Atenção! Eu quero que a doutora Peralta vá chamar ‘corrupto’ a outro, que não eu, lá porque decidiu confessar, publicamente, que também ela é ‘corrupta’ (risos)!
Sinceramente, não compreendo a razão porque só agora, com o ‘caso’ de José Sócrates, ex-chefe de um Governo PS, é que se escrevem textos tão lancinantes sobre a corrupção, mas não na altura – não direi dos famosos ‘jipes agrícolas’ do ‘cavaquismo’ (risos) – mas na altura em que saltaram à nossa vista os ‘casos’ de corrupção (ou ‘suspeitas’ dela) bem mais graves, como os dos bancos BCP, BPN, BES, BPP, BANIF, ou os dos célebres submarinos para a Armada Portuguesa, dos sobreiros abatidos em nome do turismo, das famosas pequenas quantias depositadas tantas vezes por um tal Jacinto Leite Capelo Rego, da ‘Tecnoforma’ e outras grandes vigarices cujas suspeitas recaíam todas, mas mesmo todas, sobre malta do PPD-PSD e malta do CDS-PP, que acabou por se ‘safar’, bem ‘safada’, quando tudo parecia ser ‘a da Joana’ (risos), essa santa milagreira que terá posto a Justiça lusitana na ordem…
Mas que raio de bicho é que mordeu a doutora Peralta, a Dr.ª Ana Gomes, o Dr. Fernando Medina e outras doutoras e doutores que se puseram a gastar tinta e latim a ferrar o dente no juiz Ivo Rosa (o seu colega Carlos Alexandre é que é um ‘herói’!) e no Eng.º José Sócrates, ignorando supinamente os autênticos baldes de lixo, de porcaria e etc., cujas suspeitas recaíam todas sobre ‘gajos’ e ‘gajas’ da direita?
Na lógica desta bizarra doutora Suzana Peralta, “Portugal é corrupto”, logo: todas e todos os ‘tugas’ são corruptos, logo: todo o mundo é corrupto dado que Portugal pertence ao mundo, além de ter dado ‘novos mundos ao mundo’ (não se esqueçam!)…
Eu me espanto, me surpreendo, me engalfinho, me torço todo de riso…
Não tenho qualquer animosidade especial em relação ao PS, partido de que fui um dos fundadores, em 1973, no qual militei, até à marginalização absoluta, durante 42 anos, e do qual me desfiliei em 2015. As minhas divergências começaram com António Guterres, decidido a copiar o estilo “Terceira Via” – na realidade o estilo neoliberal – de Tony Blair, aliado do perigoso idiota Bush filho, presidente dos EUA, na criminosa invasão do Iraque que pôs o Médio Oriente em polvorosa, como hoje bem podemos constatar.
A “neoliberalização ideológica” do PS e da maioria dos partidos da Internacional Socialista foi assim como que uma espécie de suicídio colectivo que deu cabo das melhores intenções de alguns líderes políticos aparentemente de esquerda, que acabaram por pôr em prática políticas contrárias aos interesses das classes populares e de boa parte das classes médias, “proletarizando-as”.
E foi então que comecei a bater-me pela necessidade dos partidos de esquerda – PS, BE e PCP-PEV – manifestarem a vontade de estabelecer uma plataforma mínima comum capaz de viabilizar Governos sustentados à esquerda, rompendo com a tradição, nefasta para o PS e para o País, deste partido governar ao centro, em alternância ou em conivência com o PPD-PSD e, inclusive, com o CDS-PP, integrando assim o famoso “arco de governação” tão caro a Paulo Portas.
Ora bem, António Costa teve a coragem de romper com esse ridículo “arco”, afastando-se do PPD-PSD e estabelecendo com o BE e o PCP-PEV a tal “plataforma mínima comum” capaz de viabilizar um Governo que durou uma Legislatura.
É por estas e outras razões que me preocupa a possibilidade do PS vir a obter uma maioria absoluta e derivar para a direita. Sobretudo depois de ouvir o ministro das Finanças, Mário Centeno, defender a maioria absoluta, dizendo que com ela seria muito mais fácil “governar” – ou seja, presumo eu, seria muito mais fácil fazer “cativações” que distorcem e retorcem os Orçamentos de Estado em prejuízo da qualidade dos serviços públicos e do investimento público, tão necessários ao País.
Passei tantos anos da minha vida política – sem quaisquer ambições pessoais e sendo até prejudicado por isso – a defender a constituição e viabilização de Governos sustentados à esquerda, que não há-de ser agora que desistirei de os defender. Creio que terão sido muito poucos os comentadores e cronistas políticos que defenderam tão aberta e afincadamente este Governo do PS e o seu primeiro-ministro, António Costa.
Todavia, preocupa-me a perspectiva de o PS alcançar maioria absoluta e, por isso mesmo, vou votar no sentido de tentar evita-la. Há pessoas que andam na vida política, não para conquistar cargos políticos e garantir carreiras auspiciosas, mas sim para serem fiéis às suas ideias e ideais políticos e sociais. É esse o meu caso.
E sei de gente vária, até de amigos meus, que não conseguem compreender tal atitude. Paciência. Estou de bem comigo próprio, e posso dizer, sem jactância, que saí da vida política activa mais pobre do que para lá entrei, logo após o 25 de Abril de 1974. Em todo o caso, acho que chegou o tempo de deixar a minha actividade de cronista político – desde há vários anos a escrever quase sempre “de borla” – para me dedicar um pouco mais a mim próprio, nos poucos anos que ainda me restam. Estou algo pessimista em relação ao futuro, mas espero que o futuro me desminta e que tudo corra pelo melhor no melhor dos mundos possíveis, como diria o professor Pangloss…
1. EFEMÉRIDE – Espanta-me como criaturas completamente imbecis da direita mais reaccionária, intelectualmente desonestas e hipócritas, ignoram tão facilmente uma enorme porção de escândalos – como os do BCP, do BPN, do BPP, do BES, do BANIF, da Tecnoforma, do ‘canudo universitário’ do falso doutor Miguel Relvas, da herdade dos sobreiros, da compra dos submarinos, dos ‘Vistos Gold’, dos pequenos depósitos bancários feitos por um tal Jacinto Leite Capelo Rego que somaram um milhão de euros, e tantos outros pequenos, médios e grandes escândalos de corrupção em que estiveram mergulhados até ao pescoço vários políticos ‘graúdos’ do PPD-PSD e do CDS-PP – e como hoje em dia tais imbecis se atrevem a dizer que “estes agora são bem piores, escândalos atrás de escândalo, o ps no seu melhor” (sic), sem todavia nos dizerem que escândalos são esses. A hipocrisia, o fanatismo e o facciosismo são, de facto, características dominantes desses e dessas imbecis irresponsáveis da direita que surgem no ‘facebook’ a odiar, a insultar e a acusar sem provas.
O ódio vigilante dos medíocres não dá tréguas. Ainda há poucos dias, a evocação de um facto político ocorrido há mais de 30 anos – ilustrado por uma foto da varanda da sede, na praça do Saldanha, da primeira candidatura vitoriosa de Mário Soares a Presidente da República, na noite de 16 de Fevereiro de 1986 – foi para mim uma grata recordação, mas também foi, para alguns imbecis ignaros, mais um pretexto para manifestarem a sua ignorância e o seu ódio sempre vigilante.
Comentei essa foto, publicada no dia 16 de Fevereiro por uma ‘amiga de facebook’, explicando que, nesse momento, preferi resguardar-me atrás da janela e não quis chegar-me à frente, sobretudo quando vi alguns ‘paraquedistas’ e ‘apoiantes de última hora’ disputarem como doidos um lugar à frente na varanda. Mas foi, de facto, uma noite memorável. Lembro-me de ter estado, horas antes, com o meu primo-irmão Mário Barroso em casa do ainda candidato – com ele e a nossa tia Maria Barroso – à espera que chegasse a confirmação da vitória, por uma ‘unha negra’ – ainda mais saborosa por isso mesmo – ao cabo duma inesquecível eleição presidencial a duas voltas. Eu tinha 41 anos e o novo Presidente 61.
Dias depois, quando ferviam notícias nos jornais sobre quem é que Mário Soares iria escolher para Chefe da sua Casa Civil – e choviam nomes de gente famosa, todos eles sem acertarem no alvo – o Presidente eleito chamou-me ao seu gabinete, na sede de campanha, que era ao lado do meu gabinete, e perguntou-me se eu aceitava ser o Chefe da sua Casa Civil. Ninguém acreditará mas é mesmo verdade que não estava à espera, e nem sequer essa possibilidade me passara pela cabeça. Mas aceitei, com muita honra. E lá fomos os dois para o Palácio de Belém, e lá ficámos durante dez anos. Saí de lá com 51 anos e Mário Soares com 71. Mas, depois desses dez anos deveras interessantes, e não só do ponto de vista político, decidi dar por terminada a minha vida política activa, não regressando sequer à militância partidária. Ainda fiz uma ‘perninha’, de que muito me arrependi, como administrador da Fundação de São Carlos, convidado pelo ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho…
2. ÓDIO VELHO – Eis senão quando, de volta ao ‘facebook’, leio o comentário duma Fulana, de rara singeleza: “Lembro-me bem de essas eleições, foi nessas eleições que Cunhal mandou os comunistas fecharem os olhos e votarem Soares” (sic). Depois leio com perplexidade o que escreveu Beltrano: “Quanto mais teria sido feito se Freitas do Amaral tivesse sido eleito? Provavelmente muito” (sic). E logo a seguir leio o que escreveu um Sicrano afogado em ignorância: “E assim se prosseguiu no descontrolo das contas públicas, e a dívida a crescer” (sic). “Sancta simplicitas”!
Note-se que omiti os nomes verdadeiros, para não os humilhar. Mas não lhes vou poupar os factos reveladores de tamanha ignorância. O erro de Fulana nem é grave: o que Álvaro Cunhal disse aos comunistas foi que tapassem a foto de Mário Soares no boletim de voto mas não se enganassem e pusessem a ‘cruzinha’ à frente dela. Se fechassem os olhos, não conseguiriam votar. Quanto à fantasia de Beltrano, deu-lhe, coitado, para sonhar com o seu pequeno ‘paraíso perdido’, já habitado por Cavaco e ainda à espera de Freitas. Havia de ser lindo! Já se sabe que, se não tivesse havido o ‘25 de Abril’, também não teria havido liberdade e democracia! E Beltrano e amigos reaccionários, em vez de Freitas e Cavaco, teriam tido Tomás e Caetano…
Já Sicrano, perfeito imbecil que representa uma irritante e ignara estupidez, merece que exponha a sua ignorância. De facto, à luz da Constituição, só o Governo detém o poder executivo – e legislativo, administrativo, económico e financeiro – sendo dele a responsabilidade de gerir bem as contas públicas e, obviamente, a possibilidade de as ‘descontrolar’. Mais: quando Soares foi eleito, em Fevereiro de 1986, o Presidente da República nem sequer tinha ‘autonomia financeira’ relativamente ao seu próprio orçamento, que era estabelecido, exclusivamente, pelo Governo. E esta verdadeira aberração jurídica e constitucional só seria corrigida dez anos depois, já durante o primeiro mandato do Presidente Jorge Sampaio. Falo por experiência própria: fui o Chefe da Casa Civil do PR Mário Soares, durante os seus dois mandatos.
3. IGNORÂNCIA – Ao ler a crítica que lhe fiz, Sicrano, caso perdido, escreveu este mimo: “O ‘socialismo’, sr. Alfredo, essa marca que 4 décadas passadas tanto tem contribuído para uns tantos. E qual é o nosso lugar, como país, cada vez mais na cauda da Europa? Endividados como nunca…” (sic). Sicrano é ‘poucochinho’, nocivo e ignaro. Convirá, por isso, lembrar factos históricos indesmentíveis.
Desde logo, deverá ser recordado que um dos grandes ‘descontrolos’ das finanças públicas se ficou a dever aos três Governos da Aliança Democrática (AD), entre 1979 e 1983, designadamente: a perda de competitividade da economia; o agravamento brutal do défice externo; enorme endividamento em dólares das empresas públicas; e recusa de financiamento por parte do sistema financeiro internacional, face a um défice externo recorde. Pois bem, foi ao Governo do ‘Bloco Central’ (PS-PPD/PSD), chefiado por Mário Soares, entre 13 de Junho de 1983 e 6 de Novembro de 1985 (já que Cavaco rompeu a coligação mal foi eleito presidente do PPD-PSD), que o país ficou a dever: a recuperação da competitividade da economia; o controlo das contas públicas; o excedente da balança de transacções correntes; a eliminação do défice externo; a restauração da credibilidade de país face às instituições internacionais; a abertura do processo de reprivatização de importantes sectores da economia que tinham sido erradamente nacionalizados; a integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE, hoje União Europeia); a abertura ao mercado espanhol e as transferências de fundos de Bruxelas, graças à integração europeia.
Convirá, enfim, salientar os graves erros dos Governos de Cavaco. Como escreveu, em 2005, Teodora Cardoso: “Ao contrário da moda recente de criticar a opção pelas infraestruturas, não me parece que esta tenha sido um erro. Erros sim – e graves – foram a incapacidade: de usar eficazmente os fundos de formação profissional; de levar a cabo uma reforma do sistema de ensino que privilegiasse as necessidades da sociedade e da economia; de proceder a um correcto reordenamento do território e a uma reforma do processo orçamental que permitisse a descentralização racional da gestão pública; de criar uma administração pública e parceiros sociais preparados para encaminhar Portugal no sentido que a integração europeia e mundial lhe impunham. Ao contrário do que por vezes se diz, o facto de se construir estradas não impedia que se melhorasse a qualificação dos portugueses. Pelo contrário, face à abundância dos fundos estruturais e ao crescimento rápido da economia e da sua capacidade de financiamento, ambas as opções eram não só possíveis como, até, indispensáveis”. Foram, aliás, as consequências de tais erros – défices excessivos do sector público administrativo; aumento da despesa pública superior a 12 % entre 1990 e 1995; taxa de crescimento muito baixa (0,8 % em vez de 2, 8 %, como ele tinha prometido, entre 1991 e 1994); taxa de desemprego a crescer (superior a 7 % em 1994) – que levaram Cavaco, após o célebre ‘tabu’, a decidir afastar-se, não só da chefia do Governo mas também da liderança do PPD-PSD, passando, pois, a ‘batata quente’ para as mãos de Fernando Nogueira, que lhe sucederia na presidência do PPD-PSD e que viria a ser derrotado pelo PS de António Guterres nas eleições legislativas de 1995. Esta é a verdade dos factos, que nada tem a ver com a colossal ignorância que alimenta o ódio velho de tantos imbecis nas redes sociais!
Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990