Os políticos não são gente como nós

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/07/2022)

Miguel Sousa Tavares

Eu não me vou enfiar em casa de um tipo que não me convidou e que não gosta particularmente de mim na esperança de que ele me convide para ficar para jantar e eu possa aproveitar, assim, a sua bela casa. Especialmente se sei que o tipo embirra com a minha família e, sendo eu o chefe dessa família, expondo-a a sofrer um desaforo do anfitrião, que já sei ser um tipo pouco dado a cerimónias. Esta foi a segunda vez que Marcelo Rebelo de Sousa se foi enfiar no Brasil sem ser oficialmente convidado para tal, para além da cerimónia de posse de Jair Bolsonaro — para a qual não precisava de convite formal nem precisava de ir. Eu percebo perfeitamente que o Brasil seja uma tentação, à qual eu próprio já sucumbi inúmeras vezes. Mas eu não sou Presidente da República — o que significa que viajo quando e onde quero ou posso, sem as mordomias inerentes ao cargo, mas também sem precisar de convite nem de dar satisfações a ninguém. Com o Presidente é diferente: para começar, não se pode ausentar do país sem autorização da Assembleia da República, e deve justificar o motivo para tal; em segundo lugar, não viaja quando e para onde quer, mas sim quando e para onde os deveres institucionais de representação do país o convocam, e, em terceiro lugar, isso significa que cada viagem sua ao estrangeiro é objecto de um ajuste bilateral com o país visitado, o qual pressupõe, desde logo, a existência de um convite formal da parte deste que traduza o interesse desse país em receber o nosso Presidente. É assim que o Presidente de Portugal se deve comportar, a menos que queira fazer a figura daqueles Presidentes africanos que passam mais tempo fora dos seus países do que dentro, viajando para todo o lado sem serem convidados, chegando até a bloquear o aeroporto da Portela devido a uma aterragem atribulada com um dos seus jactos privados, como sucedeu na semana passada.

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Já anteriormente Marcelo avançara para o Brasil sem a cobertura de uma visita oficial — que, aliás e segundo a regra da alternância, deveria esperar por uma visita do Presidente brasileiro a Portugal, coisa em que Bolsonaro nunca mostrou interesse. Dessa vez (imagina-se que após incansáveis esforços da nossa embaixada), Marcelo lá conseguiu um almoço com Bolsonaro. Mas onde, segundo consta, o Presidente brasileiro fez questão de o receber sem máscara em plena pandemia e de passar o almoço a contar anedotas inconvenientes: um enxovalho que deveria ter ficado de lição. Mas não, Marcelo resolveu agora reincidir, decidindo de sua lavra que ia visitar o Brasil para assinalar os 100 anos da travessia aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral e mostrar-se na Feira do Livro de S. Paulo, onde Portugal era país convidado — dois acontecimentos que passaram completamente ao lado das autoridades brasileiras.

Convidado e depois desconvidado para um almoço entre Presidentes, em Brasília, Marcelo acumulou esforços inúteis para disfarçar novo enxovalho, chegando ao cúmulo de se consolar dizendo que as bandeirinhas dos carros postos à disposição da comitiva portuguesa tinham escrito “visita oficial”.

Então, tentou deitar água na fervura dizendo que importante é que tínhamos emprestado o coração de D. Pedro IV para a celebração dos 200 anos da independência do Brasil, mas nada pôde dizer para minimizar a gafe de marcar um encontro com Lula — o candidato contra Bolsonaro nas presidenciais de Novembro — antes de saber se iria encontrar-se com Bolsonaro. Enfim, todo um desastre diplomático, absolutamente penoso e evitável, expondo-se e expondo-nos a uma humilhação às mãos do Presidente do Brasil e complicando ainda mais a nossa participação, já bem tremida, nas celebrações dos 200 anos — nas quais, seguramente, Marcelo também não abdicará de marcar presença, convidado ou não.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Infelizmente, o Brasil tem uma relação muito mal resolvida com Portugal. Com excepção de uma pequena franja de brasileiros que se deram verdadeiramente ao trabalho de conhecer Portugal para além do pastiche do padeiro, da mulher de bigode e de Fátima, para a generalidade dos outros a imagem que têm de Portugal não apenas é datada e errada, como injusta. Injusta para com um país que tem sido tão generoso na concessão da nacionalidade a brasileiros (sem exigir reciprocidade alguma) e no acolhimento deles: são hoje 250 mil brasileiros oficialmente registados como residentes em Portugal, o equivalente a 4% da população portuguesa. Tal seria bastante para que nenhum Presidente brasileiro se dignasse distratar um Presidente português, mesmo que este se fosse lá enfiar a despropósito: não o fizeram Lula, nem Fernando Henrique, nem mesmo Dilma, que não gostava particularmente de Portugal. Mas Bolsonaro é diferente: é grosseiro, mal-educado, ignorante, indiferente ao estado das relações entre os dois países e, aliás, a quase tudo o que não seja manter-se no poder, ele e o seu clã familiar. É claro que Marcelo sabe tudo isto desde sempre. Assim como sabe que entre ele e Bolsonaro há todo um abismo, em termos políticos, humanos, culturais. E é precisamente por isso que mais custa ver um Presidente português a sujeitar-se a ser vexado por este Presidente brasileiro. E só porque não resistiu a mais uma viagem ao Brasil.

2 Nunca alinhei no bota-abaixo generalizado contra os políticos e a classe política que tanto prazer dá aos portugueses e que tantas desculpas lhes serve para as suas frustrações e as suas próprias mediocridades. Pelo contrário, costumo dizer para mim mesmo que ainda bem que há quem queira fazer política, interessar-se pela coisa pública e governar-nos, justamente porque eu seria incapaz de sentir a menor vontade de governar os portugueses. Mas, se bem que tenha conhecido e visto, ao longo dos anos, casos de quem genuinamente nasceu para fazer política, no sentido nobre de serviço à comunidade, nisso empenhando o melhor das suas energias e competências e, por vezes, pagando um amargo preço por isso, também, como é evidente, inúmeras outras vezes vi na política gente absolutamente desprovida de quaisquer ideais ou sonhos que não o simples exercício do poder como prova de existência.

Esta última gente faz-me confusão. O poder pelo poder, desprovido de qualquer horizonte de realização concreta, de cumprimento de um ideal político, certo ou errado, de serviço prestado à comunidade, o poder apenas como ornamento de vaidade pessoal — o carro escuro e o motorista, o tratamento por “sr. Ministro”, os jantares oficiais, as via­gens no Falcon, a espinha curvada dos assessores e aduladores, os discursos ocos e grandiloquentes —, tudo isso, o simples “perfume do poder”, aparece-me como um exercício de vida digno de gente patética e triste. Porque o poder ou é a oportunidade de fazer alguma coisa de útil quando se pode fazê-lo ou então é a liberdade de não ter poder algum. Mas tê-lo em vão, lutar pela sua inutilidade, sofrer pela sua manutenção, é simplesmente desprezível.

Neste episódio de sobrevivência no poder de Pedro Nuno Santos — cuja lenda o retrata como alguém com ­ideais — o que mais me impressionou foi vê-lo chapinhar pela sobrevivência no charco do poder, não em nome daquilo que, sobrevivendo, poderia ainda fazer por nós, mas sim por ele mesmo, pela sua “carreira política”. O projecto era ele mesmo, só e nada mais. E por isso a nada se poupou para se manter à tona do pântano, até à baixeza de recordar os serviços partidários prestados a António Costa na sua ascensão a secretário-geral do PS. Veja-se ao que pode chegar o desespero de se manter no poder: confundir os interesses do partido, das facções do partido, com os interesses do Governo e do país. Nada que não soubéssemos, mas que, mesmo assim, é preciso descaramento para gritar aos quatro ventos.

Mas não devemos chocar-nos demasiadamente se até na pudica Inglaterra, farol moral da democracia, acabamos de ver o que um primeiro-ministro foi capaz de fazer para se manter no poder. Ali, Boris Johnson, um líder para os tempos de hoje — populista, oportunista, incompetente, desprovido de qualquer sentido ético na política —, caçado a mentir uma, duas e três vezes e a fazer em Downing Street aquilo que proibira os ingleses de fazer em suas próprias casas — e uma vez submetido a um voto de censura do seu próprio partido, o que fez para se manter no poder? Socorreu-se do apoio de Volodymyr Zelensky, sugerindo ser insubstituível para ajudar a Ucrânia, e prometeu baixar impostos (e, com isso, ganhar votos para o partido) se o mantivessem no poder. E, uma vez ganha a votação e assegurada a sua sobrevivência, lá foi ele, impante, participar nas reuniões da UE, do G7 e da NATO, desempenhando o seu papel de grande do mundo, dando lições de bom comportamento ao mundo e decidindo sobre os destinos do mundo, com a autoridade moral que lhe dá ser alguém sabidamente desprovido de qualquer autoridade moral. E depois admirem-se que haja uma crise de credibilidade nas democracias!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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A preparar as nossas cabecinhas para a guerra nuclear

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 01/07/2022)

Miguel Sousa Tavares

Reunido em mangas de camisa num castelo alemão, o G7 actualizou as sanções à Rússia e as novas verdades sobre a guerra. De facto, foi o G7+1, pois, como sempre, Zelensky esteve presente por vídeo para pedir mais e mais sofisticadas armas, a tempo de poder decidir a guerra antes do Inverno. Ficou-se a saber que, só dos americanos, ele recebe todos os meses armamento no valor de 7,5 mil milhões de dólares — um festim para as Lockheed Martin dos Estados Unidos. No final e sobre um horizonte de ruínas, alguém há-de ter de pagar isto e suponho que não sejam só os contribuintes americanos, mas todos os da NATO.

2 Na sua intervenção, Zelensky informou os outros de que na véspera os russos tinham atacado com mísseis um centro comercial onde se encontravam mil civis: dez tinham morrido nesse dia, 18 até hoje. Os russos argumentaram que não tinham atacado nenhum centro comercial mas sim um depósito de armas que ficava ao lado e que, ao incendiar-se, atingira com destroços o centro comercial. Como é óbvio, essa versão foi imediatamente descartada, em favor do “crime de guerra”.

3 Ao mesmo tempo que acrescentava o ouro à lista de bens russos cuja exportação passa a ficar proibida, o G7 insurgiu-se contra “o roubo e impedimento das exportações de cereais” ucranianos por parte da Rússia. E depois de algum imbecil ter dito que pela primeira vez na História a Rússia utilizava a fome como arma de guerra (nunca terá ouvido falar de cercos nem de bloqueios de portos durante as guerras), desta vez o G7 “apelou” à Rússia para levantar o bloqueio aos portos ucranianos do Mar Negro, com Odessa à cabeça. Mas há aqui o típico problema da pescadinha: os russos nunca disseram que impediriam os navios-mercantes de irem buscar os cereais aos portos ucranianos, mas que o que impede isso é eles estarem minados pelos ucranianos. E estes, por sua vez, dizem que se retirarem as minas ficam indefesos perante a frota russa ao largo, pelo que a única saída seria a retirada desta. Mas para onde iria a frota russa? A resposta lógica era para ali ao lado, para a Crimeia e para o abrigo da sua base naval de Sebastopol. Mas isso não tranquilizaria os ucranianos, pois os russos poderiam regressar rapidamente a Odessa. A única coisa que os tranquilizaria era que a frota russa do Mar Negro se retirasse toda dali, atravessasse o Estreito e entrasse no Mediterrâneo — onde, não dispondo de nenhuma base, lhe restaria navegar meio mundo e ir acolher-se à outra costa marítima russa, no Báltico. Ou seja, abandonar o Mar Negro, onde está desde Catarina, a Grande, e deixar a sua costa sul e a Crimeia exposta a ataques navais dos seus inimigos — coisa que Moscovo, obviamente, jamais aceitará. A única solução é, pois, negociar com Putin, coisa que ninguém do lado “justo” quis ou quer fazer, seja qual for a razão. Fazê-lo passar sempre, não apenas pelo responsável pelo desencadear da guerra, que é, mas também pelo criminoso de guerra sempre à mão, é muito mais eficaz tendo em vista o objectivo final.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

4 Por iniciativa dos Estados Unidos, os membros do G7 e não só mantêm congelados 300.000 milhões de dólares de reservas russas em bancos ocidentais. Putin respondeu parcialmente decretando que o serviço da dívida externa russa passaria então a ser pago em rublos. Assim fez esta semana, pagando em rublos uma tranche de 100 milhões de dólares à empresa privada que, por sua vez, deveria pagar aos detentores da dívida. Seguindo ordens de Washington, a empresa não o fez e a Rússia foi declarada em default — a primeira vez desde a Revolução de 1917. Mas o mesmo G7 que acusou a Rússia de ter “roubado” a Ucrânia por ter vendido uma pequena parte de cereais que estavam na Mariupol conquistada aprovou uma ajuda económica de €27 mil milhões à Ucrânia até ao final deste ano, que será em parte financiada com o dinheiro das reservas russas “congeladas”. Congeladas, apropriadas e distribuídas, por ordem de nenhum tribunal, ao abrigo de nenhuma lei internacional e por resolução de nenhum organismo com competência para tal.

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5 Por sugestão da secretária do Tesouro norte-americana, Janet Yellen, o G7 decidiu também começar a trabalhar num plano para estabelecer um tecto máximo ao petróleo e gás natural importado da Rússia. Convém recordar que antes de 24 de Fevereiro, a Europa importava 27% do petróleo e 75% do gás natural da Rússia, através do Nordstream I, a preços baratos e com poluição zero no transporte, e preparava-se para abrir o Nordstream II, uma parceria russo-alemã, que Joe Biden, na cara do chanceler Olaf Scholz, declarou imediatamente cancelada. E convém recordar também que os Estados Unidos, desde que adquiriram a tecnologia para explorar o shale gas (gás de xisto), se tornaram auto-suficientes em petróleo e gás, que agora irão exportar para a Europa substituindo-se aos russos, vendendo mais caro, com custos de transporte acrescidos e sendo que o gás deles, o GNL (gás natural liquefeito), envolve a construção de terminais próprios de armazenamento e é o combustível com maior impacto no aquecimento da atmosfera. Mas, como disse Ursula von der Leyen, “a nossa reflexão estratégica, enquanto democracias, é a de construir o mundo de amanhã com parceiros que partilham das mesmas ideias”, exemplificando, no campo da energia, com os Estados Unidos, o Azerbaijão e o Catar (“Le Monde Diplomatique”, Junho). E poderíamos acrescentar a ‘democracia’ venezuelana, com quem a Administração Biden já abriu negociações com vista a levantar o embargo às exportações de petróleo.

A História está cheia de episódios destes, em que depois da tragédia acontecer, todos se perguntaram “porque é que não vimos o que ia acontecer, porque é que ninguém fez nada para o evitar”. A diferença é que nas tragédias anteriores não havia o factor nuclear

Obviamente, a proposta de limitar o preço da energia não se aplica a todos os produtores, mas apenas aos russos. Para os outros, nomeadamente os nossos amigos americanos, grandes ganhadores económicos desta guerra, bem podem os europeus, os grandes sacrificados, juntamente com os africanos esperar em vão qualquer sinal de solidariedade: ela vai toda para a Ucrânia e para a NATO. Resta saber o que têm os russos a dizer a esta extraordinária proposta dos sete senhores em mangas de camisa que deveriam representarem as sete democracias liberais mais prósperas do mundo. Porque tudo isto é de uma imensa hipocrisia: a Europa continua a precisar desesperadamente da energia e dos cereais russos, mas, a reboque da NATO e dos Estados Unidos, embarca em bravatas que não apenas contrariam todos os princípios do seu credo liberal, como põem em risco a sua sobrevivência económica por décadas e todas as belas promessas de combate às alterações climáticas, agora substituídas pela reactivação em força das centrais a carvão (defendida até pelos Verdes alemães). E se Putin se põe a fazer contas ao dinheiro que tem em caixa e ao tempo de guerra que ainda tem pela frente e decide, pura e simplesmente, cortar a energia à Europa?

6 Quem é que manda hoje na Europa? É Boris Johnson? Não, graças a Deus, é inglês. Macron? Não, capitulou em Kiev, juntamente com Draghi. Scholz? Não, é um homem perdido em tudo: ideias, estratégia, parceiros. Von der Leyen? Não, é um peão dos americanos, em cujas mãos pôs o destino da Europa, daqui para a frente condenando a UE e ela própria à irrelevância. Quem manda na Europa é o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg. Diferentemente de Ursula von der Leyen, ele não é peão dos americanos, é parceiro estratégico deles. E se também subjugou a Europa aos interesses americanos, não foi por falta de visão ou de cautela, foi por convicção, porque esse era o seu objectivo. Stoltenberg é o governador americano da Europa. Ele é quem aparece em todo o lado, anuncia, manda e decide tudo: que a Força de Intervenção Rápida da NATO se vai multiplicar por oito e encostar-se às fronteiras russas, numa típica manobra ‘defensiva’, igual à que conduziu à invasão da Ucrânia; quanto é que isso, mais o reapetrechamento militar, vai custar a cada membro da organização; como é que serão de futuro as relações de cada um com a China (de desconfiança e pré-confronto, já o disse); que leis é que a Suécia tem de alterar para passar a declarar os refugiados curdos como ‘terroristas’, como impõe o sultão Erdogan — esse paladino da paz e dos direitos humanos e que, ao contrário de Putin, não alimenta qualquer desejo de reconstruir um império passado.

Tudo isto, todo este imenso poder, Stoltenberg conquistou-o em breves quatro meses que tudo mudaram, tirando partido da reforma de Merkel na Alemanha, da escabrosa leviandade de Boris Johnson e da senilidade galopante de Joe Biden. E, sobretudo, do trágico e imperdoável erro de cálculo de Vladimir Putin. E tudo isto, todo este poder, todas estas decisões, todas estas mudanças nas nossas vidas, ele impôs aos europeus sem nunca nos consultar, sem nunca nos perguntar nada, apenas manobrando entre os grandes e explorando as suas fraquezas disfarçadas de forças.

Se ninguém o travar, este norueguês que se tornou dono da Europa sem que nenhum europeu tivesse votado nele vai-nos levar até à guerra nuclear com a Rússia. A História está cheia de episódios destes, em que depois da tragédia acontecer todos se perguntaram “porque é que não vimos o que ia acontecer, porque é que ninguém fez nada para o evitar”. A diferença é que nas tragédias anteriores não havia o factor nuclear.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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De comissão em comissão, até à decomposição

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 24/06/2022)

Miguel Sousa Tavares

Nunca o Estado teve tantos funcionários como agora. Nunca teve tantas receitas fiscais como agora. Nunca o peso dos impostos no PIB foi tão alto como agora. Nunca teve tantos médicos e tão poucos doentes no SNS, pois cada vez há mais utentes a fugirem para o privado. Nunca teve tão poucos alunos para os professores que tem. Nunca teve tantos licenciados e tantos investigadores. Nunca teve tanto dinheiro europeu à disposição — tanto que nem consegue aplicá-lo. Nunca teve o privilégio de estar tão endividado e pagar juros tão baixos graças ao programa de compra de dívida do BCE. Nunca teve tantos turistas que nem consegue recebê-los. Nunca teve tantos abacates, olivais e amendoais superintensivos, ao ponto de estar na iminência de já não conseguir regá-los. Nunca atraiu tanto investimento estrangeiro para o imobiliário, graças aos golden visa e ao regime fiscal dos estrangeiros residentes — tanto que já não há trabalhadores para a construção civil.

Quem é que se importaria de governar um país assim?

Porém, embalado por esta história de sucesso para enganar tolinhos, o Governo de António Costa habituou-se à ideia de não ter que governar. Durante seis anos foi distribuindo esmolas aos pobres e fatias do Orçamento aos parceiros de esquerda com o único objectivo de se manter no poder mantendo tudo como estava. Foi atirando dinheiro para cima das crises e sacudindo o pó dos problemas para debaixo dos tapetes, com os olhos unicamente focados no próximo horizonte eleitoral. Nada do que era grave e importante o fez estremecer ou, menos ainda, mover: o Inverno demográfico, a desertificação, a seca climática mais alarmante de ano para ano, a ruptura iminente dos serviços de saúde, a bandalheira na educação, o laxismo e despesismo na Administração Pública, a ineficiência da justiça, a brutalidade fiscal, a emigração dos melhores e mais jovens quadros do país. Entreteve-se antes a fazer flores com as “causas fracturantes” tão caras ao BE, os animaizinhos do PAN ou os “avanços” do PCP. Estranhamente, porém, o resultado desses seis anos de governação à esquerda foi haver mais pobres, mais doentes sem médico e sem assistência de saúde ­digna, mais alunos sem professores, mais portugueses sem possibilidades de habitar nas cidades e uma classe média chulada até ao osso. Mas, como ele diz, e com razão, os portugueses gostaram ou não viram alternativa melhor: deram-lhe uma maioria absoluta, o que teve pelo menos a vantagem, julgámos nós, de o livrar das âncoras de arrasto.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

O problema é que o método se entranhou no homem ao ponto de se ter tornado a sua forma de vida. António Costa é uma espécie de primeiro-ministro à hora ou ao dia: trabalha numa hora para sobreviver até à hora seguinte, trabalha durante o dia para enfrentar o “Jornal das 8”, hoje em Lisboa, amanhã em Bruxelas, em toda a parte e em lado nenhum, falando de tudo e tudo deixando pendente, saltando de assunto em assunto tão depressa e tão convictamente que cria a impressão de que tudo o que ficou para trás já ficou resolvido. Mas depois, subitamente, rebentam as crises e estoiram de podres os problemas, e Costa, o génio da conjuntura, fica aos papéis. Ele e a sua gente.

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O caso da saúde é exemplar. Durante dois anos encheram-nos os ouvidos com elogios ao SNS, que tão boa conta tinha dado do recado durante a pandemia. Mas para debaixo do tapete empurraram-se coisas como os números chocantes do absentismo médico durante a pandemia, o facto de practicamente terem cessado todos os outros cuidados médicos no SNS não relacionados com covid ou de ter sido necessário chamar um homem das Forças Armadas para pôr de pé um plano nacional de vacinação eficaz. E, sabendo-se que uma vez terminada a emergência covid o SNS teria de retomar tudo o que tinha ficado por fazer, despejou-se dinheiro a rodos e pessoal sobre o sistema, mas sem planeamento, sem organização, sem força política para enfrentar os lobbies do sector, as suas manhas e batotas instaladas e de todos por demais sabidas. O que se passou nos feriados de Junho, com os médicos obstretas todos de fé­rias e as grávidas sem assistência nos hospitais do SNS, foi uma vergonha inimaginável, a que a incompetência larvar da ministra respondeu segundo o método Costa: um “plano de contingência” para a conjuntura de ruptura e uma comissão para estudar como é que ela deve gerir a pasta que supostamente anda a gerir há vários anos. E a mesma receita foi aplicada à crise nos aeroportos, que também ninguém podia prever, e aplicada à conjuntura de seca no país — essa prevista de ano para ano, mas soberbamente ignorada pela ministra da pasta.

O método do Governo é simples: um plano de contingência quando as coisas chegam a um ponto de ruptura e uma comissão para estudar os problemas que não se sabem ou não se querem resolver

E é assim que vamos indo. Temos um Governo com maioria absoluta e um PRR que tudo há-de resolver, mais a ajuda compreensiva do BCE. E temos, do outro lado, uma pacífica oposição, que veio para “acabar com o socialismo” mas sem pressa nenhuma de começar a fazê-lo ou, ao menos, de ter uma ideia que seja antes dos idos de Julho, onde o recém-eleito líder espera que o congresso do partido lhe forneça algumas pistas sobre o que fazer. As férias estão à porta e, embora os portugueses andem zangados, a pandemia e a Ucrânia ainda funcionam como desculpas. Portanto, é deixar andar e, se as crises rebentam, planos de contingência para cima delas; se tudo parece sem solução e se percebe que os problemas são mais fundos, comissão com eles. O círculo vicioso repete-se, sempre igual: problema-comissão-esquecimento-explosão. É assim com tudo: novo aeroporto de Lisboa, preparação para os incêndios, SIRESP, situação dos imigrantes asiáticos nas estufas do litoral alentejano, caminhada para o abismo da TAP, caos no sector ferroviá­rio, venda da Efacec, injecções de dinheiros públicos no Novo Banco. Nada se resolve, nada se fecha, nada avança. Tudo está em estudo, entregue a uma comissão, a aguardar um parecer, um decreto regulamentar, uma decisão de um tribunal arbitral ou a transposição de uma directiva comunitária.

A única coisa que parece perturbar a sério António Costa é a adesão à UE dos três candidatos apadrinhados pela NATO: a Ucrânia, a Geórgia e a Moldávia. Mas não pelo facto de eles serem conhecidos por albergarem algumas das piores máfias do crime organizado (a que piedosamente agora se chamam “oligarcas”), mas sim porque eles podem rapar no “bolo” dos dinheiros europeus, e isso mexe directamente com os nossos interesses estratégicos.

De facto, aquilo a que pomposamente poderíamos chamar o “desígnio nacional” resume-se a duas coisas: continuar a receber eternamente ajudas da Europa e continuar a receber cada vez mais turistas estrangeiros, mesmo que depois demorem horas a conseguir sair dos aeroportos. Tudo o resto não existe, dá muito trabalho a resolver e é uma canseira só de pensar nisso. É que para isso seria preciso abandonar os estudos, os pareceres, as comissões, e começar a decidir. Mas decidir é, em si mesmo, um problema: gera contestação e resistências, cria inimigos, acarreta riscos, pode fazer perder votos — veja-se o caso de Macron em França: perdeu a maioria absoluta porque se atreveu a defender uma ténue subida da idade da reforma, que é a mais baixa do mundo, enquanto Le Pen e o demagogo sem freio Mélenchon ganharam milhões de votos a prometer descê-la ainda mais, para os 60 anos. No ponto em que as coisas estão, eu votaria num partido ou num candidato que me dissesse: “Portugal tem cinco ou seis problemas urgentes para resolver. Nos próximos quatro anos eu prometo resolver apenas dois. Mas esses vou resolver.” Depois viria alguém que resolveria mais dois e outro que resolveria outros dois: em 12 anos, teríamos resolvido os principais problemas do país. É muito tempo? É, mas pensem bem: só o problema do novo aeroporto de Lisboa está há 40 anos para ser resolvido.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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