(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 05/10/2024)

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Depois de meses a ser desafiado, o Irão atacou alvos militares em Israel. A resposta de Telavive pode iniciar uma reação bélica em cadeia. Como chegámos a este absurdo de parte do nosso futuro coletivo depender de uma figura tão hedionda como Netanyahu?
Em 04-12-1948, o New York Times publicou uma Carta aos Editores, (ver aqui o texto), assinada por 28 personalidades judaicas de relevo, incluindo o físico Albert Einstein e a filósofa Hannah Arendt. Desde 1947 que a violência entre árabes e judeus marcava o cenário político na Palestina. Os subscritores da carta, muitos deles cidadãos dos EUA, escreveram, não para apoiar Israel, independente desde 14 de maio desse ano, mas para lançar um alerta em relação a uma visita considerada perigosa para o mundo inteiro: Menachem Begin (1913-1992). O teor dessa missiva, ignorado como as profecias de Cassandra, explica-nos como foram criminosas as décadas de cumplicidade dos EUA e da Europa com os abusos de Israel. Do apartheid passámos ao genocídio, e agora a uma possível conflagração global.
Os autores da carta denunciavam a visita de Begin aos EUA, pouco antes das primeiras eleições israelitas (25-01-1949). Para os subscritores, o passado “fascista” de Begin estava a ser branqueado, enganando todos aqueles que até 1945 tinham travado uma longa guerra contra o nazi-fascismo. A carta recorda que o Partido da Liberdade (Tnuat Haherut) de Begin é “muito semelhante, na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazi e fascista.
”Begin formara em 1943 uma organização terrorista contra a administração britânica na Palestina, o Irgun, que em 1946 fez explodir o Hotel Rei David em Jerusalém, matando 91 pessoas. Prossegue a carta: “as declarações públicas do partido de Begin (…) hoje falam de liberdade, democracia e anti-imperialismo, quando até há pouco tempo pregavam abertamente a doutrina do Estado fascista.”
Exemplificam com o massacre, em 9 de abril desse ano, da aldeia árabe de Deir Yassin. Quase todos os 240 habitantes foram assassinados. Com orgulho, os terroristas do Irgun convidaram os correspondentes estrangeiros a fotografar os cadáveres nos destroços da aldeia, enquanto os “sobreviventes desfilaram como cativos pelas ruas de Jerusalém”. O partido de Begin é ainda acusado de “no seio da comunidade judaica pregar uma mistura de ultranacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial.”
Corretamente, a carta define o fascismo e o nazismo pelo método e não pela etnia. Confirmam que a organização política de Begin tem “a marca inconfundível de um partido fascista para o qual o terrorismo (contra judeus, árabes e britânicos) e a deturpação são meios, e um ‘Estado Líder’ é o objetivo.”
Nas eleições de 1949, o partido de Begin teria apenas 14 dos 120 assentos do Knesset. Só em 1977, depois de oito eleições consecutivas, Begin e o seu novo partido, Likud, (onde hoje campeia Netanyahu) chegariam ao poder, quebrando três décadas de hegemonia trabalhista. Foi com Begin que se aceleraram os colonatos em Gaza e na Cisjordânia, tendo também sido ele o primeiro a invadir o Líbano, em 1982. Mas o pesadelo, vaticinado na carta dos judeus antifascistas de 1948, só atingiria a plenitude com Netanyahu, ainda mais brutal que Begin. O atual PM israelita desempenhou o cargo, intermitentemente, durante quase 20 anos, sempre pronto a aliar-se a formações ainda mais racistas e fanáticas do que o Likud. O canal Al Jazzera publicou em abril um trabalho com vídeos colocados nas redes sociais por soldados israelitas. É doloroso visionar a alienante bestialidade em que homens e mulheres comuns (o IDF é um exército de cidadãos) se deixaram afundar, intoxicados no ódio racial.
A fúria homicida de Netanyahu, cuja raiz foi denunciada na carta de Einstein e Arendt em 1948, hipnotizou o Congresso dos EUA, esse gigante sem cabeça, colocando ao serviço da sua pulsão de morte todo o poderio militar de Washington e a servil cumplicidade da UE.
O problema de Israel e que continua em pleno Século XXI a exercer a crueldade que, segundo a Bíblia, exercia há quatro mil anos atrás.
O que não falta em Israel são trastes que acreditam que teem o direito de usar contra os árabes e outros que sejam seus inimigos, as técnicas de genocídio que segundo a Bíblia foram usadas contra midianitas, amalequitas e outros.
Temos uma gente que continua a viver há quatro mil anos atrás.
Uma gente cuja doutrina diz que haverá mesmo uma grande conflagração da qual so o povo escolhido por Deus, ou seja, eles, escaparão, mesmo que individualmente alguns deles possam morrer.
No fundo e o mesmo em que acreditam aquele pessoal que nos bate a porta ao domingo mas estes últimos não acreditam nisso de fazer o trabalho de Deus pela força das armas.
Pelo contrário, muitos enfrentaram morte e cadeia por não quererem servir nos exércitos.
Um terço dos que então eram chamados Estudantes da Bíblia na Alemanha nazi foram mortos.
Já os israelitas não se importarão nada de tentar pela força das armas conseguir a tal grande conflagração de que só o seu povo escapara.
O que e arrepiante e essa gente acreditar mesmo nisso e estar disposta a fazer com que aconteça.
Quem achou que era uma boa ideia armar ate aos dentes gente dessa já tem muito sangue nas maos e ninguém sabe quanto mais terá.
Claro que uma gente com essa doutrina nefasta teria de ser fascista.
Essa de fazer desfilar como cativos os sobreviventes de um massacre mostra bem como essa gente vive não na idade média mas há quatro mil anos atrás. Tendo a mais moderna tecnologia bélica do Século XXI.
Gabo a paciência de quem ainda tenta argumentar com gente dessa. O único argumento que essa gente merece e uma trapada de m*rda no focinho.
Este texto é importante, por definir o partido Likud, desde as raízes e fundação, como de extrema-direita (que o é, claramente).
À uns meses, à conversa com um cidadão português de ascendência judia, digamos assim, quando lhe disse que o Likud era um partido supremacista e ultra-nacionalista, ficou muito indignado e começou a dizer que não, que era um partido centrista.
O que o fanatismo e a cegueira ideológica, alimentados pela constante propaganda, não fazem à cabeça das pessoas. Aqui também teve influência o sectarismo dessa pessoa, que nunca vira tão “enraizemada”.