Uma teoria marxista da crise no mundo contemporâneo

(Por Michael Roberts, in WordPress Blog, 13/06/2026, Trad. Estátua)


Esta é uma versáo em inglês, traduzida para português, de uma entrevista publicada em chinês pela Academia Chinesa de Ciências Sociais em 2025 na revista World Socialist Research.


1º Michael Roberts, obrigado pelo seu tempo! Poderia contar-nos brevemente quando conheceu e aceitou o marxismo e qual foi o impacto do seu trabalho anterior na City de Londres?

Se tiver uma visão marxista sobre o funcionamento do capital financeiro, será muito menos provável que presuma que tudo correrá bem com os investimentos financeiros. Uma lição que aprendi para os trabalhadores, e que também se aplica à China, é: mantenham-se afastados dos mercados financeiros. Melhor ainda, os fundos de pensões dos trabalhadores não devem depender de investimentos no mercado bolsista, uma vez que estes fundos perdem continuamente as contribuições dos trabalhadores ao fazê-lo. Mas o contrário também é verdade. Uma compreensão profunda do funcionamento do sistema financeiro pode ajudar-nos a explicar melhor as fragilidades e especulações do sistema.

2.º Qual pensa que é a ideia central do marxismo? Qual a relação entre o materialismo histórico e a crítica da economia política?

As ideias centrais do marxismo podem ser reduzidas a dois conceitos-chave. Em primeiro lugar, a história da organização humana desde os tempos primitivos é a história da luta de classes. A concepção materialista da história é a de que a mudança, para o bem e para o mal, é impulsionada pelos interesses materiais das classes e, em particular, pela classe dominante (senhores feudais, empresas capitalistas) e pela classe operária. Embora os indivíduos possam desempenhar papéis fundamentais em momentos da história (decisões e ações de reis ou de líderes revolucionários), em última análise, a mudança depende da economia e das classes. Como dizia Marx: “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem segundo as suas próprias circunstâncias, mas segundo as circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas pelo passado”.

A segunda ideia central é a lei do valor no capitalismo. O capitalismo é um sistema de produção orientado para o lucro dos proprietários dos meios de produção, que exploram aqueles que nada possuem para além da sua capacidade de trabalhar para esses proprietários. O trabalho cria todas as coisas e serviços que utilizamos e necessitamos, mas o valor desse trabalho é apropriado pelos proprietários dos meios de produção como “mais-valia”, para além do que o trabalhador recebe pelo seu trabalho. Esta mais-valia é acumulada como capital. As nossas necessidades sociais dependem, então, das decisões dos capitalistas sobre se é rentável ou não. Esta explicação do funcionamento da economia moderna é negada pelos apologistas do capitalismo – mas é inegavelmente clara.

3.º A teoria da crise é uma parte importante da crítica de Marx à economia política. Têm sido muitos os debates entre marxistas sobre como compreender a teoria da crise de Marx. O que pensa da teoria da crise de Marx e da relação entre a superprodução, o subconsumo e a tendência de descida da taxa de lucro?

Sim, uma teoria das crises no capitalismo é muito importante. Os defensores do capitalismo negam a existência de crises endémicas na produção capitalista – ou seja, quebras regulares e recorrentes na produção, no investimento e no emprego. Para eles, tais crises são acontecimentos aleatórios, isolados ou o resultado de más decisões, especulações ou negligência. Os defensores negam que as crises sejam inerentes ao sistema capitalista de produção com fins lucrativos. Mas a lei do valor de Marx revela porque é que as crises regulares são endémicas. A produção capitalista só ocorre se houver lucro, e Marx demonstra que surge uma contradição entre o impulso para aumentar a produção e a rentabilidade dessa produção (ou seja, o lucro em relação ao capital investido). Os capitalistas competem entre si para ganhar quota de mercado e uma maior fatia dos lucros apropriados dos trabalhadores. Para obter vantagem, recorrem à utilização de tecnologias que poupam mão-de-obra para reduzir custos e aumentar a produtividade do trabalho. Mas Marx defendia que o lucro só provém do trabalhor que vai trabalhar; assim, se o investimento em máquinas etc. aumentar em relação à mão-de-obra, a produtividade pode aumentar, mas à custa de uma tendência decrescente da rentabilidade. Eventualmente, a rentabilidade pode cair tanto que provoca uma quebra nos lucros totais. Então, os capitalistas deixam de investir, fecham a produção e despedem trabalhadores. O desemprego aumenta juntamente com o stock de bens e serviços não vendidos. Isto é uma recessão. Só pode ser corrigida com o aumento da rentabilidade, o que exige a remoção de trabalhadores desnecessários, empresas fracas e a manutenção de salários baixos. Só assim todo o processo pode recomeçar. As recessões são um processo de “limpeza” necessário para a recuperação do capital. Marx esboça a sua teoria das crises com maior clareza no Volume 3 de O Capital, Capítulos 13 a 15.

No entanto, muitos marxistas não aceitam que a lei da tendência decrescente da taxa de lucro, tal como é explicada nestes capítulos, seja relevante para as crises do capitalismo. Em vez disso, consideram duas outras teorias principais. A primeira é a do “subconsumo”. Isto ocorre quando os trabalhadores não conseguem comprar todos os bens e serviços produzidos pelos capitalistas porque não têm dinheiro suficiente. Tanto Marx como Engels contestaram esta teoria do subconsumo, salientando que os trabalhadores nunca terão dinheiro suficiente para comprar toda a produção vendida, precisamente porque os salários não contêm todo o valor criado e realizado, uma vez que os capitalistas se apropriam de qualquer mais-valia (a diferença entre o valor das mercadorias vendidas e os salários pagos aos trabalhadores; por outras palavras, os lucros). A questão é que os capitalistas não têm de vender todas as suas mercadorias aos trabalhadores; grande parte das vendas é feita a outros capitalistas (por exemplo, o aço é vendido aos fabricantes de automóveis para a produção de automóveis, etc.).

A outra teoria alternativa é a da “superprodução”. Os capitalistas continuam a produzir para acumular mais lucros sem ponderarem se conseguirão vender a sua produção no mercado. Produzem em excesso em relação à procura. O problema desta explicação das crises é que não explica quando é que a produção se torna “excessiva”. Pode nunca acontecer, ou pode acontecer a qualquer momento. Não há lógica nesta teoria. Por outras palavras, se a oferta estiver alinhada com a procura, poderá ainda existir uma crise de investimento e de produção no capitalismo? Marx diria que sim, porque a rentabilidade do que está a ser produzido é que determina se os capitalistas investem ou não. De facto, é assim que se desenrolam as crises. A rentabilidade cai, depois os lucros totais, e depois os capitalistas tentam vender mais para compensar a queda dos lucros. Mas isso significa “superprodução”, obrigando os capitalistas a baixar os preços e/ou a reduzir a produção. A sobreprodução é o resultado da sobreacumulação de capital, ou seja, da queda da rendibilidade do capital investido, e não o contrário.

4.º Em 2020, publicou o livro Engels 200 – O seu contributo para a Economia Política, no qual apresentou sistematicamente a investigação de Engels sobre economia política e o seu contributo para a economia política marxista. No entanto, existe a visão de que a crise provocada pela queda da taxa de lucro é, na verdade, um ponto de vista de Engels, e que este teria exagerado ou mesmo adulterado a discussão de Marx sobre a tendência de queda da taxa de lucro ao editar o volume 3 de O Capital. O que pensa desse ponto de vista?

Esta visão foi expressa por vários marxistas (em particular, o académico marxista alemão Michael Heinrich), que afirmam ter lido artigos inéditos de Marx que aparentemente mostram Engels a alterar as palavras de Marx para dar mais importância à lei da tendência decrescente da taxa de lucro. Estes marxistas alegam ainda que Marx, na verdade, abandonou a lei na década de 1870 e, por isso, não deveria ser considerada relevante para a economia marxista e para a teoria da crise.

Mas outros estudiosos demonstraram claramente que Engels não distorceu significativamente o texto de Marx, como nos capítulos 13 a 15 do Volume 3, onde a lei da rentabilidade é explicitada. E não há provas de que Marx tenha abandonado esta lei na década de 1870 – pelo contrário, continuou a estudá-la. Por exemplo, na década de 1870, Marx dedicou um tempo considerável ao estudo da taxa de lucro com diversas fórmulas matemáticas. Quando Engels editou o Volume 3 de O Capital, excluiu o trabalho matemático de Marx sobre a taxa de lucro, embora isso confirmasse que Marx ainda se mantinha fiel à sua lei. Tudo isto é explicado no meu livro Marx 200 e no meu livro Engels 200, com todas as referências.

Os marxistas que defendem esta ideia também distorceram a lei do valor de Marx, transformando-a numa teoria monetária, ou seja, o valor não é criado pelo trabalho na produção, mas sim realizado apenas com a venda de mercadorias produzidas no mercado. Portanto, sem venda, não há valor. Não era essa a visão de Marx. O valor é o resultado do esforço do trabalho humano na produção; a quantidade desse valor que é efetivamente realizada depende da venda no mercado. Mas não há qualquer valor sem a produção do trabalho humano. Por detrás desta teoria revista, tenta-se substituir a rendibilidade como causa fundamental das crises por uma teoria da instabilidade monetária ou do crédito, semelhante à visão de economistas tradicionais como Keynes.

5.º Do seu ponto de vista, quais são as principais diferenças entre a economia política marxista e outras escolas de economia (como a economia neoclássica, o keynesianismo, etc.)? Poderemos considerar a teoria da crise como uma diferença importante ou mesmo essencial entre a economia política marxista e a economia ocidental convencional?

A principal diferença reside no facto de outras escolas de economia, mesmo as mais radicais e “heterodoxas” que não aceitam a perfeição dos mercados, discordarem da lei do valor de Marx. Não aceitam que a principal contradição da produção capitalista seja a produção para o lucro, e não para a necessidade social, e que o aumento da produção entre eventualmente em conflito com o aumento da rentabilidade, o que leva a ciclos de expansão e recessão, ou seja, crises. A escola neoclássica dominante nega que as crises possam ocorrer em mercados bem geridos ou em mercados sem interferência de governos, monopólios ou sindicatos. Os economistas heterodoxos negam o papel do lucro nas crises e apontam a “falta de procura” (Keynes), a instabilidade financeira (Minsky), os monopólios (Sweezy, Stiglitz) ou a má regulação.

E esta é uma diferença crucial, porque todas estas escolas sugerem que a produção capitalista pode ser modificada ou corrigida para que o capitalismo funcione melhor. Keynes disse que mais despesas governamentais ou injecções monetárias resolveriam o problema; o heterodoxo Minsky disse: regule os bancos e as instituições financeiras, e então o capitalismo estabilizará. Estas abordagens reformistas estão teórica e empiricamente erradas. A teoria da crise de Marx mostra que o capitalismo não pode ser reformado desta forma. As crises são endémicas do capitalismo porque, em última análise, são causadas pela queda da rentabilidade. A única forma de pôr fim às crises é substituir o capitalismo por uma economia planificada sob propriedade comum, ou seja, sem capitalistas.

6.º Na sua investigação, quais os impactos da financeirização do capitalismo na economia real e na classe trabalhadora?

Uma das características dos últimos 50 anos nas economias modernas do Norte Global tem sido a ascensão do setor financeiro, não só dos bancos, mas também dos hedge funds, fundos de investimento, fundos de seguros, private equity, criptomoedas, etc. Cada vez mais, os capitalistas têm direcionado os seus lucros acumulados para ativos financeiros e especulação, em vez de investirem em novas tecnologias e setores produtivos. Este é o fenómeno da “financeirização”.

No entanto, alguns marxistas e outros ficaram tão encantados com este desenvolvimento que começaram a afirmar que o capitalismo mudou completamente. Já não é um sistema de produção com fins lucrativos através da exploração do trabalho em fábricas, escritórios, etc., mas sim um sistema financeiro e monetário onde o dinheiro gera mais dinheiro. Isto significa que os trabalhadores perderam o seu papel de produtores de valor no capitalismo. Ora, os capitalistas podem obter valor apenas através de artifícios monetários. O capitalismo tornou-se capital financeiro, que domina o capital produtor.

Isto é um absurdo. Embora os lucros financeiros em algumas economias, como os EUA e o Reino Unido, sejam consideráveis, atingindo até 25% do lucro total, a grande maioria dos lucros ainda provém da venda de bens e serviços produzidos pelos trabalhadores. E isto é especialmente verdade no chamado Sul Global, onde a indústria transformadora se tornou predominante, e não o sector financeiro. Globalmente, a classe trabalhadora nunca foi tão grande e a maior parte da acumulação capitalista ainda provém do trabalho dos operários na produção. O leopardo do capitalismo não mudou as suas manchas.

7.º O que pensa da atual crise do capitalismo no sistema económico global, sobretudo da crise financeira dos últimos anos? Que perspetivas nos pode a economia política marxista oferecer para compreendermos a crise do capitalismo?

Este é um assunto complexo. No século XXI, vivemos as duas maiores crises da história do capitalismo: a de 2008-2009 e a de 2020. Há todas as razões para esperar que outra crise ocorra antes do final desta década. Pode ser desencadeada por uma nova crise financeira, como a de 2008. Desta vez, a crise pode não começar nos bancos propriamente ditos, mas ser gerada pelo aumento da dívida das empresas e pelo custo do serviço dessa dívida. Atualmente, cerca de 20% das empresas na Europa, Japão e Estados Unidos são consideradas “zombies”, ou seja, são como mortos-vivos, pois não geram lucros suficientes nem sequer para cobrir o custo do serviço das suas dívidas existentes e, por isso, têm de continuar a contrair empréstimos. Estas empresas correm o sério risco de falir e arrastar consigo até empresas lucrativas, num efeito dominó.

8.º Acha que, desde o fim da Grande Recessão em 2009, as principais economias capitalistas estão numa Grande Depressão? Existe alguma diferença entre a Grande Depressão e outras grandes depressões na história do capitalismo? Que estratégias deverá a China adotar em resposta ao impacto global da Grande Depressão?

Defino uma depressão, por oposição a uma recessão ou crise, como um período em que, após uma crise, a anterior tendência de crescimento da produção, do investimento e, sobretudo, da rendibilidade, é muito inferior à observada antes da crise. E esta tendência decrescente pode persistir durante décadas. Neste sentido, a Longa Depressão a partir da década de 2010, que identifiquei, é semelhante à depressão do final do século XIX (1873-1897) e à Grande Depressão de 1929-1942. Em 2025, a depressão actual continua, dado que a crise pandémica de 2020 não resultou num aumento significativo da rendibilidade, e, por isso, o crescimento do investimento e do PIB real continuam ainda mais fracos do que na década de 2010.

A China evitou todas estas crises no capitalismo. Isto porque a economia chinesa é dominada por um amplo sector estatal e pelo planeamento governamental, pelo que qualquer instabilidade no seu sector capitalista pode ser ultrapassada e o investimento e a produção podem prosseguir de forma relativamente ininterrupta. Se as economias capitalistas do Ocidente entrarem noutra recessão, o comércio e o investimento na China serão afetados, mas a China possui agora uma enorme base doméstica e investiu fortemente em novas tecnologias, continuando a direcionar e a planear estes investimentos principalmente através do sector estatal. A China necessita de expandir o sector estatal e o planeamento para reduzir a instabilidade no seu sector capitalista, particularmente exposta pela queda acentuada do sector imobiliário (maioritariamente baseado no capitalismo).

9.º As moedas digitais e a tecnologia blockchain têm sido temas em voga no campo da tecnologia financeira nos últimos anos, e têm tido um impacto profundo na economia global e no sistema financeiro. Qual a sua opinião sobre estas inovações financeiras e finanças digitais? Conduzirão a uma crise económica mundial ainda mais grave?

As cripto moedas, como são chamadas, tal como a bitcoin, são apenas mais uma forma de ativo financeiro especulativo, como o ouro ou as pinturas. Não são formas alternativas de dinheiro que possam substituir as moedas emitidas pelo Estado (dinheiro fiduciário), como o dólar ou o yuan. As moedas digitais em geral já existem de uma forma, ou seja, paga as suas contas com cartão, telemóvel ou transferência bancária sem utilizar dinheiro em papel. O possível novo desenvolvimento seria uma moeda digital emitida por um banco central, que contornaria os bancos comerciais. Até agora, este desenvolvimento teve um progresso limitado. Enquanto isso, as cripto moedas são mais uma forma daquilo a que Marx chamou “capital fictício”, que aumenta ainda mais o risco de um colapso financeiro no futuro.

10.º Dada a crescente popularidade da inteligência artificial e da automação, como aplicar o marxismo para analisar o impacto do progresso tecnológico nos modos de produção e nas relações sociais? Na sua investigação, qual a correlação entre progresso tecnológico e crescimento económico?

Isso é complexo. A inteligência artificial (IA) é apenas uma nova forma de tecnologia destinada a substituir o trabalho humano e a aumentar a produtividade, elevando assim o nível de exploração do trabalho pelo capital. As novas tecnologias podem levar a enormes perdas de emprego, especialmente nas indústrias e ocupações que substituem, mas também podem, com o tempo, criar novas indústrias e empregos. Considere a revolução industrial, a revolução da eletricidade, a indústria automóvel, a revolução da informática. A tecnologia sempre foi fundamental para o crescimento económico, aumentando a produtividade do trabalho, principalmente quando a dimensão da força de trabalho deixa de crescer – como acontece na China de hoje.

Argumenta-se que a IA é um desenvolvimento completamente novo que irá substituir totalmente o trabalho humano, uma vez que pode superar a inteligência humana. As evidências para tal são duvidosas. Grande parte da IA ​​consiste apenas no processamento rápido do conhecimento humano existente e não pode substituir a natureza imaginativa da inteligência humana. Além disso, a IA levará algum tempo, até mesmo décadas, a difundir os seus efeitos de aumento da produtividade nas economias. Na minha opinião, não é um “game changer” capaz de salvar o capitalismo.

11.º O tecno feudalismo é uma visão que surgiu nos últimos anos para descrever as mudanças na sociedade causadas pela tecnologia da nuvem, ou seja, os gigantes da tecnologia e as grandes empresas de plataformas detêm os dados e o poder como senhores feudais, enquanto os utilizadores comuns servem estes senhores digitais como produtores de dados não remunerados, como servos, e a nova forma de rendimento substitui o lucro como principal forma de acumulação. Concorda com o uso do tecno feudalismo para definir o estádio atual da sociedade ocidental?

O tecno feudalismo, enquanto conceito, sugere que a produção capitalista, ou seja, a produção com fins lucrativos através da exploração do trabalho, foi substituída por um feudalismo onde os monopólios digitais apenas extraem rendimentos. Mas de onde vêm estas rendas? Marx salientou que o rendimento, os juros e os lucros provêm da mesma fonte: a mais-valia apropriada do valor criado pela força de trabalho humana. É simplesmente errado argumentar que as empresas que vendem tecnologia na nuvem não produzem bens para venda e lucro, tal como qualquer processo capitalista. A maior parte dos lucros da Amazon provém da distribuição e transporte de produtos; a maior parte dos lucros do Facebook provém da publicidade; a maior parte dos lucros do Google também. A maior parte dos lucros da Microsoft e da Apple provém da venda de hardware e software. Não se trata de feudalismo, mas de capitalismo puro e simples. O capitalismo não está morto, e sugerir isso é uma ideia perigosa para os trabalhadores, porque significa que o trabalho pode não ver o seu inimigo como o capital na sua totalidade, mas apenas uma pequena parte dele, pelo que não há necessidade de substituir o capitalismo, mas apenas o capitalismo “feudal monopolista”.

12.º A teoria do valor-trabalho é a ideia central da economia marxista. Na era da automação e da economia digital, como aplicar a teoria do valor-trabalho para analisar a economia moderna? O que pensa sobre os dados como um novo fator de produção?

Os dados ou conhecimento provêm da atividade humana. Portanto, o conhecimento tem valor da mesma forma que as coisas físicas têm valor para a sociedade e para o capital. O conhecimento é material: requer a energia do trabalho humano, ou seja, trabalho intelectual, da mesma forma que o trabalho físico. Ambos são materiais e criam valor. Assim, o capital pode apropriar-se da mais-valia dos trabalhadores do conhecimento que emprega, e fá-lo cada vez mais em todos os sectores e em todo o mundo. Esta mais-valia está incorporada nas patentes, nos direitos de propriedade intelectual, etc. O conhecimento ou o trabalho intelectual é tão “material” como o trabalho físico. A atividade mental ocorre nas sinapses do cérebro humano e é combinada com o trabalho físico através de um computador, etc. Portanto, o trabalho intelectual cria valor tanto como o trabalho físico. E os trabalhadores do conhecimento fazem parte do proletariado tanto como os trabalhadores manuais que executam tarefas físicas.

De facto, os trabalhadores intelectuais estão a ser cada vez mais explorados pelo capital para apropriação da mais-valia (lucro). Portanto, não há necessidade de inventar um novo termo para a classe trabalhadora, como “multidão”. Isto implica que a classe trabalhadora, aqueles que só ganham a vida vendendo a sua força de trabalho e não possuem meios de produção, já não existe. Este termo oculta a luta de classes entre o trabalho e o capital, confundindo, assim, a necessidade de substituir o capitalismo.

13.º O desenvolvimento do capitalismo digital aprofundou a divisão Norte-Sul ?

Sim, está a aumentar essa divisão. Mas essa divisão já estava a aumentar de qualquer forma. O Sul Global (com exceção da China) não está a atingir o Norte Global, seja qual for o indicador utilizado: PIB per capita; produtividade por trabalhador; rendimento per capita; redução da desigualdade. A divisão Norte-Sul expressa-se no controlo de um bloco imperialista de economias com populações relativamente pequenas, que domina o resto do mundo, onde se concentra a maior parte da humanidade.

14.º Que políticas económicas pensa que o Presidente Donald Trump irá adotar e que impactos terão essas políticas na economia global?

Não podemos ter a certeza do que Trump fará. Mas afirma que vai aplicar tarifas elevadíssimas sobre as importações americanas, principalmente as provenientes da China. Alega que o seu objetivo é levar a indústria americana de volta ao patamar anterior, à custa do resto do mundo. Acima de tudo, quer dar continuidade à política das anteriores administrações americanas de estrangular, sufocar e inverter o progresso económico da China, vista como a principal ameaça à hegemonia americana. De facto, Trump também apoiará novas provocações militares para restringir a China. A nível interno, pretende reduzir os impostos sobre as empresas para que os ricos e as grandes empresas paguem ainda menos do que atualmente e eliminar as regulamentações sobre a indústria e o combate ao aquecimento global. O seu gabinete é composto inteiramente por gestores de fundos de cobertura e de private equity bilionários que procurarão beneficiar os ricos à custa da maioria dos americanos.

A nível mundial, se Trump levar avante estas políticas, o comércio global sofrerá um revés e as tensões entre a aliança ocidental liderada pelos EUA e a China aumentarão perigosamente. A desigualdade de riqueza e de rendimento entre países e dentro dos países aumentará, e as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente continuarão, com o risco de guerra também na Ásia.

15.º As políticas económicas prometidas por Trump, como os cortes maciços de impostos e o aumento das despesas militares, representarão uma ameaça à estabilidade económica global, conduzindo a níveis mais elevados de endividamento global?

Sim, a dívida global já está em níveis recorde e em relação à produção global. Em particular, o governo dos EUA está a apresentar défices orçamentais consideráveis ​​para financiar a guerra na Ucrânia e em apoio de Israel, e planeia aumentos maciços nas despesas militares para financiar novas ações globais. Trump quer que a Europa pague mais por isso, mas, entretanto, a dívida pública dos EUA está a atingir níveis recorde e o custo do serviço dessa dívida em juros já está a superar as despesas do governo com a educação, os cuidados de saúde e outros serviços públicos.

16.º As políticas económicas de Trump irão agravar as contradições do sistema capitalista global, conduzindo à sobreprodução e à tendência para as crises?

Tudo isto ocorre num contexto global de baixo crescimento e comércio, fraco investimento e crescimento limitado da produtividade. As principais economias capitalistas, com a possível exceção dos EUA, estão estagnadas ou mesmo em franca recessão, sobretudo na Europa. Há grandes probabilidades de estas economias enfrentarem uma grave recessão até ao final desta década, que se espalhará para o resto do mundo, como aconteceu em 2008 e 2020. Só a China pode esperar ultrapassar esta situação.

17.º As políticas económicas de Trump refletem a ascensão do nacionalismo económico e do protecionismo no contexto da globalização? Estas políticas agravarão a desigualdade económica global? Como podem os países em desenvolvimento responder à desigualdade no sistema económico global?

O protecionismo e o nacionalismo por parte de outros não são uma solução alternativa a Trump. Os países em desenvolvimento precisam de se unir para cooperar no comércio, no investimento e na redução da desigualdade. Mas, para isso, os povos destes países precisam de governos que defendam os direitos laborais e a propriedade comum dos recursos e dos ativos, para planear cada economia individualmente e em cooperação global. Infelizmente, quase todos os governos do Sul Global não defendem estas políticas. Ou são controlados por déspotas ou apoiam as grandes empresas internamente e o imperialismo norte-americano no estrangeiro. Enquanto estes governos não mudarem, não espero grandes progressos em termos de maior crescimento, redução das desigualdades, pleno emprego e melhores serviços públicos.

18.º Persiste na escrita de blogs há muito tempo. Que influência teve este estilo de escrita no seu pensamento e troca de ideias? Poderia partilhar as suas pesquisas recentes ou planos de investigação para o futuro?

O objetivo deste blogue e dos meus livros é o de ampliar a nossa compreensão do funcionamento do capitalismo, das suas contradições e falhas, com vista a substituí-lo. Considero a análise de Marx sobre o capitalismo a mais convincente e, por isso, procuro defender as ideias de Marx, tal como as vejo, contra alternativas, todas elas se resumindo a tentar fazer o capitalismo funcionar (melhor). O meu blogue não se destina a académicos, mas a ativistas que procuram mudar o mundo para melhor. Isto não significa que ignore questões difíceis ou complexas de teoria ou evidência estatística. Pelo contrário, tento explicá-las de forma mais clara. Neste momento, estou a preparar um novo livro sobre o que está a acontecer ao capitalismo e à economia mundial na década de 2020. Trata-se, na verdade, de uma continuação do meu livro “A Longa Depressão”, publicado em 2016. Muitas coisas aconteceram desde então e ainda há muito por vir nesta década. ‘Time is Running Out’ será publicado em dezembro de 2026 pela Haymarket Books.

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Lançar ou não lançar uma bomba nuclear, eis a questão!

(Por Dmitry Orlov, in SakerLatam, 06/06/2026)

A ilustração acima é uma porcaria de IA, desculpem! O texto abaixo não é.

Atualmente, a Rússia enfrenta um pequeno problema. As nações ocidentais passaram a fornecer à antiga Ucrânia mísseis, drones e componentes para sua fabricação. Os EUA também estão envolvidos: a antiga Ucrânia recebe informações de alvos da Palantir e usa comunicações via satélites Starlink. Isso de forma alguma se qualifica como uma ameaça existencial, mas representa um problema político para os líderes da Rússia.

Por “a antiga Ucrânia” refiro-me ao que restou da antiga República Socialista Soviética da Ucrânia, criada por Lenin e Stalin a partir de pedaços aleatórios do Império Russo e depois abandonada pelo “presidente bêbado” Boris Yeltsin. Desde então, ela perdeu metade de sua população (a metade mais jovem e mais capaz), praticamente toda a sua indústria outrora poderosa, e agora é uma sombra do que já foi. Tem uma taxa de mortalidade muito alta e uma taxa de natalidade muito baixa, e está passando por um rápido colapso demográfico. Sua única utilidade remanescente (para o Ocidente) é incomodar a Rússia. É a única categoria em que a antiga Ucrânia continua sendo um sucesso.

O Ocidente fornece à antiga Ucrânia drones e componentes para drones, e os ucranianos utilizam isso para lançar ataques contra civis em locais aleatórios dentro da Rússia. Eles tentaram lançar ataques com drones para danificar instalações militares e industriais, especialmente refinarias de petróleo, mas isso teve efeito mínimo e esses locais estão, neste momento, bastante bem defendidos com sistemas antiaéreos.

E assim, os ucranianos passaram a ter como alvo civis. O número de pessoas mortas por ataques com mísseis e drones ucranianos é, em média, de 1.3 mortes por dia. Isso é significativamente menor do que as 38-40 pessoas por dia que morrem em acidentes automobilísticos em toda a Rússia, mas há uma grande diferença psicológica. Em termos práticos, nada demais aconteceria se as mortes por acidentes automobilísticos subissem para 39,3-41,3. Isso seria, é claro, deplorável, mas tal desenvolvimento só seria perceptível para estatísticos, e eles certamente não sairiam correndo em pânico. Mas os ataques com drones e mísseis são diferentes: eles levam as pessoas a pensar que não está sendo feito o suficiente para defendê-las. Por sua vez, isso faz com que políticos e figuras públicas na Rússia entrem em ação e exijam que algo seja feito.

Por exemplo, o professor Sergei Karaganov defendeu o uso de armas nucleares táticas contra as nações ocidentais que fornecem mísseis e drones à antiga Ucrânia. A lógica de Karaganov é simples: o Ocidente não tem medo suficiente da Rússia; as armas nucleares são realmente muito assustadoras; portanto, usar armas nucleares contra o Ocidente resolveria esse problema. Em consonância com o pensamento de Karaganov, o Ministério da Defesa russo elaborou uma lista de alvos com fábricas que produzem os mísseis e drones que terminam na antiga Ucrânia e, é razoável supor, está pronto para destruir essas fábricas quando receber a ordem. Se isso seria feito com armas convencionais ou nucleares ainda precisa ser determinado. Algumas pessoas parecem achar que Karaganov não deveria ter proposto isso e chegaram até a lançar ataques pessoais contra ele. O que algumas pessoas parecem não perceber é a sutil diferença entre dizer que algo deve ser feito e realmente fazê-lo. Sim, trata-se de uma nuance, mas é uma nuance muito importante.

Algumas pessoas questionam o fato de a Rússia ainda não ter prevalecido militarmente na antiga Ucrânia. Algumas interpretam isso como um sinal de que a Rússia é fraca; outras afirmam que a liderança russa está dividida ou indecisa, ou que Putin é excessivamente cauteloso. Elas acham que a Rússia deveria esmagar as forças do regime de Kiev imediatamente e que a Rússia deveria triunfar e reivindicar todo o território que desejar. Tanto os russofóbicos convictos quanto os supostos russos patriotas são responsáveis por pensamento confuso.

De fato, muitos russos repetem incessantemente o mantra de que “a vitória será nossa”. Mas o que isso realmente significa? Se a Rússia obtivesse uma vitória total na Ucrânia, esmagando o regime de Kiev e fazendo com que suas forças militares recuassem em desordem e se dissolvessem entre a população civil, isso seria útil para a Rússia? Não é preciso pensar muito para descobrir que isso não seria útil de forma alguma.

• A Rússia passaria a controlar um território vasto e caótico. Ele é escassamente povoado por muitos aposentados, veteranos com deficiência física e viúvas de guerra. Há também cerca de 100 mil funcionários fabulosamente corruptos, traficantes de armas e vigaristas. Está infestado de agentes ocidentais e mercenários. Graças a uma lavagem cerebral implacável, nenhum deles tem uma disposição particularmente favorável em relação à Rússia. Incorporar esse território à Federação Russa exigiria elevá-lo aos padrões russos, e isso exigiria gastos orçamentários federais maciços e impopulares.

• Depois, há a questão de como esses novos cidadãos russos, de forma bastante relutante, votariam: provavelmente não exatamente da maneira que Moscou gostaria. A oeste do rio Dniepr, os patriotas russos tornam-se bastante escassos. Após 35 anos de esplêndido isolamento, o retorno ao seio da civilização russa pode não ser possível para grande parte da população remanescente. Levaria várias décadas para convencer essas pessoas, e não está claro qual o nível de interesse existente na Rússia para fazê-lo. Em 1991, na época do colapso da URSS, 80% a 90% dos russos viam os ucranianos como uma nação irmã. Em 2025, de acordo com pesquisas do Levada Center (designado como “agente estrangeiro” pelo Ministério da Justiça da Rússia), a proporção de russos que consideram os ucranianos uma nação irmã é de aproximadamente 50% a 52%. Dada essa tendência, em mais alguns anos, as tentativas de reintegrar a antiga RSS da Ucrânia à Rússia encontrariam resistência considerável.

• Por fim, uma vitória na antiga Ucrânia simplesmente levaria o Ocidente a iniciar outra guerra por procuração contra a Rússia. A lista de animais a serem sacrificados no altar da russofobia ocidental já foi elaborada e é bastante longa: de norte a sul, há a Finlândia, os países bálticos (insignificantes demais para serem mencionados pelo nome), a Polônia e a Moldávia/Transnístria. Aqui, também, há uma diferença sutil entre os membros dessas nações sacrificiais, teoricamente ocidentais, dizerem que lutarão contra a Rússia (e realizarem exercícios de treinamento nos quais fingem lutar contra a Rússia) e eles realmente o fazerem, em vez de fugirem e se esconderem.

Esses são os aspectos negativos de uma vitória rápida e definitiva da Rússia na antiga Ucrânia. E há também alguns aspectos positivos decorrentes da ausência dessa vitória.

• Talvez o mais importante seja que este conflito permite à Rússia completar uma reviravolta civilizacional, passando de uma ligação cultural e econômica com o Ocidente decadente, degenerado e hostil para o estabelecimento de relações amigáveis e mutuamente benéficas com os países cada vez mais prósperos, em rápido crescimento e tradicionalistas do Sudeste Asiático.

• Parte dessa reviravolta é uma transformação social dentro da própria Rússia. No início da Operação Militar Especial, em fevereiro de 2022, a Rússia foi espontaneamente aliviada de um número considerável de cidadãos influentes de lealdade dividida que optaram por deixar o país. Metade dessas pessoas percebeu, desde então, que havia cometido um erro e voltou, mas as lições que aprenderam — e transmitiram aos demais — foram inestimáveis. A lição básica parece ser simples: “O Ocidente não tem nada a nos oferecer.”

• Depois, há a utilidade da antiga Ucrânia como campo de testes para novas armas e técnicas de combate, onde o uso de blindados e grandes formações de infantaria é coisa do passado e a linha de separação é agora uma zona de morte com até 50 km de profundidade, patrulhada por drones e infiltrada por infantaria em grupos de dois ou três, sob o manto da escuridão, da chuva e do nevoeiro, para lançar ataques surpresa e tomar o controle de locais fortificados específicos.

• Por fim, a Operação Militar Especial é uma ferramenta poderosa de consolidação política. Os veteranos que retornam reentram no mercado de trabalho e, em reconhecimento às suas conquistas no campo de batalha, são promovidos a cargos de gestão. Seus filhos recebem prioridade para educação gratuita. Tudo isso ajuda a garantir que as estruturas de governança da Rússia, tanto públicas quanto privadas, permaneçam patrióticas e leais pelas próximas gerações.

Por todas essas razões, é muito melhor para a Rússia estar vencendo do que vencer. De fato, a Rússia está vencendo todos os dias, apenas um pouquinho. Quase todos os dias, o noticiário da noite traz histórias da conquista de mais uma aldeia, vila ou zona industrial abandonada nas partes ocidentais do que hoje são regiões da Federação Russa ou nas zonas tampão recém-estabelecidas nas regiões de Sumy ou Kharkov. Essas pequenas conquistas são alcançadas com um mínimo absoluto de baixas. As pessoas deixaram de tentar calcular as proporções de baixas há algum tempo, mas antes disso números como 7:1 (ou seja, baixas ucranianas para baixas russas) eram comumente ouvidos até mesmo do próprio Putin, enquanto proporções de 10:1 e superiores também eram mencionadas. No geral, o exército russo está crescendo e o ucraniano encolhendo, enquanto o apoio financeiro ocidental ao regime de Kiev está diminuindo. Isso implica que este conflito não pode durar para sempre e chegará ao fim talvez já no final de 2026, talvez um pouco mais tarde.

Da mesma forma que é melhor para a Rússia estar vencendo do que vencer na antiga Ucrânia, é melhor para a Rússia estar se preparando para lançar uma bomba nuclear na Europa do que realmente fazê-lo. O fato de que ela está se preparando para isso é certamente uma realidade: baterias de mísseis Oreshnik, que podem ser equipadas com ogivas nucleares, foram posicionadas na Bielorrússia, permitindo que atinjam qualquer ponto dentro da União Europeia em poucos minutos.

Recentemente, foram realizados exercícios de treinamento para garantir que as tripulações estejam prontas para armar os mísseis com ogivas nucleares táticas. Certamente, seria feita primeiro uma tentativa de causar impacto nos governos da UE usando armas convencionais antes de recorrer a armas nucleares táticas, mas o caminho para a escalada já foi traçado e o trem da escalada já está descendo por essa linha, embora bem lentamente.

Tudo se resume a o que será necessário para que a UE/OTAN pare de fornecer à antiga Ucrânia as armas que ela usa para matar e mutilar civis russos. A escolha é simples: aceitar as exigências russas e fazer as pazes com a Rússia, ou ser atingido por uma bomba nuclear. A escolha também é simples para os cidadãos da UE: não apostem no bom senso de seus líderes (que bom senso?) e preparem-se para sobreviver a um ataque nuclear tático russo. Quanto mais públicos forem esses esforços, menos provável se tornará o ataque nuclear.

A seguir, explicarei alguns dos detalhes que vocês devem levar em conta ao se prepararem. Por favor, entendam: os russos não querem matá-los; eles só querem que seus líderes comecem a agir com responsabilidade e parem de cometer crimes de guerra contra os russos.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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Financiar, integrar, mimar a Ucrânia – nem que a vaca tussa

(João Gomes, in Facebook, 13/06/2026)


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A política europeia parece ter abandonado qualquer preocupação com a coerência para se dedicar exclusivamente à gestão de narrativas. A recente decisão de avançar com negociações de adesão da Ucrânia à União Europeia é exatamente isso.

Durante décadas, Bruxelas repetiu aos candidatos à adesão uma lista interminável de exigências: estabilidade institucional, economia funcional, combate à corrupção, respeito pelos princípios democráticos, independência judicial e capacidade de integração no mercado comum. Os critérios eram apresentados como objetivos, universais e inegociáveis.

Mas eis que é preciso colocar a Ucrânia nas atenções do Mundo. Um país devastado por uma guerra de grande escala, profundamente dependente de ajuda externa, com uma economia fragilizada, enormes desafios institucionais e uma situação política marcada pelas exceções próprias de um conflito armado. E, de repente, aquilo que durante anos foram obstáculos intransponíveis para outros candidatos. passa a mero detalhe administrativo.

A pergunta impõe-se: mudaram os critérios ou mudou apenas a conveniência política?

O contraste com a Turquia é inevitável. Há décadas que Ancara bate à porta da União Europeia. Ao longo dos anos, foram sendo apontadas razões para o congelamento do processo: questões institucionais, políticas e estratégicas. Contudo, independentemente da avaliação que cada um faça do regime turco, é difícil ignorar a diferença de tratamento. O que para uns constitui motivo suficiente para bloquear negociações durante décadas parece deixar de ser relevante quando se trata da Ucrânia.

A explicação oficial fala de solidariedade, valores europeus e defesa da democracia. A explicação é muito mais simples: geopolítica.

A Ucrânia tornou-se o projeto político mais importante da burocracia europeia. Não apenas como país, mas como símbolo. Um símbolo que precisa de ser financiado, armado, apoiado, promovido e integrado, custe o que custar. Um símbolo que serve para justificar políticas, mobilizar opiniões públicas e reforçar a narrativa de uma Europa unida perante uma ameaça externa.

O problema é que os cidadãos europeus vivem cada vez mais longe dessas prioridades.

Enquanto Bruxelas discute novos pacotes de apoio, milhões de europeus enfrentam crises de habitação, perda de poder de compra, crescimento da dívida pública, degradação dos serviços públicos e uma competitividade económica cada vez mais frágil face aos Estados Unidos e à Ásia. A sensação crescente é a de que a União Europeia demonstra mais urgência em resolver os problemas dos outros do que em enfrentar os seus próprios.

Esta lógica política de aplicar critérios diferentes conforme a utilidade estratégica do momento mostra ao que se chegou em Bruxelas. Disfarçam a incapacidade de resolver os problemas da UE com reuniões à semana, abraços entre dirigentes e discursos de ocasião. Se os critérios de adesão são sérios, então devem ser aplicados a todos. Se podem ser flexibilizados quando existe interesse político, então talvez nunca tenham sido tão objetivos quanto nos disseram.

O mais preocupante é que esta incoerência corrói a confiança dos cidadãos nas instituições europeias. Não porque estes sejam incapazes de compreender decisões estratégicas, mas porque percebem quando uma decisão política é apresentada como uma inevitabilidade técnica. A União Europeia não tem o direito de fugir à realidade nas suas tomadas de decisões geopolíticas. Ao fazê-lo os dirigentes incumprem o seu estatuto. No fim de contas, a mensagem que muitos europeus acabam por ouvir é simples: financiar, integrar e mimar a Ucrânia – nem que a vaca tussa.