Por dento do governo invisível: guerra, propaganda, Clinton e Trump

(John Pilger, in GlobalResearch, Tradução de Estátua de Sal, 27/10/2016)

propaganda


Nota prévia: Decidi traduzir este texto porque o seu conteúdo nunca é discutido na comunicação social em Portugal. Quem domina o inglês ainda pode obter alguma informação em vários sites da internet que quebram a cortina com que a comunicação social dominante vai formatando a mente dos cidadãos comuns. Este texto revela muitas das suas tácticas operacionais. E traz a debate a gigantesca manipulação que está neste mmento em curso, em relação à situação de pré-conflito mundial que pode pode fazer regressar a Humandade à idade da pedra lascada, senão à destruição total. Quem me achar tremendista, e muitos acharão, não me deixarão surpreso. Na verdade, tal só provará que as técnicas de propaganda que o texto refere estão de boa saúde e que funcionam na perfeição. (Estátua de Sal, 29/10/2016)


O jornalista norte-americano, Edward Bernays, é frequentemente descrito como o homem que inventou a propaganda moderna. Sendo sobrinho de Sigmund Freud, o pioneiro da psicanálise, foi Bernays que criou o termo “relações públicas”, um eufemismo para as opiniões manipuladoras e as fraudes que elas originam.

Em 1929, Bernays convenceu um grupo de feministas a promover o cigarro entre as mulheres fumando no Easter Parade New York – comportamento, à época, considerado estranho. Uma feminista, Ruth Booth, declarou então: “Mulheres! Vamos acender outra tocha da liberdade! Vamos lutar contra outro tabu do sexo! ” A Influência de Bernays estendeu-se muito para além da publicidade. O seu maior sucesso foi ter conseguido convencer o público americano a contemporizar com os massacres da Primeira Guerra Mundial.

O segredo, segundo ele, era “fabricar o consentimento” das pessoas, a fim de “as controlar e disciplinar de acordo com a nossa vontade, sem elas terem consciência disso”.

Bernays considerou tais técnicas como “o verdadeiro poder dominante nas nossas sociedades” e designou-as por “governo invisível”.

O governo invisível nunca foi tão poderoso quanto o é nos dias de hoje, sendo em simultâneo tão pouco percecionado. Na minha carreira como jornalista e cineasta, nunca como hoje alguma vez eu vi a propaganda ser tão persuasiva e tão influente nas nossas vidas, sem que tal seja questionado.

Imagine duas cidades. Ambas estão cercadas pelas forças militares do governo desse país. Ambas as cidades estão ocupadas por fanáticos, que cometem atrocidades terríveis, tal como a decapitação de pessoas. Mas existe uma diferença fundamental. Num dos cercos, os soldados do governo são descritos como libertadores por repórteres ocidentais, conluiados com eles, que entusiasticamente relatam as suas batalhas e os seus ataques aéreos. Há logo imagens de primeira página nos jornais desses heróicos soldados que erguem os dedos em V, em sinal vitória. Há pouca menção de baixas civis.

Na segunda cidade – noutro país vizinho – acontece quase exactamente o mesmo. As forças do governo estão sitiando uma cidade controlada pela mesma raça de fanáticos. A diferença é que esses fanáticos são apoiados e armados por “nós” – pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Além disso, ainda têm um centro de propaganda que é financiado pela Grã-Bretanha e América. Outra diferença é que os soldados do governo que cercam esta cidade são os “maus”, condenados por agredir e bombardear a cidade – que é exatamente o que os “bons” soldados fazem na primeira cidade.

Confuso? Na verdade não. Isto é apenas um caso exemplar do duplo padrão básico que é a essência da propaganda. Refiro-me, naturalmente, ao cerco atual da cidade de Mosul pelas forças do governo do Iraque, que são apoiadas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha e ao cerco de Aleppo pelas forças do governo da Síria, apoiadas pela Rússia. Um é o bom; o outro é o ruim.

O que raramente é dito é que ambas as cidades não teriam sido ocupadas por fanáticos e devastadas pela guerra se a Grã-Bretanha e os Estados Unidos não tivessem invadido o Iraque em 2003. Essa operação criminosa foi lançada com base em mentiras semelhantes em tudo à propaganda que agora distorce a nossa compreensão da guerra civil na Síria. Sem essa propaganda estrondosa, apresentada como sendo notícias, o monstruoso ISIS, a Al-Qaida, a al-Nusra e os restantes gangues jihadistas não existiriam, e o povo da Síria não teria que lutar hoje para defender as suas vidas.

Convém que nos lembremos, como em 2003, uma sucessão de repórteres da BBC se voltaram para a câmera e nos disseram que Blair estaria “justificado” naquilo que acabou por ser o crime do século. As redes de televisão norte-americanas produziram a mesma justificação para George W. Bush. A Fox News recorreu a Henry Kissinger para espalhar as invenções de Colin Powell. No mesmo ano, logo após a invasão, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, um conceituado jornalista americano de investigação. Perguntei-lhe: “O que teria acontecido se os meios de comunicação mais livres do mundo tivessem questionado seriamente o que acabou por se provar não passar de propaganda bruta?”

Ao que ele respondeu que se os jornalistas tivessem feito seu trabalho, “há uma grande probabilidade, enorme mesmo, de que não teria havido guerra no Iraque”.

Foi uma declaração chocante, corroborada por outros jornalistas famosos a quem eu coloquei a mesma pergunta – Dan Rather da CBS, David Rose do Observer e jornalistas e produtores da BBC, que preferiram o anonimato. Isto é, se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho, se tivessem questionado e investigado a propaganda ao invés de a amplificar, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivas ainda hoje, e não haveria ISIS nem cerco a Aleppo ou a Mossul. Não teria havido nenhum atentado no metro de Londres em 7 de julho de 2005. Não teria havido nenhum exodo de milhões de refugiados; não existiriam acampamentos miseráveis incapazes de os receber.

Quando o atentado terrorista aconteceu em Paris em novembro passado, o presidente François Hollande enviou imediatamente aviões para bombardear a Síria – e mais terrorismo se seguiu, provavelemente, consequência das frases bombásticas de Hollande, a França está “em guerra”, e “não mostrará nenhuma clemência”. Que a violência estatal e a violência jihadista se alimentam uma da outra é uma verdade que nenhum líder nacional tem a coragem de dizer.

“Quando a verdade é substituída pelo silêncio”, disse o dissidente soviético Yevtushenko, “o silêncio é uma mentira.”

Os ataques ao Iraque, à Líbia e à Síria aconteceram porque o líder de cada um desses países não era um fantoche do Ocidente. O cadastro de desrespeito aos direitos humanos de um Saddam ou de um Gaddafi sempre foram irrelevantes. Eles, simplesmente não obedeceram às ordens de entregar o controlo do seu país.

O mesmo destino teve Slobodan Milosevic porque se recusou a assinar um “acordo” que exigia a ocupação da Sérvia e a sua conversão numa economia de mercado. O povo sérvio foi bombardeado, e Milosevic foi julgado pelo Tribunal de Haia. A independência deste género é considerada intolerável. Como o WikiLeaks revelou, foi apenas quando o líder sírio, Bashar al-Assad, em 2009, rejeitou que um oleoduto atravessasse o seu país, do Qatar para a Europa, que ele passou a ser acossado pelo Ocidente.

A partir desse momento, a CIA planeou destruir o governo da Síria recorrendo a fanáticos jihadistas – os mesmos fanáticos que actualmente controlam a cidade de Mossul e a zona oriental de Aleppo. Porque é que isto não é notícia? O ex-funcionário da chancelaria britânica Carne Ross, que era responsável pela imposição de sanções ao Iraque, disse-me em tempos: “Nós alimentamos os jornalistas com factos triviais de higienizada inteligência, ou congelamo-los. É assim que funciona.”

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O cliente medieval do Ocidente, a Arábia Saudita – a quem os EUA e a Grã-Bretanha vendem milhões de dólares de armamento – está atualmente a destruir o Iêmen, um país tão pobre onde, na época do seu maior desenvolvimento, metade das crianças eram subnutridas. Procure no YouTube e poderá ver o tipo de bombas pesadas – as “nossas” bombas -, que os sauditas estão a usar contra aldeias pobres e sujas, e contra casamentos e funerais. As explosões são semelhantes a pequenas bombas atómicas. Os lançadores das bombas da Arábia Saudita trabalham lado a lado com oficiais britânicos. Este fato nunca é referido nos noticiários da noite.

A propaganda é mais eficaz quando a nossa aquiescência é construída por aqueles que são portadores de uma boa educação – Oxford, Cambridge, Harvard, Columbia – e com carreiras na BBC, no Guardian, no New York Times, no Washington Post. Estes organismos são conhecidos como os media liberais. Eles apresentam-se como tribunas iluminadas, progressistas do zeitgeist moral. Eles são anti-racistas, pró-feministas e pró-LGBT.

E eles amam a guerra.

Enquanto falam para o feminismo, eles apoiam as guerras de rapina que negam os direitos das inúmeras mulheres, incluindo o direito à vida. Em 2011, a Líbia, na altura um estado moderno, foi destruída com o pretexto de que Muammar Gaddafi estava prestes a cometer genocídio contra seu próprio povo. Essa foi a notícia incessante; mas não houve nenhuma evidência, e o fato nunca se provou. Era uma mentira.

Na verdade, a Grã-Bretanha, a Europa e os Estados Unidos queriam aquilo que eles gostam de designar por “mudança de regime” na Líbia, o maior produtor de petróleo da África. A influência de Gaddafi no continente e, acima de tudo, a sua independência eram intoleráveis. Assim, ele foi assassinado com uma facada nas costas por fanáticos, apoiados pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Hillary Clinton aplaudiu a sua morte horrível dizendo para as câmeras: “Nós viemos, nós vimos, ele morreu!”

A destruição da Líbia foi um triunfo dos media. À medida que os tambores de guerra iam rufando, Jonathan Freedland escrevia no Guardian: “Embora os riscos sejam muito reais, a opção para uma intervenção continua a ser forte”. Intervenção – eis uma educada e benigna palavra do Guardian, cujo significado real, para a Líbia, era a morte e a destruição.

De acordo com os seus próprios registos, a NATO lançou 9 700 “surtidas de ataque” contra a Líbia, das quais mais de um terço foram destinadas a alvos civis. Nesses ataques foram usados mísseis com ogivas de urânio. É ver as fotografias dos escombros de Misurata e Sirte, e as valas comuns identificadas pela Cruz Vermelha. O relatório da UNICEF sobre as crianças mortas diz, “a maioria delas com idade inferior a dez anos”. Como consequência directa, Sirte tornou-se a capital do ISIS.

A Ucrânia é outra vitória dos media. Jornais liberais respeitáveis, como o New York Times, o Washington Post e The Guardian, e as emissoras tradicionais, como a BBC, NBC, CBS, CNN têm desempenhado um papel fundamental no condicionamento dos telespectadores para aceitar uma nova e perigosa guerra fria. Todos têm deturpado acontecimentos na Ucrânia como sendo uma ação maligna perpetrada pela Rússia quando, na verdade, o golpe na Ucrânia em 2014 foi orquestrado pelos Estados Unidos, ajudados pela Alemanha e pela NATO.

Esta inversão da realidade é tão difundida que a intimidação militar de Washington à Rússia não é novidade; é escondida por detrás de uma campanha de difamação e susto do tipo daquela em que eu cresci durante a primeira guerra fria. Mais uma vez, os Ruskies virão buscar-nos, liderados por outro Estaline, a quem The Economist descreve como o diabo.

A mistificação da verdade sobre a Ucrânia é um dos apagões de noticiosos mais completos de que há memória. Os fascistas que projetaram o golpe em Kiev são a mesma raça que apoiou a invasão nazi da União Soviética em 1941. De todos os alarmes sobre a ascensão do fascismo, do antissemitismo na Europa, não há nenhum líder ocidental que mencione os fascistas na Ucrânia – exceto Vladimir Putin, mas ele não conta.

Muito se tem trabalhado arduamente nos media ocidentais para apresentar a população étnica de língua russa da Ucrânia como estrangeiros no seu próprio país, como agentes de Moscovo, quase nunca como ucranianos que procuram uma federação dentro Ucrânia e como cidadãos ucranianos a resistir a um golpe orquestrado por estrangeiros contra o governo eleito do seu país.

Há quase como que um joie d’esprit de uma reunião de turma de belicistas. Os tocadores de tambores que incitam no Washington Post à guerra com a Rússia são os mesmos editorialistas que publicaram a mentira monumental que propalava que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça.

Para a maioria de nós, a campanha presidencial norte-americana é um espetáculo mediático horroroso, em que Donald Trump é o vilão. Mas Trump é odiado por aqueles que têm poder nos Estados Unidos por razões que pouco têm a ver com o seu comportamento e com as opiniões detestáveis. Para o governo invisível, em Washington, o Trump imprevisível é um obstáculo para o projeto da América para o século 21.

Isso é, para manter o domínio dos Estados Unidos e para subjugar a Rússia, e, se possível, a China.

Para os belicistas em Washington, o real problema com Trump é que, nos seus momentos de lucidez, ele parece não querer uma guerra com a Rússia; ele quer falar com o presidente russo, não lutar com ele; diz também que quer falar com o presidente da China. No primeiro debate com Hillary Clinton, Trump prometeu não ser o primeiro a recorrer a armas nucleares em caso de conflito. Ele disse: “Eu, certamente não faria o primeiro ataque. A alternativa nuclear, a acontecer, acabou tudo”. Isto não foi novidade.

Mas será que ele realmente quis dizer o que disse? Quem sabe? Ele contradiz-se frequentemente. Mas o que é claro, é que Trump é considerado uma séria ameaça ao status quo mantido pela vasta máquina de segurança nacional que controla os Estados Unidos, independentemente de quem estiver na Casa Branca. A CIA quer que ele seja derrotado. O Pentágono quer que ele seja derrotado. Os media querem que ele seja derrotado. Mesmo o seu próprio partido quer que ele seja derrotado. Ele é uma ameaça para os planos dos senhores do mundo – ao contrário de Clinton, que não deixou nenhuma dúvida de que está preparada para recorrer a armas nucleares numa guerra contra a Rússia e contra a China.

Clinton tem o perfil necessário, do qual muitas vezes se gaba. Na verdade, o seu currículo assim o comprova. Como senadora, ela apoiou o banho de sangue no Iraque. Quando concorreu contra Obama em 2008, ela ameaçou “aniquilar totalmente” o Irão. Como secretária de Estado, foi conivente com a destruição de governos na Líbia e nas Honduras e pôs em marcha um processo de enfrentamento com a China. Ela também já se comprometeu a apoiar um No Fly Zone na Síria – uma provocação direta para desencadear uma guerra com a Rússia. Clinton pode, de facto, tornar-se o presidente mais perigoso dos Estados Unidos durante a minha vida – ainda que para obter tal galardão defronte concorrentes ferozes.

Sem qualquer sombra de evidência, ela acusou a Rússia de apoiar Trump e de hacking dos seus emails. Divulgados pelo WikiLeaks, esses emails mostram-nos que o que Clinton diz em privado, em discursos para os ricos e poderosos, é o oposto do que ela diz em público. É por isso que silenciar e ameaçar Julian Assange é tão importante. Como editor do WikiLeaks, Assange sabe a verdade. E posso assegurar àqueles que estão preocupados com Assange, que ele está bem, e que o WikiLeaks está a trabalhar a todo o gás.

Hoje, a maior concentração de tropas, lideradas pelos americanos, desde a Segunda Guerra Mundial está em curso – no Cáucaso e na Europa Oriental, na fronteira com a Rússia, na Ásia e no Pacífico, onde a China é o alvo. Tenha isso em mente quando o circo das eleições presidenciais chegar ao fim em 8 de novembro, Se o vencedor for Clinton, um coro grego de comentadores tolos vai comemorar a sua coroação como um grande passo em frente para as mulheres. Nenhum vai mencionar as vítimas de Clinton: as mulheres da Síria, as mulheres do Iraque, as mulheres da Líbia. Ninguém vai mencionar os exercícios de defesa civil que estão a ser realizados na Rússia. Ninguém se vai lembrar das “tochas da liberdade” de Edward Bernays.

O porta-voz de imprensa de George Bush chamou uma vez aos media “facilitadores cúmplices”.

Vindo de um alto funcionário duma administração cujas mentiras, permitidas pelos media, causaram tanto sofrimento, essa afirmação é um aviso da história.

Em 1946, o promotor do Tribunal de Nuremberga disse dos media alemães: “Antes de cada grande agressão, eles iniciaram uma campanha de imprensa pensada para enfraquecer as suas vítimas e para preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque. No sistema de propaganda, a imprensa diária e a rádio foram as armas mais importantes “.


(Este texto é uma adaptação de uma comunicação para o Festival das palavras de Sheffield, Sheffield, Inglaterra.)


O original pode ser lido aqui

TEMPOS MODERNOS

Em 1866, a 1.ª Internacional, no Congresso de Genebra, consagrou a reivindicação das 8 horas de trabalho diário. O Congresso Operário americano, que decorreu em simultâneo, aprovou idêntica reivindicação. Em 2016, cento e cinquenta anos depois, nos Estados Unidos (para já), os trabalhadores dos aviários são obrigados pelo patronato a usar fraldas, são ridicularizados, ou […]

via BISCATES – TEMPOS MODERNOS – por Carlos de Matos Gomes — A Viagem dos Argonautas

Excelente texto de Carlos Matos Gomes. É o mundo que temos. Vivemos os tempos de “todos os perigos”, e a Humanidade, enquanto avança nos domínios científicos e tecnológicos, mantém-se com a inteligência dos primatas da idade das cavernas, em termos sociais e de valores.


Em 1866, a 1.ª Internacional, no Congresso de Genebra, consagrou a reivindicação das 8 horas de trabalho diário. O Congresso Operário americano, que decorreu em simultâneo, aprovou idêntica reivindicação.

Em 2016, cento e cinquenta anos depois, nos Estados Unidos (para já), os trabalhadores dos aviários são obrigados pelo patronato a usar fraldas, são ridicularizados, ou ameaçados com despedimento quando pedem para ir à casa de banho. Não existem pausas adequadas para o efeito. Os trabalhadores lutam para se adaptar a esta negação de uma necessidade humana básica usando fraldas para urinar e defecar enquanto se encontram na linha de produção!

Há 150 anos os trabalhadores lutavam pela limitação das horas de trabalho, hoje lutam pela ida à retrete. É a modernidade! O direito à retrete não é exclusivo dos Estados Unidos. A regulação da ida à “privada” faz parte dos contratos de trabalho. A indústria têxtil portuguesa,  com os seus empresários de grande visão social, há muito que fiscalizam os tempos dos “alívios” dos seus “colaboradores” e “colaboradoras”. Uma diarreia ou uma infecção urinária são ofensas graves à competitividade.

A questão da exploração humana é muito antiga. Já no direito romano, escravo era um objeto e não uma pessoa. Era considerado propriedade de alguém, o seu senhor, e não desfrutava de liberdade pessoal. Neste caso, falando com propriedade, nem tem sequer a cagar ou a mijar.

A sociedade industrial da primeira fase produziu uma obra de arte no cinema, a que, ironicamente, Charles Chaplin deu o título de – Tempos modernos – quando, na realidade, eram tempos muito antigos. O famoso personagem “O Vagabundo” (The Tramp) tenta sobreviver no mundo dito moderno, porque industrializado. É uma crítica aos modernos (na altura) maus tratos que os sucessores dos escravos passaram a receber durante a Revolução Industrial, quando as máquinas começaram a tomar o lugar dos homens. O princípio é o mesmo do usado nos aviários americanos, mas também nos call center, nas caixas dos supermercados, nas linhas de montagem, no entanto, nestes antros, agora são agora os homens que substituem os robôs. Daí o problema da perda de competitividade causada pelas necessidades fisiológicas humanas. O capitalismo ainda não faz homens e mulheres com uma torneira à frente, que abra às horas certas, e um rolhão atrás, só retirável depois de picar o ponto de saída!

O resultado destes avanços na modernidade foram o aumento da criminalidade, e guerras para eliminar mão de obra em excesso. Sim, as duas grandes guerras do século passado tiveram também a finalidade de libertar escória humana que o desenvolvimento tecnológico tornara supérflua. Como, aliás, a caldeira a vapor tinha acabado com a escravatura nas plantações das américas, pois era muito mais barata e eficaz do que as legiões de escravos transportados de África.

O filme «Tempos modernos» a personagem de Chaplin é um trabalhador de uma grande indústria que realiza sempre a mesma tarefa, cada vez mais depressa para aumentar o lucro e sujeito ao ritmo da máquina, em aceleração contínua.

Já no início da revolução industrial Charles Dickens tinha descrito as taras do sistema que deu origem ao que hoje chamamos de neoliberalismo. Em «Tempos Difíceis»:

“Havia umas casas, todas muito semelhantes umas às outras, e umas ruelas ainda mais semelhantes umas às outras, onde moravam pessoas mais semelhantes umas às outras, que saíam e entravam às mesmas horas, com os mesmos sons nas mesmas calçadas, para fazer o mesmo trabalho, e para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano o equivalente do próximo e do anterior.”

Mais perto de nós, entre as duas guerras do século passado e com prefácio de 1946, Aldous Huxley escreveu no início de “O Admirável Mundo Novo”:

A enorme sala do andar térreo estava virada a norte. Apesar do Verão que reinava no exterior, apesar do calor tropical da própria sala, apenas fracos raios de luz crua e fria entravam pelas janelas. As batas dos trabalhadores eram brancas, e as suas mãos, enluvadas em borracha pálida, de aspeto cadavérico. A luz era gelada, morta, espectral. Apenas dos cilindros amarelos escorria um pouco de substância amarela e viva, que se espalhava ao longo dos tubos como manteiga…”

Era a sala de reprodução da nova espécie. Aquela que, para já, tem de usar fralda para não escorrer as necessidades sobre o soalho do local de trabalho e reprodução…

Chegaremos, por este caminho, ao ponto de o progresso, dos novos tempos modernos, eliminarem essa necessidade…  de voltarmos à condição de objectos, como os Damnati in metallum – os escravos romanos condenados às minas – servi poenae – que deviam viver e morrer nas minas (já agora sem cagarem nem mijarem)..

A situação da escravatura moderna dos trabalhadores dos aviários americanos devia alertar os senhores do império e os seus fiéis de que os escravos acabam sempre por se revoltar. Mas eles não lêem História, lêem gráficos e folhas de Excel, nas Business Schools. Em Roma, essa revolta deu origem às “guerras servis”. Quando, após a vitória sobre Cartago, os prisioneiros feitos escravos se tornaram. o sustentáculo da economia romana, ganharam força para resistirem à exploração. A mais conhecida dessas revoltas foi liderada pelo gladiador Espártaco, ou Spartacus (entre 73 e 71 a.C.). O conflito ficou conhecido como a “Terceira Guerra Servil” ou “Guerra dos Escravos”. Foi o prenúncio do fim da República Romana.

Entretanto, o império atual apresenta na nova Roma, como candidatos a imperador, uma figura grotesca e uma patrícia ambiciosa que pressente a chegada do fim de uma época. Pela colónia europeia subiram dos esgotos as ratazanas do Eurogrupo e da Comissão Europeia. Na província da Lusitânia, duas moscas varejeiras fazem pela vida como comentadores na TVI e na SIC. Ao domingo, no dia em que os trabalhadores dos aviários americanos não usam fralda e podem fazer as necessidades a céu aberto, os portugueses gramam horas de futebol, ouvem os mexericos de Portas e Mendes,.

Para finalizar: quando os escravos já não são autorizados a cagar e a mijar, o fim do império está próximo!

BISCATES – PALMAS E PALMINHAS DA DIREITA SEMPRE FAQUISTA – por Carlos de Matos Gomes

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Fonte: BISCATES – PALMAS E PALMINHAS DA DIREITA SEMPRE FAQUISTA – por Carlos de Matos Gomes

(In Blog A Viagem dos Argonautas)

“Excelente começo do mandato do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa ao não ser aplaudido pela extrema-esquerda parlamentar, Bloco e PC, pouco dada aos modos da democracia liberal. Há companhias que se dispensam por natureza. Deve estar a referir-se à dita extrema esquerda. É disso que falo, da canalha.”

Este frémito de neomarcelismo saiu no Facebook. Representa o estado de alma dos doridos e abandonados do PAF que andam a carpir mágoas pela comunicação social. É um (mais um) afloramento do sebastianismo que alimenta os cultivadores da impotência nacional – sempre em busca de uma União Nacional e de um Chefe que a imponha. Também é mais um belo exemplo de como a direita portuguesa dá tiros nos pés.

Quem não aplaudiu o discurso de Rebelo de Sousa é má companhia e é canalha. É um argumento de menino de escola: Quem não salta é maricas! Mas a contradição entre o dito e o pretendido vem a seguir: Só quem aplaudiu o discurso merece confiança. A opinião revela o carácter destes apoiantes, igual ao da elite corrupta do Brasil que vai às manifestações contra a corrupção com a criada negra atrás a empurrar os filhos. A imagem destrói a mensagem. Aos primeiros mais valia estarem calados, aos segundos não terem saído de casa.

Eu até aplaudiria o discurso de 9 de Março, mas meti logo as mãos nos bolsos quando vi que o primeiro a levantar o rabinho da poltrona de deputado às palminhas tinha sido Paulo Portas, ainda as palavras de Marcelo vibravam na sala! Paulo pulou. Logo é e será o primeiro merecedor de confiança de Marcelo Rebelo de Sousa que, pelo seu lado, terá a lealdade de Paulo, a sua reconhecida inteireza de carácter, a sua honestidade sem máculas e sem falhas, a sua solidariedade de irmão de sangue e de armas!

Aos coristas da direita conviria recordar que existem arquivos e que os saltos aplauditivos de Portas a 9 de Março não os apagam.

No “Observador”, que não é um coio de canalhas de extrema-esquerda, escrevia Rita Dinis a 11/8/2014, num artigo com o título “Duelos de Poder”, sobre as relações de Portas com Marcelo: “Alerto para a existência de esquerdistas inteligentes no PSD que não são mais do que submarinos do PS altamente anti-CDS e complexados esquerdisticamente (sic)”

O episódio, descrito na biografia de Marcelo Rebelo de Sousa, da autoria de Vítor Matos, lembra que esse jovem denunciante era nem mais nem menos do que Paulo Portas, por volta de 1977 um lusito de 15 anos, que escreveu ao presidente do PSD (Sá Carneiro), em jeito de alerta para o estado em que o partido se encontrava. O recado assentava que nem uma luva ao professor Rebelo de Sousa (complexado esquerdisticamente!!!). Claro que Portas não era nem é um canalha. Era apenas um jovem bufo. Hoje é apenas um tipo que teve direito a bilhete de claque em São Bento e é um bom companheiro de viagem.

Outro exemplo, do mesmo artigo do “Observador”, sobre a admiração mútua entre Rebelo de Sousa e Portas, o entusiástico aplaudidor de 9 de Março de 2016. Em 1993, quando Portas ainda era diretor do jornal «Independente», divulgou uma história de traição por parte de Marcelo. Ficou conhecida como o caso da vichyssiose, pois essa teria sido a sopa servida numa reunião inventada pelo agora Presidente da República. O aplauso de Portas pode significar que passou a gostar das sopas de Rebelo de Sousa. A extrema-esquerda é que não come da mesma malga. Canalhas!

Num programa «Parabéns», de Herman José, Portas deixou uma frase lapidar: «Marcelo é filho de deus e do diabo. Deus deu-lhe a inteligência e o Diabo deu-lhe a maldade». Os aplausos de Portas, segundo a alcateia de comentadores do defunto PAF em busca de abrigo, são produto garantido. Canalhas são a Catarina Martins e o Jerónimo de Sousa, que ficaram, como eu, estupefactos a assistir ao despudor de Portas e correligionários! Saiu-lhes a fava. Isto é, o diabo.

Há companhias que se devem evitar, avisam os novos cortesões de Marcelo. Se há! Digo eu. Julgava que se referiam à de Portas, de Relvas, de Maria Luís Albuquerque, do tipo que vendeu a TAP, os aeroportos… dos que rebentaram com o BES, dos traficantes do BPN, dos que fizeram de Portugal, segundo a OCDE, um pais mais pobre e desigual, dos que promoveram a maior vaga de emigração desde os anos 60 do século passado, dos que arrastaram a precariedade do trabalho até ao nível infame dos primórdios da revolução industrial, dos que transferiram recursos essenciais do ensino público para o particular e da saúde pública para a privada, dos que classificaram a terceira idade como peste grisalha… Engano meu. Os órfãos do PAF entendem que estes são os compinchas ideais para o novo presidente!

Andou Marcelo a querer fazer esquecer essas más companhias durante toda a campanha e logo lhe saem à perna apoiantes mais papistas que o papa a expor com alacridade o que a direita aplauditiva pretende de Marcelo: que ele seja um Cavaco telegénico e que mantenha a mesma corja no séquito!

A direita que, segundo estes comprometedores publicistas, é a boa companhia para Marcelo ainda tem mais exemplos de são e leal relacionamento de Portas com o agora presidente. “Em 1999, Marcelo cede à pressão do caso Moderna e entra em ruptura com o líder do CDS, Paulo Portas, quebrando a reedição do projeto da Aliança Democrática. Apesar de muitos dizerem que podia dar a volta, para concorrer a primeiro-ministro, Marcelo decide afastar-se da liderança do partido, deixando a cadeira vazia.”

“Mais tarde, quando ambos eram líderes dos seus partidos, não conseguiram resolver querelas antigas e não conseguiram reeditar a AD para se candidatarem juntos às Legislativas. Marcelo sai do PSD e abre portas a Durão Barroso.”

Durão Barroso, que também bateu palmas a Marcelo, pagaria a Portas levando-o para o seu governo, com a pasta da Defesa, onde ainda navegam as desconfianças sobre submarinos, helicópteros, pandures e milhares de fotocópias. Tudo gente de confiança. Ambos, Barroso e Portas, viram as armas de destruição em massa com que Bush filho justificou a invasão do Iraque, que tão bons refugiados tem dado até hoje do Afeganistão à Líbia, do Iraque à Síria. Canalhas são os da extrema-esquerda a quem falta visão estereoscópica e se dão mal com a democracia liberal. Ficamos a saber que para estes comentadores a democracia liberal é um sistema político baseado em facadas pelas costas e aplausos pela frente.

Os jovens direitistas, ou faquistas, portugueses, os Tavares e os Raposos, os Gonçalves e os Macedos, os Ferreiras e os Lourenços, meninos e meninas cujas cabeças vazias navegam pela comunicação social como alforrecas em lagoa de águas poluídas, estão hoje onde os deixou o pensamento político e social do padre miguelista Agostinho de Macedo numa obra que devia ser a sua bíblia: A Besta Esfolada e O Desengano.

Pensam à cacetada. Raciocinam à traulitada. A lógica é, para eles, uma enxaqueca, a História, uns urros e um vamos a eles por São Borges, o liberal patriarca das privatizações.

Não sei se o Vaticano tem a ver com o assunto (à cautela Marcelo inicia por aí o seu périplo internacional), mas os jovens lobos da direita portuguesa inscrevem quase todos a Universidade Católica nos seus títulos e currículos. Penso que será para se credibilizarem nos púlpitos da comunicação social, numa técnica idêntica à dos vinhos de Denominação de Origem Controlada. A Universidade Católica DOC é uma espécie escola de forcados do pensamento da direita portuguesa. Um local onde Tomás de Aquino não poderia tentar harmonizar a Fé e a Razão (Summa Theologia), porque os noviços que dali saem tonsurados vivem um insanável conflito, não com a Fé, mas com a Razão e a Moral. Vendem-se nos saldos.

Com amigos destes, Marcelo não precisa de inimigos…