Por dento do governo invisível: guerra, propaganda, Clinton e Trump

(John Pilger, in GlobalResearch, Tradução de Estátua de Sal, 27/10/2016)

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Nota prévia: Decidi traduzir este texto porque o seu conteúdo nunca é discutido na comunicação social em Portugal. Quem domina o inglês ainda pode obter alguma informação em vários sites da internet que quebram a cortina com que a comunicação social dominante vai formatando a mente dos cidadãos comuns. Este texto revela muitas das suas tácticas operacionais. E traz a debate a gigantesca manipulação que está neste mmento em curso, em relação à situação de pré-conflito mundial que pode pode fazer regressar a Humandade à idade da pedra lascada, senão à destruição total. Quem me achar tremendista, e muitos acharão, não me deixarão surpreso. Na verdade, tal só provará que as técnicas de propaganda que o texto refere estão de boa saúde e que funcionam na perfeição. (Estátua de Sal, 29/10/2016)


O jornalista norte-americano, Edward Bernays, é frequentemente descrito como o homem que inventou a propaganda moderna. Sendo sobrinho de Sigmund Freud, o pioneiro da psicanálise, foi Bernays que criou o termo “relações públicas”, um eufemismo para as opiniões manipuladoras e as fraudes que elas originam.

Em 1929, Bernays convenceu um grupo de feministas a promover o cigarro entre as mulheres fumando no Easter Parade New York – comportamento, à época, considerado estranho. Uma feminista, Ruth Booth, declarou então: “Mulheres! Vamos acender outra tocha da liberdade! Vamos lutar contra outro tabu do sexo! ” A Influência de Bernays estendeu-se muito para além da publicidade. O seu maior sucesso foi ter conseguido convencer o público americano a contemporizar com os massacres da Primeira Guerra Mundial.

O segredo, segundo ele, era “fabricar o consentimento” das pessoas, a fim de “as controlar e disciplinar de acordo com a nossa vontade, sem elas terem consciência disso”.

Bernays considerou tais técnicas como “o verdadeiro poder dominante nas nossas sociedades” e designou-as por “governo invisível”.

O governo invisível nunca foi tão poderoso quanto o é nos dias de hoje, sendo em simultâneo tão pouco percecionado. Na minha carreira como jornalista e cineasta, nunca como hoje alguma vez eu vi a propaganda ser tão persuasiva e tão influente nas nossas vidas, sem que tal seja questionado.

Imagine duas cidades. Ambas estão cercadas pelas forças militares do governo desse país. Ambas as cidades estão ocupadas por fanáticos, que cometem atrocidades terríveis, tal como a decapitação de pessoas. Mas existe uma diferença fundamental. Num dos cercos, os soldados do governo são descritos como libertadores por repórteres ocidentais, conluiados com eles, que entusiasticamente relatam as suas batalhas e os seus ataques aéreos. Há logo imagens de primeira página nos jornais desses heróicos soldados que erguem os dedos em V, em sinal vitória. Há pouca menção de baixas civis.

Na segunda cidade – noutro país vizinho – acontece quase exactamente o mesmo. As forças do governo estão sitiando uma cidade controlada pela mesma raça de fanáticos. A diferença é que esses fanáticos são apoiados e armados por “nós” – pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Além disso, ainda têm um centro de propaganda que é financiado pela Grã-Bretanha e América. Outra diferença é que os soldados do governo que cercam esta cidade são os “maus”, condenados por agredir e bombardear a cidade – que é exatamente o que os “bons” soldados fazem na primeira cidade.

Confuso? Na verdade não. Isto é apenas um caso exemplar do duplo padrão básico que é a essência da propaganda. Refiro-me, naturalmente, ao cerco atual da cidade de Mosul pelas forças do governo do Iraque, que são apoiadas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha e ao cerco de Aleppo pelas forças do governo da Síria, apoiadas pela Rússia. Um é o bom; o outro é o ruim.

O que raramente é dito é que ambas as cidades não teriam sido ocupadas por fanáticos e devastadas pela guerra se a Grã-Bretanha e os Estados Unidos não tivessem invadido o Iraque em 2003. Essa operação criminosa foi lançada com base em mentiras semelhantes em tudo à propaganda que agora distorce a nossa compreensão da guerra civil na Síria. Sem essa propaganda estrondosa, apresentada como sendo notícias, o monstruoso ISIS, a Al-Qaida, a al-Nusra e os restantes gangues jihadistas não existiriam, e o povo da Síria não teria que lutar hoje para defender as suas vidas.

Convém que nos lembremos, como em 2003, uma sucessão de repórteres da BBC se voltaram para a câmera e nos disseram que Blair estaria “justificado” naquilo que acabou por ser o crime do século. As redes de televisão norte-americanas produziram a mesma justificação para George W. Bush. A Fox News recorreu a Henry Kissinger para espalhar as invenções de Colin Powell. No mesmo ano, logo após a invasão, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, um conceituado jornalista americano de investigação. Perguntei-lhe: “O que teria acontecido se os meios de comunicação mais livres do mundo tivessem questionado seriamente o que acabou por se provar não passar de propaganda bruta?”

Ao que ele respondeu que se os jornalistas tivessem feito seu trabalho, “há uma grande probabilidade, enorme mesmo, de que não teria havido guerra no Iraque”.

Foi uma declaração chocante, corroborada por outros jornalistas famosos a quem eu coloquei a mesma pergunta – Dan Rather da CBS, David Rose do Observer e jornalistas e produtores da BBC, que preferiram o anonimato. Isto é, se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho, se tivessem questionado e investigado a propaganda ao invés de a amplificar, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivas ainda hoje, e não haveria ISIS nem cerco a Aleppo ou a Mossul. Não teria havido nenhum atentado no metro de Londres em 7 de julho de 2005. Não teria havido nenhum exodo de milhões de refugiados; não existiriam acampamentos miseráveis incapazes de os receber.

Quando o atentado terrorista aconteceu em Paris em novembro passado, o presidente François Hollande enviou imediatamente aviões para bombardear a Síria – e mais terrorismo se seguiu, provavelemente, consequência das frases bombásticas de Hollande, a França está “em guerra”, e “não mostrará nenhuma clemência”. Que a violência estatal e a violência jihadista se alimentam uma da outra é uma verdade que nenhum líder nacional tem a coragem de dizer.

“Quando a verdade é substituída pelo silêncio”, disse o dissidente soviético Yevtushenko, “o silêncio é uma mentira.”

Os ataques ao Iraque, à Líbia e à Síria aconteceram porque o líder de cada um desses países não era um fantoche do Ocidente. O cadastro de desrespeito aos direitos humanos de um Saddam ou de um Gaddafi sempre foram irrelevantes. Eles, simplesmente não obedeceram às ordens de entregar o controlo do seu país.

O mesmo destino teve Slobodan Milosevic porque se recusou a assinar um “acordo” que exigia a ocupação da Sérvia e a sua conversão numa economia de mercado. O povo sérvio foi bombardeado, e Milosevic foi julgado pelo Tribunal de Haia. A independência deste género é considerada intolerável. Como o WikiLeaks revelou, foi apenas quando o líder sírio, Bashar al-Assad, em 2009, rejeitou que um oleoduto atravessasse o seu país, do Qatar para a Europa, que ele passou a ser acossado pelo Ocidente.

A partir desse momento, a CIA planeou destruir o governo da Síria recorrendo a fanáticos jihadistas – os mesmos fanáticos que actualmente controlam a cidade de Mossul e a zona oriental de Aleppo. Porque é que isto não é notícia? O ex-funcionário da chancelaria britânica Carne Ross, que era responsável pela imposição de sanções ao Iraque, disse-me em tempos: “Nós alimentamos os jornalistas com factos triviais de higienizada inteligência, ou congelamo-los. É assim que funciona.”

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O cliente medieval do Ocidente, a Arábia Saudita – a quem os EUA e a Grã-Bretanha vendem milhões de dólares de armamento – está atualmente a destruir o Iêmen, um país tão pobre onde, na época do seu maior desenvolvimento, metade das crianças eram subnutridas. Procure no YouTube e poderá ver o tipo de bombas pesadas – as “nossas” bombas -, que os sauditas estão a usar contra aldeias pobres e sujas, e contra casamentos e funerais. As explosões são semelhantes a pequenas bombas atómicas. Os lançadores das bombas da Arábia Saudita trabalham lado a lado com oficiais britânicos. Este fato nunca é referido nos noticiários da noite.

A propaganda é mais eficaz quando a nossa aquiescência é construída por aqueles que são portadores de uma boa educação – Oxford, Cambridge, Harvard, Columbia – e com carreiras na BBC, no Guardian, no New York Times, no Washington Post. Estes organismos são conhecidos como os media liberais. Eles apresentam-se como tribunas iluminadas, progressistas do zeitgeist moral. Eles são anti-racistas, pró-feministas e pró-LGBT.

E eles amam a guerra.

Enquanto falam para o feminismo, eles apoiam as guerras de rapina que negam os direitos das inúmeras mulheres, incluindo o direito à vida. Em 2011, a Líbia, na altura um estado moderno, foi destruída com o pretexto de que Muammar Gaddafi estava prestes a cometer genocídio contra seu próprio povo. Essa foi a notícia incessante; mas não houve nenhuma evidência, e o fato nunca se provou. Era uma mentira.

Na verdade, a Grã-Bretanha, a Europa e os Estados Unidos queriam aquilo que eles gostam de designar por “mudança de regime” na Líbia, o maior produtor de petróleo da África. A influência de Gaddafi no continente e, acima de tudo, a sua independência eram intoleráveis. Assim, ele foi assassinado com uma facada nas costas por fanáticos, apoiados pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Hillary Clinton aplaudiu a sua morte horrível dizendo para as câmeras: “Nós viemos, nós vimos, ele morreu!”

A destruição da Líbia foi um triunfo dos media. À medida que os tambores de guerra iam rufando, Jonathan Freedland escrevia no Guardian: “Embora os riscos sejam muito reais, a opção para uma intervenção continua a ser forte”. Intervenção – eis uma educada e benigna palavra do Guardian, cujo significado real, para a Líbia, era a morte e a destruição.

De acordo com os seus próprios registos, a NATO lançou 9 700 “surtidas de ataque” contra a Líbia, das quais mais de um terço foram destinadas a alvos civis. Nesses ataques foram usados mísseis com ogivas de urânio. É ver as fotografias dos escombros de Misurata e Sirte, e as valas comuns identificadas pela Cruz Vermelha. O relatório da UNICEF sobre as crianças mortas diz, “a maioria delas com idade inferior a dez anos”. Como consequência directa, Sirte tornou-se a capital do ISIS.

A Ucrânia é outra vitória dos media. Jornais liberais respeitáveis, como o New York Times, o Washington Post e The Guardian, e as emissoras tradicionais, como a BBC, NBC, CBS, CNN têm desempenhado um papel fundamental no condicionamento dos telespectadores para aceitar uma nova e perigosa guerra fria. Todos têm deturpado acontecimentos na Ucrânia como sendo uma ação maligna perpetrada pela Rússia quando, na verdade, o golpe na Ucrânia em 2014 foi orquestrado pelos Estados Unidos, ajudados pela Alemanha e pela NATO.

Esta inversão da realidade é tão difundida que a intimidação militar de Washington à Rússia não é novidade; é escondida por detrás de uma campanha de difamação e susto do tipo daquela em que eu cresci durante a primeira guerra fria. Mais uma vez, os Ruskies virão buscar-nos, liderados por outro Estaline, a quem The Economist descreve como o diabo.

A mistificação da verdade sobre a Ucrânia é um dos apagões de noticiosos mais completos de que há memória. Os fascistas que projetaram o golpe em Kiev são a mesma raça que apoiou a invasão nazi da União Soviética em 1941. De todos os alarmes sobre a ascensão do fascismo, do antissemitismo na Europa, não há nenhum líder ocidental que mencione os fascistas na Ucrânia – exceto Vladimir Putin, mas ele não conta.

Muito se tem trabalhado arduamente nos media ocidentais para apresentar a população étnica de língua russa da Ucrânia como estrangeiros no seu próprio país, como agentes de Moscovo, quase nunca como ucranianos que procuram uma federação dentro Ucrânia e como cidadãos ucranianos a resistir a um golpe orquestrado por estrangeiros contra o governo eleito do seu país.

Há quase como que um joie d’esprit de uma reunião de turma de belicistas. Os tocadores de tambores que incitam no Washington Post à guerra com a Rússia são os mesmos editorialistas que publicaram a mentira monumental que propalava que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça.

Para a maioria de nós, a campanha presidencial norte-americana é um espetáculo mediático horroroso, em que Donald Trump é o vilão. Mas Trump é odiado por aqueles que têm poder nos Estados Unidos por razões que pouco têm a ver com o seu comportamento e com as opiniões detestáveis. Para o governo invisível, em Washington, o Trump imprevisível é um obstáculo para o projeto da América para o século 21.

Isso é, para manter o domínio dos Estados Unidos e para subjugar a Rússia, e, se possível, a China.

Para os belicistas em Washington, o real problema com Trump é que, nos seus momentos de lucidez, ele parece não querer uma guerra com a Rússia; ele quer falar com o presidente russo, não lutar com ele; diz também que quer falar com o presidente da China. No primeiro debate com Hillary Clinton, Trump prometeu não ser o primeiro a recorrer a armas nucleares em caso de conflito. Ele disse: “Eu, certamente não faria o primeiro ataque. A alternativa nuclear, a acontecer, acabou tudo”. Isto não foi novidade.

Mas será que ele realmente quis dizer o que disse? Quem sabe? Ele contradiz-se frequentemente. Mas o que é claro, é que Trump é considerado uma séria ameaça ao status quo mantido pela vasta máquina de segurança nacional que controla os Estados Unidos, independentemente de quem estiver na Casa Branca. A CIA quer que ele seja derrotado. O Pentágono quer que ele seja derrotado. Os media querem que ele seja derrotado. Mesmo o seu próprio partido quer que ele seja derrotado. Ele é uma ameaça para os planos dos senhores do mundo – ao contrário de Clinton, que não deixou nenhuma dúvida de que está preparada para recorrer a armas nucleares numa guerra contra a Rússia e contra a China.

Clinton tem o perfil necessário, do qual muitas vezes se gaba. Na verdade, o seu currículo assim o comprova. Como senadora, ela apoiou o banho de sangue no Iraque. Quando concorreu contra Obama em 2008, ela ameaçou “aniquilar totalmente” o Irão. Como secretária de Estado, foi conivente com a destruição de governos na Líbia e nas Honduras e pôs em marcha um processo de enfrentamento com a China. Ela também já se comprometeu a apoiar um No Fly Zone na Síria – uma provocação direta para desencadear uma guerra com a Rússia. Clinton pode, de facto, tornar-se o presidente mais perigoso dos Estados Unidos durante a minha vida – ainda que para obter tal galardão defronte concorrentes ferozes.

Sem qualquer sombra de evidência, ela acusou a Rússia de apoiar Trump e de hacking dos seus emails. Divulgados pelo WikiLeaks, esses emails mostram-nos que o que Clinton diz em privado, em discursos para os ricos e poderosos, é o oposto do que ela diz em público. É por isso que silenciar e ameaçar Julian Assange é tão importante. Como editor do WikiLeaks, Assange sabe a verdade. E posso assegurar àqueles que estão preocupados com Assange, que ele está bem, e que o WikiLeaks está a trabalhar a todo o gás.

Hoje, a maior concentração de tropas, lideradas pelos americanos, desde a Segunda Guerra Mundial está em curso – no Cáucaso e na Europa Oriental, na fronteira com a Rússia, na Ásia e no Pacífico, onde a China é o alvo. Tenha isso em mente quando o circo das eleições presidenciais chegar ao fim em 8 de novembro, Se o vencedor for Clinton, um coro grego de comentadores tolos vai comemorar a sua coroação como um grande passo em frente para as mulheres. Nenhum vai mencionar as vítimas de Clinton: as mulheres da Síria, as mulheres do Iraque, as mulheres da Líbia. Ninguém vai mencionar os exercícios de defesa civil que estão a ser realizados na Rússia. Ninguém se vai lembrar das “tochas da liberdade” de Edward Bernays.

O porta-voz de imprensa de George Bush chamou uma vez aos media “facilitadores cúmplices”.

Vindo de um alto funcionário duma administração cujas mentiras, permitidas pelos media, causaram tanto sofrimento, essa afirmação é um aviso da história.

Em 1946, o promotor do Tribunal de Nuremberga disse dos media alemães: “Antes de cada grande agressão, eles iniciaram uma campanha de imprensa pensada para enfraquecer as suas vítimas e para preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque. No sistema de propaganda, a imprensa diária e a rádio foram as armas mais importantes “.


(Este texto é uma adaptação de uma comunicação para o Festival das palavras de Sheffield, Sheffield, Inglaterra.)


O original pode ser lido aqui

Os debates Trump-Hillary Clinton

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 14/10/2016)

Autor

                Pacheco Pereira

Foram duas noites sem dormir, mas valeu a pena, porque se aprende mais sobre o estado actual da política americana vendo o confronto sem ambiguidades de um populista ignorante, e soez, com um sofisticado produto de Washington. Ambos trazem para a ribalta o pior da vida política americana, que já lá estava e sempre lá esteve, mas que nunca tinha tido a projecção para o topo das eleições presidenciais, envolvendo os dois maiores partidos. Até agora tinha ficado sempre ao nível da política local e estadual, onde personalidades como Trump apareceram ocasionalmente, ascenderam como um foguete e depois caíram fragorosamente, às vezes à bala, num país em que o assassinato político é mais frequente do que se pensa.

Trump é uma personagem execrável, pessoal e politicamente, que é já um perigo público para os EUA e para o mundo. As últimas gravações boçais sobre as mulheres, entre uma exibição do poder de quem acha que porque tem dinheiro pode fazer o que quiser e se comporta como um predador, e a mais total grosseria, na verdade, não surpreenderam ninguém. Mas suscitaram um festival de hipocrisia como há muito tempo não se via na política americana. As televisões americanas, que são púdicas ao ponto de criarem um caso quando se viu um mamilo de uma cantora, passam e repetem ad nauseam as frases grosseiras de Trump na abertura dos noticiários seguidas de comentários jornalísticos e declarações de repúdio moralistas dos republicanos. É, no seu excesso e na sua hipocrisia, política “à Saraiva”, e como eu não gosto do moralismo da fechadura da porta, também me desagrada esse festival de hipocrisia. Trump podia até ser um excelente candidato ao lugar, que não é, e ter feito aquelas declarações ofensivas que qualquer homem sabe que são aliás muito comuns nas conversas entre homens, que são quase por regra muito grosseiros e ofensivos face às mulheres. O que não são é gravadas, nem eles são candidatos presidenciais. Não se justificam, podiam ser citadas sem ser obsessivamente repetidas, e podiam poupar-nos o moralismo.

Ora Trump, um bruto, chega ao debate com Hillary Clinton, queira-se ou não como the real thing, o produto genuíno, e ela como um sumo produto da hipocrisia política, que não se explica sobre os emails, que não reconhece os erros clamorosos da política externa americana na Líbia e na Síria, que anda de braço dado com Wall Street, e que conhece todos os meandros e truques da política do círculo de confiança que frequenta há 30 anos.

Ela é infinitamente mais preparada do que ele, ele mente e calunia, sem se preocupar com provas, distribui caneladas por todo o lado. É muito parecido com as personagens que habitam os comentários na Internet, mas ela é falsa até à medula. Em momentos de crise, é ele que marca todo o terreno à sua volta, e ela não suscita simpatia nem numa pedra da calçada. Ele enfurece-nos a todos com a sua grosseria, mas ela é “mais do mesmo” numa altura em que as pessoas já estão mais que fartas do mesmo. Espero que Clinton ganhe, mas ela merece o Trump. Nós é que não.

Coisas boas e raras
O sucesso da candidatura de Guterres a secretário-geral da ONU pode ter tido muita gente a trabalhar por ela: diplomacia, órgãos de soberania, partidos políticos. Mas foi acima de tudo uma vitória pessoal de António Guterres, que, contra tudo e contra todos, mostrando a capacidade indiscutível para o cargo, impondo-se nas audições, conseguiu transformar as oportunidades contra ele em vantagens. Pouca vezes nas últimas décadas vi um português, um candidato a um lugar internacional, conquistar a pulso uma função que estava destinada a outros, por exclusivo mérito próprio. A geopolítica não estava com ele, mas ele torneou-a com habilidade. Os critérios do politicamente correcto desejavam uma mulher e ele era homem. Um grupo de países e de partidos, o caso da Alemanha e do PPE, eram-lhe hostis. Mas quer o PSD, quer o CDS, não hesitaram nesta matéria em apoiar Guterres, como o fizeram todos os partidos, a Assembleia e o Presidente.

Há duas pessoas que muito critiquei enquanto exerciam funções políticas activas. Uma, foi o general Eanes no processo que levou ao PRD, e continuo a pensar desse processo o mesmo que pensei na altura, que foi uma das últimas tentativas de travar a normalização da democracia representativa, que só verdadeiramente terminou com a vitória de Mário Soares nas “primárias da esquerda” de 1985-86. Mas hoje reconheço ao general Eanes uma dignidade pessoal no modo como procedeu e procede depois de abandonar a Presidência, tornando-se um dos raros exemplos públicos da honorabilidade pessoal e severidade ascética no exercício de altos cargos políticos. Outro foi Guterres, que sempre considerei um mau primeiro-ministro, tendo perdido a última oportunidade de fazer reformas estruturais num período de relativa abundância. Mas Guterres encontrou na sua actuação internacional um caso de excepcional adequação entre as suas qualidades e o exercício das funções que tinha face aos refugiados. “Revelou-se” nessas funções, como antes nunca se tinha “revelado” na política portuguesa. Merece por isso mesmo

EUA: alguma coisa está fora da ordem

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 12/02/2016)

Autor

                                Daniel Oliveira

Apesar de ter aderido ao Partido Democrata apenas em 2015, depois de uma longa e bem sucedida carreira política como independente (mayor da maior cidade de Vermont, congressista mais vezes eleito como independente e senador reeleito com 71% dos votos), Bernie Sanders representa uma tradição progressista e social-democrata que faz parte da tradição do Partido Democrata. Ela funda-se no legado deixado pelos socialistas que, à volta do pragmático e nada radical Roosevelt, arquitetaram o New Deal. Na luta contra a brutal desigualdade na distribuição de rendimento, pelo serviço público de saúde, pelos direitos das minorias e uma política ambiental responsável, Sanders nada tem de excêntrico para os democratas. Representa uma parte da sua história. A parte mais compreensível para a esquerda europeia, aliás.

Não há nada que Sanders diga que possa ser chocante para uma pessoa normal, mesmo que dele discorde. Apesar de ter chegado a ser da Liga Socialista dos Jovens, não defende a nacionalização da economia ou a coletivização das terras. Sendo um homem bastante à esquerda para a cultura norte-americana (mas não tanto para os europeus), as suas posições estão dentro do que é comummente aceite em democracias capitalistas.

Apesar de ser um dos homens mais velhos a concorrer a um primeiro mandato como Presidente, Sanders tem crescido contra Hillary Clinton por via de um forte apoio e entusiasmo dos mais jovens. Isto não resulta de um protesto antissistémico. Resulta de uma reação, na minha opinião bastante saudável, a um aprisionamento do Estado e da política a interesses do poder financeiro. Um aprisionamento que Hillary representa na perfeição, tanto ou mais do que vários candidatos republicanos.

O fanatismo religioso, as posições sobre imigração, a oposição a sistemas públicos de saúde e até a ignorância científica de Ted Cruz ainda podem ser integráveis na tradição republicana. Sobretudo no percurso que o Partido Republicano teve nas últimas décadas, que o afasta da direita europeia e o aproxima de qualquer coisa que teria pouco espaço em democracias laicas e ocidentais. Ted Cruz é apenas a continuação da decadência política dos republicanos, na qual o Tea Party e a Fox News tiveram apenas um papel fundamental. Já Donald Trump, o principal candidato à nomeação, é um pouco mais do que isso: as suas posições e, mais do que elas, a forma lunática como as apresenta transformam o Partido Republicano, perante o favoritismo que recolhe, numa espécie de circo grotesco. Basta dizer isso: goste-se ou não, concorde-se ou não, todos conseguimos imaginar Bernie Sanders (que não é o favorito na corrida democrata) como um Presidente que não envergonharia o seu país no exterior. Pelo contrário, Donald Trump tornaria os Estados Unidos numa anedota internacional. Uma anedota perigosa.

Aquilo em que se transformou o Partido Republicano tem raízes numa América profunda, ignorante e ultraconservadora. Se essa América prevalecesse, o país deixaria seguramente de ter a hegemonia cultural e política de que hoje beneficia. O poder dos EUA no mundo tem limites na sua resiliência à estupidez política.

Tudo isto é bastante evidente para a maioria dos norte-americanos. Segundo todas as sondagens que conheço, tanto Hillary como Sanders vencem com facilidade Donald Trump. Na última que vi (NBC/Wall Street Journal), Bernie tinha 54% e Trump 39%. A curiosidade é esta: as sondagens dizem que Sanders está mais bem colocado para enfrentar qualquer candidato republicano do que Clinton. O candidato “socialista” parece conseguir entrar mais facilmente no eleitorado do centro do que Hillary. Das últimas sondagens que vi, Clinton perderia com Ted Cruz e Marco Rubio. Já Bernie Sanders só perderia com o republicano mais moderado (Rubio) e venceria Cruz. Mesmo contra Trump, a média das sondagens dá Bernie a vencer com mais 8% enquanto Clinton apenas consegue uma vantagem de 4%.

Arriscaria atribuir esta vantagem ao facto da imagem da candidata avençada pelos interesses financeiros, que tem ganho rios de dinheiro com palestras em Wall Street ou junto da indústria farmacêutica, ser olhada com muito mais desconfiança pelo eleitor comum (que obviamente tem muita dificuldade em votar em Trump) do que um homem que, mesmo sendo estranho à cultura política mainstream norte-americana, é tido como íntegro e independente de interesses privados. Essa independência mede-se com este dado, que não consegui confirmar em fonte oficial: Sanders recebeu, para a sua campanha, 10 milhões de dólares de pequenos dadores e 3,3 de grandes. Já Hillary Clinton recebeu 8 milhões de pequenos e 39 dos grandes.

Estas são as mais estranhas eleições primárias de que me lembro de ver nos EUA. Dos dois candidatos do mainstream, Marco Rubio parece estar fora da corrida e Hillary Clinton demonstra crescentes dificuldades em vencer sem problemas. No Partido Democrata, uma cultura socializante e de protesto parece crescer no eleitorado jovem, cansado de escolher Presidentes que se declaram, à primeira contrariedade, impotentes perante os poderes financeiros e económicos. Se é verdade que Barack Obama teve importantes vitórias no que toca ao sistema de saúde e à situação económica, foi incapaz de disciplinar Wall Streat. Há um eleitorado mais jovem que quer mais e escolheu um homem com mais de 70 anos e uma agenda tradicional da esquerda socialista para o representar. O Partido Republicano transformou-se num espaço de populismo político, representante de uma América distante do mundo e medrosa. Parece hoje ser impossível ambicionar representar a direita norte-americana sem ter de representar uma tacanhez quase medieval, impensável em democracias ocidentais em pleno século XXI.

A degradação da imagem do mainstream Democrata e a transformação do Partido Republicano num “freak show” de televangelistas, milionários excêntricos e ultraconservadores semianalfabetos pode conduzir os EUA a um enorme sobressalto político. Um de dois, na realidade: ou ainda teremos saudades de George Bush, de tal forma o seu sucessor republicano na Casa Branca ultrapassará os limites da sanidade política; ou, perante a incapacidade dos democratas tradicionais confrontarem os poderes financeiros e a ausência de uma alternativa aceitável dos Republicanos, os EUA terão um presidente socialista, muito distante do que é o consenso social do país.

Uma e outra situação não resultariam de uma fratura insanável na vida política americana, com campos radicalizados e incapazes de dialogar entre si. Resultariam do descrédito do centro político. Na realidade, a mesmíssima coisa está a acontecer na Europa. Sobra, para quem tenha medo desta mudança, a capacidade de Washington transformar todas as esperanças nos negócios do costume. Ao cansaço dos eleitores, o sistema poderia responder com almofadas soporíferas que tornam quase impossíveis todas as mudanças que não sejam interessantes para quem manda. Mas será apenas mais um adiamento. As coisas estão mesmo a mudar nas democracias ocidentais.