A crueldade bíblica tomou o poder em Israel

(José Goulão, in AbrilAbril, 16/09/2024)

Itamar Ben-Gvir, Benny Gantz, Benjamin Netanyahu, Bezalel Smotrich

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Em numerosos comentários e opiniões que proliferam a propósito da situação actual nos territórios da Palestina conhecidos como Israel, sobretudo depois das grandes manifestações em curso contra o governo, existe a convicção de que o problema único é o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Isto é, uma vez que este se demita ou seja demitido, a crise ficará resolvida e tudo regressará à paz do senhor com a continuação da metódica limpeza étnica dos palestinianos.

Puro engano, piedosa ilusão. Nada voltará a ser como dantes no chamado «Estado judeu».

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Da impunidade dos crimes do Ocidente à impotência coletiva dos povos – Parte I

(Por Erno RENONCOURT, in Le Grand Soir, 04/10/2024, Trad. Estátua)

Podemos afirmar que, na sua forma atual de geoestratégia totalitária da globalização, o capitalismo já não pode ser definido tal como o marxismo o entendia no século XIX, ou seja, simplesmente como um sistema de produção de mercadorias e bens através da exploração do trabalho assalariado.


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Neste texto, propomos uma reflexão atípica, até mesmo herética, para repensar o sentido e reapropriar as questões da noção de “consciência” nas novas formas de luta a serem travadas contra a indigência multifacetada que o capitalismo semeia com grandes ventos apocalípticos sobre todos os continentes e em todas as estações. Esta reflexão parece-nos contextualmente necessária, porque, na sua perspetiva da viabilidade humana da história, o materialismo dialético postulou que a condição sine qua non da revolução dependia da transformação da alienação capitalista em poder insuportável (Karl Marx e Friedrich Engels, in A Ideologia Alemã).

Ora, a observação da evolução do capitalismo como um poder monetário insuportável é reconhecida por unanimidade. Segundo Marc Chesney, professor de finanças da Universidade de Zurique, “nunca na história houve uma concentração de riqueza em tão poucas mãos”. E esta situação é ainda mais insuportável porque é perigosa. Porque, além disso, a oligarquia financeira está tão interessada nos seus ativos económicos que jura apenas pelo crescimento e pela abundância, e está pronta a assar a humanidade que se rebela contra a sua indigência com o fogo nuclear.

Na verdade, esta oligarquia assumiu todos os direitos: manteve durante muito tempo uma grande parte da população mundial na escravatura, especialmente nos países do Sul; derrotou a democracia e o modelo social que tinha, contra a sua vontade, concedido às populações do Norte, depois da Segunda Guerra Mundial, no seu desejo de derrotar o bloco comunista que se impôs, através do seu triunfo sobre o nazismo, como modelo alternativo.

Tendo manobrado até se impor como único modelo dominante, após o colapso do bloco de Leste em 1991, esta oligarquia queria tanto expandir o seu crescimento que transformou o seu modelo económico neoliberal de deterioração dos ecossistemas e dos espaços humanos numa geoestratégia da globalização, com o objetivo de absorver toda a riqueza do mundo.

Compreendemos facilmente porquê. E sentindo-se ameaçada pelas potências emergentes que querem um mundo multipolar, menos sujeito aos ditames do Estado único sob o controlo desta oligarquia financeira e predatória, parece assumir o risco de colocar a humanidade à beira do guerra apocalíptica.

De Gaza ao Haiti: a mesma divagação da consciência humana

E, no entanto, embora esta gangrena, que semeia o caos e a precariedade em prol do seu crescimento e abundância, seja, no final do primeiro quartel do século XXI, unanimemente reconhecida como um poder monetário e totalitário insuportável, a humanidade nunca foi tão impotente e distante das frentes da revolução. Tomando os exemplos de Gaza e do Haiti, podemos modelar os termos dos problemas enfrentados por esses povos por meio de equações equivalentes que envolvem os conceitos de invariância, impotência e errância, interligando-se e entrelaçando-se como variáveis ​​estruturantes de uma mesma representação da realidade. Da realidade do mesmo mundo alienado, do mesmo desejo de quem a todos tem que desumanizar retirando-lhes a sua dignidade; e isto, apesar da distância geográfica, cultural e histórica destes dois povos, e apesar da diversidade de formas e múltiplas manifestações desta desumanização ou desta divagação de consciência.

Assim, podemos propor uma equivalência entre os termos do problema haitiano e os de Gaza, e mesmo os do mundo, da seguinte forma:

Haiti desumanizado = Invariância das raízes totalitárias do Duvalierismo (que são consequências das estruturas esclavagistas) + impotência coletiva + divagação da governação local (perda de inteligência coletiva local).

Gaza Desumanizada = Invariância das estruturas genocidas do Estado hebraico (diversificação das estruturas esclavagistas) + impotência coletiva + deambulação da governação democrática global (perda de inteligência coletiva global).

Na verdade, enquanto toda Gaza estava a ser alvo de genocídio em 2024, as classes ricas e médias em França (e em todo o mundo) celebravam os Jogos Olímpicos de Paris 2024. Enquanto o Haiti era entregue à experimentação pelo Ocidente e pelas suas instituições internacionais a um gangsterismo estatal transnacional, que devolve a vida da maioria da população pobre às mesmas condições desumanizantes da época da escravatura, no Ocidente os seus artistas, os seus escritores, os seus intelectuais acotovelam-se nos teatros mundiais para terem sucesso nos sonhos brancos de outros lugares e estão prontos para todas as infâmias, todas as vilanias para se agarrarem a esse sucesso longe desse buraco de merda.

Era como se o Grande Noite da ação revolucionária, destinada a iluminar a festa da humanidade social e genérica, se tivesse esfumado. A aurora de um amanhã cor-de-rosa não dissipou os pesadelos da noite, uma lua opaca de terror passou no ângelus do dia, o velho mundo recusa-se a morrer e o claro-escuro de Gramsci transformou-se num eclipse de horror com a efígie da morte. É como se o grande bárbaro, o eterno carniceiro e coveiro dos povos, tivesse coberto o mundo com a sombra espessa do seu gigantesco manto apocalítico, como um convite para o banquete da humanidade que está prestes a ser assada no altar da sua felicidade pós-humanista.

Mas onde está o erro? Porque é que os raios materiais negros da existência desumanizada, tão carregados de cólera militante, não iluminaram os céus da consciência de classe dos povos para os impulsionar para a história como motores revolucionários?

Transições sistémicas

Não pensem que estamos a utilizar esta metáfora para ridicularizar as perspetivas de uma provável revolução, fazendo o papel de aprendiz de crítico do marxismo. O nosso objetivo é mais estratégico do que académico, mais pragmático do que filosófico. É um esforço de sistematização da dialética materialista para contextualizar as condições de viabilidade humana da história, para além da maturação das forças produtivas e económicas. Porque o marxismo é uma teoria científica, e como tal deve seguir o ritmo da dialética: qualquer mudança na infraestrutura da sociedade deve levar a uma rutura na superestrutura, com novas ideias adaptadas para permitir que a teoria seja ajustada de modo a permanecer viva e atual, reinventando-se indefinidamente.

Podemos afirmar que, na sua forma atual de geoestratégia totalitária da globalização, o capitalismo já não pode ser definido tal como o marxismo o entendia no século XIX, ou seja, simplesmente como um sistema de produção de mercadorias e bens através da exploração do trabalho assalariado. O capitalismo, nas suas estruturas globalizadas, inovadoras, virtualizadas e desmaterializadas, tornou-se um ecossistema de desumanização que, depois de anteontem se ter apropriado gratuitamente das riquezas da natureza através da escravatura do trabalho negro e indígena, e ontem através das guerras mundiais e da colonização, quer agora aniquilar o ser humano, apropriando-se da sua consciência através das miragens da inteligência artificial.

Perante esta inovação perversa, que corrói a dignidade e a humanidade do ser humano através da posse, colocando o poder e o saber no centro da sua existência como artefactos de sucesso do seu condicionamento desumanizador, é necessário um esforço sistémico de reapropriação da noção de consciência, para além da sua leitura “estática dialética” como substrato religioso da alienação (Karl Marx, Os Manuscritos de 1844, Apresentação, tradução e notas de Émile Bottigelli. Paris, Les Éditions sociales, 1972, p. 79).

A consciência, porque intervém, não como emergência dada, na compreensão da existência, mas como construção decorrente da representação, interpretação e modelação das suas reais e complexas dimensões alienantes, participa, portanto, no processo de ação para a viabilização humana da história. E, como tal, vai-se afirmando como uma questão de resistência e um território de luta para a construção de uma insubordinação verdadeiramente internacional. Uma insubordinação que não será uma impostura ideológica, mas uma verdadeira insurreição das consciências, assegurando o endireitar das posturas, para que o corpo e a mente se alinhem permitindo que as pessoas ocupem dignamente o seu lugar na existência, aprendendo a ser elas próprias, apesar das suas circunstâncias precárias, aprendendo a enraizarem-se no solo da sua cultura e a saberem renunciar a certos bens económicos e a certos atrativos de sucesso, que implicam sempre pesados passivos para a humanidade.

Este esforço é tanto mais útil já que, mesmo alguns marxistas parecem esquecer que, fazer história não é a mesma coisa que escrever história. Assim, há nuances a esclarecer entre as diferentes conceções possíveis do materialismo: a do homem como ator da história, a do homem como autor da sua própria história e a do homem como fazedor da história.

Para nós, isto é uma forma de dizer que não são tanto as condições de existência do homem que determinam o seu papel na história, mas sim a sua compreensão dos diferentes papéis que pode desempenhar na história e os sacrifícios que está disposto a fazer para assumir plena e autenticamente as exigências de cada um desses papéis.

 Pois é evidente que cada um destes papéis exige dele posturas mentais e talentos diferentes, consoante a sua lucidez, a sua inteligência, por assim dizer, a sua consciência. A maioria dos marxistas, no entanto, parece ter um horror sagrado a este conceito, que para eles é sinónimo de alienação religiosa. De facto, muitos dialéticos materialistas tendem a esquecer que a ação humana não se põe em marcha sob o pretexto de que as condições históricas estão reunidas. Pois essas condições podem estar historicamente reunidas, mas os homens podem não saber como interpretá-las, nem como explorá-las para as necessidades da viabilidade humana da história. Consequentemente, a ação humana, como veremos, é o trabalho de pessoas que estão até ao pescoço no marasmo da sua existência, plenamente conscientes das suas condições de existência precárias e desumanizadoras, plenamente conscientes das suas responsabilidades no contexto do momento histórico em que se encontram, genuinamente decididas a mudar estas condições falhadas, e sistematicamente equipadas com os meios e ferramentas para levar a cabo esta mudança (Ludwig Von Mises, Human Action, 1949). Se assim não for, a ação pode não passar de um fiasco, como a revolta dos comunistas de Paris (Karl Marx, Les luttes de classe en France (1848-1850), 1850), dando à história motivos para se repetir, passando constantemente da tragédia à comédia, até se impor como a invariância e o eterno recomeço da mesma tragicomédia para a humanidade.

Metamorfoses indigentes

O erro foi acreditar que basta que as pessoas existam em determinadas condições precárias e desumanizantes para que tenham consciência de classe e se improvisem como atores da história, proclamando-se revolucionários.

Esquecemo-nos de que a consciência, como produto da existência, se constrói em relação à existência, e que essa relação conduz a movimentos flutuantes de ida e volta que podem ser inteligentes e estruturantes ou alienantes e desvinculadores; de modo que a realidade nunca é a mesma para um observador, dependendo do ângulo através do qual a sua consciência interpreta a existência. Da existência à consciência, portanto, há estados mentais que os dialéticos não se deram ao trabalho de inventariar para os integrar no seu arsenal de luta contra a desumanização da existência. E, perniciosamente, é destes estados mentais que o neoliberalismo se apropriou subtilmente, tão bem que conseguiu colocar o homem contra o homem num processo paradoxal de desempenho fracassado.

Inicialmente, através de condicionamentos psicológicos e culturais adequados, inculcou nas pessoas o culto do ter (propriedade privada), obrigando-as a submeterem-se às autoridades detentoras dos recursos e a renunciarem à dignidade para garantir a empregabilidade que dá acesso ao poder de compra. Há um paradoxo neste processo, uma vez que o desempenho do acesso aos recursos (o ter) obriga naturalmente o indivíduo a renunciar à sua inteligência e a permitir a erosão da sua dignidade. Como disse muito bem Noam Chomsky:

“Há dois conjuntos de princípios. Os princípios do poder e do privilégio e os princípios da verdade e da justiça. Se perseguirmos o poder e os privilégios, isso far-se-á sempre à custa da verdade e da justiça”.

Algumas pessoas acreditam que podem enganar o sistema aceitando o que este lhes dá e afirmando que são agentes de mudança do sistema. O erro é que subestimaram o facto de a consciência se adaptar ao que reforça a sua inércia.

Em segundo lugar, conscientes da metamorfose que o ser humano sofre, através da erosão da sua dignidade, quando é enobrecido pela riqueza e pelos bens, os estrategas do neoliberalismo aproveitaram a evolução tecnológica para desmaterializar as estruturas de alienação, embelezando as suas formas bárbaras de ação, transformando-as em artefactos de direitos e de liberdade: o direito às cópulas intersexo (enquanto se aguarda a sua generalização entre espécies), o direito à gestação de substituição (enquanto se aguarda a sua metamorfose universal em gestação de substituição por outra espécie), o direito à mudança de sexo (enquanto se aguarda o direito à mutação para outra espécie).

Assim, no entrelaçamento temporal desta dupla metamorfose, nasceu um gosto pelo gozo, pelo luxo e pela devassidão que distanciou as pessoas de esquerda do território da consciência, impedindo-as de o verem como uma questão-chave na luta e um espaço mental de resistência contra a indigência que se digitalizou e virtualizou, tomando as trajetórias do imaterial (Jean Clam, CNRS, 2016) para melhor desumanizar a vida.

Esta é a acusação insolente e a dissidência que aqui quisemos trazer, neste tempo apocalíptico e carregado de energia nuclear que despoja cada vez mais os homens da sua humanidade, impelindo-os para os territórios deste fracasso humano através da espiral da mais pura indigência.

Com este libelo herético – para além da fúria apocalíptica deste outono de 2024, que amplifica todos os medos, enquanto esperamos que a humanidade caia no abismo da miséria -, estou aqui para deixar ecoar em ecossistemas tépidos algumas conversas autênticas e intranquilas (num cenário de tecnologias de inteligência e previsão ética para a tomada de decisões através de aprendizagens neuro-turbulentas e sensoriais), e para me libertar um pouco mais das amarras que atrofiam a vivência sensorial e a sublimação da existência, através da plena consciência de si.

Até breve para o resto – a Parte II.

Fonte aqui.


Israel — Um Estado Rottwiller

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 02/10/2024)


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A análise do comportamento de Israel na estratégia dos Estados Unidos tem de partir da caraterização da relação do Estado de Israel com os Estados Unidos. É essa relação que determina as ações de Israel e permite ler os passos que os Estados Unidos dão para atingirem o seu objetivo decisivo e vital de manterem a supremacia mundial.

É à luz da questão de hegemonia do sistema mundial, assente na força, que permite emitir o dólar, a moeda de troca mundial sem qualquer valor de referência, a não ser as rotativas da Reserva Federal Americana, que as ações dos atores no Médio Oriente devem ser analisadas.

Os comentadores avocados pelos grandes aparelhos de comunicação centraram as suas arengas em dois pontos: o tipo de ataque do Irão, com aviso prévio, com meios facilmente interceptáveis e de modo a não causar grandes danos pessoais e o tipo de reação de Israel. No fundo, limitaram-se a replicar o que os painéis de comentadores do futebol fazem ao apreciar o “jogo do dia”. A questão, no entanto, é a existência de um campeonato e a estratégia que cada equipa montou para o disputar, quais os investimentos e quais os objetivos dos donos dos clubes. Existem, como sabemos, clubes de primeira e clubes filiais. Israel é um clube filial. Tem, com certeza objetivos próprios, mas o seu papel é o de servir de guarda do proprietário. A relação entre ambos é do mesmo tipo da de um cão rottweiller com o seu dono,

O rottweiller é um tipo de cão desenvolvido na Alemanha, julga-se que descendente de cães romanos e utilizado como cão de guarda. No início do século XX, quando foram pesquisadas diversas raças para a função policial, o rottweiler demonstrou ser extraordinariamente adequado e estas tarefas. Quando não são educados de modo a reconhecer quem manda, podem ser agressivos e necessitar de reeducação. Não parece que seja o caso de Israel, pese embora as justificações para os crimes de Israel atribuídas à fuga à justiça de Netanyahou, ou ao domínio do grupo ultrasionista que domina o governo e tem por objetivo a criação do Grande Israel e a eliminação dos palestinianos, considerados animais.

Na realidade a ação de Israel segue o guião da estratégia dos Estados Unidos para a região e que é conhecida. O essencial desta estratégia pode ser lida em duas obras produzidas por personalidades que desempenharam funções de alta decisão nas administrações americanas e que expõem as linhas mestras da ação dos Estados Unidos. O primeiro é o livro The Grand Chessboard American Primacy and Its Geostrategic Imperatives, O Grande tabuleiro de xadrez. A supremacia americana e as suas implicações estratégicas, de Zbigniew Brzenski, que foi Conselheiro Nacional de Segurança da administração de Jimmy Carter, no qual expõe a importância da região que designou como Eurásia e que explica a decisão de atacar a Rússia a partir da Ucrânia. O segundo livro, menos conhecido, Winning Modern Wars — The Clark Critique, escrito por Wesley Clark, um general vedeta, de quatro estrelas do Exército dos EUA e ex-comandante supremo aliado da OTAN na Europa de 1997 a 2000. Diretor do conselho do Atlantic Council, bem como presidente e CEO da Wesley K. Clark and Associates, uma empresa de consultoria estratégica e que chegou a ser candidato à presidência dos Estados Unidos. Ele relata o primeiro contacto com a administração de Bush Jr, no seu regresso aos Estados Unidos e ao Departamento de Defesa, o que lhe foi dito a 20 de setembro de 2001, apenas nove dias depois dos ataques às Torres Gémeas. A administração Bush (Dick Cheney e Donald Rumsfeld) tinha concebido um plano para atacar sete países de maioria muçulmana após os ataques de 11 de setembro.

O plano incluía ações militares contra Iraque,  SíriaLíbanoLíbiaIrãoSomália e Sudão, sendo o Iraque o primeiro alvo. Três semanas depois da conversa informal, o mesmo oficial entregou a Clark um memorando a descrever como os EUA iriam derrubar sete países em cinco anos. “Começava no Iraque, e depois Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e, a terminar, Irão”.

No livro referido, sob a forma de conselhos ao presidente dos EUA, Wesley Clark explicita a estratégia a seguir: “O que o presidente dos EUA necessita de saber.” Linha de partida: O pós guerra fria terminou. Vivemos uma nova era geopolítica que necessita de uma nova visão e a renovação dos fundamentos do poder americano. O Sistema Internacional depende em exclusivo do sucesso dos Estados Unidos na nova era.

O primeiro passo na renovação dos EUA é encarar a realidade. Os Estados Unidos estão a enfrentar um grupo emergente (BRICS), cada vez mais alinhado, de potências opostas à ordem internacional baseada em regras (sic) e liderada pelos EUA. A Rússia, alinhada com a China, e agora ao lado do Irão e apoiada pela Coreia do Norte, está no centro de uma manobra para destruir a preeminência americana, redistribuir o poder global e dividir o mundo em esferas de influência. Essas potências estão a cooperar cada vez mais. Como o presidente chinês Xi Jinping declarou ao despedir-se do presidente russo Vladimir Putin, em março de 2023, juntos estão a promover “mudanças” que “não víamos há cem anos”. Essas mudanças referem-se ao desmantelamento da ordem global (sic). A invasão da Ucrânia pela Rússia e a intenção da China para tomar Taiwan são apenas dois esforços entre muitos desses atores que visam reduzir a influência dos EUA e mitigar as leis, regras e restrições do atual sistema internacional.

Os potenciais adversários dos EUA estão cada vez mais decididos a usar a força. A invasão em larga escala da Rússia na Ucrânia em 2022 foi um choque (embora não devesse ter sido). Agora, os países europeus temem que, se for bem-sucedida na Ucrânia, a Rússia possa avançar mover contra a Moldávia, Geórgia, Cazaquistão, Polónia ou os estados bálticos. A China, embora ainda cautelosa e calculista, investiu num grande poder militar e está a utilizá-lo para intimidar Taiwan. O Irão continua a procurar a destruição de Israel e está aumentar o seu poderio para adquirir a hegemonia regional. As armas nucleares importam novamente. Putin e os seus aliados têm repetidamente, e com sucesso, ameaçado o uso de armas nucleares para impedir a assistência criticamente necessária dos EUA e do Ocidente à Ucrânia. O medo aberto de confronto com uma potência nuclear prejudica a credibilidade dos EUA em todo o mundo. A Rússia e a China estão a ampliar e modernizar os seus arsenais de armas nucleares, incluindo armas nucleares estratégicas que podem atingir os Estados Unidos. A Rússia produziu uma nova geração de armas nucleares táticas mais facilmente utilizáveis ​​e os meios para as lançar, e Putin fala como se a Rússia tivesse alcançado a superioridade nuclear estratégica.

As sanções económicas dos EUA revelaram ser inadequadas e, às vezes, até contraproducentes. As sanções dos EUA para cortar os fluxos tecnológicos e financeiros para a Rússia após sua invasão da Ucrânia em 2022 não se mostraram eficazes em interromper o uso da força pela Rússia. Tecnologia como chips e máquinas-ferramentas vitais para a indústria militar da Rússia difundiu-se entre um regime de sanções multilaterais que tem sido difícil de aplicar e sujeito a evasão. A Rússia ainda está a exportar petróleo e algum gás, e a obter moeda forte através de uma rede de contrabando, manifestos falsos e mistura de produtos petrolíferos para disfarçar a sua origem. Mas mesmo sem serem totalmente eficazes, essas sanções alienaram muitos países que estavam em cima do muro sobre o conflito na Ucrânia e incentivaram mais esforços para minar o sistema financeiro global dominado pelos EUA.

Os esforços dos EUA para cortejar e conquistar o Sul Global não estão a obter sucesso. Os poderes atrativos do sistema democrático dos Estados Unidos diminuíram com o sucesso do modelo autoritário da China, o surgimento de regimes autoritários em países como a Turquia e o Egito e os problemas óbvios que a governo dos EUA enfrenta em casa. Em África, os esforços dos EUA para pregar a democracia e os direitos humanos são às vezes vistos como uma forma de “imperialismo cultural” e contrastados com as ofertas de ajuda e capital da China sem interferência em assuntos internos.

No Médio Oriente, o Irão criou um arco de milícias e outras forças opostas aos Estados Unidos e muitos atores parecem ver as declarações do governo dos EUA de que não procura a escalada com Teerão como reflexo da fraqueza dos EUA. Em todo o Sul Global, muitos líderes que avaliam o apoio vacilante dos Estados Unidos à Ucrânia parecem ter decidido que a Rússia é a potência mais forte.

A estratégia americana deve assentar entre outros na renovação do seu poder e incluir o fortalecimento da dissuasão nuclear dos EUA e todos os sistemas auxiliares que lhe dão credibilidade. Os líderes dos EUA devem reexaminar a necessidade de sistemas táticos e de teatro, bem como a modernização das ogivas. A dissuasão nuclear dos EUA deve ser uma pré-condição para a negociações estratégicas sobre armas nucleares com a Rússia e a China.

Quanto à Ucrânia o apoio americano deve ser o necessário para expulsar as forças russas do seu território. A China está a observar como os Estados Unidos e outros países respondem a esse desafio. Washington deve encorajar aliados e parceiros que compram armas dos EUA, como sistemas ATACMS e Patriot, a adiar a aceitação e, em vez disso, doar seus sistemas para a Ucrânia conforme necessário para derrotar a agressão russa lá.

O governo dos EUA deve concentrar a construção naval para dissuadir a China, e melhorar as capacidades estratégicas de defesa nuclear dos EUA. Procurar oportunidades como a exploração de petróleo no Mar da China Meridional para repelir economicamente o expansionismo chinês e manter as políticas económicas de investimento robusto em infraestruturas no Estados Unidos, evitando a posse de tecnologias-chave na China. Além disso, Washington deve dar maior prioridade à proteção do dólar como o principal meio de comércio internacional e reserva de valor.

Quanto ao Irão, que está na ordem do dia, Clark expõe a estratégia em vigor: forçar os governantes do Irão a escolher entre a sua luta pela hegemonia regional e a sobrevivência do regime. O governo dos EUA deve alterar a sua política em relação ao Irão de “relutância em escalar” para “acabar com o Eixo da Resistência “, incluindo o apoio de Teerão aos Houthis no Iémen. O governo dos EUA deve alertar o Irão de que, a menos que o Eixo da Resistência seja desmantelado e as ameaças terroristas e nucleares do Irão cessem, os Estados Unidos e os seus aliados usarão todos os meios necessários para efetuar mudanças no Irão. Ataques militares dos EUA dentro do Irão que coloquem em risco os ativos mais valorizados pelo regime, começando com instalações de produção de drones e mísseis, não devem ser excluídos da consideração se o Irão atacar forças dos EUA.

É quanto a este ponto da estratégia de impedir que o Irão se torne uma potência regional no Medio Oriente, ameaçando o papel que tem sido desempenhado por Israel, como rottwiller dos EUA que vai ser decidida a “retaliação de Israel”. Ou os EUA entendem que já estão em condições de aniquilar o poderio militar-industrial do Irão e provocar uma mudança de regime em Teerão e nesse caso a ação de Israel será violenta e preparatória de um ataque principal, ou os EUA entendem que ainda não estão reunidas as condições para essa operação e a retaliação de Israel será destinada a “amolecer” a resistência de Teerão a um futuro ataque decisivo. Decisivo é, no entanto, uma demonstração de força dos Estados Unidos, que convença os estados na região de que ainda são eles os mestres do jogo. Certo é, também, que em qualquer momento ocorrerá um confronto decisivo entre os Estados Unidos e o Irão para impedir este de disputar a hegemonia de Israel como potencia regional e de se tornar uma potencia nuclear. Seria mais um Estado dos BRICS a aceder a essa condição, juntamente com a Rússia, a China, a Índia.

Os Estados Unidos, como referiu Wesley Clark, têm de se mostrar eficazes na luta contra os aliados de Teerão, o Hamas, os Hezbollah, os Houthis, que é o trabalho de rottwiller a cargo de Israel e também manterem a ocupação de parte da Síria, como o estão a fazer à margem de qualquer justificação que não seja o poder da força.

A afirmação da administração Biden, de que os Estados Unidos não se iriam envolver na retaliação de Israel é pura retórica, todos os meios utilizados por Israel são americanos, os aviões, as armas, o sistemas de comando, controlo, comunicações, informação por satélite, localização de alvos são americanos e são também os Estados Unidos que fornecem a reserva de emergência com duas esquadras na região.

A eficácia da retaliação de Israel dependerá muito das capacidades de defesa antiaérea que Teerão tenha entretanto desenvolvido para proteger as suas infraestruturas criticas. Uma informação que com certeza os Estados Unidos dispõem.

Por fim, na distribuição dos custos das duas guerras, a de Israel será paga pelos americanos, com emissão de moeda que criará um efeito de bola de neve de inflação repercutido pelos estados do dólar, os europeus em particular. A guerra na Ucrânia será paga diretamente pelos europeus, com fundos retirados dos apoios sociais e do investimento produtivo.

As ações no Médio Oriente e na Ucrânia dependem da análise da situação que for feita em Washington. Existe um guião. Falta a fita do tempo. Somos todos, os cidadãos das democracias ocidentais, democraticamente impotentes para intervir no nosso futuro.

Links:

Memo to the president: The United States needs a new strategic approach fit for a new geopolitical…

The urgent task before American leaders is to renew the foundations of US power, ensuring that the country’s power of…

www.atlanticcouncil.org