O que esconde o caso dos exames

(Miguel Carvalho, in TSF.pt, 20/07/2026)

Public Education Minister speaking at a podium to applauding students and staff in a school lobby
Afinal o Ministro do ensino público, Fernando Alexandre, tem claras ligações ao ensino privado. Imagem gerada por IA.

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A polémica dos exames escolares não decorre apenas do caótico processo de transição digital que destapou uma empresa a tresandar de ligações ao PSD.

Nos bastidores do caos do outsourcing tecnológico o que está em causa é a fragilização do ensino público em benefício dos negócios privados e das lógicas empresariais.

Por este andar, as administrações escolares arriscam-se a ser meras gestoras de novas fornadas de recursos humanos destinadas a servir o apetite de clientes externos.

Fernando Alexandre, ministro da Educação, sabe bem do que falo. Ainda há poucos anos era dirigente e membro do conselho consultivo do Instituto Mais Liberdade, um dos braços estratégicos da poderosa Rede Atlas em Portugal. E o que pretende a Atlas? Simples: estigmatizar a escola pública com a falsa retórica dos custos fiscais, falar das vantagens da liberdade individual contra a alegada doutrinação ideológica do Estado e promover capital humano com mentalidade capitalista para as exigências do mundo laboral.

Como se sabe, esta narrativa é muito praticada no ginásio televisivo por políticos, académicos e comentadores. Alguns deles, nascidos de geração espontânea, adoram encher boca de liberdade, sobretudo quando ela serve o garimpo sem escrúpulos dos recursos públicos. As carreiras docentes podem esperar, as melhorias nos serviços internos do Ministério da Educação também. E lá vamos cantando e rindo.

Este movimento ultraliberal na Educação acabará por corroer ainda mais uma democracia já de si vulnerável e frágil. O individualismo consumista e competitivo, praticado por professores e alunos, está na moda, enquanto educar para os direitos humanos, a justiça social, a igualdade e a inclusão ainda parece ser uma fragilidade.

Sucesso e egoísmo estão a fazer o seu caminho.

Com o tempo, ganhou a intolerância em relação aos que fracassam e o menor compromisso com o bem comum. Satisfeitos com a suposta autossuficiência, não teremos respostas para os pobres nem para os imigrantes, até porque constituem uma ameaça percecionada. Tudo isso poderia e deveria ser o combate deste tempo em casa e na escola. Mas é aí que, para já, estamos a perdê-lo.

Pode ouvir o artigo, lido pelo autor, aqui

APJD denuncia vice-presidente da Cruz Vermelha por apologia a armas nucleares

(In AbrilAbril, 23/07/2026)


(Este sevandija, Marco Serronha, tem um nome em consonância com aquilo que lhe falta: Serronha rima com vergonha. Ele, lá ser Serronha, ele é. Mas vergonha na cara não tem nenhuma!

Estátua de Sal, 24/07/2026)


A Associação Portuguesa dos Juristas Democratas (APJD) apresentou denúncia formal ao Comité Internacional da Cruz Vermelha contra o tenente-general Marco Serronha por «violação grave» dos princípios do movimento e do direito internacional.


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Em causa estão comentários proferidos por Marco Serronha enquanto comentador militar da CNN Portugal, nos quais o responsável propôs o uso de armas nucleares contra o Irão. De acordo com a denúncia, a que o AbrilAbril teve acesso, Serronha afirmou que «mandar três bombas atómicas no sítio certo e a guerra acaba de um dia para o outro» e que o procedimento deveria ser repetido «a cada cinco anos», tendo ainda qualificado como «positivos para os EUA» os ataques deliberados contra civis iranianos, «porque mostram que o regime não consegue defender os seus cidadãos».

A APJD considera que estas declarações configuram uma violação «flagrante e simultânea» dos princípios fundamentais da Cruz Vermelha, «nomeadamente os princípios da Humanidade, Imparcialidade, Neutralidade e Independência», e constituem uma apologia de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, «incompatível com o exercício de funções numa organização humanitária de referência mundial».

Segundo a associação, a questão já havia sido denunciada à Cruz Vermelha Portuguesa, mas a instituição «nada fez, limitando-se a desvalorizar o comportamento do seu vice-presidente», que tutela a área da Emergência, «optando pelo silêncio institucional». Apesar disso, reconhece, as afirmações foram proferidas na CNN Portugal «sem qualquer distinção entre a sua função de comentador militar e a sua função de dirigente de uma organização humanitária».

Considerando que o «silêncio e a inacção da Cruz Vermelha Portuguesa são inadmissíveis», a APJD entendeu submeter a denúncia ao Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICR, no original), solicitando a abertura de um processo de averiguação sobre o comportamento público do tenente-general Marco Serronha. A associação reclama ainda que o CICR determine a incompatibilidade da manutenção do tenente-general nos quadros da organização e exija à Cruz Vermelha Portuguesa, liderada por António Saraiva, «uma posição pública de demarcação e a adopção de medidas disciplinares».

A APJD recorda que a proposta de uso de armas nucleares «constitui uma apologia de crimes de guerra e crimes contra a humanidade», e viola o artigo 6.º do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. Admite, ao mesmo tempo, que a «ausência de qualquer ressalva ética ou humanitária» nas declarações de Marco Serronha «demonstra uma desconexão total com a missão da Cruz Vermelha».

Neste sentido, insiste que «a presença de uma figura belicista e sectária na direcção de uma organização humanitária como a Cruz Vermelha compromete a confiança de todas as partes em conflito», salientando que «a inacção institucional não é neutralidade, mas cumplicidade com a violência e o horror».


Para ver um outro desenvolvimento, talvez mais completo da mesma notícia, pode também seguir o link aqui.

Matai-vos uns aos outros…

(Carlos Esperança, in Facebook, 22/07/2026, Revisão da Estátua)

Sabíamos do poder destruidor das epidemias e da facilidade com que se convertem em pandemias, o que não conhecíamos era a facilidade e velocidade com que o belicismo se expandiu e legitimou em cada país e em todos os continentes.

Enquanto o flagelo ganhou adeptos e arrastou multidões, tornaram-se timoratos os que ainda pensavam em resistir, demonizados pela onda de propaganda que acompanhou as justificações.

É de pasmar, ver cidadãos pacíficos empolgados com a necessidade de nos defendermos, sem saberem de quem, e o ar bovino com que ouvem as vuvuzelas da guerra a falar das maravilhas de artefactos militares capazes de dispararem os mísseis mais modernos e de atingirem com eficácia inimigos que facilmente podem passar a amigos ou vice-versa.

Nunca, na minha longa vida, tinha assistido a tanta insensibilidade com a morte dos que caem de um dos lados e ao regozijo pelos que são abatidos no lado contrário com heróis e vilões à escolha de cada um e em cada momento, numa orgia de sangue que percorre o Planeta e ameaça fazer de nós a sua última geração.     

Num dia em que o acordo sobre o nuclear entre os EUA e a Arábia Saudita, entre o líder ensandecido do país militarmente mais poderoso do mundo e o príncipe-herdeiro de uma monarquia que pratica a sharia e onde se preserva a lei de um defunto profeta analfabeto e amoral, qualquer pessoa sensata vê que a corrida ao armamento nuclear, que nenhum país devia possuir, vai provocar uma corrida generalizada a favor da morte.

Será que todos estamos dispostos a trocar benefícios da civilização e da democracia por uma ideia de segurança e pela capacidade de nos matarmos melhor e mais depressa uns aos outros, abdicando da saúde, da segurança social e da paz?

Somos cada vez menos os que passámos por uma guerra, mil vezes menos letal, onde vimos a perversidade que os conflitos armados desenvolvem e a amoralidade de que são capazes primatas com armas na mão.

Quem nunca viu o cadáver de um camarada amigo dentro de uma farda e lhe pegou para ver os olhos a vidrar de uma vida que se extinguiu aos vinte e poucos anos ao serviço da pátria, em pátria alheia, ou os despojos de um amigo que uma bazuca reduziu a pedaços recolhidos com terra e um dedo solitário onde luzia uma aliança, talvez sinta no sofá a febre da guerra e a vontade de aventuras de racionalidade duvidosa e desfecho incerto.

Já não somos pessoas, somos autómatos insensíveis e amorais, guiados ao extermínio por algoritmos.

Mas, se é isso que querem, matem-se uns aos outros sem aprenderem que esta é a vida, única e irrepetível, cujo privilégio nos coube.

Matai-vos uns aos outros…

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