Lançar ou não lançar uma bomba nuclear, eis a questão!

(Por Dmitry Orlov, in SakerLatam, 06/06/2026)

A ilustração acima é uma porcaria de IA, desculpem! O texto abaixo não é.

Atualmente, a Rússia enfrenta um pequeno problema. As nações ocidentais passaram a fornecer à antiga Ucrânia mísseis, drones e componentes para sua fabricação. Os EUA também estão envolvidos: a antiga Ucrânia recebe informações de alvos da Palantir e usa comunicações via satélites Starlink. Isso de forma alguma se qualifica como uma ameaça existencial, mas representa um problema político para os líderes da Rússia.

Por “a antiga Ucrânia” refiro-me ao que restou da antiga República Socialista Soviética da Ucrânia, criada por Lenin e Stalin a partir de pedaços aleatórios do Império Russo e depois abandonada pelo “presidente bêbado” Boris Yeltsin. Desde então, ela perdeu metade de sua população (a metade mais jovem e mais capaz), praticamente toda a sua indústria outrora poderosa, e agora é uma sombra do que já foi. Tem uma taxa de mortalidade muito alta e uma taxa de natalidade muito baixa, e está passando por um rápido colapso demográfico. Sua única utilidade remanescente (para o Ocidente) é incomodar a Rússia. É a única categoria em que a antiga Ucrânia continua sendo um sucesso.

O Ocidente fornece à antiga Ucrânia drones e componentes para drones, e os ucranianos utilizam isso para lançar ataques contra civis em locais aleatórios dentro da Rússia. Eles tentaram lançar ataques com drones para danificar instalações militares e industriais, especialmente refinarias de petróleo, mas isso teve efeito mínimo e esses locais estão, neste momento, bastante bem defendidos com sistemas antiaéreos.

E assim, os ucranianos passaram a ter como alvo civis. O número de pessoas mortas por ataques com mísseis e drones ucranianos é, em média, de 1.3 mortes por dia. Isso é significativamente menor do que as 38-40 pessoas por dia que morrem em acidentes automobilísticos em toda a Rússia, mas há uma grande diferença psicológica. Em termos práticos, nada demais aconteceria se as mortes por acidentes automobilísticos subissem para 39,3-41,3. Isso seria, é claro, deplorável, mas tal desenvolvimento só seria perceptível para estatísticos, e eles certamente não sairiam correndo em pânico. Mas os ataques com drones e mísseis são diferentes: eles levam as pessoas a pensar que não está sendo feito o suficiente para defendê-las. Por sua vez, isso faz com que políticos e figuras públicas na Rússia entrem em ação e exijam que algo seja feito.

Por exemplo, o professor Sergei Karaganov defendeu o uso de armas nucleares táticas contra as nações ocidentais que fornecem mísseis e drones à antiga Ucrânia. A lógica de Karaganov é simples: o Ocidente não tem medo suficiente da Rússia; as armas nucleares são realmente muito assustadoras; portanto, usar armas nucleares contra o Ocidente resolveria esse problema. Em consonância com o pensamento de Karaganov, o Ministério da Defesa russo elaborou uma lista de alvos com fábricas que produzem os mísseis e drones que terminam na antiga Ucrânia e, é razoável supor, está pronto para destruir essas fábricas quando receber a ordem. Se isso seria feito com armas convencionais ou nucleares ainda precisa ser determinado. Algumas pessoas parecem achar que Karaganov não deveria ter proposto isso e chegaram até a lançar ataques pessoais contra ele. O que algumas pessoas parecem não perceber é a sutil diferença entre dizer que algo deve ser feito e realmente fazê-lo. Sim, trata-se de uma nuance, mas é uma nuance muito importante.

Algumas pessoas questionam o fato de a Rússia ainda não ter prevalecido militarmente na antiga Ucrânia. Algumas interpretam isso como um sinal de que a Rússia é fraca; outras afirmam que a liderança russa está dividida ou indecisa, ou que Putin é excessivamente cauteloso. Elas acham que a Rússia deveria esmagar as forças do regime de Kiev imediatamente e que a Rússia deveria triunfar e reivindicar todo o território que desejar. Tanto os russofóbicos convictos quanto os supostos russos patriotas são responsáveis por pensamento confuso.

De fato, muitos russos repetem incessantemente o mantra de que “a vitória será nossa”. Mas o que isso realmente significa? Se a Rússia obtivesse uma vitória total na Ucrânia, esmagando o regime de Kiev e fazendo com que suas forças militares recuassem em desordem e se dissolvessem entre a população civil, isso seria útil para a Rússia? Não é preciso pensar muito para descobrir que isso não seria útil de forma alguma.

• A Rússia passaria a controlar um território vasto e caótico. Ele é escassamente povoado por muitos aposentados, veteranos com deficiência física e viúvas de guerra. Há também cerca de 100 mil funcionários fabulosamente corruptos, traficantes de armas e vigaristas. Está infestado de agentes ocidentais e mercenários. Graças a uma lavagem cerebral implacável, nenhum deles tem uma disposição particularmente favorável em relação à Rússia. Incorporar esse território à Federação Russa exigiria elevá-lo aos padrões russos, e isso exigiria gastos orçamentários federais maciços e impopulares.

• Depois, há a questão de como esses novos cidadãos russos, de forma bastante relutante, votariam: provavelmente não exatamente da maneira que Moscou gostaria. A oeste do rio Dniepr, os patriotas russos tornam-se bastante escassos. Após 35 anos de esplêndido isolamento, o retorno ao seio da civilização russa pode não ser possível para grande parte da população remanescente. Levaria várias décadas para convencer essas pessoas, e não está claro qual o nível de interesse existente na Rússia para fazê-lo. Em 1991, na época do colapso da URSS, 80% a 90% dos russos viam os ucranianos como uma nação irmã. Em 2025, de acordo com pesquisas do Levada Center (designado como “agente estrangeiro” pelo Ministério da Justiça da Rússia), a proporção de russos que consideram os ucranianos uma nação irmã é de aproximadamente 50% a 52%. Dada essa tendência, em mais alguns anos, as tentativas de reintegrar a antiga RSS da Ucrânia à Rússia encontrariam resistência considerável.

• Por fim, uma vitória na antiga Ucrânia simplesmente levaria o Ocidente a iniciar outra guerra por procuração contra a Rússia. A lista de animais a serem sacrificados no altar da russofobia ocidental já foi elaborada e é bastante longa: de norte a sul, há a Finlândia, os países bálticos (insignificantes demais para serem mencionados pelo nome), a Polônia e a Moldávia/Transnístria. Aqui, também, há uma diferença sutil entre os membros dessas nações sacrificiais, teoricamente ocidentais, dizerem que lutarão contra a Rússia (e realizarem exercícios de treinamento nos quais fingem lutar contra a Rússia) e eles realmente o fazerem, em vez de fugirem e se esconderem.

Esses são os aspectos negativos de uma vitória rápida e definitiva da Rússia na antiga Ucrânia. E há também alguns aspectos positivos decorrentes da ausência dessa vitória.

• Talvez o mais importante seja que este conflito permite à Rússia completar uma reviravolta civilizacional, passando de uma ligação cultural e econômica com o Ocidente decadente, degenerado e hostil para o estabelecimento de relações amigáveis e mutuamente benéficas com os países cada vez mais prósperos, em rápido crescimento e tradicionalistas do Sudeste Asiático.

• Parte dessa reviravolta é uma transformação social dentro da própria Rússia. No início da Operação Militar Especial, em fevereiro de 2022, a Rússia foi espontaneamente aliviada de um número considerável de cidadãos influentes de lealdade dividida que optaram por deixar o país. Metade dessas pessoas percebeu, desde então, que havia cometido um erro e voltou, mas as lições que aprenderam — e transmitiram aos demais — foram inestimáveis. A lição básica parece ser simples: “O Ocidente não tem nada a nos oferecer.”

• Depois, há a utilidade da antiga Ucrânia como campo de testes para novas armas e técnicas de combate, onde o uso de blindados e grandes formações de infantaria é coisa do passado e a linha de separação é agora uma zona de morte com até 50 km de profundidade, patrulhada por drones e infiltrada por infantaria em grupos de dois ou três, sob o manto da escuridão, da chuva e do nevoeiro, para lançar ataques surpresa e tomar o controle de locais fortificados específicos.

• Por fim, a Operação Militar Especial é uma ferramenta poderosa de consolidação política. Os veteranos que retornam reentram no mercado de trabalho e, em reconhecimento às suas conquistas no campo de batalha, são promovidos a cargos de gestão. Seus filhos recebem prioridade para educação gratuita. Tudo isso ajuda a garantir que as estruturas de governança da Rússia, tanto públicas quanto privadas, permaneçam patrióticas e leais pelas próximas gerações.

Por todas essas razões, é muito melhor para a Rússia estar vencendo do que vencer. De fato, a Rússia está vencendo todos os dias, apenas um pouquinho. Quase todos os dias, o noticiário da noite traz histórias da conquista de mais uma aldeia, vila ou zona industrial abandonada nas partes ocidentais do que hoje são regiões da Federação Russa ou nas zonas tampão recém-estabelecidas nas regiões de Sumy ou Kharkov. Essas pequenas conquistas são alcançadas com um mínimo absoluto de baixas. As pessoas deixaram de tentar calcular as proporções de baixas há algum tempo, mas antes disso números como 7:1 (ou seja, baixas ucranianas para baixas russas) eram comumente ouvidos até mesmo do próprio Putin, enquanto proporções de 10:1 e superiores também eram mencionadas. No geral, o exército russo está crescendo e o ucraniano encolhendo, enquanto o apoio financeiro ocidental ao regime de Kiev está diminuindo. Isso implica que este conflito não pode durar para sempre e chegará ao fim talvez já no final de 2026, talvez um pouco mais tarde.

Da mesma forma que é melhor para a Rússia estar vencendo do que vencer na antiga Ucrânia, é melhor para a Rússia estar se preparando para lançar uma bomba nuclear na Europa do que realmente fazê-lo. O fato de que ela está se preparando para isso é certamente uma realidade: baterias de mísseis Oreshnik, que podem ser equipadas com ogivas nucleares, foram posicionadas na Bielorrússia, permitindo que atinjam qualquer ponto dentro da União Europeia em poucos minutos.

Recentemente, foram realizados exercícios de treinamento para garantir que as tripulações estejam prontas para armar os mísseis com ogivas nucleares táticas. Certamente, seria feita primeiro uma tentativa de causar impacto nos governos da UE usando armas convencionais antes de recorrer a armas nucleares táticas, mas o caminho para a escalada já foi traçado e o trem da escalada já está descendo por essa linha, embora bem lentamente.

Tudo se resume a o que será necessário para que a UE/OTAN pare de fornecer à antiga Ucrânia as armas que ela usa para matar e mutilar civis russos. A escolha é simples: aceitar as exigências russas e fazer as pazes com a Rússia, ou ser atingido por uma bomba nuclear. A escolha também é simples para os cidadãos da UE: não apostem no bom senso de seus líderes (que bom senso?) e preparem-se para sobreviver a um ataque nuclear tático russo. Quanto mais públicos forem esses esforços, menos provável se tornará o ataque nuclear.

A seguir, explicarei alguns dos detalhes que vocês devem levar em conta ao se prepararem. Por favor, entendam: os russos não querem matá-los; eles só querem que seus líderes comecem a agir com responsabilidade e parem de cometer crimes de guerra contra os russos.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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Financiar, integrar, mimar a Ucrânia – nem que a vaca tussa

(João Gomes, in Facebook, 13/06/2026)


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A política europeia parece ter abandonado qualquer preocupação com a coerência para se dedicar exclusivamente à gestão de narrativas. A recente decisão de avançar com negociações de adesão da Ucrânia à União Europeia é exatamente isso.

Durante décadas, Bruxelas repetiu aos candidatos à adesão uma lista interminável de exigências: estabilidade institucional, economia funcional, combate à corrupção, respeito pelos princípios democráticos, independência judicial e capacidade de integração no mercado comum. Os critérios eram apresentados como objetivos, universais e inegociáveis.

Mas eis que é preciso colocar a Ucrânia nas atenções do Mundo. Um país devastado por uma guerra de grande escala, profundamente dependente de ajuda externa, com uma economia fragilizada, enormes desafios institucionais e uma situação política marcada pelas exceções próprias de um conflito armado. E, de repente, aquilo que durante anos foram obstáculos intransponíveis para outros candidatos. passa a mero detalhe administrativo.

A pergunta impõe-se: mudaram os critérios ou mudou apenas a conveniência política?

O contraste com a Turquia é inevitável. Há décadas que Ancara bate à porta da União Europeia. Ao longo dos anos, foram sendo apontadas razões para o congelamento do processo: questões institucionais, políticas e estratégicas. Contudo, independentemente da avaliação que cada um faça do regime turco, é difícil ignorar a diferença de tratamento. O que para uns constitui motivo suficiente para bloquear negociações durante décadas parece deixar de ser relevante quando se trata da Ucrânia.

A explicação oficial fala de solidariedade, valores europeus e defesa da democracia. A explicação é muito mais simples: geopolítica.

A Ucrânia tornou-se o projeto político mais importante da burocracia europeia. Não apenas como país, mas como símbolo. Um símbolo que precisa de ser financiado, armado, apoiado, promovido e integrado, custe o que custar. Um símbolo que serve para justificar políticas, mobilizar opiniões públicas e reforçar a narrativa de uma Europa unida perante uma ameaça externa.

O problema é que os cidadãos europeus vivem cada vez mais longe dessas prioridades.

Enquanto Bruxelas discute novos pacotes de apoio, milhões de europeus enfrentam crises de habitação, perda de poder de compra, crescimento da dívida pública, degradação dos serviços públicos e uma competitividade económica cada vez mais frágil face aos Estados Unidos e à Ásia. A sensação crescente é a de que a União Europeia demonstra mais urgência em resolver os problemas dos outros do que em enfrentar os seus próprios.

Esta lógica política de aplicar critérios diferentes conforme a utilidade estratégica do momento mostra ao que se chegou em Bruxelas. Disfarçam a incapacidade de resolver os problemas da UE com reuniões à semana, abraços entre dirigentes e discursos de ocasião. Se os critérios de adesão são sérios, então devem ser aplicados a todos. Se podem ser flexibilizados quando existe interesse político, então talvez nunca tenham sido tão objetivos quanto nos disseram.

O mais preocupante é que esta incoerência corrói a confiança dos cidadãos nas instituições europeias. Não porque estes sejam incapazes de compreender decisões estratégicas, mas porque percebem quando uma decisão política é apresentada como uma inevitabilidade técnica. A União Europeia não tem o direito de fugir à realidade nas suas tomadas de decisões geopolíticas. Ao fazê-lo os dirigentes incumprem o seu estatuto. No fim de contas, a mensagem que muitos europeus acabam por ouvir é simples: financiar, integrar e mimar a Ucrânia – nem que a vaca tussa.

Está na hora de sair à rua

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 12/06/2026, Revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

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É triste ver a prostituição política do PSD… entregar a sua alma social-democrata para se agarrar ao poder, não para fazer reformas sérias, não para melhorar o país, mas para alimentar uma máquina de clientelismo 100 vezes pior do que tudo o que já vimos.

E é por isso que já não chega comentar. Já não chega assistir a isto como se fosse uma novela.

O que está a acontecer em Portugal é uma mutação política, a destruição do PSD enquanto partido social-democrata e a criação de uma máquina de terraplanagem dos direitos dos trabalhadores, dos mais fracos, dos mais pobres e dos mais fáceis de culpar. O PSD negoceia com o Chega o pacote laboral, negoceia a Prestação Social Única, acerta calendários para rebentar a Constituição, aprova uma lei migratória que permite deter menores — menores metidos na máquina administrativa de detenção do Estado —, aprova diplomas para perseguir bandeiras que simbolizam a igualdade que a própria Constituição devia proteger e, ao mesmo tempo, continua a fingir que existe uma linha vermelha.

Continua a fingir que governa, que resolve o SNS, que melhora a escola pública, que combate as rendas especulativas deste país…que melhora a vida de quem trabalha.

E quando um partido que dizia defender a democracia passa a depender da extrema-direita para mexer no trabalho, esmagar os mais pobres, domesticar símbolos de igualdade e desmantelar a Constituição, então não estamos perante política normal.

Estamos perante uma emergência democrática, daquelas que movem nações inteiras.

O PSD precisa de sobreviver em nome dos boys, dos lugares, das muitas Spinumvivas do país e dos interesses instalados. O Chega precisa de legitimação, de aparecer na televisão e de distribuir poder aos seus — enquanto mantém a massa entretida com TikToks.  A IL e os sectores mais neoliberais precisam de uma janela histórica para transformar direitos em custos, protecção social em suspeita e tirar a Constituição da frente das grandes fortunas.

Cada um oferece a sua parte. O PSD oferece a respeitabilidade institucional que já só existe no seu passado. O Chega oferece votos e ruído suficiente para distrair o povo com bandeiras, burcas, ciganos, casas de banho, fantasmas inventados e guerras culturais feitas à medida da taberna. A IL oferece o roubo, a exploração de quem trabalha e a destruição da sociedade em linguagem económica jovem, moderna e de business school — mas que na verdade anda a falhar desde os anos 80. No fim, todos trabalham para a mesma operação: tirar força aos de baixo e dar mais poder aos de cima.

E nós vamos ficar a ver? Vamos ficar sentados enquanto transformam o país num circo, com toda a gente aos berros por causa de pedaços de pano, enquanto as elites comem caviar e explicam na televisão que temos de ser “flexíveis”? Um país de chico-espertos, negócios imobiliários, criptomoedas, casinos online e turismo de baixo valor, a vender pastéis de nata a espanhóis, enquanto os espanhóis nos vendem comboios?

Está na hora de todos os sociais-democratas verdadeiros, de todos os socialistas democráticos, de todos os democratas, de todos os trabalhadores, de todos os que acreditam que um país não é uma quinta privada dos poderosos, saírem à rua.

O pacote laboral é a primeira frente.Flexibilidade? Dizem eles… Palavra neutra que na verdade significa trabalhador mais descartável, despedimento mais fácil, sindicatos mais fracos, vida das famílias mais insegura. Quando o trabalhador fica sozinho, o salário não sobe. A precariedade aumenta. O medo entra nas casas. E quem trabalha aprende a agradecer migalhas como se fossem conquistas.

A Prestação Social Única é a segunda frente. Juntar prestações sociais podia ser uma boa ideia. Nas mãos deste Governo, simplificação tornou-se vigilância, punição e populismo barato para quem acha que é tudo malandro a viver de subsídios.

O que vemos não é só cortar apoios — é humilhar quem precisa deles…incluindo crianças — é ensinar os pobres a ficarem submissos. O beneficiário deixa de ser alguém empurrado por salários baixos, rendas impossíveis, doença, toxicodependência, saúde mental ou exclusão. Passa a ser tratado como preguiçoso que deve ser castigado e vigiado. E por isso o pobre deve trabalhar sem salário digno, sem sindicato, sem direitos. Mão-de-obra gratuita para os de cima, em troca de um valor que não chega ao ordenado mínimo.

Até a miséria pode ser capitalizada pelos poderosos. É a mesma lógica que agora vende reclusos a limpar florestas como se fosse uma grande solução nacional.  O trabalho prisional já existia. A floresta não se resolve com performance penal para telejornal e redes sociais. Isto serve sobretudo para alimentar a fantasia taberneira de ver “criminosos” postos a trabalhar, enquanto se evita falar de ordenamento do território, abandono rural, lucro fácil e Estado ausente.

O Chega entra aqui com a função que melhor sabe desempenhar… Transformar uma reforma social em mais uma performance para o tik tok. Enquanto se prepara trabalho mais barato, pobres mais vigiados e Constituição mais domesticada, inventa-se uma ameaça em cada bandeira. Até a bandeira arco-íris, que simboliza uma coisa tão simples como igualdade de direitos independentemente de quem amas ou de quem és, passa a ser tratada como perigo ideológico.

Como se a igualdade fosse uma provocação. Como se direitos humanos fossem propaganda. Como se a Constituição não dissesse, no seu espírito mais básico, que ninguém pode ser diminuído por existir de forma diferente.

É assim que se distrai o povo dos problemas reais: salários baixos, rendas impossíveis, SNS em rutura, escola pública cansada, custo de vida a disparar e trabalhadores esmagados. Dão-lhes uma bandeira para odiarem enquanto lhes roubam o futuro.

E em Lisboa vê-se o mesmo desprezo social…Moedas prepara cortes nos apoios às refeições escolares, podendo obrigar milhares de famílias a pagar mais pela comida dos filhos, enquanto há dinheiro público para piqueniques de luxo, eventos chiques e negócios bem instalados. Até a comida das crianças entra na conta da austeridade, desde que os de cima continuem bem servidos.

A revisão constitucional é a terceira frente — e a mais grave.

A Constituição portuguesa ainda guarda a memória de que democracia não é apenas votar. É escola pública, saúde pública, direitos laborais, proteção social, habitação e limites ao poder económico. Para a direita neoliberal e a extrema-direita, essa memória é um incómodo que querem apagar. Querem uma Constituição menos social, menos antifascista, mais compatível com um país onde o mercado manda e o Estado castiga — e onde os mais pobres são ensinados a culpar bandeiras arco-íris, burcas, ciganos, imigrantes. Qualquer coisa menos quem lhes rouba o salário, a casa e a dignidade.

A coligação Spinumviva–PSD–CDS–IL–Chega simboliza a nova direita…  A nova direita que favorece os que ganham 10.000 euros por mês enquanto diz aos que ganham 1.000 euros que a culpa de tudo é do “malandro” que recebe 200 euros.

É essa a obscenidade política do momento. E é por isso que temos de sair à rua. Porque quando a televisão transforma isto em algo “debativel”, quando os jornais fecham o enquadramento, quando os comentadores de sempre fingem que isto é apenas “governabilidade”, alguém tem de dizer basta.

Uma manifestação tão grande, tão clara, tão impossível de ignorar, que nem as televisões com os seus planos fechados, nem os jornais com as suas manchetes domesticadas, nem os comentadores todos do mesmo lado consigam fingir que não viram.

O PSD está a prostituir-se politicamente ao Chega não porque concorde com todos os seus delírios, mas porque aceita depender deles. E quem aceita depender da extrema-direita acaba sempre por lhe pagar renda ideológica.

Primeiro cede na linguagem. Depois cede nos temas. Depois cede nos favores. Depois cede na Constituição. Quando dá por si, já não está a usar o Chega.TORNOU-SE CHEGA.

O Chega, por sua vez, não precisa de governar formalmente para vencer. Aliás, governar seria o fim do Chega — e o desastre final do país. Para eles basta contaminar o debate, fazer ruído para aparecer nas televisões.

Basta obrigar o PSD a falar como eles. Basta transformar pobres em inimigos, imigrantes em ameaça, menores em detidos, reclusos em propaganda, crianças em custo municipal, direitos em privilégios, sindicatos em entraves, igualdade em ideologia, Constituição em problema e democracia em espectáculo de ódio e gritaria permanente.

Portugal está perante uma aliança de conveniência entre neoliberalismo e populismo punitivo. O neoliberalismo trata da parte material: reduzir direitos, baratear trabalho, fragilizar o Estado social e abrir espaço ao negócio privado. O populismo trata da parte emocional: produzir inimigos, espalhar paranoia, alimentar fobias e convencer quem sofre que o culpado não é quem explora, mas quem está ainda mais abaixo.

É a carroça da desigualdade — puxada por burros a zurrar contra bandeiras, alimentados por algoritmos, televisões e comentadores a explicar aos pobres que têm direitos a mais — e na carroça, bem sentados, os bilionários a rir.

A pandemia não pôs este país de joelhos. A guerra não pôs este país de joelhos. A crise inflacionária não pôs este país de joelhos. Mas este tsunami de extrema-direita taberneira, neoliberalismo de business school, clientelismo, ódio organizado e destruição social está a rebentar com o país por dentro.

E desta vez não são os bancos que estão em risco. És tu. É o teu salário. É a tua renda. É o teu contrato. É a tua escola pública. É o teu hospital. É a tua reforma. É a tua Constituição. É a tua vida.

No fim, a pergunta decisiva é sempre a mesma: quem ganha? Ganha o trabalhador que fica mais protegido? Não. Ganha o pobre que passa a viver com mais dignidade? Não. Ganha o imigrante que trabalha, desconta e é usado como bode expiatório? Não. Ganha quem tem uma renda da casa impossível de pagar? Não. Ganha o doente que precisa de uma cirurgia? Não. Ganha quem só quer viver com os mesmos direitos, sem ser usado como boneco numa guerra cultural? Não. Ganha a democracia constitucional, social e plural? Não.

Ganham os de cima. Ganha quem quer trabalho mais barato, Estado social mais fraco, pobres disciplinados, sindicatos enfraquecidos, Constituição domesticada e uma população entretida com ódio, bandeiras, performances e inimigos imaginários enquanto a riqueza continua a subir para o topo.

É por isso que esta não é apenas uma disputa parlamentar. É uma disputa sobre o tipo de país que vai sobrar. Uma democracia social, com direitos e dignidade? Ou uma sociedade de castigo, medo e obediência, onde os pobres trabalham sem salário, os trabalhadores vivem sem segurança e os poderosos governam por trás da cortina, enquanto os seus porta-vozes atiram paranoias, mentiras e inimigos inventados para a arena mediática?

Está na hora de sair à rua. Não para defender um partido.  Não para salvar uma bandeira. Mas para defender a ideia simples de que um país não pode ser governado contra quem trabalha, contra quem é pobre, contra quem precisa, contra quem não tem voz, contra quem ama de forma diferente, contra quem existe fora da norma que eles querem impor.

Está na hora de uma manifestação que diga, sem ambiguidades: Não aceitamos que transformem Portugal numa máquina de castigar pobres, explorar trabalhadores, perseguir símbolos de igualdade e servir elites.

Porque desta vez não estão só a brincar com governos. Estão a mexer na vida de todos nós. E chega uma altura em que o povo percebe que foi enganado — e nessa altura ele não perdoa.