Eles mentem, eles trapaceiam, eles roubam. Eles bombardeiam e deturpam.

(Pepe Escobar, in Sakerlatam, 23/09/2024)

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É possível argumentar que a Noite de Retaliação Balística do Irão, uma resposta ponderada às provocações em série de Israel, é menos consequente no que diz respeito à eficácia do Eixo de Resistência do que a decapitação da liderança do Hezbollah.

Ainda assim, a mensagem foi suficiente para deixar os psicopatas talmúdicos em frenesi; apesar de todas as suas negações histéricas e da grande repercussão, o papel higiênico de ferro e o sistema Arrow foram de fato inutilizados.

O IRGC divulgou que a salva de mísseis foi inaugurada por um único Fatteh 2 hipersônico que derrubou o radar do sistema de defesa aérea Arrow 3 – capaz de interceptar mísseis na atmosfera.

E fontes militares iranianas bem informadas afirmaram que os hackers entraram em modo de ataque cibernético pesado para interromper o sistema Iron Dome pouco antes do início da operação.

O IRGC finalmente confirmou que cerca de 90% dos alvos pretendidos foram atingidos; a implicação era que cada alvo deveria ser visitado por vários mísseis, com alguns sendo intercetados.

É objeto de especulação aberta quantos F-35s e F-15s foram destruídos ou danificados em duas bases aéreas, uma das quais, Nevatim, no Negev, ficou literalmente inoperante.

A parceria militar entre Irão e Rússia – parte de sua parceria estratégica abrangente que será assinada em breve – estava em vigor. O IRGC usou o recém-fornecido bloqueador eletromagnético russo para cegar os sistemas de GPS de Israel e da OTAN – inclusive os das aeronaves dos EUA. Isso explica o Iron Dome atingindo os céus noturnos vazios.

Enquadrando a retaliação do Irão como um casus belli

Nada disso mudou substancialmente a equação da dissuasão. Israel continua a bombardear o sul de Beirute. O padrão continua o mesmo: sempre que são atingidos, os genocidas gritam de dor ou choramingam como bebês irritantes, enquanto sua máquina de matar continua funcionando – com civis desarmados como alvos privilegiados.

Os bombardeios nunca param – e não vão parar, da Palestina ao Líbano e à Síria, passando pela Ásia Ocidental, e levando à “resposta” Noite Balística do Irão.

O Irão está em uma posição geopolítica e militar extremamente difícil, para não mencionar a geoeconómica, ainda sob um tsunami de sanções. Obviamente, a liderança em Teerã está totalmente ciente da armadilha que está sendo preparada pelo combo sionista talmúdico-americano, que quer atrair o Irão para uma grande guerra.

Jake Sullivan, um dos pilares do combo Biden, que está realmente ditando a política dos EUA (em nome de seus patrocinadores), considerando a condição patética do zumbi na Casa Branca, praticamente explicou tudo:

“Deixamos claro que haverá consequências – consequências severas – para esse ataque, e trabalharemos com Israel para garantir que isso aconteça.”

Tradução: A Noite da Retaliação está sendo considerada um casus belli. EUA e Israel já estão culpando o Irão pela possível mega-guerra que se aproxima na Ásia Ocidental.

Essa guerra é o Santo dos Santos desde, pelo menos, os dias do regime de Cheney – duas décadas atrás. E, no entanto, Teerã, se assim decidir, já tem o que é necessário para arrasar Israel. Eles não o farão porque o preço a pagar seria insuportável.

Mesmo que os psicopatas talmúdicos e os zio-cons finalmente realizassem seu desejo, o que é uma possibilidade remota, essa guerra, depois de uma campanha de bombardeio devastadora, só poderia ser vencida com a presença maciça de botas americanas no solo. Seja qual for a interpretação que se faça do Think Tanklândia/pântano da mídia controlado pelos zio-con, isso não acontecerá.

E a Marcha da Insensatez continua ininterrupta: o Projeto Sionista, um abraço mortal entre EUA e Israel, contra o Irão. Mas com um grande diferencial: o apoio da Rússia e, mais à retaguarda, da China. Esses três são a principal tríade do BRICS. Eles estão na vanguarda da tentativa de construir um mundo novo, justo e multinodal. E não é por acaso que eles são as três principais “ameaças” existenciais ao Império do Caos, da Mentira e da Pilhagem.

Com o Projeto Ucrânia indo pelo ralo da História, além de enterrar de vez a “ordem internacional baseada em regras” no solo negro da Novorossia, a verdadeira frente principal da Guerra Única, a nova encarnação das Guerras Eternas, é o Irão.

Paralelamente, Moscovo e Pequim têm plena consciência de que quanto mais o Excepcionalistão se atolar na Ásia Ocidental, mais espaço de manobra eles terão para acelerar o esvaziamento do Leviatã instável.

Gaza-no-Litani

O Hezbollah tem um período muito difícil pela frente. Os recursos – especialmente o fornecimento de armas e equipamentos militares, através da Síria e por via aérea do Irão para o Líbano – se tornarão cada vez mais escassos. Compare isso com a cadeia de suprimentos ilimitada de Israel a partir do Excepcionalistão – sem falar nas toneladas de dinheiro.

A inteligência de Israel está longe de ser ruin, pois os comandos entraram profundamente, em segredo, no território do Hezbollah para coletar informações sobre a rede de fortificações. Quando – na verdade, se – eles chegarem a áreas povoadas no sul do Líbano, haverá demência de bombardeios e artilharia pesada contra áreas residenciais.

Essa operação poderia muito bem ser chamada de Gaza no Litani. Ela só acontecerá se a complexa rede do Hezbollah no sul do Líbano for rompida – um grande “se”.

Jeffrey Sachs, com todas as suas boas intenções, foi o mais longe que pôde para caracterizar os israelenses como terroristas extremistas da supremacia judaica. Praticamente toda a Maioria Global agora está ciente disso.

O que vem a seguir no planeamento talmúdico-zio-con pode incluir uma terrível bandeira falsa, possivelmente após a eleição presidencial dos EUA, por exemplo, em um navio da OTAN ou em tropas dos EUA no Golfo Pérsico, para prender o novo governo na guerra há muito planejada dos EUA contra o Irão. Dick Cheney terá um orgasmo – e morrerá.

Faltam menos de três semanas para a cúpula do BRICS em Kazan, sob a presidência russa. Em nítido contraste com o genocídio e as guerras em série na Ásia Ocidental, Putin e Xi estarão de portas abertas em nome do BRICS+, dando as boas-vindas a dezenas de nações que estão fugindo do Ocidente coletivo como uma praga.

A Rússia agora está apoiando totalmente o Irão – e, assim como na Ucrânia, isso significa que a Rússia está em guerra com os EUA/Israel; afinal, o Pentágono está abatendo diretamente os mísseis iranianos, enquanto Israel é o estado preeminente de fato dos EUA, totalmente apoiado fiscalmente pelos contribuintes americanos.

A situação fica mais complicada a cada minuto. Imediatamente após uma reunião muito importante entre Alexander Lavrentiev, enviado especial de Putin para a Síria, e Ali Akbar Ahmadian, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, Tel Aviv entrou em demência total – o que mais – e atacou armazéns das forças russas na Síria.

Houve uma resposta conjunta da defesa aérea da Rússia e da Síria. O que isso mostra é que os psicopatas talmúdicos não só estão obcecados em cuspir fogo contra o Eixo da Resistência, mas agora também estão indo atrás dos interesses nacionais russos. Isso pode ficar muito feio para eles em um piscar de olhos – e é mais uma ilustração de que o nome do (novo e mortal) jogo é EUA/Israel vs. Rússia/Irão.

Fonte aqui.

A história do fogo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/10/2024)

Em Washington, o essencial do discurso de Netanyahu concentrou-se no Irão e na sua declaração de que, enfrentando o Irão, Israel estava a enfrentar o principal inimigo dos Estados Unidos no Médio Oriente. Nada está a acontecer por acaso e Joe Biden sabe-o bem.


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Quando, em finais de Julho passado, Netanyahu discursou perante o Congresso dos Estados Unidos, o extermínio que decorria em Gaza e as negocia­ções para lhe pôr termo, de que os Estados Unidos eram um dos principais negociadores e Israel supostamente uma das partes interessadas, não lhe mereceram qualquer atenção especial. Aliás, logo uma semana depois o principal negociador do Hamas, Ismail Haniyeh, era assassinado por Israel em Teerão, onde assistia à cerimónia de posse do novo Presidente iraniano, num sinal claro do entendimento que o Governo israelita dava às chamadas negociações de paz. Em Washington, o essencial do discurso de Netanyahu concentrou-se no Irão e na sua declaração, recebida com entusiásticos aplausos, de que, enfrentando o Irão, Israel estava a enfrentar o principal inimigo dos Estados Unidos no Médio Oriente. Nada está a acontecer por acaso e Joe Biden sabe-o bem.

Pouco depois de iniciada a guerra de extermínio em Gaza, Israel já anunciara também que a sua guerra era em quatro frentes: em Gaza, contra o Hamas, no Iémen, contra os tutsis, no Líbano, contra o Hezbollah, e, a seu tempo e inevitavelmente, contra o Irão. Com a ofensiva no Líbano, que numa semana provocou mais de um milhão de deslocados e decapitou a cúpula militar do Hamas, Israel conseguiu duas coisas: desviar as atenções do continuado morticínio em Gaza e provocar o Irão a reagir. Tudo estava previsto, ensaiado de há muito e planea­do com os Estados Unidos, que forneceram as bombas de uma tonelada e as bombas perfuradoras que destruíram o abrigo subterrâneo onde se escondia Nasrallah e agora se apressaram a dizer que não apenas defenderam e defenderão Israel dos simbólicos ataques aéreos iranianos, como também estão empenhados em ajudar Telavive numa “adequada resposta” ao ataque iraniano de terça-feira. Qual resposta? Provavelmente aquilo que Israel deseja há muito e que o ex-PM israelita Naftali Bennett defendeu na CNN americana: um ataque às instalações nucleares e petrolíferas do Irão. Porque, ao contrário de Gaza e dos palestinia­nos, ninguém chorará uma lágrima pelos iranianos ou os seus aliados, incluindo no mundo árabe sunita, a via está aberta para aquilo a que Bennett chamou “uma oportunidade única”. E se alguém, como Guterres, cumprindo o seu dever como secretário-geral da ONU, tenta ainda evitar a catástrofe, Bennett chama-lhe “cobarde” e o MNE israelita “amigo de terroristas”. Porque o terrorismo, já se sabe, está só do outro lado, mesmo que Israel leve a cabo operações de extermínio contra os seus inimigos “terroristas” em território de três países soberanos: Síria, Líbano e Irão. Coisa que não me consta que esteja ao abrigo de qualquer lei ou tratado internacional.

Dizia Netanyahu, dirigindo-se ao povo iraniano, que era preciso libertá-los de “uma minoria de fanáticos religiosos”. É inteiramente verdade. Mas aconselho-vos a verem a série da Netflix “Unorthodox” — se conseguirem, o que eu não consegui, aguentar muitos episódios sobre aquele mundo de fascismo religioso e machismo repulsivo que é o dos judeus ortodoxos. A diferença para os ayatollahs do Irão é que estes estão no poder pela força e aqueles por mandato popular. E se o regime dos aya­tollahs representa tudo o que nós repudiamos, já de Israel dizem-nos que temos de ser aliados porque partilhamos os mesmos valores. Deveras?

A história do fogo
Ilustração Hugo Pinto

2 “Sempre juntos”, como assegurou Marcelo, o Presidente e o PM lá andaram a percorrer algumas das áreas ardidas nos grandes incêndios de Setembro. Prometeram reconstruir habitações, indústrias e agricultura — a agricultura residual que existia. Vêm 500 milhões de Bruxelas para isso, a descontar no PRR, 100 milhões dos quais já adiantados pelo Governo. Os autarcas terão ficado mais tranquilos, as populações talvez mais esperançadas, embora todos saibamos que agora vão começar as burocracias, os impasses, as demoras e as batotas no acesso aos subsídios: vítimas verdadeiras vão desesperar pelo prometido, vítimas falsas vão aproveitar a oportunidade. Mas saúde-se, sem ironia, a rapidez e determinação com que o Governo quer reagir e louve-se, com espanto, a amplitude do saco sem fundo de dinheiro com que o Governo vai calando todas as reivindicações e passando a ideia de estar a resolver “os problemas das pessoas”. Haverá, pois, além do dinheiro para reconstruir o que ardeu, mais dinheiro para aviões, helicópteros, carros de combate, máquinas de arrasto, subsídios aos bombeiros. Infelizmente, não é o dinheiro que resolverá o problema. Nem a feroz perseguição aos incendiários, anunciada pelo primeiro-ministro.

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Na última edição do Expresso, há uma entrevista com Stephen Pyne, apresentado como especialista em história do fogo, onde ele, na esteira de vários outros ao longo dos anos, explica por que razão o interior norte e centro de Portugal arde ciclicamente. Há 34 anos, diz ele, que os governantes portugueses conhecem bem as razões, mas tudo o que fazem é gastar cada vez mais dinheiro na prevenção e no combate aos incêndios sem cuidar do essencial, que é a paisagem inflamável. “É natural”, diz ele, “que os governantes demonstrem que protegem pessoas, vidas e bens. E assim há cada vez mais esforço no combate aos incêndios em aviões, veículos e tripulações, mas não resolve o problema e irá falhar, pois a paisagem continua a crescer nas suas formas inflamáveis”. E isto sucede porque “as pessoas se foram embora, abandonaram o território e já não praticam o tipo de agricultura que havia”. Foi o preço que pagámos por vender a agricultura a Bruxelas nos idos de Cavaco Silva. Sem agricultura, sem pessoas, sem mundo rural, vieram os eucaliptos, solução mágica para preencher o vazio das terras abandonadas. “Os eucaliptos”, explica Pyne, “pio­raram a situação, ao serem plantados em grande escala. Em vez de ter um mosaico, com azulejos pequenos, que era o que tinha o sistema agrícola, e com outras florestas a fazerem parte desses azulejos, plantam-se estas grandes áreas de uma espécie que não pára de crescer. Esta foi a fórmula perfeita para o fogo se espalhar. Quando só temos monocultura, o fogo fica sem travão”. Há 30 anos, também, que eu escrevo o mesmo. Sem ser especialista no assunto, longe de possuir qualquer conhecimento técnico, basta-me ler o que escrevem os que sabem, ver no terreno o que é um eucaliptal, olhar a nossa paisagem ao longo da A1 e das estradas e auto-estradas do interior ou reparar nas reportagens televisivas naquilo que está sempre a arder em pano de fundo: eucaliptos e pinheiros-mansos. Sempre, sempre, repetidamente. Pergunto-me: haverá alguém que ainda não tenha percebido, algum autarca, algum governante? Quantos mais milhares de hectares terão de arder, quantas mais lágrimas de crocodilo terão de chorar, até que um assomo de coragem lhes assalte a consciência?

3 Com António Costa a primeiro-ministro e Siza Vieira a ministro da Economia, a Efacec foi nacionalizada em 2020, por se tratar de “uma empresa estratégica nacional, exportadora, viável e economicamente sustentável, apenas em situação de dificuldade provisória” — além da necessidade de preservação dos seus postos de trabalho. Os mesmos argumentos que eu me recordo de ter escutado ao então CEO da empresa, explicando na TVI que as tais dificuldades não passavam de apertos normais de tesouraria, a serem ultrapassados a curto prazo pela robusta carteira de encomendas da empresa e a longo prazo pelos compradores que já se perfilavam no horizonte. E com estes argumentos o Estado avançou para a nacionalização da posição de 71% detida por Isabel dos Santos, a outrora “Dona Disto Tudo”, caída em desgraça e em deserção física e financeira. Daí para a frente só o Estado, desacompanhado pelos demais accionistas privados, foi cobrindo as sucessivas “dificuldades provisórias”, até se atravessar com 484 milhões. Um quarto dos trabalhadores foram-se embora, com destaque para os principais quadros, e os tais iminentes compradores jamais apareceram, o que levou o Governo a vender a Efacec por 15 milhões e vagas esperanças de reaver algum dinheiro numa even­tual revenda. Mas entretanto comprometido com garantias que podem elevar a conta final até aos 564 milhões. Contas feitas, a manutenção de cada posto de trabalho na Efacec custou aos contribuintes para cima de um milhão de euros. Tudo um desastre, sem fundamento nem justificação, concluiu agora o Tribunal de Contas. Tudo tão previsível, digo eu. Só mesmo os comunistas é que ainda acreditam na bondade da gestão pública com dinheiro dos contribuintes a perder de vista.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O q u e n ã o s e p o d e d i z e r n e m e s c r e v e r

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 04/10/2024)

(Em tempos idos a Dona Clara era visita assídua da Estátua de Sal. Depois foi perdendo gaz e brilho, vieram as guerras, veio ao de cima o seu “americanismo” meio blasé, pelo que o último texto que dela publicámos (ver aqui) é de 22/06/2022. Só que, a Dona Clara sempre foi grande escriba e, confesso, este texto surpreendeu-me pela positiva. É quase caso para dizer que duma pequena toca pode sair um grande coelho, tal a atualidade, a coragem mesmo de ir contra a corrente dos prosélitos comentadores, a qualidade acutilante da escrita.

Pelo que só me resta publicar a Dona Clara e dar-lhe os parabéns por esta pedrada no charco do conformismo opinativo que grassa na comunicação social. Quanto mais não seja, ela demonstra ter os “textículos” que muitos não tem.

Só mais uma nota. Sabem a razão pela qual publiquei o título deste artigo com espaços entre as letras? Porque sem espaços o Facebook recusava-se a aceitar a partilha do texto! Censura, sofisticada, sim. Náo querem que esta opinião iconoclasta seja muito divulgada. Com espaços driblou-se o algoritmo… 🙂

Estátua de Sal, 05/10/2024)


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Existe uma pressão contemporânea nos media liberais para dizer sempre duas coisas, no mais perfeito exemplo de maniqueísmo moral que caracteriza a disponibilidade permanente das boas intenções em detrimento da realidade e da verdade.

O primeiro postulado, que nunca pode ser desmentido pelos factos, é o da vitória da Ucrânia. Não interessa que nada, mesmo nada, aponte para a vitória numa guerra que não é ganha com armamento sofisticado e sim nas trincheiras, palmo a palmo, disputando terreno à custa de cadáveres dos soldados. E a Rússia não se importa de sacrificar homens e de continuar a avançar, embora se possa concluir que a superioridade tecnológica e eletrónica da Rússia não tenha sido prejudicada pela enxurrada de armamento americano, mísseis e drones europeus. Sem a América, a NATO é um fantasma e os propulsores desta guerra insana que devia e podia ter sido evitada declarando ab initio a neutralidade da Ucrânia e deixando a diplomacia fazer o seu trabalho, são muitas vezes, mesmo ingenuamente, agentes dos lóbis das armas. E terão à sua espera empregos, think tanks, bolsas, viagens e outras benesses quando deixarem os lugares políticos e de poder que ocupam. Espiem o futuro de Stoltenberg. Se querem um lóbi mais poderoso que o das petrolíferas, da petroquímica, das farmacêuticas e das drogas, é este. Armas e quem as fabrica e vende, quem as exporta, quem enriquece à custa e às costas da miséria alheia.

A Ucrânia foi o terreno ideal para experimentar novos armamentos sem arriscar um soldado, sob o halo sagrado das boas intenções e da liberdade. Nos Estados Unidos, a Boeing ganhou e ganha tanto dinheiro com o negócio do armamento que se preparava para deixar o negócio da aviação, sendo forçada pelo Governo a recuar. Entretanto, a Boeing descurou toda a parte da aeronáutica civil e os aviões saíram da fábrica sem condições de segurança, descurados os procedimentos habituais. Centenas de mortos em dois desastres aéreos, com o 737 MAX, denúncias, embustes. E, mais grave ainda, os dois whistleblowers que denunciaram as falhas de segurança dentro da Boeing morreram um a seguir ao outro, em misteriosas e súbitas circunstâncias. Eliminados.

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Quando está em jogo a segurança militar americana e o mundo secreto que jaz por baixo de tanta generosidade na venda e distribuição de armas para guerras alheias, vale tudo. Nenhum jornalismo se dedicou a investigar estas mortes, ou acabaria a intenção numa valeta. No que respeita a armas, nada, ninguém, mexe uma palha para fazer perguntas e saber mais. Demasiado perigoso, secreto e impublicável. O tráfico de armas na guerra da Ucrânia, com atores como a Sérvia servindo a dois amos, com os gangues do costume, é um segredo bem guardado. E bem pago.

Por sua vez, Zelensky, um comediante com uma frase bem escrita, por outrem, precisou de armas e não de uma boleia (para fugir), foi erigido numa figura tutelar do século XXI, construído pela propaganda ocidental com a argamassa das estátuas. Zelensky goes to Hollywood. Um Churchill, nem mais, segundo as piedades gerais bolçadas nos múltiplos ecrãs das televisões. Alguns americanos não toldados, sobretudo da CIA, que nunca confiaram em Zelensky nem na bravura pessoal protegida pelo bunker e a entourage de oportunistas, incluindo a senhora que tinha 12 Range Rovers, provavelmente já purgada nas sucessivas purgas de Kiev, sabem que vai ser difícil livrarem-se dele. O grande jornalista de investigação Seymour Hersh tem relatado algumas destas dúvidas impronunciáveis nos media e foi logo acusado de ser um agente de Moscovo. Nada mais grotesco.

A Europa sabe, mas persiste nos erros do costume, enfronhada numa decadência civilizacional. A União Europeia atravessa a crise mais grave desde a criação e finge que está tudo bem, enquanto a extrema-direita galopa na vitória.

Os europeus, com a sua qualidade de vida diminuída, a sua capacidade financeira diminuída, legando ao futuro e aos jovens uma dívida impagável, que é o que Bruxelas tem feito, enquanto a demografia se aproxima da extinção, começam a ter uma certeza. A imigração não é a salvação, e a imigração descontrolada fará dos países europeus e do seu cimento social, político, religioso e económico, uma irrelevância. Outras etnias, credos, fundamentalismos e convicções, mais sólidos pela religião ou os costumes mesmo quando primitivos e tribais, acabariam por comandar a Europa num futuro não longínquo, e o que restaria seria um depósito de velhos sem terem para onde ir. A distopia europeia, que Michel Houellebecq pintou com negras cores. Com esta retórica, não custa perceber a extrema-direita a ganhar eleições.

Se os jovens não têm direito a uma casa e a constituírem uma família, sendo a habitação a mais grave crise da Europa, e se estrangeiros milionários têm direito a regimes fiscais de benefício, do Reino Unido e da Itália à Grécia, Espanha e Portugal, enquanto se pede aos autóctones que paguem o futuro e a doença e o envelhecimento da população, juntamente com os imigrantes, que esperança é oferecida pelos chefes políticos e suas perorações? E se, ainda por cima, pedem aos europeus que paguem uma guerra perdida em nome da supremacia ocidental, não espanta que os resultados sejam o que são. E nem vale a pena falar da emergência climática, posta de lado.

Ouvir militares bolçarem as vantagens de um serviço militar para “os jovens”, para os fortificar e endurecer, é um escândalo. Em Portugal, país de brandos costumes sem autoridade, ouvir o chefe militar da Marinha, o novo almirante das nossas fantasias musculadas, perorar sobre política interna, candidaturas a Belém, e bons usos do militarismo compulsivo, só poderia ter um resultado. Despedir imediatamente o almirante do posto que ocupa, por transgressão das regras dos militares, manter o bico calado em questões civilistas e políticas. Agora ninguém segura o almirante, e os jornalistas entretêm-se com sondagens para a presidência que o dão como favorito ou intrigam que o atual Presidente o odeia. É o grau zero da autoridade num país ingovernável por esta razão, ninguém manda, mandam todos ao sabor do dia e dos dichotes políticos do dia. Numa fantasia em que eu, moi, exatamente, fosse primeira-ministra, o almirante tinha 24 horas para se demitir ou ser demitido. Na imortal frase de Durão Barroso a um dos seus ministros, se a memória não me falha. E obrigada pelas vacinas, já teve a Grã-Cruz.

É claríssimo que a Europa não pode simultaneamente armar a Ucrânia e manter um módico de Estado social, ou nem uma coisa nem outra. E Zelensky, nas andanças pelo mundo, agora patéticas em vez de triunfais, está disposto a dizer tudo e o seu contrário para se manter à tona.

Não quero Putin na mesa das negociações de paz, a Ucrânia vai recuperar a Crimeia, quero Putin nas negociações de paz, a Ucrânia invadiu a Rússia (em meia dúzia de metros quadrados enquanto no Donbass perdia quilómetros), quero mais armas, mais dinheiro, mais isto e aquilo, e quero um encontro com Trump. No encontro com Trump, vimos claramente o oportunismo e a falta de convicções geradas no desespero. Não no desespero da derrota ucraniana, sacrificadas as vidas ucranianas para nada, no desespero da derrota pessoal de um chefe forjado na ilusão da potestade visionária.

Quantas purgas antidemocráticas em Kiev serão necessárias para o Ocidente se livrar de Zelensky e assinar um armistício, mesmo do tipo do das Coreias? E, sim, a Crimeia e o Donbass estão perdidos, e a Rússia reganhará um território onde se fala russo. Para salvar a Ucrânia, o que resta da Ucrânia, Zelensky e a sua coutada terão de sair ou sair da frente. Ou a região tornar-se-á um sorvedouro de dinheiro, e trará a morte da democracia europeia.

Nada atesta mais o viés das notícias do que o recrutamento de condenados nas prisões para a soldadesca. Quando Putin o fez, acolitado por Prigozhin, um bandido que a certa altura passava por “herói” na marcha de Moscovo e nas opiniões da treta, foi considerado o símbolo do “mal”. Quando Zelensky fez o mesmo, nem um pio se ouviu.

Esta guerra não pode ser ganha por nenhuma das partes. A vitória da Ucrânia foi preservar Kiev e o regime, a de Putin foi tomar o Donbass. Putin só pode ser derrubado pelos russos, e a paz certamente teria essa consequência, enquanto a guerra o engorda. Quanto a Biden, a política externa foi o maior desastre das últimas décadas. A fantasia de derrotar a Rússia é um velho sonho americano, com consequências que o mundo paga desde a Segunda Guerra Mundial.

A fantasia antiamericana, simétrica e igualmente perigosa e enviesada, é a da destruição de Israel 
para dar lugar a um Estado palestiniano do Jordão até ao mar. Sobre isto, o segundo postulado, escreverei na semana que vem, um ano depois de 7 de outubro de 2023.