A desratização da Palestina

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 31/08/2024, Revisão Estátua de Sal)

Uma pintura do século 19, de Émil Signol intitulada “Tomada de Jerusalém pelos Cruzados, 15 de julho de 1099”

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Porque é a chacina dos palestinianos do “nosso” interesse? O pronome pessoal “nosso” representa o “ocidente global” de que, queiramos ou não, fazemos parte. Mesmo os que não frequentam as sessões espiritas das televisões.

A chacina dos palestinianos é uma desratização em larga escala. Nós, os do ocidente, apoiamos a desratização e não só apoiamos como pagamos. É o “ocidente global”, nós, que apoia politicamente e que paga a desratização dos palestinianos. Somos nós que tratamos os palestinianos como ratos que têm de ser eliminados! Não nos envergonhemos: para nós um palestiniano é um rato!

O orçamento de Israel, o nosso agente executor da desratização, é pago por nós através de emissão de dólares pelo Fundo de Reserva Americano, o FED. Moeda, o dólar, sem qualquer base material (Fractional reserve lending) fazendo-se dela, para sobreviver, e bem, um fator determinante do jogo da inflação, das taxas de juro variáveis consoante a necessidade, dos ciclos de crescimento e de depressão, e da manipulação dos preços através das dívidas soberanas.

Pagamos a desratização da Palestina porque Israel é o que resta enquanto arma decisiva para a estratégia de poder ocidental, isto é, de manutenção dos Estados Unidos como superpotência dominante no planeta. E a desratização é levada a cabo com a carnificina que choca não porque os executores não tenham a consciência do desgaste na opinião pública que causam as imagens de violência de casas e seres (pessoas?) a serem bombardeadas por artilharia pesada, aviação, cargas de explosivos de alta intensidade, bombas de fósforo, snipers — ninguém gosta de ver um rato a estrebuchar —, mas porque outros métodos de desratização poderiam causar risco aos desratizadores, como seria induzir uma epidemia de cólera em Gaza ou na Cisjordânia. A vida e a saúde dos israelitas tem de ser preservada. Um avião F35 pilotado por um terrorista é muito mais preciso que um vírus.

Não é por acaso que os dois candidatos a presidente dos Estados Unidos estão de acordo com a defesa de Israel a todo o custo e custe o que custar.

A estratégia de domínio que foi a doutrina dos Estados Unidos em vigor desde os anos 90 do século 20 aos anos 20 do atual — que substituiu a doutrina da Contenção e Détente da Guerra Fria — assentava em dois vetores: atacar a Rússia na barriga mole da Eurásia — que originou a guerra na Ucrânia —, e manter a tensão no Médio Oriente para controlo do petróleo e do tráfego entre o Pacífico e Atlântico, utilizando Israel como agente desestabilizador.

A guerra da Ucrânia está já em estado de vida aparente. Foi desencadeada com base num mau estudo da situação em que os desejos de alguns apparatchiks que serviram as administrações democratas e republicanas confundiram desejos com realidade. Cometeram o erro que a sabedoria dos índios traduziu no aforismo: não se deve cutucar a onça com uma vara curta. Hoje não há qualquer hipótese de implantação de uma base americana na Ucrânia e do que se trata é de encontrar uma saída sem humilhação — o episódio de Kursk é exemplar. Resta Israel como carta do “ocidente global” na fachada atlântica do seu teatro de operações com a China, quando o confronto passar para o Pacífico.

Contudo, para Israel ser o grupo Wagner dos Estados Unidos não pode estar envolvido em questiúnculas internas com palestinianos que são animais, como afirmou o seu ministro da defesa. Para a clique dirigente de Israel (e Netanyahu representa os interesses profundos dos israelitas, não é um extraterrestre), o que está em curso é uma operação de desratização da Palestina e nós, os do Ocidente, somos os financiadores dos desratizadores e os fornecedores dos venenos com o armamento e o financiamento que lhes entregamos.

Não passam de vaselina, para lubrificar o que se está a fazer, admitir as afirmações mais ou menos piedosas que justificam a desratização da Palestina com o “terrível” massacre (tem de se afirmar sempre que a sortida dos palestinianos contra os que os cercavam em Gaza é terrível, um terrível massacre), com o direito de Israel à existência, quando o que está em causa desde 1948 é o direito dos palestinianos à existência; ou a libertação de uma centena de reféns israelitas, quando existem dezenas de milhares de reféns palestinianos em Israel, restando ainda os líricos que referem a fantasiosa solução de dois estados — um vivo e armado e um morto e enterrado — quando o que há cinquenta anos o Ocidente global está a construir é um Estado-baluarte, que é até um estado nuclear clandestino, à margem de qualquer controlo internacional, mas que nós, os do Ocidente, fingimos ignorar e ainda invocamos em nossa defesa o Direito Internacional, que é mais ou menos uma pastilha elástica.

As duas esquadras americanas na região, com armamento nuclear, estão ali para garantir que a desratização é completa e tem de ser executada até às eleições americanas. Até Novembro a eliminação de palestinianos e das suas comunidades vai continuar de modo a que a próxima administração se possa apresentar de mãos lavadas e perguntar: Palestina? Mas o que é isso?

A tomada de Jerusalém pelos cruzados há mil anos não foi muito diferente do que está a acontecer hoje. O que significa que estamos — os do Ocidente — a cumprir a tradição e a agir de forma coerente com os nossos valores.

O abc da geopolítica atual explicado às crianças

(Whale project, in Estátua de Sal, 31/08/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre a guerra da Ucrânia e as eleições nos EUA, (ver aqui). Pela sua atualidade, e por em termos simples conseguir explicar, em grande medida, a situação geopolítica atual, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 31/08/2024)


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Para a Rússia, em especial para o provinciano Gorbatchev, a conversão ao capitalismo e a destruição da União Soviética parecia ser um bom negócio.

E tinha tudo para ser um bom negócio se, do lado de cá, não fossemos uma cambada de ladrões e não tivéssemos, do outro lado do mar, uma nação (EUA) violenta, belicista, a sonhar com o seu próprio reinado de 1000 anos sobre o mundo.

Com o fim da União Soviética a Rússia ficou com um território que ainda corresponde a um nono da superfície seca do planeta, cheio de recursos naturais e capaz de conseguir a auto suficiência e mesmo a capacidade de exportação alimentar, nomeadamente de cereais.

Livrou-se dos apêndices que eram as repúblicas da Ásia Central que só tinham, em termos de recursos importantes, petróleo e gás que também não faltam na Rússia, mas dependiam da Rússia em tudo o resto tendo grandes défices de produção alimentar.

Sendo capitalistas, também nós não teríamos motivo para os bloquear e tentarmos minar a sua ação, em todo o lado. Tinha tudo para correr bem, mas não correu. E não podia correr.

Em primeiro lugar porque nunca, a tal nação do outro lado do mar aprendeu a fazer negócios com honestidade. Nas relações com os seus vizinhos do Sul sempre se pautou por, simplesmente, tomar pela corrupção ou pela força o que lhe interessasse, qualquer que fosse o regime que lá existisse. E, para que o regime fosse amigo, não se importavam de apoiar a criatura mais sanguinária que houvesse nessa terra, e até derrubar líderes democraticamente eleitos, como Allende.

E, foi esta receita que foi aplicada na Rússia, quando conseguiram fazer eleger, por uma população pouco habituada às coisas do jogo eleitoral, um bêbado sem préstimo e sem capacidade para gerir, nem o clube de setas de Papa Leitinho de Baixo, Boris Ieltsin de seu nome.

E, durante esses anos de Ieltsin, foi uma pilhagem à tripa forra: calcula-se que três milhões de russos tenham morrido de fome e de frio.

A prisão do oligarca Kodarkovsky – quando este se preparava para vender a um consórcio americano o que hoje é o complexo Gazprom -, fez soar o alarme em todas as chancelarias ocidentais mostrando que o tempo do entreguismo e do saque, poderia muito bem ter acabado.

Ai começou a diabolização da Rússia em geral – e de Putin em particular -, até porque um país desigual, e cheio de contradições como os Estados Unidos, cedo percebeu que precisava de um inimigo externo para unir o gado.

O problema é justamente este messianismo que os faz acreditar que têm de dominar todos os povos do mundo e que, se para o conseguir tiverem de destruir todo o resto do hemisfério ocidental, não hesitarão em o fazer.

Por isso, muitos sonham, justamente, com a destruição da Europa pela Rússia enquanto eles destroem a Rússia e assistem no camarote à nossa destruição.

A Rússia já garantiu que não se limitará a destruir a Europa se as coisas derem mesmo para o torto. O que me arrepia nisto tudo, é o facto de ainda haver, na Europa, tanta gente pró americana. Que não percebe que, aquela gente americana não é como a maior parte de nós, que apenas quer ir levando a vida como pode. Que é uma gente messiânica, em boa parte fundamentalista cristã, que sonha, tal como Hitler, num reinado de 1000 anos, não importa a destruição que isso custe.

Quanto às eleições americanas, estamos quilhados, ganhe quem ganhar. Kamala é uma belicista que se gabou que o seu país tem o exército mais letal do mundo.

Por isso, não há mais remédio, a não ser prepararmo-nos para o pior porque, penso eu, já todos percebemos que, para a Rússia, aceitar a sua própria destruição sem que nós soframos, ou ter um “entreguista” e voltar para a miséria negra dos anos de Ieltsin, são opções inaceitáveis.

É assim esta gente, que não consegue deixar de acreditar que, com a força de Deus e das suas armas, destruirão finalmente o demónio russo. Tem tudo para correr mal.


A guerra na Ucrânia e as eleições nos Estados Unidos

(Por Nota Piccole, In observatoriocrisis.com, 30/08/2024, Trad. Estátua de Sal)


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A Terceira Guerra Mundial, a acontecer, “não se limitará à Europa”. Foi o que disse o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov. Um aviso cheio de significado porque, nos últimos dois anos, todos os analistas e políticos norte-americanos, ao falarem do risco de um confronto em grande escala entre a NATO e a Rússia (tanto para alarmar como para negar essa possibilidade), referiram-se sempre a uma guerra limitada ao Velho Continente.

Depois da Ucrânia

A crença nessa circunscrição geográfica do conflito, por parte dos americanos, tornou o seu apoio a Kiev cada vez mais descarado, forçando-os a aumentar progressivamente as apostas e a superar as linhas vermelhas indicadas por Moscovo no início do conflito, a última das quais é a inviolabilidade do território da Rússia.

Na verdade, um conflito em grande escala no Velho Continente poderia ser um preço que os Estados Unidos estariam dispostos a pagar para vencer o conflito em curso, uma vez que a perda dos aliados europeus, que seriam incinerados, seria compensada por uma destruição paralela da Rússia, restaurando-se assim a sua supremacia global: isolada e sem a força militar russa, a China seria forçada a capitular num curto espaço de tempo.

Por outro lado, tratar-se-ia apenas de estender a lógica do conflito em curso à escala continental. Foi atribuído à Ucrânia o papel de vítima sacrificial, lançando-a contra a Rússia numa guerra “até ao último ucraniano” (Strana relata que “homens entre os 17 e os 25 anos serão automaticamente forçados ao serviço militar”: não são alistados à força, pelo menos por enquanto, mas deverão servir como voluntários e não receberão passaporte…). A liderança ocidental poderia transferir esta lógica sacrificial para toda a Europa. Os seus líderes (ver as declarações de Borrell) não hesitariam em levar-nos ao desastre se tivessem o seu futuro assegurado por Washington.

Assim, a advertência de Lavrov, em vez de elevar o tom do confronto verbal que acompanha o campo de batalha, poderia servir para trazer os líderes americanos à razão, embora seja difícil ter esperança nesse ponto, uma vez que o Império é agora dominado por uma classe dominante que prospera com as guerras.

Guerra e partidos políticos americanos

Sobre este ponto, há um artigo interessante do ex-senador norte-americano Ron Paul, segundo o qual os dois partidos no poder competem “no seu apoio ao estado de guerra. Ambos têm políticas que levam à pobreza e à guerra, em vez de promoverem a paz e a prosperidade.”

“A julgar pelo seu discurso”, diz Ron Paul, “podemos assumir que a candidata Kamala Harris será uma apoiante entusiástica da guerra na Ucrânia e de outras aventuras militares dos neoconservadores. E como Trump diz que reabrirá as negociações com o presidente Putin, e acabará com a guerra assim que for eleito presidente, isso justifica o apoio de Kennedy Jr. à sua campanha.”

Ron Paul descarta, acertadamente, as palavras de Harris sobre os seus esforços de paz israelistas-palestinianos, considerando-as como um absurdo de propaganda, mas também nos lembra que Trump, como presidente, trouxe para a sua administração pessoas como John Bolton e Mike Pompeo, porta-estandartes de políticas neoconservadoras beligerantes. 

“Há sempre a possibilidade de que estes erros se repitam – conclui Ron Paul – e nem Trump nem Kennedy Jr. parecem ser fiáveis quando se trata de favorecer o fim do massacre em Gaza. Por isso, as suas declarações não podem ser entendidas como um bilhete certo para a paz, mas pelo menos temos a sensação de que a paz está na ementa dos dois personagens.”

Os Neocons apoiam Harris

O que confirma o espírito belicista de Kamala Harris é o facto de os neoconservadores republicanos terem ficado do lado dela. Assim, o Washington Post afirma: “Mais de 200 colaboradores de Bush, McCain e Romney apoiam Harris”.

Mas Trump também deve ter cuidado com os neoconservadores que aparentemente permanecem atrás dele. Importante neste ponto é uma publicação sobre uma modificação da proibição federal do aborto […] . Ao propor esta mudança, Donald Trump sabe que mobilizaria os jovens eleitores democratas e perderia o apoio entre os conservadores: “Não podemos cometer o mesmo erro em 2024”, disse ele.

Há muita coisa em jogo nas eleições presidenciais dos EUA. Não é só o destino do Império que está em jogo, mas também a sua projeção no mundo. O America First de Trump , que propõe o neo-isolacionismo, contrasta com o outro America First, encarnado pelo seu concorrente virtual (porque Harris é apenas uma concha vazia), o do unipolarismo devastador.

Além disso, há que considerar que, se Biden encarnou uma presidência assertiva, anunciando na sua estreia “A América está de volta”, também é verdade que fez parte de um establishment que se mantém em contacto residual com a realidade, como ficou demonstrado com a guerra na Ucrânia.

Harris, dissemos, é uma concha vazia, um fantoche que responde inteiramente ao partido da guerra, que tem o seu terminal político no Partido Democrata de Hillary Clinton, que agora regressou fortemente ao primeiro plano.

É significativo que, pelo contrário, Tulsi Gabbard, que encarnou a alma mais pacifista do Partido Democrata, muitas vezes indevidamente associada à equipa de Bernie Sanders , apoie Trump.

A ofensiva neonazi em Kursk

Em relação à guerra na Ucrânia, há pouco a dizer além do que já foi escrito: a ofensiva em Kursk foi parada, tal como em Belgorod, e o avanço russo em Donbass está a acontecer mais rápido do que antes do ataque ucraniano ao território russo.

Um roteiro conhecido pela história é repetido. É o que diz Alastair Crooke : “’Kursk’ tem uma história. Em 1943, a Alemanha invadiu a Rússia na região de Kursk para desviar a atenção das suas próprias perdas, e acabou sendo derrotada na famosa Batalha de Kursk (23 de agosto de 1943 ). O regresso das forças militares alemãs às proximidades de Kursk deve ter deixado muitos sem palavras; O atual campo de batalha em torno da cidade de Sudzha é exatamente onde, em 1943, os 38º e 40º Exércitos soviéticos se prepararam para uma contra-ofensiva contra o 4º Exército alemão.”

. Fonte aqui.