TEMPOS MODERNOS

Em 1866, a 1.ª Internacional, no Congresso de Genebra, consagrou a reivindicação das 8 horas de trabalho diário. O Congresso Operário americano, que decorreu em simultâneo, aprovou idêntica reivindicação. Em 2016, cento e cinquenta anos depois, nos Estados Unidos (para já), os trabalhadores dos aviários são obrigados pelo patronato a usar fraldas, são ridicularizados, ou […]

via BISCATES – TEMPOS MODERNOS – por Carlos de Matos Gomes — A Viagem dos Argonautas

Excelente texto de Carlos Matos Gomes. É o mundo que temos. Vivemos os tempos de “todos os perigos”, e a Humanidade, enquanto avança nos domínios científicos e tecnológicos, mantém-se com a inteligência dos primatas da idade das cavernas, em termos sociais e de valores.


Em 1866, a 1.ª Internacional, no Congresso de Genebra, consagrou a reivindicação das 8 horas de trabalho diário. O Congresso Operário americano, que decorreu em simultâneo, aprovou idêntica reivindicação.

Em 2016, cento e cinquenta anos depois, nos Estados Unidos (para já), os trabalhadores dos aviários são obrigados pelo patronato a usar fraldas, são ridicularizados, ou ameaçados com despedimento quando pedem para ir à casa de banho. Não existem pausas adequadas para o efeito. Os trabalhadores lutam para se adaptar a esta negação de uma necessidade humana básica usando fraldas para urinar e defecar enquanto se encontram na linha de produção!

Há 150 anos os trabalhadores lutavam pela limitação das horas de trabalho, hoje lutam pela ida à retrete. É a modernidade! O direito à retrete não é exclusivo dos Estados Unidos. A regulação da ida à “privada” faz parte dos contratos de trabalho. A indústria têxtil portuguesa,  com os seus empresários de grande visão social, há muito que fiscalizam os tempos dos “alívios” dos seus “colaboradores” e “colaboradoras”. Uma diarreia ou uma infecção urinária são ofensas graves à competitividade.

A questão da exploração humana é muito antiga. Já no direito romano, escravo era um objeto e não uma pessoa. Era considerado propriedade de alguém, o seu senhor, e não desfrutava de liberdade pessoal. Neste caso, falando com propriedade, nem tem sequer a cagar ou a mijar.

A sociedade industrial da primeira fase produziu uma obra de arte no cinema, a que, ironicamente, Charles Chaplin deu o título de – Tempos modernos – quando, na realidade, eram tempos muito antigos. O famoso personagem “O Vagabundo” (The Tramp) tenta sobreviver no mundo dito moderno, porque industrializado. É uma crítica aos modernos (na altura) maus tratos que os sucessores dos escravos passaram a receber durante a Revolução Industrial, quando as máquinas começaram a tomar o lugar dos homens. O princípio é o mesmo do usado nos aviários americanos, mas também nos call center, nas caixas dos supermercados, nas linhas de montagem, no entanto, nestes antros, agora são agora os homens que substituem os robôs. Daí o problema da perda de competitividade causada pelas necessidades fisiológicas humanas. O capitalismo ainda não faz homens e mulheres com uma torneira à frente, que abra às horas certas, e um rolhão atrás, só retirável depois de picar o ponto de saída!

O resultado destes avanços na modernidade foram o aumento da criminalidade, e guerras para eliminar mão de obra em excesso. Sim, as duas grandes guerras do século passado tiveram também a finalidade de libertar escória humana que o desenvolvimento tecnológico tornara supérflua. Como, aliás, a caldeira a vapor tinha acabado com a escravatura nas plantações das américas, pois era muito mais barata e eficaz do que as legiões de escravos transportados de África.

O filme «Tempos modernos» a personagem de Chaplin é um trabalhador de uma grande indústria que realiza sempre a mesma tarefa, cada vez mais depressa para aumentar o lucro e sujeito ao ritmo da máquina, em aceleração contínua.

Já no início da revolução industrial Charles Dickens tinha descrito as taras do sistema que deu origem ao que hoje chamamos de neoliberalismo. Em «Tempos Difíceis»:

“Havia umas casas, todas muito semelhantes umas às outras, e umas ruelas ainda mais semelhantes umas às outras, onde moravam pessoas mais semelhantes umas às outras, que saíam e entravam às mesmas horas, com os mesmos sons nas mesmas calçadas, para fazer o mesmo trabalho, e para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano o equivalente do próximo e do anterior.”

Mais perto de nós, entre as duas guerras do século passado e com prefácio de 1946, Aldous Huxley escreveu no início de “O Admirável Mundo Novo”:

A enorme sala do andar térreo estava virada a norte. Apesar do Verão que reinava no exterior, apesar do calor tropical da própria sala, apenas fracos raios de luz crua e fria entravam pelas janelas. As batas dos trabalhadores eram brancas, e as suas mãos, enluvadas em borracha pálida, de aspeto cadavérico. A luz era gelada, morta, espectral. Apenas dos cilindros amarelos escorria um pouco de substância amarela e viva, que se espalhava ao longo dos tubos como manteiga…”

Era a sala de reprodução da nova espécie. Aquela que, para já, tem de usar fralda para não escorrer as necessidades sobre o soalho do local de trabalho e reprodução…

Chegaremos, por este caminho, ao ponto de o progresso, dos novos tempos modernos, eliminarem essa necessidade…  de voltarmos à condição de objectos, como os Damnati in metallum – os escravos romanos condenados às minas – servi poenae – que deviam viver e morrer nas minas (já agora sem cagarem nem mijarem)..

A situação da escravatura moderna dos trabalhadores dos aviários americanos devia alertar os senhores do império e os seus fiéis de que os escravos acabam sempre por se revoltar. Mas eles não lêem História, lêem gráficos e folhas de Excel, nas Business Schools. Em Roma, essa revolta deu origem às “guerras servis”. Quando, após a vitória sobre Cartago, os prisioneiros feitos escravos se tornaram. o sustentáculo da economia romana, ganharam força para resistirem à exploração. A mais conhecida dessas revoltas foi liderada pelo gladiador Espártaco, ou Spartacus (entre 73 e 71 a.C.). O conflito ficou conhecido como a “Terceira Guerra Servil” ou “Guerra dos Escravos”. Foi o prenúncio do fim da República Romana.

Entretanto, o império atual apresenta na nova Roma, como candidatos a imperador, uma figura grotesca e uma patrícia ambiciosa que pressente a chegada do fim de uma época. Pela colónia europeia subiram dos esgotos as ratazanas do Eurogrupo e da Comissão Europeia. Na província da Lusitânia, duas moscas varejeiras fazem pela vida como comentadores na TVI e na SIC. Ao domingo, no dia em que os trabalhadores dos aviários americanos não usam fralda e podem fazer as necessidades a céu aberto, os portugueses gramam horas de futebol, ouvem os mexericos de Portas e Mendes,.

Para finalizar: quando os escravos já não são autorizados a cagar e a mijar, o fim do império está próximo!

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3 pensamentos sobre “TEMPOS MODERNOS

  1. Realmente genial, cher Carlos, o seu texto onde o cómico concorre contra o trágico ! Adorei essa sua coragem em
    usar esta linguagem vernácula para apoiar o real escândalo da questão levantada aqui. Parabens e obrigada.
    Danielle

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