Vai a diplomacia sobrepor-se aos canhões?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/05/2025)


Putin conseguiu, até agora, aquilo que pretendia. As negociações prosseguirão, sempre que Kiev estiver disponível, mas sem um cessar-fogo prévio.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

A estratégia da Rússia e a da Ucrânia para terminar a guerra que travam há três anos são conhecidas: os russos exigem que se comece por negociações diretas, sem condições prévias, baseadas nos “acordos de Istambul” (2022); enquanto os ucranianos pretendem, antes de mais, um cessar-fogo de trinta dias; primeiro cessar-fogo e só depois conversações de paz. Compreendem-se as motivações de uns e de outros. O cessar-fogo iria beneficiar o lado ucraniano, que se encontra numa situação militar difícil, e dificultar o avanço de soluções políticas. Os russos apenas estão disponíveis para o cessar-fogo se determinados pressupostos políticos forem previamente satisfeitos.

A encenação começou no dia 10 de maio, com o ultimato feito pelos dirigentes dos países que integram o “Weimar Group +” (WG+), ou seja, Alemanha, França, Polónia e Reino Unido, a Moscovo. Reunidos em Kiev, com o presidente Volodymyr Zelensky, exigiram a Moscovo o fim incondicional das hostilidades, por 30 dias, com início às zero horas do dia 12 (segunda-feira). Se a Rússia não obedecesse seria varrida por sanções e todo o tipo de punições. Desconhece-se o que aconteceria aos ucranianos caso prevaricassem e cometessem eles as infrações.

Numa evidente falta de criatividade para punir o incumprimento russo, o WG+ insistiu na ineficaz estratégia das sanções, como foi reconhecido à NBC News pelo secretário do tesouro dos EUA, Scott Bessent: “as sanções impostas à Rússia durante a administração Biden foram amplamente ineficazes.” A Rússia tem resistido a mais de 28 mil sanções. Não seria agora que os WG+ conseguiriam descobrir as sanções milagrosas que a fariam soçobrar.

Moscovo rejeitou, de imediato, as exigências do WG+. Numa conferência de imprensa pelas duas horas da madrugada do dia 11 (domingo), o presidente Vladimir Putin convidou Kiev para negociações diretas, sem pré-condições, no dia 15 de maio (quinta-feira), em Istambul. Logo nesse domingo, Zelensky afirmou tratar-se de um “sinal positivo”, mas insistiu que “o primeiro passo para acabar verdadeiramente com qualquer guerra é um cessar-fogo”. Cada um dos opositores continuava no seu canto do ringue. A Alemanha e a França rejeitaram de imediato a proposta de Putin.

Entretanto, o presidente Donald Trump foi dando nos seus posts na Truth Social “uma no cravo e outra na ferradura.” Ora manifestava simpatia pela proposta do WG+ para o cessar-fogo, ora pela proposta de Putin para negociações diretas. Num primeiro momento, os WG+ ficaram satisfeitos com a resposta de Trump, porque sabiam que sem os EUA as “suas” sanções não produziriam efeito algum. Julgavam ter encostado Putin à parede.

Mas, a resposta de Trump ao anúncio de Putin começou a desorientá-los. Afinal, Trump não estava de pedra e cal com os europeus. A tentativa de amarrar Trump à estratégia europeia parecia não estar a resultar. Para que as sanções produzissem efeito precisavam dos norte-americanos, pois sozinhos não iam lá. Trump estava a resistir em prolongar a estratégia de Biden abraçada pelo WG+.

Para “estimular” os russos a aceitar o cessar-fogo, vários países continuaram, entre outras ideias, a defender o armamento da Ucrânia e o estacionamento de tropas ocidentais em solo ucraniano. Essa colocação de forças na Ucrânia já foi, entretanto, abandonada. Para Macron “a proposta de cessar-fogo não significava o fim da entrega de armas à Ucrânia. A trégua proposta por Kiev e seus aliados não incluía a suspensão do fornecimento de armamento”. Os Estados Unidos, a Alemanha e a Austrália, entre outros, concordaram em continuar com a ajuda militar a Kiev.

Putin fez orelhas moucas às ameaças do WG+, não só não cessou as hostilidades como conseguiu implementar o seu plano de sentar os ucranianos à mesa das negociações, como ele desejava, sem nenhum cessar-fogo – a tal pré-condição ucraniana para negociar. É sabido que a Ucrânia necessita desesperadamente de um cessar-fogo para poder restaurar o seu potencial militar e continuar o confronto militar com a Rússia.

As negociações de paz só foram possíveis graças à pressão de Trump sobre Kiev. A França e a Alemanha esforçaram-se por as sabotar, mas os posts de Trump na sua rede social esclareciam inequivocamente ao que ia: “A Ucrânia deve aceitar IMEDIATAMENTE as negociações propostas por Putin na Turquia.” O desconforto crescia no círculo íntimo de Zelensky, pouco satisfeito por Kiev ter de negociar diretamente com os russos sem um cessar-fogo prévio. O próprio Zelensky confirmou isso, quando disse que “por respeito a Trump, enviaria uma delegação ucraniana às negociações.”

Depois de Trump “ter pedido” publicamente a Zelensky para aceitar negociações diretas, ficou claro que o presidente ucraniano não tinha outra alternativa que não fosse a de aceitar a proposta russa. A delegação ucraniana apresentou-se em Istambul apenas por receio das possíveis retaliações de Trump.

Como sublinhou o “Guardian”, ao exigir que a Ucrânia iniciasse imediatamente negociações de paz com a Rússia, Trump frustrou o plano do WG+ impor sanções a Moscovo pela rejeição do cessar-fogo. E, em resultado disso mesmo, o WG+ não pôde cumprir a sua ameaça e teve de adiar essas novas sanções a Moscovo.

Encurralado, e num golpe de teatro rocambolesco, Zelensky desafiou Putin para uma reunião presencial em Istambul, sabendo antecipadamente que este não aceitaria. Tendo em mente o acontecimento da Casa Branca, Putin nunca iria permitir que Zelensky transformasse a cimeira entre os dois numa armadilha mediática. Não só Putin não reconhece legitimidade a Zelensky, como este ainda não revogou o decreto, assinado no outono de 2022, que o impede de negociar com Putin. Qualquer decisão acordada poderia assim ser posteriormente revogada com base na falta de mandato de Zelensky para negociar em nome da Ucrânia.

Como era previsível, a recusa de Putin para se reunir com Zelensky foi utilizada para uma campanha de Relações Públicas, como numa ópera bufa, em que Putin foi acusado de não querer a paz. O secretário-geral da NATO Mark Rutte juntou-se à comédia dizendo que a ausência do dirigente russo mostrava o quão desesperado estava. Zelensky representava como um ator no palco de um teatro, uma vez que o seu objetivo não era chegar a um acordo de paz, mas sim continuar os combates. Queria somente fazer parecer que a Rússia não estava a falar a sério sobre a paz, esperando assim que Trump voltasse à anterior estratégia de Biden.

A Ucrânia, que tinha abandonado as negociações três anos antes e que andou sistematicamente a recusar negociar com a Rússia, tinha-se tornado agora, num ápice, num paladino da paz. Dada a pressão colocada por Trump, havia que fingir estar do lado das negociações.

Em visita ao Médio Oriente, Trump deu a entender que, eventualmente, se poderia juntar a Zelensky e a Putin dizendo que “nada vai avançar até que eu e Putin nos encontremos… Mas ele [Putin] não iria sem mim. E quer se queira quer não, não acredito que algo vá realmente acontecer até nos encontrarmos pessoalmente.” Entretanto, deixava alguma ambiguidade no ar ao referir “que se a possibilidade de um acordo para resolver o conflito não for encontrada através de negociações, os líderes europeus e os Estados Unidos atuarão em conformidade.”

Afinal, as negociações acabaram por acontecer nos termos propostos por Putin. No dia 16, antes do início das negociações com a delegação russa, em Istambul, altos dignitários do WG+ reuniram-se em Antalya com a delegação ucraniana. Não desistiam de convencer os EUA a impor à Rússia novas sanções económicas. Mas, para se assegurar que o plano iria decorrer conforme o previsto, o secretário de estado dos EUA, Marco Rubio, e o senador Lindsey Graham também se reuniram com a delegação ucraniana para lhe transmitir as instruções de Trump: Kiev tem de participar em negociações diretas com a Rússia.

A pressão de Zelensky e do WG+ sobre Trump tem sido constante, não perdendo nenhuma oportunidade. Desde a Albânia ao Vaticano, que se tornou no centro da geopolítica mundial. Até a missa inaugural de Leão XIV foi um pretexto para encontros entre altos dirigentes, para se discutir o tema. Os encontros, as cimeiras e as reuniões foram tantas que já se perdeu a sua conta.

Até ser óbvio que não havia escapatória e que a Ucrânia tinha mesmo de avançar para negociações com a Rússia, os líderes do WG+ pensaram que, com as suas exigências e o apoio de Trump, tinham encurralado Putin. Ao exigir que a Ucrânia iniciasse imediatamente conversações de paz com Moscovo, Trump frustrou assim os planos do WG+. Putin rejeitou o cessar-fogo exigido e Washington não alinhou nas sanções a Moscovo. Entretanto, a Sky News atribuiu a culpa a Trump pela derrota da coligação anti russa.

A pressão de Zelensky e do WG+ sobre o presidente norte-americano aumentou devido ao anúncio da conversa telefónica entre ele e Putin, prevista para o dia 19 de maio, com os líderes europeus a tentarem desesperadamente convencer Trump a não concluir nenhum acordo com Putin e a pressioná-lo para aceitar o cessar-fogo, recorrendo a sanções.

Depois de duas horas e meia de conversa, continuou tudo na mesma. Não houve alterações substantivas na posição russa, e Trump não ameaçou o Kremlin com novas sanções por entender que existe uma hipótese de alcançar a paz, e que o aumento de sanções não iria ajudar. Os europeus não conseguiram o que queriam e o desalento do WG+ e de Zelensky foi imenso.

Mas o que mais os assustou foi o post de Trump, após a conversa com Putin, em que levantava a possibilidade dos EUA se retirarem das negociações. Trump enfatizou que as negociações entre as duas partes deviam iniciar-se imediatamente. Por outras palavras, negociações diretas com a Rússia, sem os EUA.

Trump esclareceu posteriormente que, se no curto prazo não houver progressos significativos no processo de paz, Washington cederá à Europa o seu papel na resolução do conflito. Sem esclarecer, afirmou que outras decisões se seguirão. Fica por saber se, no seguimento do possível abandono das conversações de paz, Washington deixará de apoiar a campanha militar ucraniana, e até onde. Insensível a estes desenvolvimentos, Zelensky continuou a resistir à exigência de Trump para negociar diretamente com a Rússia propondo uma reunião mais ampla envolvendo os EUA, a UE e a Rússia.

Há que perceber o significado da reunião entre as delegações russa e ucraniana, em Istambul, independentemente do âmbito e do mérito do que se acordou, como foi o caso da troca de prisioneiros e do acordo para continuarem as negociações. Putin conseguiu, até agora, aquilo que pretendia. As negociações prosseguirão, sempre que Kiev estiver disponível, mas sem um cessar-fogo prévio.

Mas antes de fazer o ultimato, o WG+ devia ter assegurado o apoio do presidente norte-americano. Ao não conseguir arregimentar Washington para impor novas sanções a Moscovo, colocou-se numa posição vulnerável. Foi um erro de principiante. A capacidade do WG+ para pressionar Moscovo resume-se agora às sanções incluídas no 17.º pacote de sanções aprovado pela UE de consequências económicas duvidosas. Ao não se amedrontar e fazer tábua rasa do ultimato, Moscovo evidenciou a fraqueza do WG+, daqui em diante difícil de ser levado a sério. Os seus líderes quiseram dar um passo maior do que a perna. Isso paga-se caro em matéria de credibilidade.

O discurso da infâmia

(Nuno Morna, in Facebook, 19/05/2025), Revisão da Estátua)


[Num domingo à noite, febril, deitado de lado, com o coração aos gritos e a televisão ligada no volume errado].


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Ontem à noite, o país sentou-se a ver o circo. Um circo de uma só figura, de um homem só, de um espetáculo monológico onde o palhaço também era domador, diretor, macaco amestrado, leão faminto e criança perdida que grita da plateia para que olhem para ele, só para ele, sempre para ele.

André Ventura falou. Falou como quem cospe. Falou como quem bate. Falou como quem quer ser amado mas só sabe odiar. E parte do país, a parte do país fatigada de esperar por Deus, ouviu. Ouviu como se ouve o padre numa missa a que se vai por obrigação, como se ouve a mulher que já não se ama ou o pai que já não se respeita. Ouviu com raiva, com cansaço, com culpa.

Disse que acabara o bipartidarismo. Disse-o como quem anuncia a queda de Roma, o fim dos tempos, a libertação do povo escolhido. E ali estava ele, o Moisés do populismo, de microfone à frente e a azia no bolso como quem esconde a vergonha, prometendo terra prometida a quem nunca teve jardim. Disse que a história tinha mudado, que agora o país era outro, um país dele, feito por ele, para ele, com ele ao leme e os outros calados, de joelhos, em silêncio. Ventura quer o país em silêncio. O país de joelhos. O país em medo. Ventura não quer governar. Ventura quer mandar. E o que há de mais grave é que há quem deseje ser mandado. Há quem precise.

O Chega não é um partido. É uma carência. Um sintoma. É o vómito do país que nunca curou a sua tristeza. Que finge que é alegre no São João, no Santo António, nas bifanas do domingo, nos copos do sábado, nas sardinhas do Junho. Mas que sangra por dentro. Que odeia por dentro. Que tem raiva de si, de tudo, de todos.

Ventura oferece isso: um inimigo. Um sentido. Um alvo. Se há um culpado, já não sou eu. Já não é o meu fracasso, o meu salário, a minha solidão. É o cigano, o negro, o comunista, o assistente social, o jornalista, o juiz, o reformado, o artista, o pobre, o estranho. Ventura dá um nome à frustração. E isso consola. E isso vicia. E isso mata.

O seu discurso foi uma lista de cadáveres simbólicos. “Matei o partido de Álvaro Cunhal”, disse, como se estivesse a caçar fantasmas no sótão. “Varreram o Bloco de Esquerda do mapa”, gritou, com o orgulho de quem limpa sangue do chão, e chama a isso arrumação.

Para Ventura, política é isso: uma limpeza. Uma desinfeção. Uma purga. Como se o país estivesse sujo e só ele, com a sua verdade puríssima, o pudesse lavar. E lavar com quê? Com insultos. Com medo. Com castigos. Com prisões perpétuas. Com castrações químicas. Com multas. Com violência.

E depois, claro, o momento cómico, se a comédia ainda tivesse graça. Atacou as sondagens. Sempre as sondagens. Sempre o mesmo coro: que o queriam calar, que o queriam derrubar, que lhe mentem, que lhe fazem armadilhas. Ventura não percebe que as pessoas votaram no seu partido com vergonha de o fazer, de o dizer às sondagens.

 Ventura é o miúdo que jogava mal à bola e que ninguém quis na equipa e passou o resto da vida a sonhar ser capitão. E agora que lhe deram um apito, anda a expulsar todos os que correram mais depressa do que ele. Ventura não acredita em instituições. Acredita em si. Ventura não acredita em regras. Acredita no seu instinto. Ventura não acredita no país. Acredita no seu espelho.

E depois aquela frase. Aquela frase que soa a taverna com vinho barato e gritaria ao fundo. “A mama vai mesmo acabar”. Disse-o com o orgulho de quem faz justiça, mas com o tom de quem está habituado a mentir e a justificar-se com o cansaço. A mama vai acabar. A mama, quer dizer, o Estado. Os apoios. Os direitos. A solidariedade. Os serviços. A dignidade.

Ventura quer um país onde só os fortes sobrevivem. Onde quem não consegue, morre. Onde quem chora, se cala. Onde quem precisa, se esconde. Porque, para ele, a vida é uma luta de cães. E ele é o dono da trela.

Mas Ventura não quer que a mama acabe. Ventura quer ser ele a mamar. Quer o lugar do outro. Quer mandar nos subsídios. Quer mandar na televisão. Quer mandar na escola. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. E o país, esse país magoado, esse país velho que já não acredita em ninguém, esse país que se esqueceu como é que se luta, esse país votou nele como quem diz: “Toma, faz tu melhor”. E ele fará. Mas não será melhor. Será só mais triste. Mais cruel. Mais pequeno.

O que me espanta não é Ventura. Ventura é uma personagem de novela das seis: previsível, mal escrita, exagerada. O que me espanta é o silêncio. O silêncio dos outros. O silêncio dos bons. O silêncio dos sérios. Dos que deviam estar ali, naquele exato momento, a dizer: basta. Mas estavam calados. Com medo de perder votos. Com medo de serem insultados. Com medo de não parecerem “populares”. E assim se mata uma democracia: não com balas. Com medos. Com cobardias. Com silêncios.

Este discurso, o de 18 de maio, de ontem, não foi um discurso. Foi uma bofetada. Foi uma noite de gritos num quarto fechado. Foi o início de qualquer coisa escura. E se não gritarmos agora, se não dissermos agora, alto e claro, que isto não é normal, que isto não é aceitável, que isto não é o país que queremos, amanhã já não poderemos falar.

 E depois? Depois virá o silêncio. O grande silêncio. O silêncio dos cemitérios. E Ventura sorrirá. Porque não há nada mais cómodo para quem quer mandar do que um povo sem voz. E nós estamos perigosamente perto disso. Perto de calar. Perto de baixar a cabeça. Perto de desistir.

E quando isso acontecer, será tarde. Será sempre tarde.


Post scriptum: Estarei sempre do outro lado da barricada. Com todos os que são, efetivamente, pessoas de bem, não os que se dizem, mas os que o demonstram, com os que amam a liberdade sem adjetivos e a democracia sem asteriscos. No combate a todos os radicalismos, venham eles mascarados de justiça ou de ordem, de povo ou de nação.

No combate aos que aparecem para dividir, para semear o ódio, para apagar a pluralidade, para transformar o medo em política. No combate, sempre, à intolerância, a intolerância dos gritos e a dos silêncios cúmplices. Quero viver com a noção de que “Combati o bom combate“, (2 Timóteo 4:7). Da minha parte, não esperem outra coisa. Nem agora, nem nunca.

Porque Trump não enfrenta Putin

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 20/05/2025, Revisão da Estátua)


(Este texto é polémico – e talvez por isso – convoca diversas vertentes a exigir reflexão e debate, mas assenta na interpretação de várias pistas que decorrem da factualidade do comportamento dos visados, para chegar à construção de uma tese que os transcende. A Estátua não foje nem quer ignorar as polémicas, antes tem mais queda para as provocar. E, por isso, aqui fica o texto. Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 21/05/2025)


Nota Introdutória: Porquê este texto?

Este ensaio nasce de um momento banal, quase despercebido: uma pergunta feita por uma jornalista da CNN a um general português. A pergunta era simples – por que razão Donald Trump não enfrenta Vladimir Putin? O general respondeu com a posição habitual: cautela, cálculo político, respeito entre homens fortes, ou até possível simpatia pessoal. Nada de novo.

Essa resposta – como tantas outras – assenta numa leitura que se tornou dominante: a de que a política internacional se move por interesses, gestos táticos e temperamentos individuais. É uma visão pragmática, funcional, e suficientemente segura para circular nos estúdios de televisão. Mas talvez seja também limitada. Talvez não diga tudo. Talvez o silêncio de Trump sobre Putin não seja um acidente – nem fraqueza, nem cálculo eleitoral, nem estratégia de bastidores. Talvez seja uma linguagem. Uma mensagem. Um sinal de que está a emergir algo mais profundo – algo que quase ninguém se atreve a nomear.

Foi esse silêncio que me fez parar. E perguntar: e se a verdadeira razão da ausência de confronto entre Trump e Putin não for tática, mas doutrinária? E se ambos partilharem, mesmo de forma distinta, uma crítica radical à ordem liberal que moldou o mundo após 1945? E se, por detrás das divergências formais, existir entre eles uma convergência filosófica, civilizacional – até teológica – que nunca foi verdadeiramente discutida?

Esta é a reflexão que se segue. Não parte de alinhamentos partidários, nem de indignações fáceis. Parte da suspeita de que há aqui uma visão alternativa da política mundial – subterrânea, mas consistente – que desafia as categorias com que ainda tentamos compreender o presente. Uma crítica convergente ao liberalismo como fundamento da nova política de poder.

2.

Num tempo em que as análises geopolíticas são rasas, presas a ciclos noticiosos ou à polarização tribal, urge compreender a aliança implícita entre Donald Trump e Vladimir Putin por aquilo que ela verdadeiramente é: uma convergência civilizacional contra a matriz liberal da ordem ocidental.

O silêncio de Trump perante a guerra russa na Ucrânia, a sua ambiguidade face à NATO e o seu desinteresse estratégico em contrariar Putin não são sinais de fraqueza ou submissão. São expressão coerente de uma visão partilhada do mundo. E essa visão é, acima de tudo, antiliberal.

3.

É preciso começar pela pergunta: que tipo de liberalismo rejeita Trump e também Putin? Não se trata apenas de uma rejeição do liberalismo económico (a globalização financeira), nem exclusivamente do liberalismo político (democracia representativa, separação de poderes). O alvo é mais profundo: trata-se de uma recusa civilizacional do liberalismo como conceção do ser humano.

4.

Vladimir Putin, no discurso de Valdai (2021), afirmou com clareza: “As tentativas de impor ao mundo o chamado progresso social estão a degenerar numa nova forma de dogmatismo, que beira o absurdo. […] Eles exigem que as crianças aprendam desde tenra idade que um menino pode facilmente tornar-se menina.”

Esta frase não é apenas um ataque à política de género. É uma rejeição da antropologia liberal, que concebe o indivíduo como autónomo, auto determinável, e liberto de pertenças coletivas (Nação, religião, tradição). Para Putin, tal conceção dissolve o que há de permanente e enraizado na natureza humana. A sua crítica é, neste sentido, nietzschiana e conservadora: a civilização ocidental liberal perdeu a ligação à tragédia, ao sacrifício e à identidade.

5.

Donald Trump, por sua vez, não articula uma doutrina com a densidade russa. Mas a sua retórica política segue a mesma matriz. Num discurso em Mount Rushmore (2020), afirmou: “A nossa nação está a ser atacada por um movimento radical que procura demolir a herança americana […] e abolir os valores cristãos.”

O liberalismo, para Trump, deixou de ser o regime da liberdade – passou a ser o sistema da decadência. Ele não vê no liberalismo uma teoria política neutra, mas um instrumento ideológico das elites globais para dissolver a nação, a fé, a autoridade e a história comum. Nesse sentido, Trump não é conservador no sentido tradicional – é contrarrevolucionário.

6.

Sendo assim, Trump e Putin convergem num ponto axial: a soberania como categoria suprema da política. Recusam qualquer subordinação da vontade nacional a instituições supranacionais, regras globais ou valores universais. Putin, no seu discurso à Duma (2022), declarou:“A Rússia continuará a defender os seus interesses soberanos, mesmo que isso signifique confrontar o mundo inteiro.”

Trump, num discurso na ONU (2019), afirmou: “O futuro pertence aos patriotas, não aos globalistas.”

Esta linguagem, longe de ser apenas populista, assenta numa visão do mundo pós universalista. Ambos rejeitam a ideia de que existe uma moralidade política válida para todos os povos. Voltam, de facto, ao jus naturalismo pré-moderno: o bem e o justo são definidos pela comunidade concreta, pela cultura, pela história própria – não por tratados redigidos em Nova Iorque ou Bruxelas.

7.

A NATO, a UE, o sistema de Bretton Woods, a ONU – para Trump e Putin, tudo isto é fachada de um império liberal, onde os interesses da elite transnacional se mascaram de “valores universais”. Putin denuncia-o como “imperialismo cultural ocidental”. Trump denuncia-o como “o pântano de Washington”, com os seus diplomatas, jornalistas e tecnocratas globalistas.

Ambos veem no liberalismo não um regime da liberdade, mas uma máquina de despolitização e controlo. Neste quadro, o conflito na Ucrânia não é interpretado como invasão ou defesa da democracia. Para ambos, trata-se de uma guerra civilizacional – um braço de ferro entre um bloco liberal decadente e uma visão alternativa, enraizada em soberania, fé, identidade.

8.

Sendo assim, o silêncio de Trump sobre Putin não é diplomacia ou ignorância. É reconhecimento estratégico. Trump vê em Putin um espelho invertido: um chefe de Estado que afirma a primazia da nação sobre os dogmas globais. É por isso que, mesmo quando pressionado a condenar a Rússia, Trump responde com desinteresse ou ambiguidade – porque, no seu código político, Putin não é o verdadeiro inimigo. O inimigo está em Davos, em Bruxelas, em Silicon Valley, em Harvard.

Ao recusar confrontar Putin, Trump está a declarar guerra não à Rússia, mas ao liberalismo como sistema totalizante – o mesmo que Putin combate a partir de Moscovo. Este silêncio é, por isso, a expressão mais radical do novo eixo antiliberal do século XXI.

9.

É um erro ler o mundo através da grelha moral herdada do pós-Guerra Fria. A linguagem dos “direitos humanos”, da “ordem baseada em regras” e da “comunidade internacional” está em colapso – não por acidente, mas por recusa ativa dos seus antigos protagonistas.

Trump e Putin representam dois rostos, distintos mas convergentes, de uma nova era antiliberal. O silêncio estratégico entre eles não é vazio. É aliança ideológica tácita, sustentada por uma crítica civilizacional profunda. Compreendê-lo exige mais do que indignação ou partidarismo. Exige uma pergunta difícil: e se o liberalismo, tal como o conhecemos, deixou de ser a linguagem comum da política internacional?

X.

Portugal raramente entra nesta equação – e, quando entra, fá-lo de forma automática, quase sem debate. Alinha-se com o Ocidente liberal porque é esse o espaço institucional que habita: membro da NATO, da União Europeia, da ordem atlântica. Mas esta adesão, hoje, é mais inercial do que crítica. Durante décadas, a política externa portuguesa oscilou entre o seguidismo europeu e a vocação atlântica. Não formulou doutrina própria. Aceitou os pressupostos do liberalismo internacional sem os interrogar, como se fossem neutros, naturais, inevitáveis.

Mas num mundo em reconfiguração, essa neutralidade já não basta. Portugal terá de escolher, não apenas entre blocos, mas entre visões do mundo. A pergunta já não é só geoestratégica – é civilizacional: continua a acreditar na ordem liberal enquanto regime universal? Ou reconhece que esse modelo está em crise profunda – e que a sua renovação exigirá mais do que alianças formais?

Num país com memória de império, de tragédia e de transição, talvez valesse a pena começar a pensar e a discutir a sua própria identidade internacional. Repito: Pensar, Discutir. Não como satélite de potências maiores, mas como ator que compreende a complexidade do novo tempo – e decidirá um dia com lucidez. Neste contexto, sinto a responsabilidade de contribuir para este debate, partilhando esta reflexão.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.