«Eles disparam para tudo o que mexe»: carro da RTP alvejado pelo exército israelita

(In AbrilAbril, 31/08/2024)

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Ao entrar na cidade de Jenin, o carro que transportava uma equipa da RTP foi alvejado pelas forças israelitas. «Eles disparam para tudo o que mexe. Não dão sequer oportunidade de diálogo ou de estabelecer um contacto», relatou o enviado da RTP, Paulo Jerónimo.

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Expirou o seguro de vida da “destruição mútuamente assegurada”!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 31/08/2024)

Zelensky mandou bombardear a central nuclear Energodar NPP de Zaporozhye e ameaçar a central de Kursk, pois a sua saúde – literal – depende de arrastar a Rússia para um conflito duradouro e em larga escala.


(Ontem publiquei um texto, “O abc da geopolítica atual explicado às crianças”, (ver aqui), hoje seguem as letras restantes do abcedário neste magnífico artigo do Hugo Dionísio. Depois da sua leitura, só quem não quiser ver é que não saberá identificar de onde partem todos os males e perigos, que ameaçam atualmente a situação geopolítica mundial e – diria mesmo – a sobrevivência da espécie humana sobre a Terra. E, nesse cenário – cuja ocorrência é cada vez mais provável – não interessa de que lado se está, porque não haverá salvação para ninguém.

Sim, talvez cá fiquem as formigas para contar a história.

Parabéns ao autor.

(Estátua de Sal, 02/09/2024)


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À medida que assistimos ao agravamento das tensões geopolíticas, em especial, nos locais mais ricos em recursos naturais, resultando na ruptura dos canais diplomáticos e na crescente radicalização – pelo menos discursiva – dos oponentes, assistimos, por sua vez, a uma clarificação das posições estratégicas respectivas e da sua direcção.

Todos os mecanismos que antes pensávamos garantirem a segurança internacional, estão historicamente expirados. A profunda crise da hegemonia anglo-americana decretou a sua obsolescência. Nenhuma paz sobrevive a uma crise profunda de um qualquer sistema, muito menos de um que vive da exclusividade e da prioridade na pilhagem e exploração dos recursos.

Por muito que se produzam relatórios fantásticos sobre o quão competitiva é a economia estado-unidense, o quão estável e consistente é o dólar e o quão resiliente é a economia sedeada em Wall Street, o facto é que esse relato está longe de encontrar correspondência, onde mais importa: na vida das pessoas, dos trabalhadores, das suas famílias, ou seja, da imensa maioria que tarda em beneficiar de tão monstruosas injecções de democracia. O processo iniciado com a Guerra ao Terror de Bush, continuado por Obama, encontrou epílogo na situação actual. O termo genérico “terrorismo”, cujo combate visava já a contenção de uns e apropriação de outros, evoluiu novamente para um “eixo do mal” concreto. O tempo acabou por nos contar sobre quem os EUA escondiam atrás de tanto “terrorismo”.

A cortina terrorista, ao cair, desvendou os reais objectivos do seu levantamento e a sua ampla e multifacetada natureza instrumental. Hoje, sabemos bem como o termo terrorista condena, sobretudo, os inimigos dos EUA e da sua deriva hegemónica. Os EUA perdem influência económica (e produtiva) de forma continuada, e com ela, esvai-se também o poder político, ainda imenso e alicerçado num exército formal e informal de agentes – cobertos e descobertos – e “influencers” que movem a sua imensa máquina de formatação. À maior máquina organizacional da história começa a faltar a que é a base de sustentação de qualquer existência política: a base económica produtiva real.

No fundo, a base económica sob domínio norte americano já não corresponde ao poder político inversamente desproporcionado que nela se sustenta. A pirâmide está invertida e nem todo o endividamento do mundo a sustentará. A incapacidade crescente, por parte do aparato político, em impedir a corrosão da sua posição relativa, obriga os EUA a um sobrevivente esforço de mitigação, contenção e reversão do seu perecimento e, por último, da falência de toda uma base económica amplamente deficitária, à qual se seguirá, necessariamente, a falência política. E aqui radica a razão fundamental do agravamento das tensões a nível mundial. Em crise profunda, natural e paulatinamente, a base exploradora vai afastando os obstáculos civilizacionais que separam a ganância do seu objecto.

Uma forma de afastar esses obstáculos radica na sua capacidade subversiva. Nomeadamente em derrubar governos legítimos e neles instalar clientes e outros “entreguistas” que asseguram a traição dos seus povos em favor do benefício do império com sede em Wall-Street. O Bangladesh, Indonésia, Geórgia, Sérvia e Venezuela são apenas alguns dos locais, nos quais, não agradando os governantes às grandes corporações que financiam o poder político em Washington, estes se vêem acossados pelos exércitos de ONG, Think Thank, média mainstream e redes sociais da Califórnia.

Pavel Durov, co-líder do Telegram, havia abandonado a Rússia por considerar que as exigências de controlo de Vladimir Putin eram uma violação da liberdade de expressão. Agora, aprendeu à sua custa que, na França Macronista liberalfascista, não fornecer tais garantias dá prisão! Os direitos que se prendem para se libertar a expressão! E tudo em nome da “independência” da justiça.

Os indicadores da decadência são tão evidentes e profusos que mereceriam, por si só, uma reflexão aprofundada e até crítica. Mas digamos assim: mesmo nos seus próprios termos, segundo os seus conceitos e tendo em conta os seus dados, a realidade narrada não sorri aos EUA e à sua “liderança”. Nem nos seus próprios termos é possível aos EUA esconderem a sua falência progressiva. Os BRICS ultrapassaram o G7 em PIB e o volume de transacções económicas que escapam ao controlo de Washington cresce todos os dias, mesmo quando essas transacções são realizadas na sua própria moeda. Um exemplo bem evidente da contradição insanável que assola o sistema monetário e financeiro controlado pelos EUA, reside na utilização do dólar pelos próprios “inimigos” de Washington, para estabilizar as suas economias e garantirem a estabilidade das transacções e dos respectivos mecanismos.

A Venezuela de Maduro, outra vez a braços com mais um episódio do filme shakespeariano “Ganhar ou não ganhar eleições, eis a questão?”, dolarizou a economia, usando as reservas chinesas em dólares e o petróleo que tem em quantidade como nenhum outro país. A China, estando a fazer de Hong Kong um Hub de transacções em cripto moeda, usa o Tether – moeda virtual indexada ao valor do dólar – como mecanismo estabilizador do mercado cripto, garantindo a conversão de dinheiro fiduciário e sem flutuações constantes da Bitcoin, Ethereum ou Solana. O seu valor de capitalização já passou o da Bitcoin, por exemplo. A tão propalada “desdolarização”, afinal até poderá não passar, em parte, pelo menos, de uma “desocidentalização” do dólar e a consequente retirada dos dólares dos bancos controlados por Washington.

É com este pano de fundo que devemos observar a realidade e não no pano cor de rosa, que canta falências inimigas, desafios inultrapassáveis e obstáculos intransponíveis, com o que nos pintam, unanime e disciplinadamente, todos os dias, todos os órgãos “mainstream”. Só assim se percebem as manobras “desesperadas” e aparentemente suicidas que observamos um pouco por todo o lado. De contrário, tendo em conta o pano cor de rosa, acabamos a dizer que Netanyahu é louco, mas democrata, Zelensky é corrupto, mas corajoso, e que todos os outros são bandidos, apesar de muitos não serem corruptos, e ainda menos serem loucos.

Uma vez mais, a solução para a crise das crises, e o consequente extremar das posições, reside na ressuscitação do monstro nazi-fascista, mas, desta feita, dando-lhe uma roupagem mais abrangente e diversa. Trata-se, contudo, do mesmo monstro que, a cada crise do sistema capitalista, tal como nos anos 20 e 30, na Europa e EUA, após a primeira guerra mundial, surge para resolver à força o que os outros lhe negavam pacificamente: o acesso aos recursos naturais, leia-se, energia barata, matérias primas, alimento e mão de obra. A solução para todas as crises repete-se, uma vez mais. Uns usavam a salvação das almas, outros a salvação das pessoas.

Logo após a revolução russa de 1917, o bloco imperialista ocidental, em peso, tinha intenção de jogar a mão àquela reserva extraordinária de todas estas coisas. Perante a resistência encontrada, uma invasão organizada por 14 potências imperiais e uma guerra civil, cuja força contra-revolucionária era apoiada pelo ocidente imperial, não foram suficientes para fazer colapsar tal “diabólico” regime. Os povos Russos e Soviéticos não deixaram. Talvez uma espécie de síndroma de Estocolmo, que se viria, curiosamente, a verificar uma e outra vez, até aos nossos dias. Apesar de ainda hoje, segundo acusações dos mesmos, esse povo viver “acossado” por uma “sanguinária ditadura”.

Foi preciso preparar uma guerra e tal fez-se através da diabolização, estigmatização, fractura das relações e semeando o medo e o ódio entre as populações europeias mais incautas. Nada de novo, portanto. A desumanização, fermentada na crise económica, na concentração de riqueza e na indisponibilidade das elites em repartir, com o trabalho, o que antes a partir dele haviam acumulado, deu a Hitler (e todos os “Hitlers” escondidos) a justificação, de que necessitava, quando olhava para a URSS como a cura para os males que assolavam a Alemanha: petróleo e minério em abundância, terras férteis e mão de obra barata.

Não fosse, uma vez mais, a insistente capacidade de combate daquele povo e os EUA, a Inglaterra e o Japão tinham esfregado as mãos de contentes com os negócios vindouros. Uma vez mais, enganaram-se. Uma vez mais goraram-se as suas possibilidades. E, uma vez mais, lá teve a Federação Russa de passar por agressora. Vítima de uma invasão ocidental a cada 70 anos, a Rússia passa de invadida em invasora. Um acordo como Molotov-Ribbentrop, sendo tão só o último de todos os que foram celebrados entre a Alemanha nazi e um país europeu, transformaram a maior vítima da segunda guerra em sua co-autora. Uma vitória arrasadora e inesperada – pelo ocidente – sobre o seu recém-criado filho, o nazi-fascismo, transformaram a URSS numa espécie de 3.º Reich vermelho.

De qualquer forma e como programado pelas elites reaccionárias que dominam – e sempre dominaram – os EUA, devido ao jogo nos dois tabuleiros, mesmo que em momentos diferentes, a segunda guerra mundial deixou este país colossal numa posição extremamente invejável, tal como a primeira já havia deixado, resolvendo os danos provocados pelo crash de 1929 e transformando-o numa superpotência, a única. Só por isso, e apenas por isso mesmo, foi possível não assistirmos a uma guerra em larga escala, até hoje, na europa. Até que essa posição invejável tivesse sido destroçada ou ameaçada e até que se gorassem, definitivamente, as esperanças de domínio político da Rússia, China e Eurásia. Esgotado o triunfo obtido com a queda da URSS e vendo a União Europeia beneficiar da cooperação continental daí resultante, voltamos ao reinício de todo o processo desumanizador, uma vez mais da Rússia, mas, desta feita, também Irão e China são premiados. Afinal, até há bem pouco tempo prevalecia a esperança de domínio político da China e do Irão, que a cada nova estação conta com uma nova tentativa de “revolução colorida”, normalmente a partir dos Kurdos, que contam com o apoio de… Israel.

A perda da esperança no funcionamento do “soft power” e a urgência da situação, agravada pela recuperação económica russa, da centralidade chinesa e da regionalidade iraniana, fez expirar o “seguro de vida” planetário, que muitos acreditavam estar na doutrina do “mutual assured destruction” (destruição mutuamente garantida), herdada da guerra fria. A doutrina do “mutual assured destruction” só funcionou porque os EUA cedo constataram que conseguiriam suplantar a URSS e que ainda não seria dessa que o seu domínio hegemónico seria colocado em xeque. A adesão da URSS a tratados de não proliferação armamentista e à instituição de uma arquitectura de poder internacional que beneficiou Washington, deu esperança e consolidou certezas de vitória. O vencedor poderia dar-se ao luxo de ser magnânimo.

Os EUA apenas temiam a URSS do ponto de vista militar, mas sabiam que o militar não subsiste sem o poder político, que este depende da economia e que, essa capacidade económica relativa, era insuficiente para garantir uma vitória da URSS. Por outro lado, mesmo que tal não faltasse, as economias estavam separadas de facto, segregadas e o pano de fundo em que os EUA actuavam não era um pano negro de crise, mas um pano arco-íris de expansão. Foi esse pano de fundo, esse pano arco-íris, abrangente, abraçado pelo “uniparty” (partido único) que reúne democratas e republicanos, que conteve os mais ferozes falcões. O seu domínio económico, a sua estratégia de acumulação, não estavam ameaçadas de morte. O “soft power” foi, então, suficiente. Enquanto a URSS manteve pujança, o mundo assistiu a grandes crises como a dos mísseis de Cuba. Já no final, os EUA deram-se ao luxo de estabelecer o consenso de Washington e iniciar a era neoliberal.

Hoje a realidade é bem diferente. Sabendo que a China não é ainda o adversário militar que a URSS foi, os EUA sabem, contudo, que esta tem a economia de que necessita para o ser. E sabem que, apesar de toda a propaganda catastrofista, esta é sustentável, estável e duradoura. A ameaça ao seu domínio é simplesmente formidável. Acresce que, para o ser, a China conta com os 75 milhões de milhões de dólares de reservas naturais classificadas da Rússia. As maiores do mundo, e por muito. China, Rússia, Irão e Venezuela têm mais, muito mais, do que EUA, Canadá e Austrália. A UE não conta para esta estatística. Por outro lado, não tendo o potencial económico da China, a Rússia é um adversário militar formidável, com um capital político crescente, passível de ser alimentado – como se vê no caso dos milhares de sanções contra Moscovo – pela economia Chinesa. A economia Chinesa, está para a Rússia, como os seus recursos naturais e capacidade militar estão para a China. Complementam-se mutuamente, até ao ponto da simbiose, se necessário for.

Dominar o mundo, o sistema produtivo e respectivas cadeias de abastecimento, uma vez mais, exige energia barata; o fim do fóssil que fez parte de uma estratégia de contenção da China não funcionou, pois esta não mordeu o isco e nunca deixou de garantir o domínio de recursos dentro e fora de portas. A hegemonia requer mão-de-obra barata, que a China também tem em quantidade. E requer alimento, muito alimento. Que a Rússia também tem e muito. Para reconquistar a sua hegemonia, os EUA necessitam da Rússia e do Irão, pelo menos. Mais do que nunca. A qualquer custo. Sob pena de derrota! A pressão a que assistimos hoje exercer-se sobre Lula da Silva, nomeadamente na sua traição a Nicolas Maduro, que esteve sempre com ele, mesmo quando as hordas da extrema-direita colocaram em causa a sua vitória eleitoral, demonstra a importância que o Brasil tem para os EUA. O Brasil pode muito bem ser para o Washington o que o Egipto era para Roma, uma fonte interminável de alimento, a qual, associada ao circo – e nos EUA o circo dura 365 dias por ano -, garante o apaziguamento das massas.

Mas é por isto tudo estar em causa, que a doutrina do “mutual assured destruction” deixou de nos parecer tão segura. O medo, o pânico, o simples vislumbre da possibilidade de derrota e perda do que designam de “liderança” mundial, equivalente a “domínio político abrangente”, torna ferozes, obstinados e obsessivos os falcões do capitalismo globalista, hegemónico, superfederativo. Habituados a mandar, ameaçar, dissuadir, punir, subverter, invadir e aniquilar nações inteiras, baseados em mentiras, e a perpetrá-lo de forma impune, não será a possibilidade da morte em massa que os detém. O que os detém é a garantia de vitória, uma vitória total, inquestionável, eterna e esclarecedora, como a que procuraram e conseguiram com o genocídio de Hiroshima e Nagasaki. Perante a possibilidade da derrota, nada os irá deter.

Os EUA, tal como o Império Britânico, não sabem conviver com meios termos, com impasses e lógicas apaziguadoras. A guerra, para eles, é o meio para a paz. O único meio capaz de garantir a vitória esclarecedora que procuram. Nada de meios termos, apenas a vitória certa.

E é por isto que vemos Zelensky mandar bombardear a central nuclear Energodar NPP de Zaporozhye e ameaçar a central de Kursk, pois a sua saúde – literal – depende de arrastar a Rússia para um conflito duradouro e em larga escala. O objectivo, na minha opinião, consiste em levar a Rússia a uma acção desesperada, por exemplo, uma que consista na utilização de uma arma nuclear – táctica ou estratégica – e que, em decorrência, das duas uma: ou os EUA usam o facto para isolar factual e internacionalmente a Rússia e diaboliza-la a um ponto em que o próprio povo russo se vire contra o presidente Putin, ou, em última análise, se tal for necessário, arrastar mesmo a Rússia para um conflito em larga escala, no qual os EUA julgarão, ainda, ter vantagem. Se não julgassem tê-la, não jogariam este perigosíssimo jogo. Podem estar enganados, mas as suas acções são tomadas com as suas próprias convicções.

Outra hipótese consiste na criação de uma provocação, por via dos bombardeamentos de Kiev, originando uma fuga radioactiva que afecte outros países e, dessa forma, os EUA tenham justificações “plausíveis” para acusarem a Rússia de a ter provocado de propósito, seja porque dizem que foi a própria Rússia a fazê-lo, seja porque dizem que a fuga não é de uma central nuclear, mas de uma bomba suja usada por Moscovo. Dir-me-ão: mas os parceiros da Rússia não cairiam numa coisa destas. Pois, mas o objectivo dos EUA é jogado, também, nos tabuleiros nacionais desses países e com os seus povos, nomeadamente, levando esses mesmos povos a rejeitar governos que não respeitam as regras antinucleares, direitos humanos, convenções anti genocídio e proliferação nuclear e por aí fora.

As possibilidades são muitas e os EUA já demonstraram jogar com elas todas. Não sejamos ingénuos sobre o porquê de, nos anos 80, existir tão grande consenso “antinuclear”. Nem os EUA estavam desesperados, deixando o campo informativo mais livre, nem tinham paridade nuclear real. Necessitavam de parar a proliferação e desenvolvimento nuclear do lado soviético. O que também dava jeito à URSS, pois resultaria num aliviar dos cofres. Os EUA jogavam, portanto, nos dois tabuleiros: tentavam arrastar a URSS para uma corrida armamentista dispendiosa, mas de uma forma que não constituísse uma ameaça estratégica. Existem registos, do tempo do “democrata Ieltsin” que demonstram a intenção, por parte dos EUA, em fazer a Rússia prescindir das forças navais nucleares estratégicas, mantendo-se apenas a aviação e as forças terrestres. Daí a lógica do “escudo antimíssil” que assentava que nem uma luva. Afinal, o que os EUA consideravam como tremendamente ameaçador eram os submarinos nucleares. E Ieltsin foi-lhes fazendo a vontade.

No caso do Irão, o jogo é parecido. Temos um Netanyahu, gémeo político de Zelensky, um sionista, outro sionista e nazi-fascista, ambos patriotas anglo-americanos no seu âmago, cuja saúde política – literal – depende de um conflito duradouro e em larga escala. Também, neste caso, é jogada a cartada nuclear. Bastou Blinken dizer que o Irão está “a uma ou duas semanas” da arma nuclear, e tal tornou-se uma verdade indiscutível gravada na pedra. Referem-se “relatórios confidenciais” da AIEA, que nunca ninguém viu e cujos links conduzem a uma descrição dos acordos nucleares com o próprio Irão, chegando a dizer-se que foi este quem incumpriu os termos do JCPOA.

Num e noutro casos, assume-se que, se os EUA dizem, é porque é verdade. Os EUA dizem que o Irão já quase tem armas nucleares – apesar da Fatwa de Al-Komeini proibindo o desenvolvimento nuclear militar -, e ninguém duvida; os EUA falam de um acordo confidencial da AIEA, ninguém o conhece, é confidencial, mas de uma agência pública “transparente” e “independente”, e ninguém duvida; os EUA dizem que a Rússia bombardeia a sua própria central nuclear ninguém duvida. Aliás, Grossi, presidente da AIEA faz mais: diz que “está para além da ciência” provar a origem dos ataques à central de Zaporozhye. Chamem já a equipa do CSI, e Putin levará mais um processo do TPI.

Com a China, o jogo também se joga. As notícias que dão como certa a modernização das forças nucleares chinesas, a “duplicação” das ogivas, constituem objectivos a que os EUA “não podem virar a cara”, como disseram na Casa Branca. Mesmo que os EUA tenham 10 vezes mais ogivas do que o número que a China terá, quando duplicar – se duplicar – as que já tem.

Para já, Zelesnky garantiu a impossibilidade de quaisquer negociações de paz nos próximos tempos e nem a visita – qual pagador de promessas – de Modi muda o cenário.

Como gémeos siameses, Zelensky e Netanyahu demonstram que a cooperação entre nazis e sionistas não apenas é possível como desejável e que o antissemitismo, que caracterizava os anos 30, se tratou de uma contingência casuística e nunca de uma realidade profundamente contraditória em si. Zelensky prova que o interesse hegemónico dos EUA fecha o acordo entre Sionistas e Nazi-fascistas.

À data, os falcões imperiais viam nos bens de judeus uma riqueza a haver; hoje vêem nos judeus uma riqueza em si e que já é sua e a dominam como instrumento de ocupação territorial, estabilização monetária e controlo de fontes energéticas e outros recursos naturais.

Um e outro jogam um perigoso jogo, do qual são peças estratégicas. Cabe-lhes criar uma realidade que torne impossível a convivência, ao ponto de o “mutual assured destruction” deixar de ser uma limitação. O vislumbre de um Irão nuclear é um desses casos e tudo justificará. Lembram-se das “armas de destruição em massa”? “Terroristas, loucos” e muçulmanos com acesso a armas nucleares? Assim, depois de toda a islamofobia em preparação no ocidente e capitalizada pelas correntes neofascistas, que declaram os muçulmanos e asiáticos – pobres, apenas os pobres – uma espécie sub-humana, uma praga invasora? Será apenas um pormenor. O terreno está lavrado e bem preparado.

Alguém acredita ainda em linhas vermelhas?

Fonte aqui.


A cultura e os seus instrumentos e os impérios e o seu fim

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 31/08/2024, Revisão Estátua de Sal)

A composição de quadros diz respeito à Grande Guerra Turca (1683)

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O texto que publiquei sobre a desratização da Palestina – (ver aqui) – motivou várias considerações que são sempre motivo de reflexão. Uma grande escritora, e Joana Ruas é uma grande escritora e também uma mulher com uma riquíssima experiência de vida desde Timor à Guiné Bissau, além de senhora de uma cultura no sentido mais abrangente muito rara, referiu a Elegia de Duíno, do poeta Rainer Maria Rilke (1875–1926) desta forma:

 “Esta obra de Rainer Maria Rilke, foi considerada uma das mais complexas dos tempos modernos pois exprime a inquietação pelas transformações ocorridas na Europa e no Mundo pela guerra de 14/18, no campo da ciência, da tecnologia e da cultura. A Guerra de 14/18, a primeira tecnológica, mobilizou exércitos, populações, economias e os impérios coloniais dos Estados europeus, do Japão e dos Estados Unidos da América. Eis um excerto:”

«O mundo da cultura não acompanhou a marcha dos regimes ditos democráticos na vereda das guerras coloniais. A carnificina dos campos de batalha desta guerra provocou uma imensa comoção entre os intelectuais e os artistas que integraram as hostes combatentes. Pela primeira vez na história das guerras a maior parte dos soldados não regressou a casa, e muitos foram os que não tiveram sepultura. A partir deste contexto, o soldado foi despido da sua pertença aos vivos logo que chamado às armas. Para o estatuto da cidadania, as responsabilidades continuaram a ser públicas mas as dores continuaram a ser privadas. Com a derrocada do mundo antigo e o nascimento de um espirito novo, a angústia da inteligência perante o futuro levou a que de um lado e do outro dos povos em guerra, os escritores, poetas e artistas tivessem poucos traços em comum como se vivessem em dois mundos diferentes e mesmo em duas épocas. Uns procuravam obstinadamente tudo o que numa Europa em devir seria ainda parte universal e perene enquanto outros se abismavam na contemplação do que ainda invisível se vinha afirmando. Havia o sentimento de que cada homem está só num mundo por outros «interpretado», e oposto ao mundo vivido.”

Um camarada militar referiu que:

 “Depois da História e também com ela vêm os argumentos estratégicos — soberania e economia e os etc do costume. Condenando a violência que grassa naquela região geográfica, independentemente de quem a pratica, em que as pessoas são tratadas como (os teus) ratos e sem poder arranjar qualquer justificação, perdão, atenuante para aquele atropelo à existência humana (qualquer guerra é por princípio desumana) onde uns são maus e outros piores, atribuo grandes responsabilidades a quem inventou que teria de haver um estado palestino…e agora pegando na História, escreveríamos resmas sobre o assunto e não chegávamos lá! …tudo começou mais pertinho com a derrocada do Império turco.”

Duas notas, muito simples: a cultura não acompanha a democracia — ora o que designamos por cultura, a nossa cultura, gerou o que chamamos democracia, a nossa democracia. Estamos a falar entre nós.

Os intelectuais, os políticos, e os cidadãos europeus estão a avaliar o mundo segundo a tabela que eles próprios criaram. Estamos hoje na Europa como estávamos há quinhentos anos quando fomos impor a nossa civilização e os nossos paradigmas pelo mundo.

O conflito global que hoje se trava resulta da reação de uma boa parte do mundo a quem os europeus impuseram a sua cultura, incluindo a sua moeda, a sua língua, as suas armas, os seus parlamentos, as suas fronteiras, os seus deuses. Trata-se de uma reação a um domínio.

Os pensadores europeus vêm o mundo com os seus instrumentos de análise, com a sua cultura. Estamos num conflito entre significante e significado. Leio por aqui afirmações do género, mas a França é uma democracia e a Venezuela não é. Mas a França é um estado europeu que se desenvolveu no contexto do império de Carlos Magno, da Igreja de Roma…. E a Venezuela resulta da colonização espanhola e da imposição de um modelo senhorial sobre uma colónia. São duas realidades não comparáveis. Já agora, não foram os venezuelanos que inventaram a guilhotina para distinguir democratas de não democratas…

A outra questão é a da relação entre a História e a Estratégia, colocada por um camarada que muito respeito — e, já agora a Política. A política é a imposição de uma vontade e dos interesses que a motivam. A estratégia é exatamente o mesmo e a História é a interpretação que num dado momento é feita do passado por parte dos que detêm o poder. As guerras não são boas nem más, uma apreciação de ordem moral que não tem cabimento na análise. Aristóteles dixit. A questão muito estimulante que é colocada diz respeito aos impérios. O império é um Centro. A discussão sobre se a Europa foi em algum período um império seria uma história sem fim. Resta a questão do Centro. O que vivemos hoje é o tempo em que a Europa deixou de ser o Centro, ou um Centro, para ser uma periferia. Uma área de serviços.

As razões para esta degradação são variadas, mas o que conta é o resultado. Como tem acontecido com os impérios eles morrem a partir de dentro. Isso aconteceu — porque já aconteceu e é irreversível — com a Europa nestes últimos 50 anos.

Uma nota final, julgo mais provável o ressurgimento de um pequeno império turco, do que o de uma pequena União Europeia. Quer isto dizer que os dirigentes turcos possuem uma visão estratégica que faz da Turquia um centro e os da União Europeia, principescamente pagos, não têm. Aliás, são pagos para não ter.