A vitória do avozinho assassino

(José Goulão, in AbrilAbril, 08/08/2024)

O candidato Edmundo González Urrutia, que protagoniza a contestação aos resultados eleitorais na Venezuela, é identificado em documentos da CIA como responsável pelo assassínio de seis jesuítas e dois funcionários, em 16 de Novembro de 1989

O Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela (CNE), única instituição com poder para anunciar os resultados das consultas eleitorais que se realizam no país, como acontece em qualquer Estado de direito, divulgou os números praticamente finais das eleições presidenciais realizadas em 28 de Julho. Com 96,87% dos votos contados, apesar da contínua e violenta guerra cibernética lançada do estrangeiro contra o sistema informático em que assenta a estrutura eleitoral Venezuela, o presidente em exercício, Nicolás Maduro, venceu com 6 408 884 votos, correspondentes a 51,8%; na segunda posição ficou o candidato fascista Edmundo González Urrutia, proposto pela Mesa de Unidade Democrática (MUD), movimento dirigido a partir de Washington e presidido pela militante golpista Maria Corina Machado, com 5 326 104 votos, ou 43.18%.

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Quando o óbvio não é óbvio

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 08/08/2024)

A mudança na linguagem de Zelensky sobre conversações com Moscovo não é genuína, é um fingimento, um gesto de simpatia para aliviar a pressão a que começa a ser sujeito.


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Apesar das reticências em o admitir, tanto por Kiev como pelas chancelarias europeias, a guerra na Ucrânia só terminará quando Kiev mostrar disponibilidade para entrar em conversações com Moscovo, aceitar fazer concessões territoriais e adotar um estatuto de neutralidade estratégica semelhante àquele promovido pelo presidente Yanukovych, em 2010, uma inevitabilidade que começa aparentemente a fazer caminho e a impor-se. Mas será mesmo assim?

Para se encontrar uma resposta aceitável à pergunta há que compreender as inconsistências no discurso de Kiev relativamente à sua disponibilidade, manifestada em várias ocasiões, para conversar com Moscovo. Para a aparente abertura de Kiev ao diálogo com o Kremlin terão contribuído, sem qualquer dúvida, as dificuldades cada vez maiores de o Ocidente apoiar o seu esforço de guerra; mesmo excluindo do cálculo estratégico ucraniano a eventual vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas.

Como deixou escapar a Representante Especial dos EUA para a recuperação económica da Ucrânia, Penny Pritzer, vai sendo cada vez mais difícil ao governo norte-americano encontrar financiamento para apoiar Kiev. No mesmo sentido, o jornal “Die Welt” chamou à atenção para o facto de os aliados não se encontrarem em condições para aumentar o fornecimento de armamento à Ucrânia. Parece indiscutível a incapacidade de os europeus poderem colmatar a eventual redução do apoio norte-americano.

Para esta mudança de discurso contribuíram certamente muitos outros fatores, como sejam os avanços russos no terreno – que começam a ser significativos – e a incapacidade de lhes fazer frente, e o desespero causado pela falta de combatentes.

A mobilização forçada abriu feridas difíceis de sarar na coesão social ucraniana, tendo levado a levantamentos populares, curiosamente em cidades situadas na Volínia, na parte ocidental do país, o berço do nazismo ucraniano. A deserção assumiu números avassaladores, tendo os 30 mil casos registados nos primeiros seis meses de 2024 superado largamente os valores registados em todo o ano de 2023.

A isto poderíamos adicionar muitos outros fatores. A situação económica degrada-se a cada dia que passa. As agências de rating atribuíram à Ucrânia a classificação de “C”, o que significa quase incumprimento, ou seja, foi iniciado um processo de incumprimento pelo facto da capacidade de pagamento se encontrar irrevogavelmente comprometida.

A conjugação de todos estes elementos levou Kiev a condescender, e a permitir magnanimamente a presença de um representante da Rússia numa anunciada cimeira de paz a ter lugar, eventualmente, no final deste ano. Tendo como pano de fundo futuras conversações com Moscovo, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmitry Kuleba, numa intensa azáfama diplomática, deslocou-se à China e reuniu-se em Guangzhou com o seu homologo Wang Yi. Kuleba usou este encontro para assinalar a disponibilidade ucraniana para entabular conversações diretamente com a Rússia, não obstante ter alterado posteriormente o discurso após chegar a Kiev.

Segundo Kuleba, a China aproximou-se das posições de Kiev. A infelicidade deste tipo de declarações é reveladora da incapacidade de a elite ucraniana entender o que se passa à sua volta. Não percebeu ainda que não é o centro do mundo e que é descartável. A sua capacidade para influenciar Washington não é comparável à de Netanyahu, que até se pode dar ao luxo de ser ingrato, recuperando as palavras de Biden na sequência da conversa telefónica tida entre ambos.

Ao mesmo tempo que fala em paz, Zelensky também fala em guerra. Não perdeu ainda a esperança de infligir uma derrota militar significativa aos russos. Para isso, e apesar da dificuldade em as equipar e armar, está a preparar 14 novas brigadas. Entretanto, o CEMGFA ucraniano, o general Oleksandr Syrsky descaiu-se dizendo que foi forçado a utilizar algumas dessas unidades para reforçar as unidades em Volchansk e na frente de Pokrovsk.

Infantilmente, Zelensky continua a insistir no armamento maravilha que vai mudar o curso da guerra. A sua crença reside agora na dezena de F-16 que já terão chegado à Ucrânia, e que replicarão os inacreditáveis feitos do “Fantasma de Kiev”. Talvez influenciado pela derradeira e heroica carga a cavalo do que restava dos samurais contra uma barragem de metralhadoras do Exército japonês, protagonizada por Tom Cruise no filme “O Último Samurai”, Zelensky prepara-se agora para o seu último fôlego.

No meio do desnorte, não será de descartar mais uma aventura militar que venha a envolver as hostes ucranianas numa ofensiva final, muito provavelmente ainda este ano e antes da “conferência de paz” promovida por Kiev e pelos seus patrocinadores, convicto de que esmagará os russos e se apresentará na referida conferência na mó de cima, e em condições de lhes impor os termos da paz, fazendo-se passar por vencedor. Não deixa de ser insólito como é que o presidente de um país, com as suas forças a perder diariamente terreno e o país em ruínas, lucubre nestes devaneios ficcionais.

Segundo os rumores que correm, Kiev teria reformulado o seu objetivo estratégico. Em vez da recuperação total e completa dos territórios na posse dos russos, a preocupação seria agora apoderar-se da central nuclear de Zaporizia e aí apostar todas as fichas canalizando o que resta do seu potencial de combate, num último esforço, numa última oportunidade de obter uma posição negocial favorável. Isso explica a temporalidade das conversações com o Kremlin – só após este último confronto, que não terá lugar antes do outono. A jogada é extremamente arriscada. O falhanço conduzirá ao total colapso das forças armadas ucranianas, ditando o fim do regime ucraniano instaurado pelo golpe de estado em Maidan.

Por acreditar ser ainda possível impor aos russos os termos da paz, o lado ucraniano não se encontra próximo do designado impasse doloroso, uma condição indispensável para os litigantes se sentarem à mesa das negociações, o que poderá acontecer apenas no final deste ano. Por isso, a mudança na linguagem de Zelensky sobre conversações com Moscovo não é genuína, é um fingimento, um gesto de simpatia para aliviar a pressão a que começa a ser sujeito.

O caso ucraniano traz-me à memória o conflito entre a Finlândia e a União Soviética, em 1940, com a derrota e a cedência de território por parte da Finlândia. O discurso do comandante das forças armadas finlandesas, o general Carl Gustaf Mannerheim aos seus soldados, no momento da derrota, é incontornável. Zelensky devia lê-lo.

Mannerheim reconheceu que o resultado desfavorável obtido pela Finlândia resultou da valiosa promessa de assistência que as potências ocidentais fizeram e não concretizaram; e que há circunstâncias em que tem de se fazer a paz, mesmo em termos desfavoráveis. A imaturidade política dos líderes ucranianos não lhes permite entenderem isto. Por isso, o seu futuro pode não andar distante daquilo que aconteceu aos samurais.

Com o assassinato de líderes opositores, Israel conduz o mundo para um “ciclo infernal” de guerras

(

(Alfredo Jalife-Rahme, in Diálogos do Sul, 06/08/2024, revisão da Estátua)


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Sobre as represálias do Hezbollah e do Irão, individualmente ou em conjunto, desconhecem-se o seu alcance e profundidade em Israel, mas podem atingir Telavive, Haifa e, de forma ameaçadora, a central nuclear de Dimona, onde se armazenam as suas mais de 300 bombas atómicas clandestinas (ex-presidente Carter dixit).

Após o apoio do chefe do Pentágono, Lloyd Austin, a Israel e contra o Hezbollah – fica a dúvida se inclui o Irão –, a marinha dos EUA enviou 12 navios de guerra e o porta-aviões USS Theodore Roosevelt para o Médio Oriente com 4 mil marines a bordo.

Nas guerras, a primeira vítima é a verdade, e os multimédia israelo-anglo-saxões – os mais poderosos do planeta, dedicados a distorcer verdades e a propalar mentiras – propagaram a fake new de que o assassinado líder político palestino Ismail Haniyeh (IH), juntamente com o seu guarda-costas iraniano, foram vítimas de um dispositivo.

Esse tipo de fake news é projetado para semear a dúvida e a discórdia, além de zombar dos serviços de segurança iranianos que já foram infiltrados e corroídos em várias ocasiões, e glorificar a supremacia ciber-tecnológica de Israel como arma dissuasora.

Pós-verdade e mentiras pró-Israel

Na era da pós-verdade e do Netflix, onde a tríade EUA/Grã-Bretanha/Israel tem a grande vantagem de intoxicar o mundo com fábulas falsas engendradas por Hollywood, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica revelou que o assassinato de IH foi planejado e executado por Israel com o apoio dos EUA e realizado com um projétil de curto alcance e uma ogiva de 7kg.

Existem vários cenários de guerra que variam desde uma guerra de vários frentes, na qual os EUA poderiam intervir diretamente, até outros cenários mais apocalípticos, como os esboçados pelo coronel aposentado Douglas Macgregor – ex-assessor do Pentágono e de Trump –, que sem rodeios declarou que Israel controla os EUA. Já para não falar do Congresso americano cuja maioria de membros bipartidários são generosamente lubrificados pelo AIPAC, o maior lobby israelense nos EUA – tese com a qual concorda John Mearsheimer, um dos maiores geopolíticos do mundo e renomado professor da Universidade de Chicago.

A tese central de Macgregor concentra-se em três pontos:

1. Israel lançaria bombas nucleares táticas contra o Hezbollah, no Sul do Líbano, (ele repete isso, pela segunda vez, num mês);

2. Israel pretende empurrar os EUA para uma guerra para destruir o Irão – ao que se junta o beligerante senador republicano Lindsey Graham, que defende a destruição de centrais nucleares e refinarias do Irão;

3. O perigo da participação da Turquia, membro da NATO! – o Primeiro-ministro turco, Erdogan, afirmou que iria defender os palestinianos em Gaza – e até mesmo do Paquistão (que possui 170 bombas nucleares).

A realidade

A realidade é que Netanyahu voltou mais encorajado do que nunca depois do seu apoteótico discurso diante do Congresso dos EUA. Os assassinatos de líderes – do comandante militar xiita libanês Fuad Shukr, num subúrbio do sul de Beirute, reduto do Hezbollah, e do líder palestino IH: curiosamente, o mais moderado do Hamas, que estava encarregado das negociações com o Qatar, o Egito e a CIA para liberar os reféns israelenses – “assassinaram as esperanças de paz” e encaminharam o Médio Oriente para uma terra incógnita de conflagrações ameaçadoras, suscetíveis de descarrilar e levar a um ciclo infernal de ações e reações que podem culminar num choque entre EUA/NATO contra Rússia e China.

Qual será a reação de Israel, já para não falar da Rússia, que acaba de completar uma troca espetacular de prisioneiros com os EUA, enquanto realiza patrulhas conjuntas com o Irão no mar Cáspio?

Fonte aqui.