque foi mal concebida e assentou em premissas erradas. O Ocidente começa progressivamente a dar-se conta que Kiev não vai vencer. Sente-se que o tom da narrativa está a mudar. E tal sente-se nas manchetes dos órgãos da comunicação social ocidental, em particular da norte-americana. A busca de uma solução política para o conflito começa a prevalecer no discurso dos mensageiros.

Essa alteração de narrativa começa também a notar-se em Portugal, em especial no contorcionismo da maioria dos mensageiros. Ontem diziam que «A Ucrânia tem de ganhar», hoje dizem que «tem de haver compromissos, tem de se negociar uma solução política.». Sempre disponíveis para o que der e vier, uns para enganar e outros para ser enganados, amanhã regurgitarão o que lhes for mais conveniente, moldarão o seu discurso conforme a conveniência e alinhar-se-ão com aquilo que estiver a dar. Impulsionados pelo comboio castrador da propaganda, os mensageiros continuarão a demitir-se dos valores da verdade e enfileirarão na desinformação.

Em matéria de calculo estratégico, o Kremlin tem sido muito discreto no que toca ao anúncio das suas intenções futuras. Só faltava, para tornar tudo mais difícil, e em particular a campanha presidencial de Joe Biden, a Rússia lançar uma contraofensiva decisiva em 2024. Sendo uma hipótese a não descartar, caso tal se verifique estarei atento ao que os mensageiros dirão sobre o assunto, e confrontá-los-ei inevitavelmente com o que andaram a dizer durante dois anos. Avaliaremos então a qualidade do seu contributo para o esclarecimento do público.


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Quem ama realmente a Ucrânia?

(Hugo Dionísio, in Facebook, 31/08/2023)

Daqui a uns dias, a mais absurda “contraofensiva” da história da guerra moderna completará os 3 meses de aniversário. Dezenas de milhares de homens mortos e feridos, centenas de carros de combate destruídos, esta “contraofensiva” preparada pelos “altos” padrões da NATO, comandada pela “inteligência” da NATO e armada com as míticas armas da NATO, não logrou, sequer, chegar à designada linha Surivikin, nomeadamente à primeira de uma série de barreiras fortificadas, atrás das quais aguarda uma reserva militar russa de mais de 250.000 homens que ainda não entraram, sequer, em combate. Para além de uma meia dúzia de vilarejos despovoados, localizados na zona cinzenta, não podemos, com seriedade, contabilizar um único sucesso militar da mais propalada, propagandeada e transparente “contraofensiva” da história.

Rabotino, um vilarejo que no seu esplendor pré-conflito tinha 488 residentes, foi subitamente transformado num significativo e estratégico marco geográfico. Sem qualquer casa de pé, localizado em terra de ninguém e sendo apenas o primeiro ponto de passagem de uma “contraofensiva” que deveria ter chegado há mês e meio atrás ao mar de Azov, continua a revelar-se inultrapassável para as forças do regime de Kiev. E tantas vezes a máquina de mistificação social – que designam como “comunicação social” – anunciou a tomada deste “importantíssimo” vilarejo! Há uma semana era o orgulhoso e arrogante General da NATO, Mark Milley. O tal que dizia que, sob o seu comando e sem apoio aéreo, as forças que comanda, à distância de um clique do seu rato, chegariam a Azov nuns dias (chegou a falar-se em dias!), e que se recusa a ver a sua “contraofensiva” como falhada. Há dois dias foi a vice-ministra da defesa quem o anunciou.

O que é que esta realidade tinha de inesperado? Absolutamente nada! Talvez apenas a teimosia, frieza psicopatológica e teimosia senil, por parte do regime de Kiev, em seguir os ditames dos seus mestres ocidentais e, seguindo-os, continuar a atirar para a morte certa centenas de milhares dos seus homens e mulheres. Para Mark Milley é fácil dizer “não podemos deixar-nos impressionar com as elevadas baixas humanas”. O que já não é compreensível é esta frieza encontrar-se também nos corações da oligarquia política e económica que dirige, hoje, o horrível destino do país “404”.

Se, sem mobilização total, o povo trabalhador era literalmente arrancado à sua vida, fosse na rua, em casa ou nas compras… Como será, agora que foi lançado o próximo passo da loucura? Se, até aqui, o regime tem sobrevivido porque tem enviado para a morte as camadas mais pobres do país, sem voz pública para se fazerem ouvir; daqui para a frente, será o que resta da classe média e pequeno-burguesa a serem afectadas, a não ser que paguem, aos sempre largos bolsos da corrupção, de um regime que, também pela corrupção, aceitou destruir o seu próprio país.

Segundo um estudo apresentado por Scott Ritter (actualmente censurado no Youtube, por dizer demasiadas e inconvenientes verdades) realizado a partir de dados de satélite em que se contabilizou o aumento do número e dimensão dos cemitérios Ucranianos, desde Fevereiro de 2022 estima-se que tenham morrido cerca de 1 milhão de pessoas como resultado da guerra.

Estes são os episódios que faltam na narrativa dos países NATO. Nas fontes informativas NATO, as forças russas estavam “desmoralizadas, mal equipadas, com armas antigas e em mau estado, em motim permanente e comandadas por gente incompetente, cobarde e corrupta”. A sempre prestável Ana Gomes, quando de propaganda se trata, dá-vos um curso sobre como descredibilizar, desumanizar e ridicularizar o inimigo (sem gasóleo para tanques, lembram-se?). Milhazes, sai do curso e fará o resto, escreverá livros, artigos e monólogos inflamados, desdizendo tudo o que disse até 1991. O facto é que, parece que, gente como eles, exageraram tanto na carga de combustível que, a dada altura, os próprios comandantes NATO e os seus patrocinados, começaram a acreditar nos filmes de Hollywood em que se tornaram os telejornais, confundindo-os com a própria realidade. Foi tão caricato que surgiam comentários de comandantes ucranianos afectos ao regime de Kiev, nas redes sociais, dizendo que, quando a “contraofensiva” começasse e os russos os vissem, logo desatariam a fugir e a render-se.

Mesmo depois do fracasso do lançamento da “contraofensiva” e do constante bater com a cabeça na parede… Nos EUA começaram a surgir ecos, em especial nos órgãos de enviesamento republicano, em que, envergonhadamente e sempre na lógica de “uma no cravo, outra na ferradura”, alguns articulistas, politólogos e analistas começaram a reconhecer o fracasso da coisa e a desconexão entre a realidade observada e a realidade avaliada.

Contudo, na Europa, em especial aqui no nosso burgo, todos continuaram a acordar, de manhã, com “as forças de Kiev estão a avançar”. Com excepção dos mesmos de sempre, objectividade foi coisa que continuou a não existir, nos meios mainstream. O avanço reportado é tanto que, por esta hora, as forças do regime de Kiev já deveriam ter chegado a Vladivostok.

Na semana passada a CNN Portugal chegou mesmo ao cúmulo de dizer “as forças de Kiev chegaram à Crimeia”. Um barco, com uns quantos suicidas, para efeitos de propaganda mediática, conseguiu, pela calada da noite, chegar à costa e lá colocar uma bandeira, filmar e fotografar. Morreram todos. Esta parte a CNN Portugal não contou. Aliás, mostrou mesmo imagens de veículos militares russos nas ruas de Sebastopol, apresentando-as de forma ao espectador pensar que estaria a ver a tal “unidade” das “forças especiais” de Kiev. Na mesma peça diziam que as forças de Kiev tinham atingido a “linha mais importante de defesa das forças russas”, não dizendo que se tratou de uma incursão suicida que acabou como a da Crimeia. E, por fim, ainda diziam que Kiev tinha feito o maior ataque de drones desde sempre, não dizendo que tinham sido praticamente todos detectados e abatidos ou aterrados por meios de guerra electrónica.

O mesmo tipo de análise é feito quando, numa fase já de total desespero, o regime de Kiev recorre ao terrorismo puro e duro, atirando drones e bombas contra alvos estritamente civis, perpetrando actos de pura execução terrorista, contra determinadas pessoas, cujo único pecado é o de pensarem diferente. A estes actos os órgãos da “credibilidade” e do “fact-checking” apelidam de “ataques”, ou então, fazem como o Milhazes, que os refere como “ataques terroristas”, mas nunca diz quem os perpetrou. A outra técnica é apontar sempre para o Kremlin. O NordStream? Foi o Kremlin; a barragem? Foi o Kremlin; A central nuclear? Foi o Kremlin; Prigozhin? Foi o Kremlin… Quem o diz? “Fontes” da “inteligência britânica”, “americana” ou das “forças ucranianas”!

Ninguém esperaria que, do ponto de vista editorial, estes órgãos tomassem o partido dos “inimigos” declarados. Não podemos também esperá-lo das fontes russas, iranianas, indianas, turcas, latino-americanas não-alinhadas com o Ocidente, sauditas… Mas qualquer dos órgãos de comunicação mais representativos destes países, pela minha experiência, mesmo tomando o partido de quem os domina (há sempre quem domine), faz análises mais alargadas, diversificadas e objectivas do que os órgãos ocidentais.

A comprová-lo…. Está a própria realidade. Uma das características da comunicação capitalista na sua fase neoliberal consiste em alienar o espectador da realidade histórica e factual. Não lhe contando a história, ou apenas revisitando-a de forma parcial ou enviesada, o espectador é remetido para uma realidade desconectada entre si, perdendo a capacidade de organização da informação e passando a depender, ainda mais, do emissor informativo que causa essa dependência.

Notícias surgem, todos os dias, nos nossos jornais, sobre como o sector industrial – em especial no norte do país – se prepara para enfrentar uma enorme crise, em resultado da destruição da base industrial alemã e europeia, em geral. Mais uma vez, como no caso do fracasso da “contraofensiva”, a crise inflacionária, energética, alimentar e industrial na Europa, também nada traz de novo a todos os que, a partir de certa altura (24/02/2022 foi apenas um catalisador), optaram por passar a informar-se em órgãos de comunicação alternativos, passando a integrar a informação ocidental, num leque variado de fontes, ao invés de a utilizar como “a única fonte”.

Vejamos, uma vez mais, o caso ucraniano, para percebermos como diverge a realidade da narrativa que passa nas TV’s, jornais e livros ocidentais. Diz a narrativa oficial, marcada a letras de ouro nos instrumentos legais da UE, que a Ucrânia sempre foi muito maltratada pelos russos e, ainda pior, pelos bolcheviques. Tal é a narrativa que, até se inventou um genocídio alimentar programado só por vingança. Segundo a narrativa, nunca a Ucrânia, ligada à Rússia, poderia almejar qualquer tipo de liberdade e desenvolvimento. Diz a narrativa que, a história soviética da Ucrânia foi um desastre para o povo ucraniano.

O que nos dizem os factos, a realidade? Primeiro que o ódio ao comunismo era tal que o Presidente Kuschma, do PCU, ganhou todas as eleições até à “revolução Laranja”, fomentada pelos EUA, em 2004. E a “revolução laranja” tratou-se de uma artimanha engenhosa e inconstitucional (eleições presidenciais com uma 3ª volta) fomentada pela CIA, para fazer eleger um presidente que lhe fosse simpático, uma vez que já haviam perdido as esperanças em destronar Putin na Rússia.

Segundo, os pais da República ucraniana são os bolcheviques. Até à fundação da República Socialista Soviética da Ucrânia em 25/11/1917, a Ucrânia era uma região do império russo. Era a “ucrânia (fronteira) da Rússia”, território disputado pelos vários impérios adjacentes ao longo de séculos. Para agravar ainda mais o “ódio” bolchevique à Ucrânia, foi Lenine e não outro que, em 1918 lhe junta o Donbass. Porquê? Porque a “odiava” tanto que queria juntar regiões industrializadas russas, para que, com estas, o território ucraniano, como um todo, se pudesse desenvolver. E como se desenvolveu. 

Com um “ódio” ainda mais doentio, Krushev, em 1954, para reforçar a amizade entre russos e ucranianos, fez integrar o oblast da Crimeia (região autónoma da Rússia), na república ucraniana. Afinal, a água e electricidade da Crimeia vinha da Ucrânia.

O ódio era tão grande e irracional que a evolução demográfica da RSSU diz tudo: Em 1922 tinha 26,2 milhões de habitantes; em 1940 tinha já 41 milhões (e tantos que o “Holodomor” fantasiosamente matou); 31,4 em 1946, graças a Bandera; 51,6 milhões em 1990. Em 1991 já passavam dos 52 milhões. Um ódio tão grande que a população duplicou em menos de 70 anos. Parece a Portuguesa e a da Europa ocidental, não é? Era um território tão mau para se viver que a população duplicou em 69 anos!

Depois, de acordo com a narrativa NATO, veio o amor ocidental. E o amor ocidental foi um sucesso. Mas não para o povo ucraniano. Se na URSS a Ucrânia chegou a ser a 5ª economia europeia e a 10ª do mundo, de 1991 a 2004 era um país com indústria de aviação, aeroespacial, gás, petróleo, uma potência agrícola, mineira, um país letrado, de gente inteligente, culta e com todo o potencial para, mesmo após o colapso da URSS, poder continuar como um potentado europeu. Tudo produzia a Ucrânia, naquele conceito “ultrapassado” de soberania e independência nacional, de que os comunistas tanto gostam, mas que é indispensável para sermos livres nas nossas escolhas e destino colectivo e individual. Mesmo vítima da corrupção crescente, assim mesmo, em 2001, a Ucrânia tinha ainda 48,5 milhões de pessoas.

O “amor” ocidental, o “apoio” e a “cooperação” fizeram cair a população do país para 45,2 milhões em 2014; 39,4 em 2015 (saída da Crimeia); 37,3 em 2022 e 26,5 em 2023. Este país deveria ter, continuando o seu ritmo normal de 1990, cerca de 55,6 milhões…. Tem metade! De revolução “democrática” em revolução “democrática”, tornou-se tão bom aí viver que, entre 2001 e 2023, o país perdeu mais de 22 milhões de pessoas. Um sucesso, esta “cooperação” com o Ocidente.

O país passou de ser uma potência económica, para se tornar o mais pobre da europa, estando hoje ligado à máquina de dólares, para não morrer. Literalmente. A Blackrock, Monsanto e outras corporações “amigas” têm comprado, a preço de saldo, tudo o que resta, a indústria está destruída e, em virtude das “vitoriosas” aventuras militares em que se empenharam, estão prestes a perder a ligação ao mar. Ou seja, a paixão do Ocidente pela Ucrânia é de uma toxicidade mortal. É uma espécie de “atracção pelo o abismo”. Ao contrário do que se propagandeia, o país não tem liberdade de expressão, cultural, étnica ou política. Neste país, a única garantia que existe é, ou pagar-se ou ir para à linha da frente, contra os russos, porque o tio Sam manda. Foi para isso que EUA e Inglaterra boicotaram o acordo de Istambul, em Março de 2022. Em cima disto tudo, o país deve mais de 100 biliões aos seus “credores” americanos e europeus. Mais de metade em armas que, ou já queimaram, ou ainda faltam queimar. E como ardem as “wondewaffe” ocidentais, quando levam com os ultrapassados mísseis, drones e projéteis russos.

Seja pela guerra, pela anexação do Donbass e Crimeia pela Rússia ou pela destruição da rede social, económica e cultural existente, este país só está onde está por causa da sua aproximação ao Ocidente e da engenharia social a que a CIA o submeteu, em especial, a partir de 2001. Uma vez mais, esta realidade contrasta totalmente com a narrativa ocidental. Contudo, e também uma vez mais, é corroborada por tantos e tantos países aos quais aconteceu o mesmo. Letónia, Estónia e Lituânia, têm hoje metade da população que tinham em 1991 e das mais baixas taxas de fertilidade do mundo. Qualquer um deles, a ver pelos gastos militares (os mais altos da NATO em % do PIB) e em conjunto com a Polónia, já tirou a senha para se atirar à Rússia, quando a Ucrânia estiver humanamente esgotada. O que, pelas palavras do próprio NYTimes, já acontece. Eis o sucesso do “amor” ocidental.

Assim, três meses após o início de uma contraofensiva que se anunciava falhada, vale a pena relembrar que, quando se tornar, por força das circunstâncias, impossível ao regime de Kiev continuar a acreditar que pode vencer a guerra, há quem o tenha visto, dito e escrito desde o início da “aventura”. E não são poucos… Não passam é na TV!

Quando a Europa se encontrar em pior situação do que aquela em que já se encontra, houve quem o tenha dito, visto e anunciado logo que se instalou a tentação para o abismo. Não se trata de adivinhação: trata-se de diversificação das fontes de informação, sem preconceitos e fugindo à bolha comunicacional que Google, Facebook e Youtube nos colocam à frente.

Nenhuma narrativa substitui a realidade. Apenas a pode esconder por algum tempo. E a realidade diz-nos que a Ucrânia está a morrer e quem a está a matar não são os que, supostamente, aí estão a combater. São os que a “ajudam”, “apoiam” e “suportam”!

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Truanismo — o regime de falsificação da história e dos valores

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 27/08/2023)

A propósito da atuação de Marcelo Rebelo de Sousa na presidência da República, António Barreto escreveu na sua coluna no Público (26/08/23) — Grande angular: «O regime está mudar». “O Presidente vetou tudo. Não por motivos constitucionais, jurídicos e constitucionais, mas por razões políticas e programáticas.” (…) “Além do tradicional, o Presidente parece agora desempenhar vários papéis. O de fiscal da ação política, provedor do cidadão, colegislador, responsável pelas políticas públicas.” (…) “ Estamos a assistir a uma mudança de regime” E exalta como exemplo da virtuosidade da ação de Marcelo Rebelo de Sousa e da mudança de regime a patética visita a Kiev para marcar o ponto: “ O Presidente da República desempenhou na Ucrânia, com garbo (hirto a marchar com os braços colados ao corpo em direção ao mural de Bucha) e competência (sic), cultural (sic — deve ter sido quando falou ucraniano) e afetuosamente (é um distribuidor de afetos ambulante, sabe-se), com brilho e distinção” (é uma nota de um examinador amigo).

A António Barreto salta a boca para a verdade e para a contradição quando afirma (para fazer a quadratura do círculo): “Ultrapassou (sic) as tradições de cerimónia. Dentro das margens estabelecidas pela Constituição (definidas por Barreto), foi um verdadeiro Chefe de Estado (uma figura não contemplada na Constituição) e chefe da política externa” (outro pé fora da Constituição).

As contradições no raciocínio de A Barreto são antigas e evidentes. É evidente que Marcelo Rebelo de Sousa subverte a natureza do regime que foi votado pelos portugueses e que está fixado na Constituição. A primeira conclusão a tirar é a de que estamos perante um abuso de poder exercido por quem se arroga do exercício de um cargo em seu proveito e à margem da lei. A António Barreto não interessa referir o pormenor de que a mudança de regime que ele diz estar em curso coloca a velha e decisiva questão de todos os regimes de saber quem julga os juízes! Nos Estados Unidos os presidentes vão a tribunal!

Estes casos de abuso de poder são tão mais perversos e de chocante desonestidade porquanto são praticados pelos que foram eleitos para respeitar os limites dos outros poderes, o que implica serem particularmente exigentes consigo e com os seus. Não é, manifestamente o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, nem do seu apoiante António Barreto, que interpretam a lei segundo o seu interesse, sem limites. Que se colocam permanentemente na posição do soberano atrevido e do truão irresponsável.

A importância e o foco da mudança de regime que o artigo de António Barreto evoca no título não reside, contudo, apenas na corrupção constitucional e no abuso de poder de Marcelo Rebelo de Sousa que, sendo graves, são uma consequência de uma prática que se tem vindo a impor nas chamadas democracias liberais do Ocidente, cada vez menos democracias, menos liberais e mais totalitárias, iliberais e populistas.

Regimes que têm sido definidos, à falta de melhor, por democracias iliberais — em que os cidadãos votam para uma assembleia que os devia representar, mas em que o poder de facto reside noutras instâncias, capturado por “presidentes”, presidentes de estados, de corporações financeiras e da indústria, de instituições, por manipuladores de opinião, civis e religiosos.

Marcelo Rebelo de Sousa é mais um na linha desse tipo de políticos populistas que incluem personagens como Reagan, como Bush jr, Obama, Blair, Boris Johnson, como João Paulo II ou o bispo da IURD, como Trump, ou, recentemente, como Ursula Von Den Leyen e Zelenski.

É o surgimento destas novas personagens como figuras de efetivo e real poder que carateriza os regimes políticos no espaço civilizacional que reuniu a tradição e a filosofia grega, inglesa e francesa que eram, sublinhe-se, regimes aristocráticos, em que o soberano (mesmo que formalmente presidente de uma república) se deificava, exercia o seu magistério de forma distante, raramente sujava as mãos e se expressava através de vassalos, o mais eficaz dos quais era o truão. O truão, uma palavra de origem provençal, era sustentado pelos reis, pago para fazer passar com zombarias e bobagens, sem tumulto e de forma indolor, as ações mais subtis e perversas do exercício do poder real.

Os novos poderes, os novos regimes a que A. Barreto associa Marcelo Rebelo de Sousa, têm como novidade essencial a tomada do poder pelos truões. Os truões deixaram de ter um soberano para quem trabalhavam e passaram a ter eles o poder. Um processo que já havia sido previsto por George Orwell em O Triunfo dos Porcos e que tem levado vários atores ao poder real, Reagan, Trump, Johnson, Zelenski. Marcelo Rebelo de Sousa era, recorde-se, um popular comentador político nas televisões!

O truanismo de Marcelo Rebelo de Sousa manifestou-se em pelos menos três casos exemplares. O primeiro na triste viagem de salamaleques a Londres para celebrar o Tratado de Aliança Luso-Britânico. O tratado é tudo menos merecedor de hinos e cortesias de dobra da espinha por parte de Portugal. O tratado serviu os interesses dos ingleses, que utilizaram Portugal continental como base de combate a Napoleão e passaram a ter direito ao comércio do Brasil. O tratado transformou (ou oficializou) Portugal numa colónia inglesa, o que não é motivo para os ademanes de Marcelo Rebelo de Sousa perante uma outra figura de decoração, Carlos III, ademanes, vénias e sorrisos que transmitem a mensagem que Portugal e os portugueses se sentem muito bem, felizes, como fiéis servidores e vassalos de suas majestades britanicas. Marcelo Rebelo de Sousa pode ter o dorso moldado para servir de montada, mas não essa atitude não consta do cartão do cidadão.

A segunda exibição truanesca ocorreu com a visita do Papa, durante a Jornada da Juventude: ver um Presidente a fazer de sacristão não é um bom estímulo para nós, enquanto portugueses, nos interrogarmos sobre o papel das várias instituições na nossa sociedade. A beatice de Marcelo pode ser-lhe confortável, mas revela falta de respeito pela responsabilidade individual dos portugueses que decidem por si, segundo o seu livre arbítrio. Os que não pertencem a um rebanho e dispensam pastores não se revêm nestas atitudes.

Por fim, esta risível (talvez seja o melhor qualificativo) visita a Kiev. Em termos políticos é uma prova de vassalagem, de truanismo: o presidente de Portugal está com os Estados Unidos, como Durão Barroso já estivera com Bush na invasão do Iraque e Santos Silva havia estado com Trump a apoiar Guiadó na Venezuela. A visita está nessa linha de vassalagem de um truão. E, não satisfeito com essa tarefa, Marcelo Rebelo de Sousa atribui o colar da Ordem da Liberdade a Zelenski! O qual, suprema ironia, recusa porque é modesto e não quer ficar como único responsável pelo desastre que se prevê venha a ser o futuro da Ucrânia. Nem com a glória, na versão otimista. Por fim, declara que as suas palavras e atitudes comprometem Portugal e os portugueses no seu todo e para sempre! Assim nega o presidente que exerce a função num regime de liberdade, logo de pluralidade, o direito à diferença. A mudança de regime detetada por António Barreto não parece trazer nem liberdade, nem responsabilidade, nem senso das realidades, nem respeito pelos direitos dos cidadãos.

Mas o truanismo, a farsa da atribuição da Ordem da Liberdade a Zelenski nem assenta na personagem Zelenski, nem no processo que o levou ao poder, e que ali o mantém, nem na natureza do regime ucraniano, mas sim na corrupção feita por Marcelo Rebelo de Sousa do conceito de Liberdade que a atribuição (falhada ou não) da Ordem significa a vários títulos. O primeiro dos quais é o presidente da República Portuguesa, professor doutor, constitucionalista e político de relevo desde a mais tenra idade, confundir Liberdade — um valor ético — com Independência — um valor político.

Na Ucrânia o regime no poder luta pelo que entende ser a Independência política e pelos interesses a ela associada. Não luta pela Liberdade. O regime ucraniano e os seus dirigentes não clamam por liberdade (que abafaram): clamam por integração em instituições multinacionais que lhe retiram liberdade sob a forma de parcelas de soberania. Em última estância, o presidente português ofende os ucranianos (não colocando como exigência da perda de soberania que eles se pronunciem livremente) e confunde os portugueses com o abuso da entrega da Ordem da Liberdade a quem pede sujeição, mesmo com o pretexto de se defender de uma invasão, esquecendo o que fez ou não fez para a provocar ou para a evitar. As causas da guerra são não temas para os fiéis que cumprem o seu dever de presença.

A contradição final: Quem impede que a Ucrânia e Zelenski entrem para NATO e para a União Europeia não é a Rússia, são a NATO e a União Europeia que negam a liberdade da Ucrânia, não a recebendo. Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de um Estado membro da NATO e da U E, outorga a Ordem da Liberdade a um Estado a que os seus parceiros negam a liberdade de aderir a esses dois esteios da Liberdade! E depois ri-se tira uma selfie. Em que gaveta, caixote ou armário ucraniano estará metido neste momento o colar da Ordem da Liberdade?

O truanismo segue impante e sem se deter com ninharias.


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