Killary inaugura uma nova fase na repressão do povo americano

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 17/09/2024, revisão da Estátua)

É sempre o repressor quem decide o motivo da repressão. Sempre.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Hillary Clinton, num tête a tête com Rachel Medow (programa Rachel One-to-One na MSNBC) que assume bem o posto de rainha dos propagandistas russófobos e principal propagadora mainstream do infame “russiagate”, vem admitir a promoção de acusações criminais contra americanos que propaguem “desinformação” russa.

A própria Hillary Clinton tem enormes responsabilidades no que a desinformação diz respeito, diga-se de passagem, uma vez que foi no seu círculo pessoal que se projetou o “russiagate” e toda uma estratégia de diabolização da Rússia, visando separar a União Europeia desta potência euroasiática. Embora, à data, não fosse ainda tão transparente, esta estratégia de acusação à Federação Russa de querer “interferir” nas democracias ocidentais – como se os EUA não fossem monopolistas disso mesmo – representava já o resultado do que podemos chamar de “novo normal” político ideológico: a “normalidade” em que os partidos do centro se unem numa só massa monolítica e coesa de princípios, valores e objectivos. À data, já o Partido Democrata representava Wall Street e todo o complexo militar industrial, como o faziam os mais fervorosos néocons, que muita gente pensava estarem apenas no Partido republicano.

O apoio de figuras como Dick Cheney, acompanhada de um apoio massivo de 238 néocons, antigos staffers de George W. Bush, McCain e Mitt Romney, referindo Kamala Harris como a “salvadora da democracia”, demonstram claramente a abrangência do partido democrata junto da classe dominante. Não se deixem enganar; para esta gente, muitos deles genocidas da pior espécie, responsáveis por crimes como o das “armas de destruição massiva” no Iraque, responsáveis pelas guerras eternas como no Afeganistão, não se trata de “salvar a democracia”. Trata-se de prosseguir o plano de recuperação da hegemonia mundial. Com tudo o que essa recuperação possa significar. Trump, para já, ameaça esse projeto, pretendendo virar-se para dentro. Veremos o que fará quando constatar que nada do que possa fazer travará a perda do domínio norte-americano no mundo.

Ora, se existe alguém com culpa na escalada que está a destruir a europa, essa pessoa é Hillary Clinton. No reinado do seu marido (Bill Clinton), entre saxofones e adultérios, o Partido Democrata não apenas se vendeu a Wall Street, iniciando um processo em que com o tempo passou a recolher tantos donativos corporativos (PACS’s) como o partido Republicano, demonstrando o jogo da generalidade das corporações nos dois tabuleiros. Só o fazem porque acreditam que os dois respondem aos seus interesses. A verdade é que o partido democrata recolhe donativos individuais de importantes bilionários como Michael Bloomberg.

O papel do Partido Democrata como instrumento de domínio antidemocrático sofre súbita importância na era Clinton, como quando, em 1996, destruiu a Lei da Imprensa de Roosevelt (Telecomunications Act), que impedia o que aconteceu depois e que constatamos hoje: a concentração da média mainstream em meia dúzia de grandes conglomerados que se cartelizam e criam uma narrativa comum. Tudo sob a bandeira da “liberalização dos mercados dos média”, que acabou com as operadoras mais pequenas, acusadas de terem “monopólios locais”. A desregulação conduziu ao domínio dos média por meia dúzia de grandes conglomerados.

Ou seja, foi com Hillary e o Partido Democrata e depois com o “Patriot Act” já com Bush Jr, que os EUA perderam a liberdade de imprensa, a privacidade e a liberdade de oposição, abrindo a porta à tortura e à vigilância massiva respaldada na “luta contra o terror”. Foi a era da legitimação do poder através da vitimização.

À data, o Partido Democrata dividiu-se, mas ainda tinha 45 resistentes à lógica da guerra eterna. Quando chegámos a 2022 e à Ucrânia, este número já se havia reduzido substancialmente. Hoje, é mais comum assistirmos a resistências do lado republicano, do que do lado democrata, para se ter uma noção do quão corrompido foi o Comité Nacional Democrata.

Provando que a repressão nunca começa com a cabeça no cepo, sendo antes resultado de um processo em escalada, que visa responder a uma crise, também nos EUA – e na Europa – a perda da elasticidade democrática e o consequente endurecimento ideológico tem sido progressivos. Novamente, tal como com o 9/11 de 2001, os EUA tentaram com a Ucrânia uma nova forma de legitimação através da vitimização. Contudo, falta aos EUA o capital mundial de confiança, cuja degradação acompanha a perda de influência, respondendo a crescente repressão à perda da hegemonia mundial. A repressão é assim um “tocar a reunir” para impedir a progressão da crise.

A crescente desagregação do dólar – que nem os próprios já conseguem disfarçar – , com Trump a propor uma medida (100% em produtos que não usem dólar), aliada à crescente descredibilização e desmontagem, por cada vez mais países, do seu soft power (média, Think Tanks e Academia), bem como o surgimento de um competidor de luxo, que assume o lugar que sempre teve na história, deslocando, novamente, para a Ásia, o centro da economia mundial, traz aos EUA uma realidade em que, caso percam a Europa e o domínio que sobre ela têm, não apenas ficam isolados da “heartland” (Emanuel Todd pensava que tal iria acontecer na primeira década do século XXI, mas o wokismo e a concentração republicana e democrata num bloco de poder unificado conseguiram mitigar a situação por algum tempo), como ficam relegados ao seu pior terror, a descida para um patamar de potência regional.

Para já, não surge uma única notícia na imprensa ocidental mainstream sobre a adoção do BRICS Pay ou do facto de, em Outubro, em Kazan, 126 países irem discutir o fim da sua dependência do dólar. Nestes países concentra-se 85% da população mundial. Se isto não é notícia suficiente para um simples rodapé… A inocuidade ou a vantagem sistémica, passaram a ser a característica fundamental da atividade noticiosa.

Não obstante todos estes desenvolvimentos e a sua previsibilidade já em 2022, infelizmente, apenas uma percentagem ínfima de pessoas viu em que consistia, realmente, o conflito ucraniano. Historicamente, a relação euroasiática constitui o pior das ameaças para o hegemonismo dos EUA. A Rússia e as relações entre a Europa ocidental e o Leste, são a peça chave. Há que separá-las. Contudo, a separação humana não resiste à conexão geográfica e, acima de tudo, à mútua necessidade. Essas serão, a meu ver, inexoráveis. Até ao domínio ocidental, pela força bruta, a partir dos séculos XV-XVI, o mundo havia sido sempre multipolar. É para lá que está a voltar, novamente.

Para o impedir, a estratégia assenta, ainda e sempre, na diabolização e isolamento da Rússia. Há que impedir a conexão intercontinental Europa, Ásia, África. Face à incapacidade e à impossibilidade de tudo caracterizar como “propaganda do Kremlin” quando os factos não se ajeitam à narrativa oficial, Hillary propõe agora uma nova fase no controlo das mentes. Também os nazis perceberam a importância deste vasto país para o domínio do mundo.

Questionei-me muitas vezes quando começariam, no Ocidente, a prender as pessoas por falarem “propaganda”, agora do Kremlin, amanhã de qualquer outra coisa considerada inoportuna, para quem comanda. Como num qualquer estado fascista. Já o tinha escrito diversas vezes, alertando para o facto de que as características materiais (económicas, políticas e sociais), do regime em que vivemos, constituírem o tipo de realidade que enforma os regimes que se podem designar por “fascistas”: o momento mais alto do nível de concentração de riqueza numa oligarquia dominante, que usa o poder adquirido para acelerar ainda mais a concentração e que perante a resistência das massas à destruição do seu bem-estar, usa a repressão para as conter.

Os mais incautos, vendidos, reacionários ou iludidos, incapazes de reconhecer na História o seu movimento, a relação dialética entre realidade e ação humana, acreditavam que o fascismo não voltaria. Que vivíamos em democracia e que, votando, tudo estaria garantido. No fascismo vota-se, nas constituições fascistas também se fala em democracia. O fascismo é apenas uma fase, mais agressiva, do processo de concentração da riqueza, com os efeitos que tal provoca na vida política, enquanto espelho das relações sociais que lhe estão subjacentes. Alguns ainda acham que vivem na mesma fase do regime em que viviam há 20 anos, mesmo que a estrutura de redistribuição da riqueza se tenha alterado radicalmente. Como se a concentração de maior poder, numa classe dominante – e com cada vez maior domínio – não mudasse nada na política.

Como se a política não fosse o espelho das relações materiais que estão na sua origem! A fase fascista inaugura também a fase mais grave da crise capitalista, reproduzida, neste nosso tempo, na crise da hegemonia do sistema económico neoliberal liderado pelos EUA. Como muito bem demonstra Mathew C. Klein e Michael Pettis no seu excelente livro “Trade Wars are Class Wars”, a guerra comercial EUA-China é também o resultado da luta de classes.

Hillary vem dar o mote político – e teórico – para o início do processo repressivo em que se agrava a luta do povo contra a classe dominante. O controlo dos média, censura nas redes sociais, vigilância em massa de cada telefone, computador, televisão ou eletrodoméstico, tudo a fluir para as redes neuronais da NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA), fazendo o profiling, predizendo e prevendo comportamentos, não foram suficientes para impedir a degradação do “full spectrum dominance, doutrina que desde a segunda guerra mundial constituía o guião da “liderança mundial dos EUA”.

Depois de Jack Rubin culpar a RT pelo falhanço do projeto ucraniano (que melhores assunções da artificialidade desse conflito queriam?), vem agora Killary propor o próximo passo: prender os que dizem a verdade! Os EUA falham em criar uma falsa Palestina (Ucrânia) e um falso Israel (Federação Russa), prevendo para a Rússia o tratamento mundial que impedem para Israel, e culpam a RT. A culpa não é da realidade, não é da falácia da narrativa. A culpa é de quem a desmonta.

Poderiam dizer-me “ah! mas é propaganda do Kremlin”! Mas quem decide o que é ou não é “propaganda do Kremlin”? Quando os comunistas, progressistas e outros democratas, durante a noite fascista denunciavam a repressão, “tratava-se de propaganda comunista”, quando denunciavam a pobreza, a fome, a miséria e o analfabetismo “era propaganda comunista”. É sempre o repressor quem decide o motivo da repressão. Sempre.

E nenhuma repressão acontece sem motivo, de forma injustificada ou gratuita. Todos assumem as melhores intenções do mundo, quando respondem, a uma crise profunda, com os instrumentos da repressão. E os EUA são quem melhor narra as suas “boas intenções” …

Contudo, como diz o povo: “De boas intenções está o inferno cheio”.

Fonte aqui.


Está tudo de calças na mão

(Estátua de Sal, 08-11-2016, 23h:50m)
trump
Aguarda-se que comecem a sair resultados efectivos das eleições nos EUA, e não de sondagens, que as há aos montes. Não sei quem vai ganhar as eleições americanas. Em qualquer dos casos, qualquer que ganhe parece que será por margem diminuta. A corte global dos comentadores, políticos, gente importante e com tempo de antena, todos temem que venha aí o Diabo, ou seja Mr. Trump. Está tudo com as calças na mão. Mas, se tal acontecer, o mainstream só a si próprio deve culpar-se. Criou o caldo de cultura económico, ideológico, e politico para que tal acontecesse.
As classes médias foram esmagadas pelo desemprego originado pela deslocalização dos empregos para a Ásia onde os baixos salários e ausência de direitos faz engordar os bolsos das grandes companhias americanas. A pobreza e a miséria grassam nas cidades americanas. As prisões nunca estiveram tão cheias e os EUA são o país da OCDE que mais população prisional possui em relação à população total.
A cultura da estupidificação que as televisões servem com o fito de demesticar a contestação e os eleitores é agora aproveitada por Trump a seu favor com resultados efetivos e espectaculares.
Os escândalos políticos a que a senhora Clinton está ligada, os fluxos financeiros que ela recebe de gente mais que duvidosa que apoiam em força a sua campanha também lhe retiram a aura de confiabilidade que um candidato limpo, de alma e mãos, deveria ter.
Mais, o seu espírito de falcão assanhado no que toca à política externa, conflitual e de garras afiadas para a guerra também não auguram nada de bom, nem para o seu país nem para o Mundo.
Sim, se Trump vencer, bem pode agradecer aos interesses que o partido democrata defende neste momento e que Clinton corporiza.
Bastava o partido democrata ter jogado limpo e não ter de forma explicita apoiado a senhora Clinton contra Sanders, usando todas as manobras sujas que foram postas a nu recentemente.
E isto os comentadores não dizem, e disto não falam.
Antes da nomeação de Trump todas as sondagens diziam que ele perderia contra Sanders por mais ou menos 20 pontos percentuais, mas que disputaria palmo a palmo as eleições com Hillary.
Só que Sanders era incómodo, ele tinha um programa de recuperação da economia americana a favor daqueles que foram perdedores até aqui. E isso, os interesses dos 1% mais ricos, da finança, de Wall Street, não poderiam tolerar. Resolveram arriscar e colocar “a cave” como se diz no poker.
Pois bem, podem perder tudo e está a ver-se que a vitória, a acontecer será sempre pífia. E se perderem, não acusem Trump, o populismo, e no final os próprios eleitores que nele votaram.
Não, a culpa é de quem, até ao fim, e à beira do abismo se recusa a aceitar que as políticas neoliberais tem que ser invertidas, a globalização tem que ser repensada, e que o capitalismo só subsiste enquanto for capaz de gerar mais cidadãos com esperança do que cidadãos desesperados.
 

Hillary Clinton venceu… mas por pouco. E, por enquanto, só na net

(In Expresso Diário, 08/11/2016)

summit

A candidata democrata foi mais bem-sucedida do que Donald Trump na caça ao eleitor na internet, garante um orador da Web Summit. Estamos a umas horas de saber se isso lhe garante a Casa Branca


Quem está na Internet quer ser visto, lido, ouvido, comprado, partilhado ou votado. Para isso, contudo, é preciso saber atrair internautas. A guerra pelas audiências ou pelos sufrágios é também uma guerra por cliques, likes e shares. O assunto esteve em foco hoje no palco SaaS Monster da Web Summit, dedicado ao “Software as a Service”, isto é, à informática enquanto serviço.

A análise da campanha das presidenciais republicanas ficou a cargo de Or Offer. O israelita, co-fundador e CEO da SimilarWeb — uma start que analisa o tráfego de sítios e aplicações —, explicou que é importante saber de onde vem quem chega a uma determinada página de Internet. A maioria dos visitantes chega, hoje, das redes sociais e motores de busca. Os sítios oficiais de Hillary Clinton e Donald Trump não foram exceção.

Offer explica que, analisando uma vasta gama de utilizadores, é possível tirar conclusões e agir de forma a reforçar ou inverter tendências. No caso dos candidatos à Casa Branca, destacou cinco técnicas de marketing: da parte do republicano, aquilo a que chamou “equipar um exército” e “desorientar”; no caso da democrata, “ser mais esperto do que o adversário”, criar uma “máquina viral” e “equilibrar as atenções”.

Vender bonés rende

O orador explicou que um pico de audiências do sítio de Trump se deu pouco depois de o candidato ter anunciado, com uma foto sua de boné na cabeça, a venda de artigos de merchandising com o lema “Make America Great Again” (equipar o exército).

Outro momento alto, ainda durante as eleições primárias do Partido Republicano, aproveitou o flanco dado por um adversário. Jeb Bush, filho e irmão de ex-presidentes, decidiu concorrer sem usar muito o apelido, talvez para evitar associações ao impopular George W, chefe de Estado entre 2000 e 2008. O seu sítio era, por isso, jeb2016.com. Os estrategas digitais de Trump aproveitaram a oportunidade e compraram o domínio jebbush.com (por nove dólares, ou oito euros, anuais).

Ato contínuo, quem foi aos motores de busca procurar por Jeb Bush passou a obter como primeiro resultado uma página que encaminhava diretamente para o sítio de Trump. Foram mais 3,2 milhões de internautas que a campanha de Trump “desorientou”.

Clinton também usou o nome de Trump para lhe conquistar público. A ferramenta “Trump Yourself” permitia aos utilizadores divertirem-se a ver o que o milionário, conhecido pela sua linguagem incendiária e insultuosa, diria deles. A democrata viu, assim, 5% dos que procuravam Trump acabarem no seu sítio. É o que se chama “ser mais esperto”. O passo seguinte é conseguir “tornar a máquina viral”. Através da partilha dos internautas em várias plataformas e redes, sobretudo o Facebook, Clinton conseguiu crescer 354% em visitas a partir desta fonte.

Com a verdade me conquistas

Quanto a “equilibrar focos”, Offer explica que se trata de chamar a atenção para aspetos negativos do adversário. No primeiro debate entre os dois, a 26 de setembro, Clinton convidou o público a visitar no seu sítio a secção “literally Trump”, dedicada ao fact checking, ou seja, à verificação das afirmações do republicano. Dada a relação flexível deste último com a verdade, a ferramenta atraiu mais 920% de tráfego.

Tudo somado, Hillary Clinton conseguiu que 89,9 milhões de pessoas visitassem o seu sítio de campanha. Donald Trump ficou-se pelos 83,3 milhões. Logo à noite veremos se o sucedido no mundo virtual se repete no mundo real.