A NATO não está no lado mau. A NATO é o lado mau.

(Carlos Marques, in Estátua de Sal, 08/10/2024, revisão da Estátua)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos sobre a atuação de Israel em Gaza e no Líbano com a cobertura dos EUA (ver aqui).

Pela sua atualidade e pela forma assertiva como põe a nu as atrocidades de Israel e desmonta o apoio do Ocidente ao genocídio em curso, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 08/10/2024)


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Não é possível estar do lado certo enquanto se estiver numa organização militar OFENSIVA que nada mais é do que a forma de os EUA tornarem toda a Europa em seu vassalo, e num campo de guerra por procuração.

Se não se cumpre a Constituição de Portugal, então está na hora de uma revolução em Lisboa. A Constituição diz que Portugal deve ser contra o colonialismo e o racismo, as duas características basilares do apartheid de “Israel”, que comete genocídio e limpeza étnica na Palestina cada vez mais ocupada. No entanto, o regime viola a Constituição e está do lado dos colonizadores racistas e assassinos.

A Constituição diz que Portugal deve ser militarmente neutral, tal como Suíça, Áustria, Irlanda, Mongólia, o Turquemenistão, etc. No entanto, o regime viola a lei fundamental e está ao lado dos criminosos de guerra belicistas que destruíram a Sérvia e a Líbia, e também destruíram muitos outros países e assassinaram MILHÕES de seres humanos, mas aí sem usar a insígnia da NATO de forma oficial…

A Constituição diz que a censura deve ser proibida. No entanto, Portugal censura os canais de NOTÍCIAS da Rússia, ao mesmo tempo que difunde os canais de MENTIRAS do império genocida ocidental com capital em Washington, inclusive o i24 que diariamente promove abertamente o genocídio dos palestinianos.

A Constituição diz que a o jornalismo em geral. e a RTP em particular, têm o dever de garantir qur os Portugueses sabem a verdade. No entanto, é só presstitutas a repetir mentiras e propaganda todos os dias, e em nenhum lado se mostra ou defende o trabalho verdadeiro de reais jornalistas como o Bruno Amaral de Carvalho.

A Constituição diz que Portugal deve ser independente, soberano. No entanto, Portugal obedece a não-eleitos de Bruxelas, Frankfurt, Londres e Washington. Até para aprovar uma mudança no IVA na eletricidade, para os mais pobres, é preciso pedir autorização e só depois se pode discutir isso no nosso Parlamento. Mas venha qualquer ordem da ditadora de Bruxelas, e ai de quem não obedeça. Nem se pode discutir sequer, que é-se logo acusado de pecado contra a igreja do Europeísmo.

A Constituição diz que os votos devem todos valer o mesmo. No entanto, alguns eleitores do PS e PSD elegem mais deputados com os seus votos (às vezes, alguns, são até eleitos pelo método de Hondt, na prática sem voto nenhum), enquanto que outros partidos veem os seus votos atirados ao lixo, e a sua percentagem de deputados no Parlamento muito mais baixa do que a percentagem de votos no total nacional.

Chamar a isto “democracia representativa” é como chamar “virgem santa” a uma atriz porno que faz cenas de gangbang…

Portugal merecia uma revolução. Mas já não há capitães no país. Só há soldados da NATO, a falar inglês nas missões de treino, às ordens de instrutores anglo-americanos, a serem mentalmente programados para matar em nome do império do Uncle Sam, enquanto fazem amizades com ucranianos que glorificam o nazismo, ou israelitas que praticam o genocídio. Se calhar, vai mesmo ser preciso os soldados portugueses irem morrer longe, em massa, numa trincheira no Donbass, na Galileia ou em Taiwan, para que também este regime mude. É bom lembrar que, se não fosse a guerra do Ultramar, ainda hoje os portugueses estariam a fazer saudações ao senhor doutor e a meter a mão ao peito com camisas da Mocidade Portuguesa…

E tudo isso foi compatível com a NATO.

A NATO foi o seguro de vida de Salazar. Os países núcleo da NATO (EUA, Reino Unido, e França) foram quem deu à PIDE o know-how para a perseguição política e os métodos de tortura!

E é a NATO quem apoia nazis na Ucrânia, genocidas em “Israel” (i.e. na Palestina ocupada), e se prepara para acarinhar a adesão/anexação da ditadura da Moldávia à UE (que, como se sabe agora, não passa de um instrumento para garantir o financiamento do complexo militar Industrial do império genocida anglo-americano e nazi-sionista.

É esta a natureza da NATO. É invadir o Iraque e assassinar um milhão de humanos, dos quais meio milhão de crianças, e dizer, sem vergonha alguma, que “valeu a pena” e “foi em nome da liberdade e democracia”. Repito como comecei: não é a NATO que está no lado mau. A NATO é o lado mau.

Foi por isso que o ditador fascista Salazar foi um dos seus cofundadores em 1949. Se a NATO fosse coisa boa, esse regime português não teria sido seu membro, e a Assembleia Constituinte de 1975 não se teria dado ao trabalho de escrever o tal artigo, tornado lei fundamental em 1976, sobre a necessidade de fazer de Portugal um país neutral, fora de qualquer bloco militar.

Mas se fores à rua em Portugal fazer um vox populi, 95% não sabem do que é que eu acabei de falar. Apenas sabem repetir o que, de forma pavloviana, lhes foi gravado na escassa massa cinzenta: “aliança defensiva”, “democracia e liberdade”, “ai, ai, o soviético”, “Azov bons, Putin mau”, etc

Os que se tornaram imunes à propaganda do regime, e sabem mais que isso, são apenas à volta de 5%. Não é um número inventado, nem uma perceção minha. É o resultado de uma sondagem com a pergunta “Quem é o principal culpado da guerra na Ucrânia”. Só cerca 5% souberam dar a resposta certa: NATO, EUA.

E isto nem é sequer rebatível. É um facto. Os EUA até tiveram a arrogância de o anunciar publicamente há muitos anos, pela voz do seu mentor, Zbigniew Brzesinsky, ainda no final do século passado, que afirmou que o objetivo era alargar a NATO até cercar a Rússia, e depois fazer exatamente o que está a ser feito: uma guerra por procuração, com carne para canhão de um ou vários países do leste, e com armas e dinheiro dos países ocidentais, de forma a agredir a Rússia.

E, em 2019, tiveram – através da RAND Corporation, think tank ligado ao Pentágono, onde se dá tacho a quem contribuiu para os objectivos da NATO/Império dos EUA -, o descaramento de publicar o plano, com todas as guidelines/instruções passo a passo sobre como fazer esta guerra: acabar com o NordStream, aplicar sanções à Rússia, fazer também um golpe na Bielorrússia, e espalhar o caos no Sul do Cáucaso – a guerra e limpeza étnica em Karabakh, com os Azeris a usarem armas da NATO entregues pela Turquia faz parte desse desiderato.

Graças à NATO/EUA, o mundo tem agora um Afeganistão controlado por maluquinhos talibãs. Se dependesse da Rússia/União Soviética, o mundo teria ali um país normal da Ásia Central. Mas a NATO/EUA/Capitalismo Ocidental são uma e a mesma coisa. Em nome dos seus interesses e más intenções, preferiram radicalizar os mujahideens, dar armas a terroristas, e até promover Bin Laden a “herói”, do que deixar aquele país seguir o seu próprio rumo.

O mesmo sucedeu no Vietname, Laos, Camboja, etc, etc, etc. Países inteiros destruídos, milhões e milhões de humanos assassinados – as estimativas desde 1945 andam entre os 20 e os 30 milhões -, ora pelas armas ora pelo terrorismo económico chamado “sanções”.

John Bolton, um porco imperialista dos EUA que durante a era Bush promoveu a destruição do Iraque e durante a era Trump tentou promover a invasão da Venezuela, definiu assim as sanções. Passo a citar: “O objetivo é provocar a pobreza e a fome naquelas pessoas, e convencê-las a virarem-se contra o próprio governo”.

De cada vez que uma presstituta, ou um político da UE/EUA, falam de Cuba, Irão, Venezuela, e dos “problemas económicos” e dos “regimes malvados”, é isto que estão realmente a defender: o genocídio. Genocídio aqui, milhões de mortos ali, milhões de esfomeados acolá. Isto é a natureza da NATO. Porque a NATO não é uma aliança defensiva da Europa. É um instrumento do imperialismo anglo-americano.

Imperialismo que desde SEMPRE se baseou na supremacia branca (veja-se o apartheid na África do Sul), no genocídio (veja-se a Palestina, ou a ocupação da América do Norte e extermínio das várias nações nativas), e na imposição do poder pela força, um pouco por todo o Mundo. Veja-se a guerra das Malvinas/Falkland ou o que Gandhi e os Indianos tiveram de passar para deixarem de ser colonizados pelo Império.

E quem fala da NATO e da UE, fala da Frontex e do ICC também. A Frontex, polícia fronteiriça da Europa, recebeu mundos e fundos para comprar veículos de guerra e armas, e entretém-se a disparar metralhadoras na direção dos barcos dos refugiados. E que refugiados? São aqueles do Norte de África e do Médio Oriente, que fogem da destruição e da pobreza causada pelo império anglo-americano e francês (neste caso no Sahel e Sahara).

E o ICC (International Criminal Court, ou Tribunal Penal Internacional), nunca emitiu um único mandato de captura para nenhum criminoso de guerra e assassino ocidental, como Bush, Blair, Obama, etc, nem sequer emite um mandato contra um genocida em direto, Netanyahu e companhia nazi-sionista, nem contra os nazis ucranianos que bombardeiam civis desde 2014. Apenas emitiu um mandado contra Putin. Nas palavras de um político da UE/NATO, cujo nome não me recordo, esse “Tribunal” não serve para castigar ocidentais, só serve para castigar os outros. É também essa a visão de Borrell e companhia, quando chamam “jardim” ao que está dentro da UE, e “selva” ao que está do lado de fora.

A natureza da NATO e deste regime ocidental em que vivemos, é o próprio mal. O regime é o império genocida de guerra permanente (forever wars) dos anglo-americanos, com os EUA como dono hegemónico do Mundo. Por isso Biden disse assim há uns meses: “eu estou ocupado a liderar o Mundo”.

Se uns lideram, os outros seguem cegamente ou obedecem ajoelhados. É isso que Portugal é: um vassalo sem orgulho, nem dignidade, nem carácter dentro da UE e da NATO. Sem qualquer papel, a não ser o de executor do orçamento em que ditadores – um em Bruxelas (Comissão), outro em Frankfurt (BC€) -, aprovam para a “defesa”. Ou seja, há um valor roubado aos contribuintes manipulados, usado depois para garantir o lucro dos donos do Império, a oligarquia dona do complexo militar Industrial, que com o seu poder/dinheiro, é quem escolhe e financia os dois palhaços que discutem um com o outro sobre nada, numa farsa chamada “eleições”.

Seja a Kamala ou o Trump, o imperialismo assassino continuará, a colaboração com nazis e terroristas continuará, o genocídio continuará, e o sistema económico de desigualdade pornográfica continuará.

Se uma abana uma bandeira arco-íris, e se o outro segura na Bíblia, isso é só para iludir. Nada disso muda o que quer que seja na natureza do Império e da sua organização ofensiva nazi-fascista genocida e terrorista chamada NATO.

“Estou em liberdade porque me declarei culpado de jornalismo”

(Julien Assange, in Resistir, 08/10/2024)

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Texto integral do discurso de abertura de Julian Assange perante a Comissão dos Assuntos Jurídicos e dos Direitos do Homem da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE), em Estrasburgo, em 01/Março/2024, sobre o seu acordo de confissão, o trabalho da Wikileaks, a Lei da Espionagem dos EUA, as represálias da CIA e a repressão do jornalismo.

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O alerta esquecido de Einstein e Hannah Arendt

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 05/10/2024)

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Depois de meses a ser desafiado, o Irão atacou alvos militares em Israel. A resposta de Telavive pode iniciar uma reação bélica em cadeia. Como chegámos a este absurdo de parte do nosso futuro coletivo depender de uma figura tão hedionda como Netanyahu?

Em 04-12-1948, o New York Times publicou uma Carta aos Editores, (ver aqui o texto), assinada por 28 personalidades judaicas de relevo, incluindo o físico Albert Einstein e a filósofa Hannah Arendt. Desde 1947 que a violência entre árabes e judeus marcava o cenário político na Palestina. Os subscritores da carta, muitos deles cidadãos dos EUA, escreveram, não para apoiar Israel, independente desde 14 de maio desse ano, mas para lançar um alerta em relação a uma visita considerada perigosa para o mundo inteiro: Menachem Begin (1913-1992). O teor dessa missiva, ignorado como as profecias de Cassandra, explica-nos como foram criminosas as décadas de cumplicidade dos EUA e da Europa com os abusos de Israel. Do apartheid passámos ao genocídio, e agora a uma possível conflagração global.

Os autores da carta denunciavam a visita de Begin aos EUA, pouco antes das primeiras eleições israelitas (25-01-1949). Para os subscritores, o passado “fascista” de Begin estava a ser branqueado, enganando todos aqueles que até 1945 tinham travado uma longa guerra contra o nazi-fascismo. A carta recorda que o Partido da Liberdade (Tnuat Haherut) de Begin é “muito semelhante, na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazi e fascista.

”Begin formara em 1943 uma organização terrorista contra a administração britânica na Palestina, o Irgun, que em 1946 fez explodir o Hotel Rei David em Jerusalém, matando 91 pessoas. Prossegue a carta: “as declarações públicas do partido de Begin (…) hoje falam de liberdade, democracia e anti-imperialismo, quando até há pouco tempo pregavam abertamente a doutrina do Estado fascista.”

Exemplificam com o massacre, em 9 de abril desse ano, da aldeia árabe de Deir Yassin. Quase todos os 240 habitantes foram assassinados. Com orgulho, os terroristas do Irgun convidaram os correspondentes estrangeiros a fotografar os cadáveres nos destroços da aldeia, enquanto os “sobreviventes desfilaram como cativos pelas ruas de Jerusalém”. O partido de Begin é ainda acusado de “no seio da comunidade judaica pregar uma mistura de ultranacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial.”

Corretamente, a carta define o fascismo e o nazismo pelo método e não pela etnia. Confirmam que a organização política de Begin tem “a marca inconfundível de um partido fascista para o qual o terrorismo (contra judeus, árabes e britânicos) e a deturpação são meios, e um ‘Estado Líder’ é o objetivo.”

Nas eleições de 1949, o partido de Begin teria apenas 14 dos 120 assentos do Knesset. Só em 1977, depois de oito eleições consecutivas, Begin e o seu novo partido, Likud, (onde hoje campeia Netanyahu) chegariam ao poder, quebrando três décadas de hegemonia trabalhista. Foi com Begin que se aceleraram os colonatos em Gaza e na Cisjordânia, tendo também sido ele o primeiro a invadir o Líbano, em 1982. Mas o pesadelo, vaticinado na carta dos judeus antifascistas de 1948, só atingiria a plenitude com Netanyahu, ainda mais brutal que Begin. O atual PM israelita desempenhou o cargo, intermitentemente, durante quase 20 anos, sempre pronto a aliar-se a formações ainda mais racistas e fanáticas do que o Likud. O canal Al Jazzera publicou em abril um trabalho com vídeos colocados nas redes sociais por soldados israelitas. É doloroso visionar a alienante bestialidade em que homens e mulheres comuns (o IDF é um exército de cidadãos) se deixaram afundar, intoxicados no ódio racial.

A fúria homicida de Netanyahu, cuja raiz foi denunciada na carta de Einstein e Arendt em 1948, hipnotizou o Congresso dos EUA, esse gigante sem cabeça, colocando ao serviço da sua pulsão de morte todo o poderio militar de Washington e a servil cumplicidade da UE.